Aba


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Muito além dos 5Rs



Como inserir conceitos e discussões sobre sustentabilidade em 120 horas de carga horária anual de Ciências? Esta pergunta norteia meu planejamento anual como professora do sétimo ano do ensino fundamental de uma Unidade de Ensino Básica da Zona Rural de São Luís, Maranhão. Em verdade, os conteúdos e habilidades exigidos nesta série são propícios à reflexão sobre sustentabilidade, embora muitos professores sigam baseando-se apenas em livros didáticos e acabem por marginalizar questões ambientais importantes, a fim de finalizar os capítulos do livro e cumprir compromissos institucionais. Neste texto pretendo mostrar como associar questões de sustentabilidade aos conteúdos previstos no currículo, com base no trabalho desenvolvido por mim em 2018.
O currículo do sétimo ano abrange interações ecológicas, biomas, evolução, taxonomia, sistemática e domínios dos seres vivos, perfazendo quantidade considerável de conceitos e processos. Nas aulas sobre biomas é possível abordar mais do que fitofisionomias e tocar nas feridas abertas das novas fronteiras agrícolas, discutir o potencial farmacológico e a biopirataria, desmitificar oconhecimento tradicional, conhecer aluta de ambientalistas, ribeirinhos, indígenas e quilombolas para a manutenção do espaço frente às investidas ainda colonizadoras e destrutivas, e muito mais. Durante a celebração da Semana do Meio Ambiente, em junho, pode-se discutir a relação entre sustentabilidade e o dia a dia, com temas tão variados quanto minimalismo, veganismo, economia circular, obsolescência programada e Acordo de Paris (Fig. 1). É aconselhável propor um desafio a cada aula, baseado nas discussões do dia: Quantos dias você consegue ficar sem usar copo plástico? Quem consegue evitar o chiclete? Quantos de vocês conseguirão ir ao mercado e usar caixas de papelão? E, além disso, propor pesquisas como: Que indústrias praticam logística reversa? Qual o consumo de água do agronegócio? Quantos agrotóxicos são permitidos pelo governo brasileiro?
Fig. 1. Países de acordo com as metas do Acordo de Paris, onde é possível observar o Brasil como país altamente insuficiente (vermelho).  Em cinza: países criticamente insuficiente; em vermelho altamente insuficiente; em laranja: países insuficiente; em amarelo: 2ºC compatível e em verde: 1,5ºC Acordo de Paris compatível. Adaptado: https://climateactiontracker.org/

