Aba


sexta-feira, 26 de abril de 2019

Jogo como ferramenta de ensino. É possível aprender jogando?


É possível aprender jogando? Os jogos podem ser considerados potenciais ferramentas para auxiliar o ensino/aprendizagem nas escolas?  Essas perguntas nortearam a confecção e aplicação de um jogo de tabuleiro sobre Biologia e Conservação da espécie ameaçada arara-azul-grande. A seguir, será abordado um relato sobre como foi desenvolvida essa atividade em umas das localidades de ocorrência da espécie.
Arara-azul-grande. Foto: João Marcos Rosa.

As atividades foram realizadas com, aproximadamente, 300 alunos, vinculados a seis escolas municipais da região de Carajás – PA, dado que essa é uma das regiões onde ainda existem araras-azuis-grandes no Brasil.  Os alunos, matriculados em distintas séries do Ensino Fundamental, foram atendidos em nove turmas, separadamente. Inicialmente foi feito uma avaliação diagnóstica dos conhecimentos prévios dos alunos, por meio do preenchimento de um questionário abordando diferentes questões sobre a biologia da arara-azul-grande. Este questionário serviu, também, como incentivo à elaboração de novos questionamentos e discussão do tema abordado. Após a aplicação do questionário inicial, os monitores da atividade conversaram com os alunos sobre os aspectos mais importantes associados à biologia da arara-azul-grande e da sua categoria de ameaça. Para isso, foram utilizadas fotos demonstrativas da ave em diferentes atividades: se alimentando, reproduzindo, chocando os ovos. Além disso, essa atividade foi importante para contextualizar a importância e a aplicação do jogo evitando que este não fosse simplesmente "jogado por jogar". Esta explanação foi necessária para a compreensão do “antes” e do “depois”, para que a atividade lúdica pudesse atingir os seus objetivos didáticos.
As atividades seguiram com a aplicação do jogo de tabuleiro, de acordo com as regras elaboradas para este e envolvendo grupos de 4 ou 5 alunos. Logo após a atividade do jogo, o questionário inicialmente preenchido pelos alunos foi reaplicado. Além das mesmas nove questões de múltipla escolha, havia adicionalmente um espaço para críticas, sugestões e comentários. Essa avaliação teve como objetivo detectar falhas na atividade que poderiam ser corrigidas.
Imagem do jogo de tabuleiro sobre Biologia e Conservação da arara-azul-grande. Foto: João Marcos Rosa.

Tais atividades, em conjunto, foram prazerosas aos participantes e demonstraram bom desempenho como motivadoras do interesse do público e, também, na apropriação de conhecimentos sobre aspectos biológicos da arara-azul-grande e sobre possíveis ações/soluções para minimizar os riscos de extinção desta espécie ameaçada.  A aplicação do jogo de tabuleiro que, ao aliar sua característica de material didático lúdico com objetivos educacionais específicos desenvolvidos para a comunidade que reside na região de ocorrência da espécie, pôde trazer a valorização de uma consciência ambiental aos participantes. Muitos autores relatam o poder do jogo como método de ensino e aprendizagem, pois este diverte, motiva e exerce uma fascinação sobre as pessoas e permite uma maior socialização do grupo.
Além disso, abordagens de ensino com a utilização de jogos apresentam outra vantagem, associada ao estímulo de outras habilidades cognitivas que não somente a busca pela aprendizagem. Enquanto joga, o participante desenvolve a iniciativa, a imaginação, o raciocínio, a memória, a atenção, a curiosidade, o interesse e a contextualização de assuntos, concentrando-se por um tempo mais longo em uma determinada atividade
Modelos ou atividades de educação também podem ajudar a priorizar ações ou planos de conservação de espécies, populações ou ecossistemas. Entre as atividades educacionais direcionadas à conservação, podemos citar aquelas que se utilizam as chamadas espécies “bandeira”, pois estas podem levantar discussões multidisciplinares sobre o meio ambiente, já que representam “símbolos” associados a uma determinada causa ambiental, que pode ser desde sua própria conservação como a conservação de seu ecossistema inteiro. A arara-azul-grande vem sendo utilizada como espécie bandeira pelo Projeto Arara-Azul, visando promover não somente sua própria conservação como também da biodiversidade do Pantanal Matogrossense. A ampliação das atividades de educação voltadas para a arara-azul-grande, como realizado na região de Carajás - PA, associada à beleza, carisma e vulnerabilidade da espécie, faz com que esta tenha um enorme potencial para ser elevada ao perfil de bandeira em larga escala no país.

