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quarta-feira, 22 de maio de 2019

Minha querida pesquisa - Isabela Moraes

Sou Isabela Moraes, e atualmente estudante de Doutorado em Zoologia pela universidade Estadual Paulista (UNESP) e apesar de atuar no tema de zoologia, trabalho efetivamente com organismos marinhos. A paixão e curiosidade em trabalhar na área de biologia marinha começou ainda quando era adolescente, quando, por influência do meu pai, que já era mergulhador (por hobby, educador físico de profissão), fiz o curso de mergulho básico, ainda com 13 anos. A partir do dia que terminei o “batismo”, a prova final do curso do curso de mergulho, tive a certeza que gostaria de fazer aquilo para o resto da vida, e deveria tornar aquela atividade, meu trabalho! Estudei sempre em escolas públicas de ensino fundamental e médio, e quando finalmente chegou o famoso “terceirão”, passei a conhecer e pesquisar a fundo todas as universidades de Biologia Marinha que poderia prestar o vestibular, ainda que a Educação Física, profissão do pai e do irmão me encantasse. Me decidi e dediquei que seria biologia marinha e me deparei com a primeria frustração: Não fui aprovada no vestibular para o curso de biologia marinha da UNESP-São Vicente. Inegavelmente decepcionada, decidi que não gostaria de fazer cursinho e então ingressei na UNITAU (Universidade em modelo de Autarquia Municipal de Taubaté), para realizar o curso de Biologia. Ainda gostaria de trabalhar com biologia marinha,  na ideia de trabalhar com grandes peixes, vertebrados, mamíferos...
Trabalho de campo e coleta de camarões

Aquele sonho comum de quase 100% das pessoas que pensam em Bio Marinha. Para minha surpresa, logo no primeiro ano de faculdade, na disciplina de Zoologia de Invertebrados, conheci o professor Valter José Cobo, único da Universidade que trabalhava com esta área. Já tinha certeza do caminho que queria seguir e logo na primeira aula já fui atrás do professor para realizar estágio. Sim, ele trabalhava com biologia marinha, e para minha felicidade, trabalhava com mergulho! Mas fez questão de deixar claro que o trabalho era exclusivamente com crustáceos. Decepção. O que se trabalhar com crustáceos? Qual a graça? Mas ok, era Biologia Marinha, Mergulho, tudo o que sonhei desde a adolescência. Resolvi encarar. Li MUITO (sério, foi um ano intenso aprendendo sobre os grupos, a biologia, a classificação dos grupos de crustáceos), um verdadeiro teste para ver se gostaria mesmo de trilhar aquele caminho. Até que um dia fui apresentada aos CAMARÕES CARÍDEOS.
Diversas espécies de camarões estudadas ao longo das pesquisas

Paixão à primeira vista! Acompanhei o novo orientador em algumas coletas, vi os animais e tive a certeza absoluta que havia me encontrado! Eram os carídeos!! Um grupo completamente diversificado, lindo, e com muita coisa a se descobrir sobre eles! Comecei então a Iniciação Científica, para fazer um levantamento das espécies desses camarões em uma pequena ilha em Ubatuba. Aprendi a coletar e a identificar aqueles camarões. Foi então que o governo lançou o “ciência sem fronteiras” o qual meu orientador de cara me incentivou a participar. Empolgadíssima, me inscrevi, sonhando em estudar na Austrália, afinal, o auge da vida marinha e todos os animais diferenciados estão na Austrália. Perfeito. Não passei na primeira seleção. Nova decepção. Já não sabia nem se iria querer seguir o caminho na universidade. Quando tempos depois abre novamente a oportunidade e descobrimos uma parceria de trabalho em Portugal, desta vez com um dos maiores especialistas em camarões carídeos do mundo. A empolgação ressurge. Bolsa aprovada. Incrível. Passei um ano em Portugal, desenvolvi meu tcc junto ao Laboratório de Biologia da Universidade de Aveiro, sob orientação do Prof. Ricardo Calado trabalhando com o camarão ornamental Hymenocera picta, que tem um comportamento completamente diferenciado, se alimentando apenas de estrelas do mar. Trabalhamos com essa questão em diversos tipos de experimentos!
Camarão ornamental Hymenocera picta

Tcc finalizado, hora de retornar ao Brasil e apresentar os resultados da experiência! Quando então me inscrevo no Congresso Brasileiro sobre crustáceos (um dos mais importantes na área, no Brasil), e para minha surpresa, após uma apresentação oral o trabalho foi premiado como melhor do congresso entre os trabalhos de graduação. Isso só reafirmava a certeza de ter escolhido o caminho certo. Ainda Neste congresso conheci o Prof. Antonio Castilho, docente na UNESP Botucatu, e já sabendo do caminho que queria seguir, fazendo pós graduação, fui pedir uma oportunidade de orientação! No mês seguinte, já estava aprovada como mestranda na pós-graduação em zoologia! Continuando os trabalhos com camarões carídeos, desta vez, com projeto para avaliar as espécies encontradas em áreas de proteção ambiental no estado de São Paulo! Consegui almejar uma bolsa FAPESP, fizemos um trabalho muito bonito na Laje de Santos e Ilha da Vitória! Decidi continuar o Doutorado na instituição! Ainda trabalhando com camarões carídeos, mas hoje dedicando toda pesquisa em avaliar o tamanho do genoma destes animais e os padrões evolutivos que levaram ao modelo atual e história de vida do grupo. Como mencionei, há muita coisa a se descobrir sobre estes camarões, e tive o privilégio de completar 9 anos desde àquelas tardes dedicadas a conhecer sobre a biologia de crustáceos. Aprendi muito, cresci muito na universidade e posso afirmar com toda certeza que todo este trabalho é importante para auxílio da proteção da biodiversidade marinha do território nacional que é extremamente única a maravilhosa!!