A conexão com a terra pode ser desenvolvida nos capítulos sobre plantas: Aos alunos são apresentados os fios condutores da humanidade, todos ligados ao plantio, irrigação, conhecimento dos astros, solo e ciclos da biosfera. A aula de revolução neolítica pode ter parte prática, com estudantes pisando no chão, cavando canteiros, removendo resíduos da área de plantio, calculando quantidade de terra, água e adubo. O cuidado com a terra desconecta a criança nascida no mundo digital dos algoritmos e mensagens instantâneas e desenvolve coordenação motora, paciência e trabalho em equipe. Quantas vezes o sinal do fim do dia escolar tocou e alguém foi nos buscar na horta, pois perdemos o horário?
A inserção desses temas também preza pelo desenvolvimento de potencialidades em cada estudante: Plantas são desenhadas para compreensão de suas partes, e as aulas de plantio e cuidado da horta podem conter música local, dança e alongamentos. Por aqui os estudantes fizeram a prova escrita (infelizmente ainda obrigatória no sistema municipal de ensino) como uma gincana, e precisaram identificar nomes de plantas nas músicas de Geraldo Azevedo e Gilberto Gil. Os bons resultados foram imediatos: estudantes com grande número de faltas, desinteressados e com notas baixas passaram a comparecer e participar das atividades com afinco, melhorando seu desempenho e autoestima. A conexão com a terra se fez sentir também na família, e foi um prazer enorme escutar de alguns pais que as crianças estavam mais calmas e centradas; que uma estudante plantou tomates para toda a vizinhança, que um aluno trocava suas pimentas malagueta com as mangas do vizinho, e que girassóis no quintal eram agora uma visão comum. Um menino plantou maracujás nas grades da janela, e a mãe dizia “agora ele não para mais, é planta pra todo lado! Nunca mais faltou fruta lá em casa”.
A sustentabilidade perpassa cada aspecto de nossas vidas, e, portanto, sua inserção no dia a dia escolar traz também a necessidade de discussões sobre economia, sociedade e política. Aos alunos permite-se debater sobre o desenvolvimento, consumo e Legislação, ensinando-lhes sobre o papel do Estado e seus agentes, bem como da sociedade civil e mercado. Tal abrangência é importante, pois é preciso conhecer e reconhecer tanto o aspecto individual da sustentabilidade quanto o coletivo, notadamente o papel de grandes empresas e governos no atual cenário de desenvolvimento. Essa visão se faz crucial quando novos desafios se apresentam: recebemos a notícia de que o novo Plano Diretor de São Luís pretende transformar 40% da área rural em área industrial, mesmo com tantos dados sobre poluição, ilhas de calor, emissões de carbono e bem estar coletivo. Perder o fervento, com suas nascentes? Perder o Maracanã e suas juçaras? Perder o Cajueiro, o Quebra-pote? A realidade da Zona Rural será afetada diretamente, e o estudante precisa, portanto, saber quem são os responsáveis por cada decisão voltada ao ambiente, sejam eles empresas, políticos ou sociedade civil. É preciso empoderar crianças para que sejam atores ativos nas discussões de seu território e possam, com propriedade, argumentar a favor do desenvolvimento sustentável e do bem estar da população.
Alguns dizem que este é um fardo demasiadamente pesado às crianças de apenas onze anos, mas eu discordo: Quem melhor para discutir sustentabilidade do que os herdeiros do planeta? É preciso que eles sintam urgência, alarme, preocupação, já que o último relatório do IPCC alerta claramente que uma mudança nos rumos econômicos globais é necessária, porém improvável, e que se continuarmos nesse ritmo chegaremos a situações de genocídio climático em um futuro próximo. Enquanto a propaganda pede que o banho seja mais curto, que a luz seja apagada, que a calçada seja varrida, enquanto o livro didático arranha a superfície do tema com ações individuais e seus 3, 5 e 7 Rs, perde-se tempo e recursos para fiscalizar os grandes responsáveis pela tragédia global de extinções, desmatamento e mudanças climáticas, e nós a assistimos passivamente, preocupados com provas, índices acadêmicos, horários e reprovações. Nossa experiência em 2018 mostra que é possível alcançar bons resultados acadêmicos sem abrir mão do senso crítico, debates, atividades práticas, pés de tomate, girassóis e maracujás na janela. Resta que cada professor de Ciências tome pra si mais essa responsabilidade: A de superar o discurso do livro didático e explorar as fronteiras da sustentabilidade na realidade do estudante.

Sobre a autora:

Leila Figueiredo de Almeida Silva é mestre em diversidade e conservação nos trópicos pela UFAL, Alagoas, e graduada em ciências biológicas pela UFMA, Maranhão. Atualmente é professora concursada da rede municipal de ensino de São Luís-MA. Meus interesses de pesquisa são sustentabilidade e etnobiologia.


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terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

CSI Pantera Negra: as cachoeiras de Wakanda podem ser reais?


Se você viu Pantera Negra, indicado ao Oscar 2019 em diversas categorias (inclusive de melhor filme), provavelmente ficou maravilhado com Wakanda. Os cenários da cidade são incríveis, principalmente nos momentos em que a natureza se mostra tão conectada com a tecnologia futurística daquela nação. As cenas são tão belas que fica difícil de acreditar que aquelas paisagens podem ser reais. Mas, de certa forma, são.


Algumas das cenas de cachoeiras adicionadas no filme foram filmadas nas Cataratas do Iguaçu, que ficam na fronteira entre o Brasil e a Argentina! Elas já foram cenários para diversas produções de Hollywood, como Tarzan (1966), Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008) e As Tartarugas Ninja (2016). Não esperávamos menos de uma das Sete Maravilhas Naturais do Mundo (clique aqui para ver todas!), não é mesmo? Mesmo com toda a tecnologia de imagens geradas por computadores, a natureza ainda é a nossa fonte básica para a produção de imagens espetaculares. E se nem mesmo a tecnologia atual produz um cenário deslumbrante como este, como é que o ambiente o fez?


