Aba

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Fake ou news: o yeti existe?


Nesta segunda-feira (29/04/2019), o Exército Indiano causou surpresa (e piadas) no mundo inteiro ao postar um tweet descrevendo evidências da existência do yeti. De acordo com o tweet, pegadas medindo 81cm X 38cm foram descobertas em Makalu, uma montanha perto do Everest. Mas isso é fato ou fake?




O estudo de animais como o yeti, o pé-grande, e o monstro do lago Ness está dentro da Criptozoologia, que é o estudo de espécies consideradas folclóricas e lendárias. A Criptozoologia frequentemente é classificada como uma pseudociência, fortemente baseada no Criacionismo e que desconsidera questões geológicas e biogeográficas.  
Porém, por incrível que pareça, trabalhos científicos sobre o yeti já foram publicados em revistas renomadas.
Em meados do século XX, pegadas descobertas pelo explorador inglês Eric Shipton causaram um rebuliço sobre a possibilidade de existência do yeti. Em 1960, a Nature publicou um estudo sobre a anatomia do pé do yeti baseada nas pegadas de Shipton. O autor deste artigo, W. Tschernezky, concluiu que “toda a evidência sugere que o chamado homem-das-neves é um primata bípede muito grande e pesado”. Porém, cientistas contemporâneos a Tschernezky e Shipton perceberam que estes dados eram presunçosos e pouco confiáveis: um comentário na Science de abril de 1958 apontava a inexistência de provas concretas, e que “evidências colaterais como pegadas estão sujeitas a interpretações diversas”.
Figura –  Pegada na neve encontrada por Shipton. (2) Reconstrução do “pé do yeti” por Tschernezky. Obtido em: Tschernezky, W., 1960. A Reconstruction of the Foot of the ‘Abominable Snowman.’ Nature 186, 496–497. https://doi.org/10.1038/186496a0. 

Trabalhos mais novos também estudaram o temido monstro, por análise do DNA de ossos e pelos atribuídos ao yeti ou ao pé-grande. Deste modo, é possível identificar se o DNA pertence a uma espécie nova (como o yeti), ou a uma espécie conhecida cujo pelo ou osso foi erroneamente atribuído ao ser mitológico. Nesses novos artigos, é praticamente unânime que os pelos e ossos atribuídos ao yeti na verdade pertencem a animais comuns, como ursos e cães.
Por exemplo, em um trabalho de 2014, o cientista de Oxford Bryan Sykes e colaboradores analisaram 30 supostas amostras de pelo de yeti, pé-grande e almasty. Grande parte dos pelos não pertencia a seres fantásticos, mas sim a animais domésticos como bois, cavalos e cães. Das três “amostras de yeti”, duas pertenciam a um urso e uma pertencia a um caprino. Em 2017, pesquisadores da Universidade de Bufallo fizeram uma análise mais completa do DNA de ursos da região do Tibete e do Himalaia. Eles corroboraram os resultados de Sykes e confirmaram que o pelo de yeti na verdade pertence a um urso.
Deste modo, é improvável que as pegadas encontradas pelo Exército Indiano sejam de um ser gigante e humanoide como o yeti. Assim como Shipton fez há mais de 50 anos atrás, a “existência” de um ser mitológico está sendo baseada em evidências fracas como pegadas na neve.

Para saber mais:
The Science behind bigfoot and other monsters (2013) - Entrevista na National Geographic com os escritores Daniel Loxton e Donald Prothero (em inglês)- https://news.nationalgeographic.com/news/2013/09/130907-cryptid-crytozoology-bigfoot-loch-yeti-monster-abominable-science/
A Reconstruction of the Foot of the ‘Abominable Snowman’ (1960) – Artigo na Nature por W. Tschernezky (em inglês) - https://www.nature.com/articles/186496a0
“Abominable snowman” (1958) – Comentário na Science por William Straus Jr. (em inglês)- https://science.sciencemag.org/content/127/3303/884
Genetic analysis of hair samples attributed to yeti, bigfoot and other anomalous primates (2014) – Artigo científico na Proceedings of the Royal Society B por Bryan Sykes e colaboradores (em inglês)- https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rspb.2014.0161
Evolutionary history of enigmatic bears in the Tibetan Plateau–Himalaya region and the identity of the yeti (2017) – Artigo científico na Proceedings of the Royal Society B por Tianying Lan e colaboradores (em inglês)- https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rspb.2017.1804

Sobre a autora:

Maria Laura Kuniyoshi é estudante de graduação de Ciências Biológicas na UNESP de Botucatu. Ela realiza pesquisa sobre Biologia Molecular do músculo e é apaixonada por divulgação científica.


Compartilhar:
←  Anterior Proxima  → Inicio

0 comentários:

Postar um comentário

Seja um colaborador!

Postagens populares

Total de visualizações

Seguidores

Tecnologia do Blogger.