Quer saber mais sobre o assunto:
BRONDANI, C.& HENZEL, M.E. Análise sobre a conscientização ambiental em escolas da rede municipal de ensino. São Paulo: FEMA, 2003. Disponível em: http://www.sbecotur.org.br/revbea/index.php/revbea/article/view/1688. Acesso em 15 jul. 2014

CALADO, N.V., da COSTA, M.R.B., CARDOSO, A.M., PAES, L.S., MELLO, M.S.V.N. Jogo didático como sugestão metodológica para o ensino de briófitas no ensino médio. Revista Amazônica de Ensino de Ciências 4: 92-101, 2011. Disponível em: http://www.revistas.uea.edu.br/download/revistas/arete/vol.4/arete_v4_n06-2011-10.pdf. Acesso em 15 jul. 2014.

PRESTI, F. T. ; ALMEIDA, T. R. A. ; SILVA, G. F. ; SILVA, H. E. ; CONRADO, L. P. ; CESPEDE, L. ; Rodrigues, T. ; Barbirato, M. ; WASKO, A. P. . Conhecendo a arara-azul-grande: confecção e aplicação de um jogo didático como parte das ações de conservação ambiental visando a conservação da espécie. REVISTA BRASILEIRA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL (ONLINE), v. 12, p. 259-273, 2017.


Sobre a autora: Talita R. A. Almeida é bióloga e mestre em Genética pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho Câmpus de Botucatu/SP, estudante de Doutorado em Ciências Biológicas (Genética) pela mesma instituição.
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quinta-feira, 25 de abril de 2019

Minha querida pesquisa - Antonio L. Sforcin Amaral

Sou biólogo, formado na Unesp Botucatu e atualmente cursando o Mestrado em Zoologia no mesmo câmpus. Minha jornada com a biologia começou ainda na adolescência, quando tive acesso aos livros de Richard Dawkins, que me inspiraram a entender o funcionamento da vida e sua origem. Curiosamente, ao prestar o primeiro vestibular, não passei no curso de Ciências Biológicas, mas fui aprovado para cursar Gestão Ambiental com bolsa integral na Universidade de Sorocaba. Conforme eu estudava esse curso, notava que a Biologia de fato era o que mais me atraia e a Gestão acabou por me mostrar que meu negócio era a “bio”, e não trabalhar com Gestão Ambiental. Terminei o curso, me formei, e fui prestar o vestibular novamente. Passei em Ciências Biológicas na Unesp em 2011 e, ironicamente, pretendia fazer estágio na área de Botânica, pois por conta da Gestão havia estudado muito a parte de reflorestamento e era o que mais me interessava. Essa vontade permaneceu até começarem as aulas de Zoologia no curso, quando notei que o estudo dos invertebrados era mais interessante do que eu imaginava. Cheguei a fazer alguns estágios em Entomologia (estudo dos insetos), até que conheci o professor da Medicina, Dr Vidal Haddad Jr., um grande estudioso das picadas por animais peçonhentos. Este acabou por me apresentar ao professor Dr. Antonio Leão Castilho, que é zoólogo da Unesp. Junto a esses professores, elaborei um guia dos animais peçonhentos do câmpus, que acabou se tornando meu trabalho de conclusão de curso e virou um pequeno livro impresso. Após o lançamento do guia, meu interesse por animais peçonhentos peçonhentos havia se consolidado.
Besouro-escorpião visto de frente