Essa história começa há muitos anos atrás, mais precisamente no Cretáceo. Nesse período, houve a separação das terras sul-americanas das africanas e muito derramamento de lava na superfície. Isso acabou criando diferentes camadas na terra, como se fosse um bolo, explicando o motivo pelo qual as Cataratas são em degraus!




Não podemos deixar de falar de um ponto alto sobre as “cachus”: a água. Sem ela não haveria Cataratas para se escrever sobre, aliás. Estas ficam na cidade de Foz do Iguaçu porque o Rio Iguaçu nasce próximo ao litoral do estado e corre em direção ao interior, desaguando no Rio Paraná.

Essa movimentação ocorre dessa forma por conta de outro antigo movimento geológico. Quando surgiram as Cordilheiras dos Andes, as movimentações das placas tectônicas elevaram o leste do continente, fazendo com que os rios se direcionassem de leste (mais alto) para oeste (mais baixo). Quando as águas do Iguaçu encontraram as do Paraná, o desnível entre eles era muito grande. Estavam formadas as primeiras Cataratas!


Porém, isso foi há mais de um milhão de anos. A força das águas das Cataratas é tão intensa que provoca a erosão da sua borda em mais de um centímetro por ano, e se considerarmos que isso ocorre há mais de um milhão de anos, temos o seguinte resultado: atualmente as Cataratas estão distantes 21 quilômetros da foz do Rio Iguaçu!

No canto esquerdo da imagem, aparece o encontro do Rio Iguaçu com o Rio Paraná. As Cataratas foram lá no passado, mas hoje se encontram mais acima do Rio Iguaçu (centro da imagem).

No fim das contas, os movimentos tectônicos acabaram por construir um dos maiores destinos turísticos do Brasil, em uma região de tamanha beleza que ainda a usamos para construir nossos filmes. Aparentemente, precisamos de mais um tempo para aprender a construir nossos cenários, já que a Terra está um pouco adiantada na disciplina.


Quer saber mais?
http://www.mineropar.pr.gov.br
https://blog.chicorei.com/pantera-negra-o-mundo-de-wakanda/
https://comicherald.tumblr.com/post/182217255846
https://www.audleytravel.com/ie/argentina/itinerary-ideas
https://saopaulosemmesmice.com.br/cataratas-do-iguacu-lado-brasileiro/
https://cdn.zmescience.com/wp-content/uploads/2016/09/2000px-Cratons_West_Gondwana.svg.png#content
http://outrageografia.blogspot.com/2012/06/relevo-do-parana.html

Por: Felipe Pereira
pereira.felipe131@gmail.com




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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Peculiaridades Elementares


Quem não tem aquele amigo esquisito único, capaz de façanhas estranhas inimagináveis como conseguir lamber o próprio cotovelo, mexer as orelhas sem as mãos ou colocar o pé atrás da cabeça? Embora não pareça à primeira vista, os elementos químicos e seus compostos também realizam proezas um tanto curiosas. Será que alguma delas supera a habilidade desse amigo?
Químicos são apenas muitos átomos que falam sobre átomos.

