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quinta-feira, 25 de abril de 2019

Minha querida pesquisa - Antonio L. Sforcin Amaral

Sou biólogo, formado na Unesp Botucatu e atualmente cursando o Mestrado em Zoologia no mesmo câmpus. Minha jornada com a biologia começou ainda na adolescência, quando tive acesso aos livros de Richard Dawkins, que me inspiraram a entender o funcionamento da vida e sua origem. Curiosamente, ao prestar o primeiro vestibular, não passei no curso de Ciências Biológicas, mas fui aprovado para cursar Gestão Ambiental com bolsa integral na Universidade de Sorocaba. Conforme eu estudava esse curso, notava que a Biologia de fato era o que mais me atraia e a Gestão acabou por me mostrar que meu negócio era a “bio”, e não trabalhar com Gestão Ambiental. Terminei o curso, me formei, e fui prestar o vestibular novamente. Passei em Ciências Biológicas na Unesp em 2011 e, ironicamente, pretendia fazer estágio na área de Botânica, pois por conta da Gestão havia estudado muito a parte de reflorestamento e era o que mais me interessava. Essa vontade permaneceu até começarem as aulas de Zoologia no curso, quando notei que o estudo dos invertebrados era mais interessante do que eu imaginava. Cheguei a fazer alguns estágios em Entomologia (estudo dos insetos), até que conheci o professor da Medicina, Dr Vidal Haddad Jr., um grande estudioso das picadas por animais peçonhentos. Este acabou por me apresentar ao professor Dr. Antonio Leão Castilho, que é zoólogo da Unesp. Junto a esses professores, elaborei um guia dos animais peçonhentos do câmpus, que acabou se tornando meu trabalho de conclusão de curso e virou um pequeno livro impresso. Após o lançamento do guia, meu interesse por animais peçonhentos peçonhentos havia se consolidado.
Besouro-escorpião visto de frente

Então, chegamos ao meu mestrado, que começou a ser elaborado em novembro de 2017. Junto aos dois professores, elaborei um projeto para estudar o animal chamado Siriboia, que é um crustáceo capaz de causar lesões graves em pescadores no litoral, como pequenas fraturas nos dedos e até o decepamento, suspeitávamos. E onde isso leva à minha pesquisa do beosuro-escorpião?
Foi em março de 2018, quando tive acesso ao caso de dois pacientes que procuraram atendimento médico alegando que haviam sido picados por um besouro, e que, por sorte, coletaram o bicho e levaram ao médico para a identificação (e aplicação do tratamento mais adequado). As queixas dos pacientes foram registradas, junto à foto dos machucados, e coletei dois besouros para identificação. Ao ter todas essas informações em mãos, fui pesquisar sobre esse inseto misterioso e identifiquei que se tratava da espécie Onychocerus albitarsis. Também descobri que só havia um registro envolvendo picadas em humanos. Esse caso ocorreu no Peru e veio a público em 2008. Que ele picava já se sabia antes disso, no fim do século 19, mas que a picada causava uma lesão e que podia ter veneno, só foi discutido nesse caso de 2008.
 Descobrir isso meu deixou encantado! Sabendo dessas informações, apresentei os dados aos meus professores, os quais concordaram, por vários motivos, que era um caso importante a ser estudado. O primeiro motivo é que se tratava de um besouro que picava pelas antenas, o que não é popularmente conhecido, inclusive dentro da área da Zoologia. Um animal desse tipo de certo deveria ser famoso, mas inesperadamente não era. Como ele desenvolveu esses órgãos? O que ele injeta? O que fazer no caso de picada? Foram perguntas que levantamos e, por enquanto, só conseguimos responder algumas.
Imagem do besouro-escorpião e seu ferrão. Em (a) visão dorsal do besouro-escorpião, mostrando seu padrão de cores e comprimento das antenas e em (b) detalhe do ferrão do besouro-escorpião, na ponta da antena

O segundo ponto importante era: se esse animal pica, e se pode injetar veneno, o que esse veneno faz no corpo de uma pessoa? Foi necessário entender o desenvolvimento da picada nesses dois pacientes para elaborar o que pode ser feito durante/após o incidente. A grande dificuldade envolvendo essas questões é que esse inseto é difícil de ser encontrado. E embora as duas pessoas que foram picadas tenham levado os besouros ao hospital, um já estava morto e o outro morreu pouco tempo após a identificação, o que impediu que o veneno fosse coletado e analisado. Além disso, por se tratar de um animal raro, não existe um procedimento específico para o encontrar na natureza, o que dificulta a coleta e retirada de seu veneno, como é feito com escorpiões e outros animais peçonhentos. Apesar disso, as informações que obtivemos já são boas e permitiram a elaboração de um trabalho descrevendo como é o animal, onde foi encontrado, como podem acontecer os acidentes e como se desenvolvem as picadas. Esses dados possibilitaram que, caso sejam encontrados outros besouros-escorpião, eles possam ser estudados mais profundamente e seja possível comparar as novas picadas (caso aconteçam), identificando o ambiente em que acontecem. Eu espero, ainda, coletar o veneno para descobrir sua composição, o que pode ajudar na aplicação do tratamento a pessoas acidentadas.

Sobre o autor: Antonio L. Sforcin Amaral é biólogo formado pela Universidade Estadual Paulista. Atualmente é mestrando junto ao departamento de zoologia na mesma instituição.

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