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sexta-feira, 7 de junho de 2019

O que está acontecendo na Venezuela?



No dia 23 de Janeiro, o então presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, declara, em meio a uma multidão, ser o novo presidente interino da Venezuela até que o atual ocupante do cargo, Nicolás Maduro, o deixe sob alegações de fraude e corrupção. Incitando a população local, a mídia, a comunidade internacional e a opinião pública a tomarem partido sobre a situação, a atitude surge como marco de um novo estágio da crise no país vizinho no qual a polarização interna, a desolação econômica, a pressão internacional e uma crise humanitária sem precedentes não dão espaço para uma solução simples e rápida.

            Mas, que diabos aconteceu com a Venezuela para a situação chegar a um ponto desses? Quem é o responsável por isso? Por que ONU, Estados Unidos, Brasil, China, Rússia e tantos outros países estão se envolvendo? O governo não faz nada? E a população? Como “resolver” tudo isso? O que é, de fato, essa crise?

O chavismo

Associar o que vem ocorrendo no país exclusivamente ao governo é um caminho fácil do raciocínio para chegar ao “culpado” (que muitas vezes está certo!) mas que, dificilmente, explicaria a complexidade ou as origens da situação. Culpar a gestão chavista pelo que ocorre é parte da resposta. Parte. O regime leva esse nome por conta de sua principal figura e líder, Hugo Chávez, – ex-paraquedista que esteve envolvido em revoltas populares (como o CARACAZO – 1989) e tentativas de golpe durante o começo dos anos 90 – presidente eleito pelo voto popular em 1998 e governante até o ano de 2013, ano de seu falecimento. Propondo uma reconfiguração no poder político do país, na qual o povo teria maior representação e participação, o governo trabalhou diretamente em reformas de base ao longo dos anos (reforma agrária, de saúde, de educação) conseguindo reduzir muito, como exemplo, os números de pobreza e pobreza extrema do país. O chamado chavismofoi marcado, também, por um aumento da interferência estatal na economia, principalmente no câmbio internacional (compra e venda), bem como na estatização de empresas e ampliação de outras já públicas como a PDVSA (principal petrolífera do país). Tomou medidas de fortalecimento do poder executivo (como a criação de uma Assembleia Nacional) e tentou outras sem muito sucesso (como a extensão do mandato presidencial). Além disso, pautou decisões e posturas com grande apoio popular e militar (Chávez era um líder carismático) e governou lutando contra as garras imperialistas, pela liberdade da América Latina e a construção da nação bolivariana. O chavismo, essa combinação de regimentos e atitudes percebidas e estudada ao longo dos anos, foi denominado pelo próprio Hugo Chávez como “socialismo do século XXI”.

A derrocada

Olhando para a trajetória do governo, a morte de Hugo Chávez foi um golpe duro para a continuidade do chavismo como modelo. O buraco deixado por sua ausência e ocupado por seu vice e sucessor Nicolas Maduro (que já vinha assumindo as responsabilidades desde 2012 devido ao estado de saúde de Chávez) passou longe de ser “preenchido”. Pelo contrário, foi a partir de sua posse e das eleições de 2016 que inúmeros escândalos de fraude nas eleições, denúncias da prisão de opositores e casos de corrupção nas estatais estouraram. O resultado das eleições legislativas de 2017 ,no qual a oposição consegue a maioria da Assembleia Nacional Constituinte  pela primeira vez desde sua criação, e escolhe Juan Guaidó como seu representante máximo, acentua a pressão e dificulta medidas do partido do presidente.

            Considerada por muitos o principal vetor de toda a situação, a crise econômica teve início com a queda do preço do barril de petróleo a partir do ano de 2015, alcançando seu menor valor em 2016 (aproximadamente 37 dólares o barril, como comparação, em 2013, ano da morte de Chávez, o valor era de 98 dólares cada um). É uma situação “grande” por si só mas que deve ser analisada em ao menos 3 aspectos característicos do país sobre o assunto. O primeiro deles é a grande importância do óleo na economia venezuelana. Sendo o território com a maior quantidade de petróleo do mundo e aonde a sua venda – dos commodities – representa 95% de tudo que sai do país ou, cerca de 25% do PIB, uma queda de preço dessas, sozinha, já seria um golpe doloroso. Em segundo lugar é a maneira como a Venezuela trabalha essa dependência. Ele sempre foi o produto principal do país – desde o século XX – e já passou por outras crises (como a financeira de 2008) mas, foi durante o governo chavista, que seu uso serviu como um alicerce de todas as reformas sociais e políticas feitas. Sua venda garantia o que a Venezuela não conseguia produzir sozinha através da compra de produtos importados pelo próprio governo. Governo esse que negligenciou outros setores produtivos e industriais do país tornado ainda mais axial a venda de petróleo para a normalidade da vida cotidiana. Por último, as medidas governamentais e a administração da PDVSA – estatal responsável pela extração e refino de petróleo – passaram longe de oferecer algum tipo de esperança. Congelamento de preços, empréstimos internacionais (China e Rússia) e denúncias de roubos milionários (ao menos 500 milhões) não contribuem em nada para a solução da situação.