Nave espacial”: o hidrogênio (H) é o elemento mais abundante de todos, representando 89% dos átomos do universo. Entretanto, existe muito pouco hidrogênio livre na Terra, já que as moléculas de H2 são muito leves e movem-se a velocidades altíssimas, podendo muitas vezes escapar do planeta e de sua gravidade. O “segredo”, então, é se ligar a átomos mais pesados, como o oxigênio (O), para “ancorar”, o que explica por que a maior parte do H é encontrada aqui na forma de água (H2O).
 “Ao infinito e além”: o hélio(He) é o segundo elemento mais abundante do universo, embora seja raro no nosso planeta, pois, além de também ser projetado para fora da atmosfera como o H2, não forma compostos, que ajudariam em sua “ancoragem”
 “Fica frio”: o hélio também tem o mais baixo ponto de ebulição (isto é, o ponto da temperatura na qual a substância passa do estado líquido para o gasoso),  de todas as substâncias (-269 ◦C, aproximadamente) e não se solidifica em nenhuma temperatura, a não ser que seja aplicada pressão para manter juntos seus átomos leves e móveis.
Inception”: a ação combinada do sódio(Na) e do potássio(K) é fundamental para que ocorra a transmissão de sinais pelos neurônios (tipo de células do sistema nervoso), o que significa que para aprender sobre o sódio e o potássio é necessário ter esses elementos literalmente no cérebro.
Do vinho para a água”: antigamente o alumínio(Al) era um metal de difícil extração, raro e caro, simbolizando poder e tecnologia. Desta forma foi utilizado em talheres da nobreza medieval e até em uma caríssima ponta no Monumento de Washington. Porém, em 1886, Charles Martin Hall, químico americano de apenas 23 anos descobriu que ao misturar o mineral criolita, com alumina (principal fonte do alumínio), obtinha uma mistura que fundia em uma temperatura muito mais econômica (950ºC), em vez dos 2050ºC da alumina pura. Como resultado, o metal passou a ser produzido e utilizado em massa, possuindo um valor de mercado banal.
Não toca em mim”: A jeito mais comum de se obter fósforo(P) é sob a forma de fósforo branco (P4), um composto molecular sólido, tóxico e muito reativo que se inflama em contato com o ar. Para uso cotidiano este composto é submetido ao aquecimento na ausência de ar gerando a forma alotrópica (ou seja, uma outra substância formada apenas de átomos de fósforo, mas com características químicas e estruturais diferentes do fósforo vermelho), menos reativa, mas inflamável por atrito, o que faz com que seja colocada nas superfícies das caixas de fosforo. Assim sendo, o palito de fósforo, normalmente, contém apenas um material inflamável, enquanto que o fósforo(P) propriamente dito, permanece na borda da caixa.
Util e perigoso”: O flúor(F) é um gás reativo, quase incolor e corrosivo, sendo utilizado na indústria, principalmente para gerar hexafluoreto de urânio (UF6), usado no processamento do combustível nuclear ou na produção de hexafluoreto de enxofre (SF6), inserido em equipamentos elétricos.
Água salgada”: Embora o flúor(F) seja mais abundante que o cloro(Cl) na crosta terrestre, os oceanos são salgados com cloretos (como o cloreto de potássio-KCl-ou o cloreto de sódio-NaCl) ao invés de fluoretos. Isto ocorre em parte devido ao fato dos íons fluoreto (F¬-) serem muito pequenos, o que aumenta sua densidade de carga, e, consequentemente, a força de suas ligações, acarretando em altas entalpias de rede, relacionada a estabilidade estrutural do material. Desta maneira, compostos de fluoreto (F-) são menos solúveis do que compostos com cloreto(Cl-). Como resultado, os fluoretos são menos solúveis do que os demais halogenetos ( íons dos elementos halogênios, como F-,Cl- e Br-).
Nem tão nobre assim”: sob condições especiais de temperatura e pressão, os gases nobres, como o xenônio(Xe), famosos por sua inércia (baixa tendência a reagir com outros átomos), podem se tornar muito reativos gerando compostos como hexafluoro-platinato de xenônio (XePtF6) e tetrafluoreto de xenônio (XeF4)
