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segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Biodiversidade marinha e o extrativismo mineral




Os oceanos apresentam uma vasta extensão territorial, ocupando 70% da superfície terrestre. Além disso, nos oceanos encontram se a maior biodiversidade do planeta. Entretanto, pouco se sabe sobre a vida nos oceanos, principalmente em suas profundezas. Segundo o Sistema de Informações Biogeográficas dos Oceanos (Ocean Biogeographic Information System -OBIS), banco de dados globais de acesso aberto e de serviços de informação sobre biodiversidade marinha para a ciência, conservação e desenvolvimento sustentável, já foram identificadas, em seus registros, cerca de 126 mil espécies diferentes de acordo com publicações científicas e análises de casos, no qual estudam ecossistemas marinhos.

Além dessa grande variedade de espécies, nas profundezas dos oceanos se encontram as fissuras hidrotermais, que são regiões em que há saída de águas mais quentes e ricas em minérios devido a composição do solo. Devido a isso, a mineração no fundo do oceano vem sendo o futuro para a fonte de minérios. As regiões onde se encontram as fissuras hidrotermais são ricas em minério de cobre, ouro, zinco, entre outros, e elas apresentam um potencial de extração maior que a mineração terrestre.

O primeiro projeto de mineração oceânica, Expedição Solaris I, foi idealizado em colaboração entre uma mineradora canadense (a Nautilus Minerals) e o governo de Papua Nova Guiné. Uma outra mineração de sucesso foi desenvolvido por japoneses nos arredores de Okinawa que descobriram uma quantidade suficiente de zinco para abastecer o Japão por um ano inteiro. Entretanto, apesar de ter um grande potencial econômico, a mineração pode causar sérios problemas às regiões onde se encontram as fissuras hidrotermais, as quais apresentam uma grande diversidade e concentração de organismos marinhos como cobras marinhas, lesmas marinhas, camarões, entre outras espécies.

Recentemente a publicação de um artigo na revista Nature reportou a entrada de uma espécie de caramujo marinho (Chrysomallon squamiferum), oriundo das regiões das fissuras hidrotermais no leste de Madagascar, na lista vermelha de espécies ameaçadas de extinção, categorizando-o como “em perigo de extinção” segundo a União Internacional da Conservação da Natureza (IUCN). A principal causa da ameaça é  ocasionada pela contaminação devido a mineração no local.


Figura 1. Caramujo marinho (Chrysomallon squamiferu). Curiosamente, o pé do caramujo é blindado com escamas, chamadas escleritas, também formadas por dois minerais de sulfeto de ferro: pirita (FeS2) e greigita (Fe3S4). As escleritas estão indicadas pela seta branca.

Segundo os autores, a entrada do caramujo marinho na lista vermelha de animais ameaçados de extinção, e também a possível entrada de mais 14 espécies diferentes, pode ser o início de uma reflexão sobre a liberação de licenças para empresas mineradoras oceânicas. Esse fato demonstra o quanto a mineração pode afetar a biodiversidade marinha e, consequentemente, a alimentação dos humanos com peixes, moluscos e crustáceos contaminados, inclusive sendo contraditório ao exposto pela empresa canadense que afirmou não prejudicar a biodiversidade nas minerações no início da expedição Solaris I, na qual ganhou uma licença de 20 anos para realizar mineração em Papua Nova Guiné.

Assim, as consequências que a mineração oceânica traz para o meio ambiente nos faz refletir em sua viabilidade, e deve nos estimular a buscar métodos para diminuir seus impactos ambientais.


Quer saber mais:

https://obis.org/about/governance/

https://www.nature.com/articles/d41586-019-02231-1

https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2015/04/origem-da-vida-pode-ser-uma-fonte-hidrotermal.html

http://www.usp.br/aun/antigo/exibir?id=1872&ed=210&f=18

Sigwart, J. et al., Red Listing can protect deep-sea biodiversity. Nature Ecol. Evol. http://doi.org/10.1038/s41559-019-0930-2 (2019).

https://www.iucnredlist.org/search?query=Chrysomallon%20squamiferu&searchType=species


Imagem retirada de:
https://blacksmoker.wordpress.com/tag/fontes-hidrotermais/
http://ambipetro.com.br/as-riquezas-do-fundo-do-mar-a-nova-fronteira-da-mineracao/
http://cienciaes.com/neutrino/2016/04/23/el-caracol-de-hierro/?fbclid=IwAR2AZbohpyiwIuSVdO0mmN_94wwD3II5fLK4PV6MZQZbKSEZ1JnB2MjLa90


Sobre o autor:
nakajimatakahiro.r@gmail.com
Rafael Takahiro Nakajima é  biólogo e Doutor em Ciência Biológicas (Genética)


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