No meio de todo esse turbilhão econômico e político, a população sente na pele e na rotina os efeitos desse caos. Falta de alimentos (arroz, feijão, óleo), mal funcionamento de serviços básicos (transporte, hospitais), apagões e o sumiço de itens essenciais ao dia a dia das prateleiras dos mercados (papel higiênico, xampu) resultam em situações de miséria e sofrimento, como a diáspora Venezuelana – consequência direta da situação e a maior da nossa região, com números que chegam as 3 milhões de pessoas que já não conseguem mais viver com o descaso, os números exorbitantes da inflação (o número variou 1.000.000% em 12 meses!) – e a busca por condições mínimas de vida.

A maldição do petróleo

A frase tema não é nova, ou invenção criativa desse que vos fala. O petróleo molda relações nacionais e internacionais não é de hoje. E a Venezuela não será primeira nem a última a sofrer seus efeitos políticos. Até agora, ao longo do texto, o tema é abordado como uma questão interna, sensível a crises internacionais mas que tem seu eixo principal girando em torno do governo, da manutenção e dependência do petróleo, da corrupção, etc. O que vem ocorrendo no país é, além de tudo que foi tratado, uma aula ao vivo sobre política externa e pressões econômicas internacionais. O interesse e a disputa por recursos – sejam eles minerais, energéticos, comerciais – não é uma novidade na história da humanidade. ONU, União Europeia, Rússia, Brasil e tantos outros países não se manifestam sobre o assunto por simples bondade. O maior reservatório conhecido de um mineral tão importante não é pouca coisa.

Países como os Estados Unidos já vem, desde o fim da gestão Obama, classificando a Venezuela como um lugar perigoso para investimentos e ou financiamentos internacionais além de exercer bloqueios alfandegários contra seu maior parceiro petrolífero latino (parceria que vem desde o governo Chávez e todo aquele discurso anti-imperialista). São atitudes que dificultam e limitam as possibilidades de ajuda financeira do exterior ou retomada econômica interna.

Na mesma moeda, a maioria dos países receberam e reconhecem Guaidó como o verdadeiro presidente venezuelano, desprestigiando ainda mais as instituições do país. Salvo alguns poucos vizinhos – México e Uruguai entre eles – dificilmente a Venezuela irá conseguir apoio internacional para uma saída democrática interna, estando com o espectro da intervenção ao seu encalço.

O interesse político é tanto que até a Cruz vermelha – instituição internacional e que não responde por nenhum Estado em específico – emitiu uma nota de repúdio contra diversas redes de comunicação mundial perante o uso político e intencionado de seu trabalho e ajuda humanitária. O sofrimento como política, a crise como negócio.

E agora, José?

O cenário que se forma nas ruas venezuelanas é rotina de jornais e noticiários do mundo inteiro, cada dia com um ultimato novo, uma manifestação, um pronunciamento, uma prisão diferente. As peças que vão se agrupando formam um alinhamento binário: Guaidó X Maduro. O primeiro vem ganhando cada vez mais apoio de estadistas e da população; Maduro, luta com o que tem e busca aliados para a manutenção da autarquia política que se tornou o chavismo. O petróleo, interesse mundial, alimenta a opinião e bondade de líderes e multinacionais enquanto a democracia e a população lutam e padecem com o pouco que lhe restam. A situação é complexa, o perigo de uma intervenção é alto. E é no vizinho ao lado.
Para saber mais:
Livro: ROSS, Michael L. A MALDIÇÃO DO PETRÓLEO - Como a riqueza petrolífera molda o crescimento das nações. 1º edição.
Sobre o autor:
Pedro Felipe Minhoni. Professor e intencionado nas práticas históricas, me formei em 2014 na faculdade de ciências humanas de Franca em História. Desde então busco aprimorar cada vez mais meu método científico, minha leitura e escrita, além de diversificar a playlist e estabelecer conexões pessoais propícias ao bar.

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