O perigo vem de baixo”: O gás radioativo radônio(Rn) emerge do solo como um produto dos processos radioativos que acontecem nas profundezas da Terra, sendo responsável por 55% da radiação que o ser humano recebe ao longo da sua vida e possuindo a quinta maior reserva mundial no Brasil. Existe certa preocupação  pelo seu acúmulo em construções, porque os produtos de seu decaimento nuclear (transformação de um átomo em um de outro elemento através da emissão de partículas radioativas) podem levar a perigosas mutações, gerando câncer nos pulmões de quem os inala.
Super audição”: O titânio(Ti) forma uma série de óxidos conhecidos como titanatos. Em especial um desses compostos, o titanato de bário (BaTiO2), adquire carga elétrica quando sofre distorções mecânicas (como vibrações, por exemplo), podendo ser utilizado para a detecção de sons sob a água em um sonar de submarino.
Coma feijão”: O ferro(Fe) é o elemento mais abundante dentro do nosso planeta (compondo 80% do núcleo da Terra) e o segundo mais abundante na crosta terrestre (sendo o primeiro, o alumínio). O corpo de um humano adulto saudável contém cerca de 3 gramas de ferro, principalmente na forma de hemoglobina. Cerca de 1 miligrama é perdido diariamente (pelo suor, fezes, e cabelo), e as mulheres perdem em torno de 20mg durante a menstruação. Por isso, ferro deve ser ingerido diariamente para manter o equilíbrio.
Vintém”: As moedas em nossa carteira são formadas por uma liga de cuproníquel, cuja composição é de cerca de 25% de níquel(Ni) e 75% de cobre(Cu)
Ajuda cósmica”: Cerca de 70% do suprimento de ferro(Fe) e níquel(Ni) do Ocidente vêm dos minérios de sulfetos de ferro e de níquel trazidos à superfície há dois bilhões de anos, pelo impacto de um enorme meteoro em Sadbury, Ontário, no Canadá.
Sangue Real”: No polvo e em alguns artrópodes (como aranhas e caranguejos), o cobre(Cu) substitui a função desempenhada pelo ferro nos mamíferos de auxiliar no transporte de oxigênio. Como resultado, o sangue desses animais é azul ou verde, e não vermelho.
Alto rendimento”: O ouro(Au) é tão maleável que com apenas 1 grama é possível esticá-lo, formando uma folha que cobre uma área de cerca de 1m2 ou transformá-lo em um fio de mais de 2km de comprimento.
Além do tempo”: Um tipo radioativo do carbono(C), conhecido como carbono-14(14C), é formado na atmosfera pelo bombardeamento de nêutrons do espaço sobre o nitrogênio presente nessa região. Ele é fixado, na forma de gás carbônico (CO2) na fotossíntese de plantas e entra na cadeia alimentar assim como átomos de carbono não radioativos, chamados de carbono-12(12C). Os seres vivos, então, tendem a absorver e acumular o 14C ao longo da sua vida.
Assim, quando o corpo morre, ele deixa de acumular carbono. Entretanto, os núcleos de carbono-14 no organismo degradam-se com o passar dos séculos, diminuindo a relação entre carbono-14 e carbono-12. Portanto, esta relação está ligada ao tempo decorrido após a morte do indivíduo e, por isso, pode ser usada para estimar a sua idade.
Combustível radioativo”: A fissão nuclear (isto é a “quebra” de um núcleo em outros núcleos ou partículas menores) de 1,0g de urânio-235 (235U) libera cerca de 73x109Joules (1,3 milhão de vezes mais energia do que seria produzida pela queima de 1,0g de metano(CH4), o componente principal do gás natural.
Atividade humana”: Dos 118 elementos descritos na tabela periódica, 26 são artificiais: o ser humano criou cerca de 22% dos elementos conhecidos!
 “Durma com essa”: O hidrogênio (H) e o hélio (He) foram gerados poucos segundos depois do “Big Bang”. Todos os demais elementos descendem desses dois, como resultados de reações nucleares nas estrelas (em um processo chamado nucleossíntese), o que implica que cada átomo no nosso organismo e no mundo como um todo foi PRODUZIDO NO ESPAÇO. É por isso que Carl Segan, o astrônomo e astrofísico mundialmente conhecido, esta correto em afirmar que somos formados por poeira estelar!