Então, chegamos ao meu mestrado, que começou a ser elaborado em novembro de 2017. Junto aos dois professores, elaborei um projeto para estudar o animal chamado Siriboia, que é um crustáceo capaz de causar lesões graves em pescadores no litoral, como pequenas fraturas nos dedos e até o decepamento, suspeitávamos. E onde isso leva à minha pesquisa do beosuro-escorpião?
Foi em março de 2018, quando tive acesso ao caso de dois pacientes que procuraram atendimento médico alegando que haviam sido picados por um besouro, e que, por sorte, coletaram o bicho e levaram ao médico para a identificação (e aplicação do tratamento mais adequado). As queixas dos pacientes foram registradas, junto à foto dos machucados, e coletei dois besouros para identificação. Ao ter todas essas informações em mãos, fui pesquisar sobre esse inseto misterioso e identifiquei que se tratava da espécie Onychocerus albitarsis. Também descobri que só havia um registro envolvendo picadas em humanos. Esse caso ocorreu no Peru e veio a público em 2008. Que ele picava já se sabia antes disso, no fim do século 19, mas que a picada causava uma lesão e que podia ter veneno, só foi discutido nesse caso de 2008.
 Descobrir isso meu deixou encantado! Sabendo dessas informações, apresentei os dados aos meus professores, os quais concordaram, por vários motivos, que era um caso importante a ser estudado. O primeiro motivo é que se tratava de um besouro que picava pelas antenas, o que não é popularmente conhecido, inclusive dentro da área da Zoologia. Um animal desse tipo de certo deveria ser famoso, mas inesperadamente não era. Como ele desenvolveu esses órgãos? O que ele injeta? O que fazer no caso de picada? Foram perguntas que levantamos e, por enquanto, só conseguimos responder algumas.
Imagem do besouro-escorpião e seu ferrão. Em (a) visão dorsal do besouro-escorpião, mostrando seu padrão de cores e comprimento das antenas e em (b) detalhe do ferrão do besouro-escorpião, na ponta da antena

O segundo ponto importante era: se esse animal pica, e se pode injetar veneno, o que esse veneno faz no corpo de uma pessoa? Foi necessário entender o desenvolvimento da picada nesses dois pacientes para elaborar o que pode ser feito durante/após o incidente. A grande dificuldade envolvendo essas questões é que esse inseto é difícil de ser encontrado. E embora as duas pessoas que foram picadas tenham levado os besouros ao hospital, um já estava morto e o outro morreu pouco tempo após a identificação, o que impediu que o veneno fosse coletado e analisado. Além disso, por se tratar de um animal raro, não existe um procedimento específico para o encontrar na natureza, o que dificulta a coleta e retirada de seu veneno, como é feito com escorpiões e outros animais peçonhentos. Apesar disso, as informações que obtivemos já são boas e permitiram a elaboração de um trabalho descrevendo como é o animal, onde foi encontrado, como podem acontecer os acidentes e como se desenvolvem as picadas. Esses dados possibilitaram que, caso sejam encontrados outros besouros-escorpião, eles possam ser estudados mais profundamente e seja possível comparar as novas picadas (caso aconteçam), identificando o ambiente em que acontecem. Eu espero, ainda, coletar o veneno para descobrir sua composição, o que pode ajudar na aplicação do tratamento a pessoas acidentadas.

Sobre o autor: Antonio L. Sforcin Amaral é biólogo formado pela Universidade Estadual Paulista. Atualmente é mestrando junto ao departamento de zoologia na mesma instituição.

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segunda-feira, 15 de abril de 2019

Zyka, transtorno do espectro autista, febre amarela: o que há de novo sobre vacinas?


As vacinas talvez sejam uma das coisas mais legais já inventadas/conhecidas pela Ciência. No texto de nossa página, produzido pela Alejandra, dá pra saber como elas funcionam. Mas, e você, já colocou sua carteira de vacinação em dia? Então, bora lá pois não vacinar é um ato infundado e perigoso não só a você, mas a toda a comunidade.

E o que vacina tem a ver com autismo?
Todo mundo, em algum momento, já ouviu falar nos movimentos anti-vacina. São grupos de pessoas contrários à vacinação pois acreditam que as vacinas nos fazem mal. Muitos desses grupos surgiram após a publicação de um estudo, em 1998, que mencionava a associação de vacinas ao desenvolvimento de transtornos dos espectros autistas em crianças. Esse estudo foi retratado, pois não tinha base científica para afirmar suas conclusões (veja mais sobre essa e outras polêmicas nessa matéria supimpa da Eliza).

No entanto, o estrago de um estudo mal feito já havia acontecido, centenas de grupos Antivaxx surgiram e ainda ganham força desde então. É claro que esses grupos passaram a defender outras teorias ainda mais infundadas além da associação ao autismo. Mas isso não vem ao caso nessa discussão, pois nem existem estudos científicos (equivocados ou não) a esse respeito.

