Aba


quinta-feira, 25 de julho de 2019

O que aconteceria se você morasse em Chernobyl hoje?


Quando o reator no 4 da usina nuclear de Chernobyl explodiu, cerca de 116 mil pessoas foram evacuadas de uma área de aproximadamente 30 quilômetros ao redor do local, que foi  estabelecido pelas autoridades com uma zona proibida. No momento da explosão, em abril de 1986, uma grande quantidade de radioatividade foi liberada na atmosfera, atingindo até mesmo países distantes. O reator continuou a vazar por 10 dias após o acidente inicial, liberando cada vez mais radiação no ambiente, até que o governo soviético, em conjunto com diversos cientistas, consegui conter o vazamento. O saldo final de mortes causadas pelo acidente é incerto, mas a Organização Mundial de Saúde (OMS) relata que o acidente teria sido responsável por 4 mil mortes a longo prazo.

Soldado durante serviço de descontaminação da área. Copyright: IAEA Imagebank 
A quantidade de radioatividade liberada durante o desastre de Chernobyl foi 400 vezes maior do que a da bomba atômica lançada sobre as cidades japonesas no final da Segunda Guerra Mundial. Os efeitos instantâneos da exposição a radiação podem variar entre vermelhidão na pele a queimaduras, sendo que pessoas que trabalharam no local durante o acidente relataram que seus corpos pareciam bronzeados. Mas como está Chernobyl hoje, 33 anos após o acidente?

Atualmente a cidade abandonada se tornou um destino turístico. Milhares de viajantes vão até a cidade em busca de ver com seus próprios olhos sua história, suas curiosidades e fazer boas fotos. O governo ucraniano inclusive já demonstrou interesse em tornar a cidade um ponto turístico oficial. Mas e quanto a radiação que ainda está no local? 
         
Pelo que se sabe, viver hoje em Chernobyl não trará problemas para a saúde. Embora ainda existam certas áreas de zona de exclusão onde não é permitido a presença de pessoas, a grande maioria da zona proibida inicialmente não contém mais radioatividade de que lugares com radiação natural. É sabido, por exemplo, que locais com grande altitude tem maior presença de radiação cósmica. Se você vive em locais desse tipo, você recebe a mesma quantidade de radiação que a maior parte da zona de exclusão. Além disso existe uma grande variabilidade de doses de radiação em todo o nosso planeta. 
           
Para comparação, socorristas e bombeiros que trabalharam no dia do acidente receberam doses de cerca de 160 a 800 mil microsieverts (que é a unidade de medida de radiação), e isso é extremamente alto. Já a dosagem anual média atual é de 1000 microsieverts (menos do que em uma tomografia computadorizada de corpo inteiro que equivale a 10 mil microsieverts). 


Parque abandonado em Chernobyl

Porém ainda existem alguns locais em que a entrada é proibida devido a radiação. A Floresta Vermelha por exemplo emite uma dose de radiação de 350 mil microsieverts anuais. Morar lá não seria letal, mas as chances de ter algum tipo de câncer no futuro seriam muito altas. Estima-se que os níveis normais de radiação só voltarão a Floresta Vermelha em cerca de 300 anos.

A Floresta Vermelha em Chernobyl. Créditos: Clay Gilliland CC BY-SA 2.0

Além da radiação emitida é importante estudar também o tipo de elementos radioativos emitidos. Durante a explosão mais de 100 elementos foram jogados na atmosfera, sendo alguns deles mais preocupantes do que outros. O iodo-131, por exemplo, é um dos mais nocivos e é associado ao câncer de tireóide, porém tem uma meia-vida de apenas oito dias. Já o plutônio-239 tem uma meia-vida de 24 mil anos, porém ele não é absorvido por plantas e pelo solo. 

Atualmente animais selvagens estão cada vez mais ocupando o espaço da região, aproveitando a ausência da presença massiva de humanos. Cerca de 500 pessoas viviam em Chernobyl em 2010. 