Veja mais em:
https://elements.wlonk.com/index.htm
https://www.ptable.com/?lang=pt#Writeup/Wikipedia

Referências:
ATKINS, P.W.; JONES, Loretta. Princípios de química: questionando a vida moderna e o meio ambiente. 5.ed. Porto Alegre: Bookman, 2006. p.611 – 728.
Consequências do Gás Radônio na Saúde Humana. O Arquivo. Disponível em: http://www.oarquivo.com.br/variedades/qualidade-de-vida/4105-consequências-do-gás radônio-na-saúde-humana. Acesso em: 16 fev. 2019.
FOGAÇA, Jennifer Rocha Vargas. "O que é Carbono 14?"; Brasil Escola. Disponível em . Acesso em 16 fev. 2019;
KULKARNI, Mayuri. Synthetic Elements (em inglês). Disponível em: . Acesso em: 16 fev. 2019.

Sobre o autor:

Matheus Salgado D.N.Saula é estudante de Graduação em Química pelo Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP). Realiza pesquisa sobre materiais com luminescência persistente no Laboratório dos Elementos do Bloco-f (Leb-f).

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terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Novo tipo de tecido se adapta à temperatura


A moda verão e a moda inverno podem estar com seus dias contados. Isso porque no futuro o seu guarda-roupa poderá conter roupas feitas com tecidos que se adaptam ao frio e ao calor que o usuário está sentindo.


Cientistas da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, e da Universidade Xiamen, na China, produziram um tecido que alterna entre respirável e isolante de acordo com a ocasião. A variação se dá através da percepção do tecido sobre a quantidade que seu usuário está suando. Os autores do trabalho dizem que esse material pode ser muito útil para roupas esportivas e para roupas de bebês, cujos usuários sofrem com mudanças de temperatura constantes.

Amostra de tecido feito com fio especial sensível à umidade torna-se mais isolante ou respirável, dependendo de quanto você está suando. Fonte: Faye Levine/Universidade de MarylandAdicionar 
O artigo publicado na revista Science, mostra ainda que o tecido é  feito a partir de fios compostos de muitas fibras de polímero revestidas em minúsculos nanotubos de carbono. Esses nanotubos de carbono são 100 mil vezes mais finos que um fio de cabelo e invisíveis até para microscópios. Quanto mais próximos esses nanotubos estiverem um do outro, melhor o tecido conduz o calor que o corpo de uma pessoa perde como radiação infravermelha.

Quando o temperatura abaixa, as fibras se afrouxam e se enrolam, retendo grande parte do calor irradiado pela pessoa que esteja usando o tecido. Caso a pessoa volte a suar, a umidade faz com que as fibras de polímero se comprimam em feixes apertados. Isso aproxima os nanotubos de carbono das fibras vizinhas, tornando o material mais respirável.

O processo é simples. Como vemos na imagem à esquerda, quando está frio as fibras se afrouxam, ajudando a reter a radiação emitida pelo usuário. Na imagem à direita é possível ver a disposição das fibras quando está calor, comprimidas e facilitando o escape da radiação. X.A. Zhang et al. 2019, Science.
O aumento da umidade do ambiente em contato com o tecido pode aumentar a liberação de calor em até 35%. Isso significa que em um dia que esteja frio e úmido o usuário irá perder calor mesmo que não esteja suando, o que pode se tornar um problema. É por isso que Zhang e seus colaboradores já estão pensando na possibilidade da criação de um tecido que responda diretamente as mudanças de temperatura, para que ele possa mostrar variação de acordo com a temperatura da pele de uma pessoa.   

Citação: X.A. Zhang et al. Dynamic gating of infrared radiation in a textile. Science. Vol. 363, February 8, 2019, p. 619. doi:10.1126/science.aau7742.


Sobre o autor:

Diego Henrique Mirandola Dias Vieira é biólogo, mestre e doutorando em zoologia pelo Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu. Queria ser jogador de futebol, mas escolheu a profissão que tem maior salário. Faz pesquisa na área de parasitologia de peixes.

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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Brasil: líder em crimes ambientais?

(Imagem: Veja)

No passado o Brasil foi um grande atuante em eventos internacionais sobre a defesa do meio ambiente, sua importância era tanta que a cidade do Rio de Janeiro foi cede de duas conferências globais sobre o tema, uma em 1992 e a outra mais recente em 2012 intitulada como Rio+20. Apesar de um histórico teoricamente participativo nas questões ambientais, a mudança de governo e denúncias sobre crimes ambientais no país, mostram uma perspectiva diferente da imagem transmitida para o mundo.

