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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Muito além dos 5Rs



Como inserir conceitos e discussões sobre sustentabilidade em 120 horas de carga horária anual de Ciências? Esta pergunta norteia meu planejamento anual como professora do sétimo ano do ensino fundamental de uma Unidade de Ensino Básica da Zona Rural de São Luís, Maranhão. Em verdade, os conteúdos e habilidades exigidos nesta série são propícios à reflexão sobre sustentabilidade, embora muitos professores sigam baseando-se apenas em livros didáticos e acabem por marginalizar questões ambientais importantes, a fim de finalizar os capítulos do livro e cumprir compromissos institucionais. Neste texto pretendo mostrar como associar questões de sustentabilidade aos conteúdos previstos no currículo, com base no trabalho desenvolvido por mim em 2018.
O currículo do sétimo ano abrange interações ecológicas, biomas, evolução, taxonomia, sistemática e domínios dos seres vivos, perfazendo quantidade considerável de conceitos e processos. Nas aulas sobre biomas é possível abordar mais do que fitofisionomias e tocar nas feridas abertas das novas fronteiras agrícolas, discutir o potencial farmacológico e a biopirataria, desmitificar oconhecimento tradicional, conhecer aluta de ambientalistas, ribeirinhos, indígenas e quilombolas para a manutenção do espaço frente às investidas ainda colonizadoras e destrutivas, e muito mais. Durante a celebração da Semana do Meio Ambiente, em junho, pode-se discutir a relação entre sustentabilidade e o dia a dia, com temas tão variados quanto minimalismo, veganismo, economia circular, obsolescência programada e Acordo de Paris (Fig. 1). É aconselhável propor um desafio a cada aula, baseado nas discussões do dia: Quantos dias você consegue ficar sem usar copo plástico? Quem consegue evitar o chiclete? Quantos de vocês conseguirão ir ao mercado e usar caixas de papelão? E, além disso, propor pesquisas como: Que indústrias praticam logística reversa? Qual o consumo de água do agronegócio? Quantos agrotóxicos são permitidos pelo governo brasileiro?
Fig. 1. Países de acordo com as metas do Acordo de Paris, onde é possível observar o Brasil como país altamente insuficiente (vermelho).  Em cinza: países criticamente insuficiente; em vermelho altamente insuficiente; em laranja: países insuficiente; em amarelo: 2ºC compatível e em verde: 1,5ºC Acordo de Paris compatível. Adaptado: https://climateactiontracker.org/

A conexão com a terra pode ser desenvolvida nos capítulos sobre plantas: Aos alunos são apresentados os fios condutores da humanidade, todos ligados ao plantio, irrigação, conhecimento dos astros, solo e ciclos da biosfera. A aula de revolução neolítica pode ter parte prática, com estudantes pisando no chão, cavando canteiros, removendo resíduos da área de plantio, calculando quantidade de terra, água e adubo. O cuidado com a terra desconecta a criança nascida no mundo digital dos algoritmos e mensagens instantâneas e desenvolve coordenação motora, paciência e trabalho em equipe. Quantas vezes o sinal do fim do dia escolar tocou e alguém foi nos buscar na horta, pois perdemos o horário?
A inserção desses temas também preza pelo desenvolvimento de potencialidades em cada estudante: Plantas são desenhadas para compreensão de suas partes, e as aulas de plantio e cuidado da horta podem conter música local, dança e alongamentos. Por aqui os estudantes fizeram a prova escrita (infelizmente ainda obrigatória no sistema municipal de ensino) como uma gincana, e precisaram identificar nomes de plantas nas músicas de Geraldo Azevedo e Gilberto Gil. Os bons resultados foram imediatos: estudantes com grande número de faltas, desinteressados e com notas baixas passaram a comparecer e participar das atividades com afinco, melhorando seu desempenho e autoestima. A conexão com a terra se fez sentir também na família, e foi um prazer enorme escutar de alguns pais que as crianças estavam mais calmas e centradas; que uma estudante plantou tomates para toda a vizinhança, que um aluno trocava suas pimentas malagueta com as mangas do vizinho, e que girassóis no quintal eram agora uma visão comum. Um menino plantou maracujás nas grades da janela, e a mãe dizia “agora ele não para mais, é planta pra todo lado! Nunca mais faltou fruta lá em casa”.
A sustentabilidade perpassa cada aspecto de nossas vidas, e, portanto, sua inserção no dia a dia escolar traz também a necessidade de discussões sobre economia, sociedade e política. Aos alunos permite-se debater sobre o desenvolvimento, consumo e Legislação, ensinando-lhes sobre o papel do Estado e seus agentes, bem como da sociedade civil e mercado. Tal abrangência é importante, pois é preciso conhecer e reconhecer tanto o aspecto individual da sustentabilidade quanto o coletivo, notadamente o papel de grandes empresas e governos no atual cenário de desenvolvimento. Essa visão se faz crucial quando novos desafios se apresentam: recebemos a notícia de que o novo Plano Diretor de São Luís pretende transformar 40% da área rural em área industrial, mesmo com tantos dados sobre poluição, ilhas de calor, emissões de carbono e bem estar coletivo. Perder o fervento, com suas nascentes? Perder o Maracanã e suas juçaras? Perder o Cajueiro, o Quebra-pote? A realidade da Zona Rural será afetada diretamente, e o estudante precisa, portanto, saber quem são os responsáveis por cada decisão voltada ao ambiente, sejam eles empresas, políticos ou sociedade civil. É preciso empoderar crianças para que sejam atores ativos nas discussões de seu território e possam, com propriedade, argumentar a favor do desenvolvimento sustentável e do bem estar da população.
Alguns dizem que este é um fardo demasiadamente pesado às crianças de apenas onze anos, mas eu discordo: Quem melhor para discutir sustentabilidade do que os herdeiros do planeta? É preciso que eles sintam urgência, alarme, preocupação, já que o último relatório do IPCC alerta claramente que uma mudança nos rumos econômicos globais é necessária, porém improvável, e que se continuarmos nesse ritmo chegaremos a situações de genocídio climático em um futuro próximo. Enquanto a propaganda pede que o banho seja mais curto, que a luz seja apagada, que a calçada seja varrida, enquanto o livro didático arranha a superfície do tema com ações individuais e seus 3, 5 e 7 Rs, perde-se tempo e recursos para fiscalizar os grandes responsáveis pela tragédia global de extinções, desmatamento e mudanças climáticas, e nós a assistimos passivamente, preocupados com provas, índices acadêmicos, horários e reprovações. Nossa experiência em 2018 mostra que é possível alcançar bons resultados acadêmicos sem abrir mão do senso crítico, debates, atividades práticas, pés de tomate, girassóis e maracujás na janela. Resta que cada professor de Ciências tome pra si mais essa responsabilidade: A de superar o discurso do livro didático e explorar as fronteiras da sustentabilidade na realidade do estudante.

Sobre a autora:

Leila Figueiredo de Almeida Silva é mestre em diversidade e conservação nos trópicos pela UFAL, Alagoas, e graduada em ciências biológicas pela UFMA, Maranhão. Atualmente é professora concursada da rede municipal de ensino de São Luís-MA. Meus interesses de pesquisa são sustentabilidade e etnobiologia.


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