Para saber mais:

Diego Henrique Mirandola Dias Vieira é biólogo, mestre e doutorando em zoologia pelo Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu. Queria ser jogador de futebol mas se escolheu a profissão que tem maior salário. Faz pesquisa na área de parasitologia de peixes.
Compartilhar:

segunda-feira, 22 de julho de 2019

50 anos da viagem do ser humano à Lua


Em 16 de julho de 1969, a Agência Espacial Estadunidense (National Aeronautics and Space Administration – NASA) lançou no espaço uma nave sendo tripulada pelos astronautas Neil Armstrong, Michael Collins e Buzz Aldrin.

Astronautas. Fonte: Nasa

Quatro dias depois, em 20 de julho, Neil e Buzz pisaram no solo lunar, sendo Neil o primeiro, enquanto Michael permaneceu no módulo de comando da nave. Após cerca de vinte e duas horas de operações, eles retornaram à espaçonave e no dia 24 de julho pousaram no Oceano Pacífico, de onde foram resgatados.
Astronautas na Lua. Fonte: Nasa

Sem dúvida, a ida à Lua foi um dos maiores feitos da humanidade até hoje e, embora seja uma informação amplamente difundida na sociedade, muitas dúvidas sobre esse fato ainda existem. Há inclusive quem questione a sua veracidade.
O que levou o ser humano à realizar uma viagem tão desafiadora? A busca por conhecimento e avanços científicos pode ser uma das respostas para isso, mas, certamente não foi a única motivação. O contexto político do momento melhor justifica tamanha proeza. Na época, os Estados Unidos da América (EUA) e a União Soviética (URRS) travavam disputas políticas, o que ficou conhecido como Guerra Fria, e entre os campos da disputa estava a exploração espacial. A conquista do espaço era uma demonstração de avanço tecnológico e de poder de armas para o mundo. A URRS liderou o início da corrida espacial conseguindo enviar em 1957 o primeiro satélite à orbita da Terra e o primeiro ser vivo ao espaço (uma cadela). Já em 1961, a URSS enviou o primeiro homem ao espaço. A liderança soviética estimulou mais investimento estadunidense na pesquisa aeroespacial, culminando com a criação da NASA. Ainda em 1961 os EUA enviaram um homem ao espaço, mas ainda estavam atrás na corrida. Em vista de passar à frente, os EUA lançaram o programa Apollo, que durou vários anos e incluiu várias etapas e expedições, com diferentes objetivos, sendo que o principal era realizar um pouso tripulado na Lua e voltar à Terra, o que foi cumprido na missão chamada de Apollo 11. Após isso, os EUA enviaram humanos à Lua mais algumas vezes até o ano de 1973.
Quanto custou aos EUA a ida do ser humano à Lua? Segundo dados atualizados ao valor do dólar em 2018, entre os anos 1959 e 1973 foram gastos cerca de 131,8 bilhões de dólares, o equivalente a 428 bilhões de reais. Estes valores representam mais de 5% dos gastos públicos dos EUA na época.
Porquê o ser humano não voltou mais à Lua se a tecnologia de hoje é mais avançada que a da época? O orçamento atual da NASA é bem inferior ao da época, representando cerca de 0,4% dos gastos do governo, o que inviabiliza expedições desse porte.
Não seria mais útil investir todos esses recursos financeiros na Terra em vez de explorar o universo? Embora algumas pessoas acreditem que a exploração espacial seja um gasto de recurso, que poderia estar sendo utilizado para resolver problemas da Terra, o conhecimento científico e tecnológico gerado durante as pesquisas permitiu o desenvolvimento de várias áreas como a medicina, a informática e as ciências climáticas, que tem repercusão no nosso dia-a-dia na Terra. Esse é um exemplo de como a pesquisa científica apenas com o intuito de buscar conhecimento pode trazer benefícios.
Porquê existem pessoas que não acreditam que o ser humano foi até a Lua? Existem várias teorias da conspiração que defendem que o ser humano nunca foi à Lua e vários argumentos se baseiam na análise das fotos e vídeos da viagem divulgados pela NASA. Segundo alguns conspiracionistas, tudo não passa de uma farsa cinematográfica montada pelo próprio governo estadunidense para se consolidar como potência política mundial. Porém, existem fortes argumentos que sustentam o feito de 1969 como o fato de cerca de 400.000 pessoas terem trabalhado direta ou indiretamente no projeto, o que torna impossível que uma farsa seja sustentada há 50 anos por tanta gente. Além disso, os próprios soviéticos nunca questionaram a veracidade da ida do ser humano à Lua. Teorias da conspiração devem sempre existir, pois algumas pessoas preferem negar fatos do que compreender os argumentos que os confirmam.
A exploração espacial ainda é bastante desafiadora para a humanidade, mas à medida que ela avança, o nosso conhecimento sobre o universo se expande e nossa ciência se desenvolve.