A definição de crimes ambientais pode mudar de acordo com o pesquisador, termos como Green Crime (Crime Verde) e Ecocide são amplamente utilizados para se referir ao assunto. Em linha gerais crimes ambientais são ações ou omissões que danificam ou ameaçam a segurança e saúde dos seres vivos e da dinâmica do ambiente. Alguns autores adicionam que esse crime deve ser consequência de uma atividade que vise algum tipo de lucro. Existem seis categorias de crimes ambientais: (1) crimes contra a vida-selvagem, (2) despejo ilegal de lixo, (3) crimes relacionados às mudanças climáticas, (4) produção de poluentes, (5) pesca ilegal, não-autorizada ou não-relatada e (6) extração e comércio ilegal de madeira.

De acordo com a o Artigo 29 da Lei de Crimes Ambientais (9.605 /98), é considerado crime “matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida”. Mesmo com uma legislação que inclui penalidade para crimes ambientais, um relatório da ONU juntamente com o IBAMA mostra que 15% de todo o tráfico de animais silvestres no mundo ocorre em território brasileiro. Um descuido na redação da lei impede um julgamento correto de diversos traficantes, pois a lei não inclui a palavra tráfico como um crime ambiental. A pena para quem pratica o tráfico é multa de 518 a 600 reais, e quem comete o crime ambiental de acordo com a lei, além da multa, pode cumprir pena de seis meses a um ano. Medidas ineficazes, uma vez que há relatos de pessoas que cumprem a pena e continuam com a atividade e o valor da multa é simbólico quando comparado com o lucro que os traficantes conseguem.

(Imagem: Ibama)

Existe um grande problema com o despejo de resíduos derivados de atividades como a mineração, pois diferentes países têm noções divergentes sobre o que seria o correto descarte dos dejetos. Uma questão internacional sobre o tema envolve países desenvolvidos que pagam países em desenvolvimento para receber o seu lixo, sem infraestrutura para o tratamento do lixo, os países mais pobres se deparam com um grande problema ambiental. No Brasil, o despejo de lixo de forma inapropriada e sem tratamento prévio é proibido e classificado como crime ambiental desde 1998. Porém, um relatório da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) divulgado em 2017, mostrou que 18% do lixo total produzido pelo país é descartado de forma inadequada. E o pior, esse número vem crescendo a cada ano, em 2017 foram produzidas 214,8 toneladas de lixo, 1% a mais que o ano de 2016. Iniciativas que envolvam coleta seletiva e reciclagem são extremamente importantes para a redução desse crime ambiental. Infelizmente 1,6 mil cidades do país não participam de nenhum programa a respeito. 

Crimes envolvendo mudança climática e a supressão da floresta amazônica estão intimamente relacionados. Existem predições que sugerem que se a floresta amazônica for totalmente desmatada haverá um aumento da temperatura de aproximadamente 1ºC. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o desmatamento da Amazônia corresponde a 7.900 km2 de corte raso no período de agosto de 2017 a julho de 2018, um aumento de 13,72% ao período anterior. Um dado preocupante é que houve um aumento de 124% do desmatamento de áreas pertencentes aos indígenas no início desse ano, ou seja, além de crime ambiental, a invasão das terras indígenas é um crime contra os direitos humanos e cabe ao governo tomar as devidas providências. 

Contra a pesca ilegal há um artigo especifico na legislação brasileira, Artigo 34 da Lei de Crimes Ambientais (9.605 /98). O artigo deixa claro a proibição da pescaria durante a piracema e espécies protegidas ou com tamanho inferior ao permitido. Apesar de crime, a pratica ainda ocorre em alguns estados brasileiros, principalmente no Nordeste. A ONU conclui que há um prejuízo mundial de US$23 bilhões devido a pratica ilegal. No ano de 2018 a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) divulgou a criação de uma rede de países latino-americanos que participam do combate a pesca ilegal. O Brasil não é um dos participantes. 