Em março de 2019, um novo estudo foi publicado. O trabalho foi realizado em  resposta à crescente dos movimentos anti-vacinas e se iniciou em meados dos anos 2000. Outros estudos previamente publicados (vide aqui, aqui e aqui)  já haviam relatado que o transtorno do espectro autista não tem relação com a vacinação. No entanto, o novo estudo analisou mais pessoas e ao longo de um tempo maior, corroborando ainda mais a afirmação de que vacinas e espectro autista não tem nenhuma associação, muito menos relação de causa e efeito. Além disso, também foram analisados os “agrupamento de casos” de pessoas com espectro autista após a vacinação e, também, os casos de crianças já propensas a desenvolver essa condição.

Como foi feito o estudo vacina x autismo?
Foram analisadas 657.461 crianças ao longo de 13 anos (dos anos 2000 a 2013), todas residentes na Dinamarca. Os pesquisadores acompanharam essas crianças por 13 anos, verificando se haviam sido vacinadas, quais vacinas tomaram, se havia algum diagnóstico de espectro autista ou, ainda, se havia algum fator de risco para o espectro autista.

Todos os dados foram, então, analisados por testes estatísticos para verificar se havia associação entre os dois fatores: espectro autista e vacinação. Todos os resultados indicaram que não há relação alguma entre os fatores!

Esclarecidas as ideias sobre vacinas serem prejudiciais, vem mais novidade por aqui! 
Pesquisadores da UFRJ e da Fundação Oswaldo Cruz se uniram e estudaram os efeitos da vacina contra febre amarela sobre a infecção do vírus Zyka. E, imaginem só, tudo indica, até o momento, que ela pode conferir imunidade a infecções do Zyka! Para quem não se lembra, o Zyka vírus iniciou uma epidemia em 2016, que culminou em muitas crianças com microcefalia, dentre outros problemas neuronais.

Imagem de bebê infectado por Zyka vírus e com microcefalia.

Como foi que eles descobriram esse efeito da vacina contra o zyka?
A princípio, os pesquisadores se atentaram ao fato de ambos os vírus (febre amarela e zyka) serem do mesmo grupo, flavivírus, e, portanto, compartilharem muitas semelhanças. Então, começaram a investigar se a vacina que combate um poderia conferir imunidade contra o outro. Para testar essa hipótese, eles injetaram a vacina em camundongos normais e em camundongos com imunidade comprometida (que simulavam indivíduos da população mais susceptíveis a infecções). Nos dois grupos, eles separaram camundongos que receberam doses de zyka vírus no cérebro e camundongos que receberam um placebo (solução simples sem nenhum vírus). Ao analisarem os resultados, verificaram:


  • Grupos de camundongos normais não vacinados desenvolveram os sintomas da infecção
  • Grupos de camundongos com imunidade comprometida não vacinados morreram
  • Grupos de camundongos normais vacinados não desenvolveram sintomas 
  • Grupos de camundongos com imunidade comprometida vacinados desenvolveram sintomas da infecção


O que os resultados indicam?
Indicam que estamos muito perto de adaptar a vacina de febre amarela para nos proteger, também, contra o zyka vírus! Os estudos continuam, assim como a nossa esperança. O lado bom de desenvolver uma vacina por esse caminho (ao invés de criar uma do zero) é que a vacina de febre amarela já foi testada e não apresenta riscos. Do contrário, muitos testes adicionais teriam que ser feitos antes de qualquer vacina ser lançada. O jeito é esperar e não esquecer de tomar suas vacinas!


Quer saber mais?
Em inglês:
-Estudo original vacinas x autismo: https://annals.org/aim/fullarticle/2727726/measles-mumps-rubella-vaccination-autism-nationwide-cohort-study
-Estudo original vacina febre amarela: https://www.biorxiv.org/content/10.1101/587444v1

Em português:
-https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47704310
-https://saude.abril.com.br/familia/vacina-triplice-viral-nao-causa-autismo-nem-em-criancas-suscetiveis/

Imagens retiradas de:
http://www.brasil.gov.br/noticias/saude/2017/06/tire-duvidas-sobre-a-vacina-contra-a-gripe/vacina-contra-gripe.jpg/view
https://www.nursing.com.br/microcefalia-e-zika-virus/


Sobre a autora:
Érica Ramos
erica.ramos00@gmail.com
Érica Ramos é bióloga e mestre em Ciências Biológicas (Genética) pela UNESP, apaixonada pelo tema Educação e, também, editora desta página de Divulgação Científica. No momento atua como aluna de doutorado na UNESP, na área de Genética.
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sexta-feira, 12 de abril de 2019