Sobre a autora: Isabela Moraes é bióloga formada pela Universidade em modelo de Altarquia Municipal de Taubaté (UNITAU), mestre em zoologia pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (UNESP) e atualmente é doutoranda em zoologia pela mesma instituição.
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quinta-feira, 2 de maio de 2019

Fake ou news: o yeti existe?


Nesta segunda-feira (29/04/2019), o Exército Indiano causou surpresa (e piadas) no mundo inteiro ao postar um tweet descrevendo evidências da existência do yeti. De acordo com o tweet, pegadas medindo 81cm X 38cm foram descobertas em Makalu, uma montanha perto do Everest. Mas isso é fato ou fake?




O estudo de animais como o yeti, o pé-grande, e o monstro do lago Ness está dentro da Criptozoologia, que é o estudo de espécies consideradas folclóricas e lendárias. A Criptozoologia frequentemente é classificada como uma pseudociência, fortemente baseada no Criacionismo e que desconsidera questões geológicas e biogeográficas.  
Porém, por incrível que pareça, trabalhos científicos sobre o yeti já foram publicados em revistas renomadas.
Em meados do século XX, pegadas descobertas pelo explorador inglês Eric Shipton causaram um rebuliço sobre a possibilidade de existência do yeti. Em 1960, a Nature publicou um estudo sobre a anatomia do pé do yeti baseada nas pegadas de Shipton. O autor deste artigo, W. Tschernezky, concluiu que “toda a evidência sugere que o chamado homem-das-neves é um primata bípede muito grande e pesado”. Porém, cientistas contemporâneos a Tschernezky e Shipton perceberam que estes dados eram presunçosos e pouco confiáveis: um comentário na Science de abril de 1958 apontava a inexistência de provas concretas, e que “evidências colaterais como pegadas estão sujeitas a interpretações diversas”.
Figura –  Pegada na neve encontrada por Shipton. (2) Reconstrução do “pé do yeti” por Tschernezky. Obtido em: Tschernezky, W., 1960. A Reconstruction of the Foot of the ‘Abominable Snowman.’ Nature 186, 496–497. https://doi.org/10.1038/186496a0. 

Trabalhos mais novos também estudaram o temido monstro, por análise do DNA de ossos e pelos atribuídos ao yeti ou ao pé-grande. Deste modo, é possível identificar se o DNA pertence a uma espécie nova (como o yeti), ou a uma espécie conhecida cujo pelo ou osso foi erroneamente atribuído ao ser mitológico. Nesses novos artigos, é praticamente unânime que os pelos e ossos atribuídos ao yeti na verdade pertencem a animais comuns, como ursos e cães.
Por exemplo, em um trabalho de 2014, o cientista de Oxford Bryan Sykes e colaboradores analisaram 30 supostas amostras de pelo de yeti, pé-grande e almasty. Grande parte dos pelos não pertencia a seres fantásticos, mas sim a animais domésticos como bois, cavalos e cães. Das três “amostras de yeti”, duas pertenciam a um urso e uma pertencia a um caprino. Em 2017, pesquisadores da Universidade de Bufallo fizeram uma análise mais completa do DNA de ursos da região do Tibete e do Himalaia. Eles corroboraram os resultados de Sykes e confirmaram que o pelo de yeti na verdade pertence a um urso.
Deste modo, é improvável que as pegadas encontradas pelo Exército Indiano sejam de um ser gigante e humanoide como o yeti. Assim como Shipton fez há mais de 50 anos atrás, a “existência” de um ser mitológico está sendo baseada em evidências fracas como pegadas na neve.

Para saber mais:
The Science behind bigfoot and other monsters (2013) - Entrevista na National Geographic com os escritores Daniel Loxton e Donald Prothero (em inglês)- https://news.nationalgeographic.com/news/2013/09/130907-cryptid-crytozoology-bigfoot-loch-yeti-monster-abominable-science/
A Reconstruction of the Foot of the ‘Abominable Snowman’ (1960) – Artigo na Nature por W. Tschernezky (em inglês) - https://www.nature.com/articles/186496a0
“Abominable snowman” (1958) – Comentário na Science por William Straus Jr. (em inglês)- https://science.sciencemag.org/content/127/3303/884
Genetic analysis of hair samples attributed to yeti, bigfoot and other anomalous primates (2014) – Artigo científico na Proceedings of the Royal Society B por Bryan Sykes e colaboradores (em inglês)- https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rspb.2014.0161
Evolutionary history of enigmatic bears in the Tibetan Plateau–Himalaya region and the identity of the yeti (2017) – Artigo científico na Proceedings of the Royal Society B por Tianying Lan e colaboradores (em inglês)- https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rspb.2017.1804

Sobre a autora:

Maria Laura Kuniyoshi é estudante de graduação de Ciências Biológicas na UNESP de Botucatu. Ela realiza pesquisa sobre Biologia Molecular do músculo e é apaixonada por divulgação científica.


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