Para saber mais:
https://brasilescola.uol.com.br/historiag/apollo-11.htm
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/15/ciencia/1518660959_356601.html
https://brasil.elpais.com/brasil/2019/06/21/actualidad/1561128132_157440.html
https://www.megacurioso.com.br/ciencia/106021-voce-tem-ideia-de-quanto-a-viagem-do-homem-a-lua-custou-aos-eua.htm

Sobre o Autor: Adauto Lima Cardoso é biólogo, mestre e doutor em Genética pela Universidade Federal do Pará e pela Universidade Estadual Paulista, respectivamente. Atualmente realiza pós-doutorado no Departamento de Morfologia do Instituto dse Biociências da UNESP.

Compartilhar:

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Do frio para o quente: revertendo o fluxo do calor com física quântica


De acordo com a física clássica, o calor sempre flui espontaneamente dos objetos mais quentes para os mais frios, até ser atingido o equilíbrio (Fig. 1). Por exemplo, um prato de comida quente deixado em cima da mesa perderá calor para o ambiente, esfriando até atingir a temperatura ambiente. Tal fenômeno pode ser explicado pela segunda lei da termodinâmica

Figura 1 – Do quente para o frio. Obtido em: Micadei K, Peterson JPS, Souza AM, Sarthour RS, Oliveira IS, Landi GT, et al. Reversing the direction of heat flow using quantum correlations. Nat Commun. 2019;10: 2456. doi:10.1038/s41467-019-10333-7

Mas seria possível o calor fluir do mais frio para o mais quente? Em alguns casos excepcionais, sim. Um exemplo são máquinas como o ar condicionado e a geladeira, o que só é possível porque há gasto de energia externa, ou seja, o fluxo do calor não é espontâneo. E agora, observou-se um caso em que o calor flui do mais frio para o mais quente sem gasto de energia externa, o que só foi constatado graças a experimentos de física quântica feitos por pesquisadores brasileiros.

Figura 2 – Fluxo do frio para o quente em spins relacionados. Obtido em: Micadei K, Peterson JPS, Souza AM, Sarthour RS, Oliveira IS, Landi GT, et al. Reversing the direction of heat flow using quantum correlations. Nat Commun. 2019;10: 2456. doi:10.1038/s41467-019-10333-7

A pesquisa foi realizada por pesquisadores da Universidade Federal do ABC, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e da USP, com a colaboração de coautores da Alemanha e de Singapura. O estudo foi publicado no começo deste mês (05/06/2019) na revista científica Nature Communications.

No estudo, foram analisados spins de átomos de hidrogênio e carbono que apresentavam ligação moléculas de clorofórmio. A tecnologia utilizada foi a de ressonância magnética nuclear, parecida com a utilizada em hospitais. Os cientistas observaram o calor fluir de um spin mais frio para um spin mais quente (Fig. 2). A descoberta dos pesquisadores brasileiros terá implicações importantes na área de física quântica, inclusive no campo de computação quântica.

Saiba mais assistindo ao vídeo abaixo, produzido pela agência FAPESP:


Referências

Artigo original (em inglês): Micadei K, Peterson JPS, Souza AM, Sarthour RS, Oliveira IS, Landi GT, et al. Reversing the direction of heat flow using quantum correlations. Nat Commun. 2019;10: 2456. doi:10.1038/s41467-019-10333-7. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41467-019-10333-7#Fig1

Texto jornalístico (em português): Arantes JT. Experimento inverte o sentido do fluxo de calor. Agência FAPESP. 2019. Disponível em: http://agencia.fapesp.br/experimento-inverte-o-sentido-do-fluxo-de-calor/30700/
Compartilhar:
←  Anterior Proxima  → Inicio

Seja um colaborador!

Postagens populares

Total de visualizações

Seguidores

Tecnologia do Blogger.