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sexta-feira, 12 de abril de 2019

Minha querida pesquisa - Alan Ricardo Floriano Bigeli

Durante uma aula de filosofia ao final do meu ensino fundamental, precisamente na oitava série (hoje, nono ano), o professor fez o desenho de uma casa na lousa e disparou a seguinte pergunta: “Isto é uma casa? ”. A resposta da turma foi majoritariamente positiva, afinal, embora aquele fosse um desenho bastante simples, éramos capazes de reconhecer uma casa nele. Foi então que o professor apontou nosso engano. Por mais que aquilo se assemelhasse a uma casa, jamais seria propriamente uma. Não poderíamos entrar nela, viver nela, utilizá-la através das funcionalidades específicas de uma residência. Ou seja, não passava de uma representação de uma casa. Um símbolo. Uma figura. Um engano comum que cometemos, como seres dotados de capacidades imaginativas, de tomar a imagem de algo pela sua real existência. Essa explosão mental mexeu comigo. Fiquei matutando sobre as coisas, questionando a realidade, duvidando de tudo o que eu via e imaginava. Tudo, é claro, dentro dos limites que uma mente jovem de 13 ou 14 anos poderia almejar. Entretanto, essas preocupações acabaram por ficar adormecidas, muito em função de outras entrarem em cena. Dentre elas, a mais gritante: o vestibular.
O momento de escolha de qual curso eu deveria prestar foi angustiante, como deve ser para a maioria dos jovens daquela idade. Apesar daquele marco filosófico que relatei anteriormente, a Filosofia não foi minha primeira opção. Escolhi, por outras afinidades, a Psicologia. E, talvez por não ter criado grandes expectativas em relação a esse curso, foi o lugar em que me encontrei profissionalmente. Comecei os estudos na cidade de Assis, na Faculdade de Ciências e Letras, UNESP, com o pensamento avesso ao da maioria de meus colegas que buscam a área clínica. Mas, por outro lado, eu estava aberto ao que a Psicologia pudesse me apresentar e ela tem muito a oferecer. Foi então, no meu segundo ano, quando estava tendo as aulas de Filosofia da Psicologia e Teorias Psicanalíticas que meu eu-pesquisador acordou em um sobressalto.
Durante a discussão de um texto em que o autor utilizava uma pintura para fundamentar suas argumentações, aquele episódio da aula de filosofia do ermo ensino fundamental voltou à tona. O artista da tela que servia de exemplo naquele texto era René Magritte, um conhecido pintor belga que viveu no século XX, tendo fortes influências das vanguardas europeias em seus trabalhos, mas que se identificou significativamente com o Surrealismo. E uma das temáticas fundamentais de seu trabalho artístico é justamente a problemática da representação. Em um de seus trabalhos mais icônicos, Magritte pinta um cachimbo e logo abaixo escreve “Isto não é um cachimbo” (em francês “Ceci n’est pas une pipe”), provocando exatamente essa mania que as pessoas têm em tomar as figuras pelas coisas em si, quando o que se vê é somente uma representação imagética. Trata-se do quadro La Trahison des images (ou A traição das imagens), de 1929.

La Trahison des images (A traição das imagens) – René Magritte, 1929
 Logicamente eu não sabia disso àquela época, mas minha curiosidade havia sido despertada – e, se não for a curiosidade que movimenta o pesquisador, não sei o que pode ser. Resolvi, então, procurar o professor de Teorias Psicanalíticas, que futuramente viria a orientar minhas pesquisas, Dr. Gustavo Henrique Dionisio. Ele me alertou que era preciso definir alguma indagação que fosse bastante inovadora e norteasse minhas pesquisas. Desde aí a orientação já mostra seu valor; Gustavo me ajudou a circunscrever um tema e pensar em uma questão a ser investigada, que foi construída através de minhas leituras somadas aos atravessamentos pessoais que já me movimentavam de alguma maneira para o trabalho de pesquisar.
Em minhas investigações de Iniciação Científica, descobri que René Magritte não só produziu quadros, mas tinha também muito material escrito, em que ele relata experiências artísticas pessoais, seus processos criativos, várias concepções sobre a arte de pintar, dentre inúmeros pensamentos sobre sua vida e obra. Meu objetivo foi me especializar nos processos criativos desse pintor sob a ótica da teoria psicanalítica. Algo que me fez ver, logo de início, que não se tratava de aplicar a Psicanálise sobre obras de arte, como que criando uma possível análise diagnóstica da subjetividade daquele artista, isso não apresentaria muita relevância. Tratava-se de um trabalho muito mais sensível, quase como produzir uma escuta clínica das pinturas, contando unicamente com minhas próprias associações e transmitindo o que aquelas obras têm a dizer. Afinal, ao produzir uma pesquisa, empregamos muito, senão totalmente, nossa subjetividade, durante todo o processo até o resultado final.
Esses meus primeiros passos na vida de pesquisador foram fundamentais para alicerçar meu gosto pela vida acadêmica. Com os resultados da Iniciação Científica, que foi contemplada com bolsas CNPQ e FAPESP, pudemos construir inúmeras relações entre as obras de René Magritte e a Psicanálise. Muitas obras do pintor correspondem a uma concepção inaugurada por Freud sobre um sentimento de estranhamento (em alemão Das Unheimliche), a cem anos atrás, em 1919. Esse conceito se refere a um estado da condição humana que nos leva a estranhar algo de nosso cotidiano que sempre fora percebido como habitual. Parece bastante complexo, e é mesmo, tal qual a subjetividade humana. Esse sentimento nos leva a perceber aquilo que é estranho em nossa própria ambientação. A questão do estranhamento implica também outro conceito: a duplicidade. E essa duplicação [da personalidade, da subjetividade, da imagem] pode remeter às características que enxergamos nos outros, mas que muitas vezes pertencem a nós mesmos, às quais custamos a admitir. Além disso ainda, novamente aparece a questão de criarmos representações virtuais, tal como um espelho faria, e as tomarmos como a mais pura verdade.

La Condition Humaine (A condição humana) – René Magritte, 1933
O conjunto da obra de Magritte é bastante complexo e extremamente inquietante, sobretudo para aqueles que estiverem dispostos a dedicar um olhar atento aos detalhes e que se faça mais demorado sobre suas pinturas. Tal é a riqueza de suas problemáticas que, durante meus percursos sobre seus escritos e suas produções artísticas, algumas concepções-chave saltaram aos olhos, a saber: as emoções estéticas, um sentimento único que movimenta a relação entre o artista e o espectador; os mistérios do ordinário, que trata de uma realidade capaz de produzir estranhamentos em sua própria banalidade; as problemáticas da realidade, às quais Magritte, ultrapassando os limites do visível, tenta resolver através da potência surreal de suas pinturas. Enfim, foram as inúmeras premissas do pensamento de René Magritte que me levaram a dar continuidade na vida de pesquisa, desta vez em nível de Mestrado, atualmente em desenvolvimento, em que procuro relacionar as concepções do pintor belga com conceitos fundamentais da teoria psicanalítica freudiana, possibilitando belas contribuições para ambas as áreas do conhecimento. Afinal, como disse o próprio Freud: “aonde quer que eu vá, descubro que um poeta esteve lá antes de mim”. Com certeza, podemos incluir também entre esses poetas, os pintores e os artistas em geral.

Sobre o autor: Possui graduação em Psicologia (2015) pela Universidade Estadual Paulista - UNESP/FCL de Assis. Atualmente é mestrando do programa de Pós-graduação em Psicologia e Sociedade pela mesma universidade. Músico e degustador de cafés nas horas vagas. Apaixonado pelas artes em tempo integral.

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