Minha querida pesquisa - Alan Ricardo Floriano Bigeli

Durante uma aula de filosofia ao final do meu ensino fundamental, precisamente na oitava série (hoje, nono ano), o professor fez o desenho de uma casa na lousa e disparou a seguinte pergunta: “Isto é uma casa? ”. A resposta da turma foi majoritariamente positiva, afinal, embora aquele fosse um desenho bastante simples, éramos capazes de reconhecer uma casa nele. Foi então que o professor apontou nosso engano. Por mais que aquilo se assemelhasse a uma casa, jamais seria propriamente uma. Não poderíamos entrar nela, viver nela, utilizá-la através das funcionalidades específicas de uma residência. Ou seja, não passava de uma representação de uma casa. Um símbolo. Uma figura. Um engano comum que cometemos, como seres dotados de capacidades imaginativas, de tomar a imagem de algo pela sua real existência. Essa explosão mental mexeu comigo. Fiquei matutando sobre as coisas, questionando a realidade, duvidando de tudo o que eu via e imaginava. Tudo, é claro, dentro dos limites que uma mente jovem de 13 ou 14 anos poderia almejar. Entretanto, essas preocupações acabaram por ficar adormecidas, muito em função de outras entrarem em cena. Dentre elas, a mais gritante: o vestibular.
O momento de escolha de qual curso eu deveria prestar foi angustiante, como deve ser para a maioria dos jovens daquela idade. Apesar daquele marco filosófico que relatei anteriormente, a Filosofia não foi minha primeira opção. Escolhi, por outras afinidades, a Psicologia. E, talvez por não ter criado grandes expectativas em relação a esse curso, foi o lugar em que me encontrei profissionalmente. Comecei os estudos na cidade de Assis, na Faculdade de Ciências e Letras, UNESP, com o pensamento avesso ao da maioria de meus colegas que buscam a área clínica. Mas, por outro lado, eu estava aberto ao que a Psicologia pudesse me apresentar e ela tem muito a oferecer. Foi então, no meu segundo ano, quando estava tendo as aulas de Filosofia da Psicologia e Teorias Psicanalíticas que meu eu-pesquisador acordou em um sobressalto.
Durante a discussão de um texto em que o autor utilizava uma pintura para fundamentar suas argumentações, aquele episódio da aula de filosofia do ermo ensino fundamental voltou à tona. O artista da tela que servia de exemplo naquele texto era René Magritte, um conhecido pintor belga que viveu no século XX, tendo fortes influências das vanguardas europeias em seus trabalhos, mas que se identificou significativamente com o Surrealismo. E uma das temáticas fundamentais de seu trabalho artístico é justamente a problemática da representação. Em um de seus trabalhos mais icônicos, Magritte pinta um cachimbo e logo abaixo escreve “Isto não é um cachimbo” (em francês “Ceci n’est pas une pipe”), provocando exatamente essa mania que as pessoas têm em tomar as figuras pelas coisas em si, quando o que se vê é somente uma representação imagética. Trata-se do quadro La Trahison des images (ou A traição das imagens), de 1929.

La Trahison des images (A traição das imagens) – René Magritte, 1929
 Logicamente eu não sabia disso àquela época, mas minha curiosidade havia sido despertada – e, se não for a curiosidade que movimenta o pesquisador, não sei o que pode ser. Resolvi, então, procurar o professor de Teorias Psicanalíticas, que futuramente viria a orientar minhas pesquisas, Dr. Gustavo Henrique Dionisio. Ele me alertou que era preciso definir alguma indagação que fosse bastante inovadora e norteasse minhas pesquisas. Desde aí a orientação já mostra seu valor; Gustavo me ajudou a circunscrever um tema e pensar em uma questão a ser investigada, que foi construída através de minhas leituras somadas aos atravessamentos pessoais que já me movimentavam de alguma maneira para o trabalho de pesquisar.
Em minhas investigações de Iniciação Científica, descobri que René Magritte não só produziu quadros, mas tinha também muito material escrito, em que ele relata experiências artísticas pessoais, seus processos criativos, várias concepções sobre a arte de pintar, dentre inúmeros pensamentos sobre sua vida e obra. Meu objetivo foi me especializar nos processos criativos desse pintor sob a ótica da teoria psicanalítica. Algo que me fez ver, logo de início, que não se tratava de aplicar a Psicanálise sobre obras de arte, como que criando uma possível análise diagnóstica da subjetividade daquele artista, isso não apresentaria muita relevância. Tratava-se de um trabalho muito mais sensível, quase como produzir uma escuta clínica das pinturas, contando unicamente com minhas próprias associações e transmitindo o que aquelas obras têm a dizer. Afinal, ao produzir uma pesquisa, empregamos muito, senão totalmente, nossa subjetividade, durante todo o processo até o resultado final.
Esses meus primeiros passos na vida de pesquisador foram fundamentais para alicerçar meu gosto pela vida acadêmica. Com os resultados da Iniciação Científica, que foi contemplada com bolsas CNPQ e FAPESP, pudemos construir inúmeras relações entre as obras de René Magritte e a Psicanálise. Muitas obras do pintor correspondem a uma concepção inaugurada por Freud sobre um sentimento de estranhamento (em alemão Das Unheimliche), a cem anos atrás, em 1919. Esse conceito se refere a um estado da condição humana que nos leva a estranhar algo de nosso cotidiano que sempre fora percebido como habitual. Parece bastante complexo, e é mesmo, tal qual a subjetividade humana. Esse sentimento nos leva a perceber aquilo que é estranho em nossa própria ambientação. A questão do estranhamento implica também outro conceito: a duplicidade. E essa duplicação [da personalidade, da subjetividade, da imagem] pode remeter às características que enxergamos nos outros, mas que muitas vezes pertencem a nós mesmos, às quais custamos a admitir. Além disso ainda, novamente aparece a questão de criarmos representações virtuais, tal como um espelho faria, e as tomarmos como a mais pura verdade.

La Condition Humaine (A condição humana) – René Magritte, 1933
O conjunto da obra de Magritte é bastante complexo e extremamente inquietante, sobretudo para aqueles que estiverem dispostos a dedicar um olhar atento aos detalhes e que se faça mais demorado sobre suas pinturas. Tal é a riqueza de suas problemáticas que, durante meus percursos sobre seus escritos e suas produções artísticas, algumas concepções-chave saltaram aos olhos, a saber: as emoções estéticas, um sentimento único que movimenta a relação entre o artista e o espectador; os mistérios do ordinário, que trata de uma realidade capaz de produzir estranhamentos em sua própria banalidade; as problemáticas da realidade, às quais Magritte, ultrapassando os limites do visível, tenta resolver através da potência surreal de suas pinturas. Enfim, foram as inúmeras premissas do pensamento de René Magritte que me levaram a dar continuidade na vida de pesquisa, desta vez em nível de Mestrado, atualmente em desenvolvimento, em que procuro relacionar as concepções do pintor belga com conceitos fundamentais da teoria psicanalítica freudiana, possibilitando belas contribuições para ambas as áreas do conhecimento. Afinal, como disse o próprio Freud: “aonde quer que eu vá, descubro que um poeta esteve lá antes de mim”. Com certeza, podemos incluir também entre esses poetas, os pintores e os artistas em geral.

Sobre o autor: Possui graduação em Psicologia (2015) pela Universidade Estadual Paulista - UNESP/FCL de Assis. Atualmente é mestrando do programa de Pós-graduação em Psicologia e Sociedade pela mesma universidade. Músico e degustador de cafés nas horas vagas. Apaixonado pelas artes em tempo integral.

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segunda-feira, 8 de abril de 2019

Áreas diferentes da língua sentem sabores diferentes: Fake ou News?


Quem na época em que estava na escola não viu um “mapa da língua” mostrando em que locais sentimos os diferentes sabores? Um pequeno diagrama com seções cuidadosamente delimitadas para diferentes receptores gustativos: doce na frente, salgado e azedo nos lados e amargo na parte detrás. A imagem é muito conhecida, mas está errada!


Mapa da língua: ERRADO!

Pesquisas sobre a percepção quimiossensorial revelaram já há muito tempo que a capacidade de provar doce, salgado, azedo e amargo não é seccionada em diferentes partes da língua. Os receptores que captam esses gostos estão distribuídos por toda parte. Então como começou essa confusão?

O mito surgiu de uma tradução errada feita por um professor inglês de um artigo alemão. "Este conceito, apesar de muito difundido, foi baseado em interpretações erradas de estudos do século 19", explica o médico otorrinolaringologista Felippe Felix, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele está falando de um artigo de 1901, do cientista alemão David P. Hänig.

Hänig descobriu que existia alguma variação na forma em que os estímulos eram registrados em toda a região da língua. O problema não é com as descobertas de Hänig, e sim com a forma que ele decidiu apresentar essa informação. Para a publicação ele criou um gráfico que ilustra a mudança relativa da sensibilidade para cada sabor em cada região, e não qual sabor é sentido naquele local.

As papilas gustativas. As verdadeiras responsáveis pelos sabores que sentimos. Fonte: Anatomia em Foco.

 Atualmente, sabemos que todas as áreas da boca contendo papilas gustativas - incluindo várias partes da língua, o palato mole (no céu da boca) e a garganta - são sensíveis a todos os sabores. A informação do sabor é transportada da língua para o cérebro através de dois nervos cranianos.
Apesar de toda a evidência científica que temos hoje, o “mapa da língua” continua sendo ensinado de forma errônea em várias escolas pelo mundo todo. O teste final e definitivo pode ser feito em casa ou na própria escola. Tome uma xícara de chá ou coloque sal na ponta da língua. Você perceberá que a língua sente os sabores em toda a sua área.

Para ler mais:
https://www.nature.com/articles/35007072
https://www.annualreviews.org/doi/10.1146/annurev.nutr.26.061505.111329
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0092867400806583?via%3Dihub
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0092867400807060?via%3Dihub

Sobre o autor:

Diego Henrique Mirandola Dias Vieira é biólogo, mestre e doutorando em zoologia pelo Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu. Queria ser jogador de futebol mas se escolheu a profissão que tem maior salário. Faz pesquisa na área de parasitologia de peixes.

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quarta-feira, 3 de abril de 2019

Dormir bem pode ajudar a perder peso e a diminuir o consumo de calorias


Quem diria que o sono tem a ver com a fome? Uma nova pesquisa publicada na Current Biology mostra como uma boa noite de sono e um final de semana preguiçoso podem estar relacionados à perda de peso e ao consumo energético.

Neste estudo, os pesquisadores compararam o metabolismo de jovens adultos que dormiam, por noite, nove horas (o ideal) ou cinco horas (abaixo do ideal). Eles também avaliaram se dormir à vontade no final de semana pode recuperar os efeitos negativos das poucas horas de sono durante os dias úteis.

Foi observado que dormir apenas cinco horas por noite pode estar relacionado ao aumento de peso e à maior quantidade de calorias obtidas em lanchinhos após o jantar. Os cientistas discutem que, provavelmente, consumimos mais energia em dias de sono insuficiente porque ficar acordado demanda mais energia. Porém, mesmo com o maior gasto energético, acabamos comendo mais do que devemos, e por isso engordamos.

No estudo também foi constatado que, durante os finais de semana em que se pode dormir à vontade, o consumo de energia em lanches noturnos cai. Porém, nos dias seguintes a esse final de semana, a alteração na rotina do sono desregula o relógio biológico e o consumo de comida aumenta novamente. Por isso, descansar no final de semana provavelmente não irá ajudar a controlar a fome à noite se você dorme mal durante semana.

Entretanto, isso não significa que dormir nove horas por noite é a solução para se ter uma dieta de sucesso. Manter o peso ideal de forma saudável exige vários hábitos, como fazer exercícios físicos e ter uma dieta balanceada. Ou você pensou que podia emagrecer só dormindo?

Para saber mais:
Depner, C.M., Melanson, E.L., Eckel, R.H., Snell-Bergeon, J.K., Perreault, L., Bergman, B.C., Higgins, J.A., Guerin, M.K., Stothard, E.R., Morton, S.J., Wright, K.P., 2019. Ad libitum Weekend Recovery Sleep Fails to Prevent Metabolic Dysregulation during a Repeating Pattern of Insufficient Sleep and Weekend Recovery Sleep. Curr. Biol. 29, 957–967.e4. https://doi.org/10.1016/j.cub.2019.01.069
Kantermann, T., 2019. Sleep: Never Wasted but Often Too Short. Curr. Biol. 29, R207–R209. https://doi.org/10.1016/j.cub.2018.12.030


Por: Maria Laura
marialgk@gmail.com
Estudante de Graduação em Ciências Biológicas no Instituto de Biociências de Botucatu - UNESP, com período de Intercâmbio na Universidade de Glasgow. Realiza pesquisa sobre Biologia Molecular do músculo no Departamento de Morfologia do IBB-UNESP.
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