Por fim, temos a produção de poluentes, que compreende um grande espectro de atividades, como o descarte de químicos em rios, emissão de gases tóxicos até o despejo de rejeitos de minérios em cidades e rios. No dia 25 de janeiro deste ano tivemos o rompimento da barragem de Brumadinho que atolou o ecossistema. Imerso no mar de lama, há vidas perdidas, tanto humanas como fauna e flora. Em novembro de 2015 um acidente semelhante ocorreu em Mariana e até hoje a população e o meio ambiente sofrem com as consequências do despejo dos rejeitos. Por serem pobres em matéria orgânica e proporcionarem uma mudança de pH, os rejeitos afetam a constituição do solo, quedificilmente poderá ser usado para o crescimento de uma nova vegetação, tanto para a produção alimentícia quanto para o reflorestamento do local. Além disso, sem vegetação natural a biodiversidade do local desaparecerá. Outro ponto importante é composição dessa lama.Segundo os donos da Samarco (empresa responsável pela barragem que rompeu em Mariana), ela era composta apenas de ferro, magnésio, areia e água. Porém um estudo feito pela Marinha do Brasil rastreou traços de arsênio, manganês, chumbo e selênio, todos compostos tóxicos. 
(Imagem: Exame)

Após o caso de Mariana e agora de Brumadinho, acredita-se as autoridades tomaram medidas que evitem a ocorrência desses crimes. Mas infelizmente após o acidente de Mariana, o Congresso aprovou a PEC 65/2012 que flexibiliza a construção de empresas sem a devida atenção aos impactos ambientais. Ainda para ser votada pelo Senado, a PL 645/2015 também tem como objetivo o amortecimento de medidas que impedem construções que apresentem riscos ao meio ambiente. 
É importante que saibamos reconhecer um crime ambiental e trata-lo como tal. Direta ou indiretamente todos os exemplos citados influenciam em nossas vidas, seja ela na qualidade ou na questão econômica. Sendo assim, a escolha de políticos que estejam atentos a esses problemas e que desejam combate-los é essencial para preservarmos o que o Brasil tem de melhor, a sua diversidade. 


Referências:
O texto foi baseado em um artigo e um livro, as demais informações foram obtidas de relatórios ou noticiários.

Demais fontes:


Sobre a autora: 
Beatrice Jorge
beatriceadrianne@gmail.com
Formada em Ciências Biomédicas pela UNESP, acredita que uma das coisas mais importantes em ser cientista é divulgar seu conhecimento para todos. Atualmente atua como aluna de mestrado na UNESP, na área de Patologia.
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Minha querida pesquisa - Thiago Itiro Ibuki Kai

Desde cedo, sempre gostei da área de exatas, principalmente de Matemática. Uma das minhas maiores influências foi o método Kumon, onde aprendia e me adiantava em relação à minha série escolar. Com isso, tive facilidade nas contas por muito tempo, e então chegou a faculdade.

Falando em faculdade, atualmente estou indo para o 6º semestre de Engenharia de Controle e Automação na Unesp de Sorocaba. Bem antes disso, no ensino médio, eu cogitava prestar Engenharia de Computação, pois além de sempre jogar online no computador, eu também me interessava muito em como esses jogos eram feitos e programados. Queria conhecer cada peça do PC e suas funções. Porém, não consegui passar no vestibular no final da minha 3º série do Ensino Médio, o que me levou para a vida do cursinho. Estudei durante um semestre no cursinho até que, no meio do ano de 2016, passei na Unesp para Eng. De Controle e Automação e na UTFPR para Eng. De Computação. A dúvida foi sanada basicamente pela distância, já que o UTFPR fica em Curitiba-PR, optei por ficar em Sorocaba-SP (1 hora de viagem da minha cidade natal, Botucatu-SP).

Então começou a minha jornada na Universidade. Como todos dizem, é um ambiente de estudo diferente em relação ao Ensino Médio e cursinho. Há mais conteúdo, novas responsabilidades e uma rotina puxada. No primeiro ano, tive as matérias essenciais de engenharia, envolvendo cálculos com integrais e derivadas, programação em C++, oficinas mecânicas, química e principalmente física (mecânica, termodinâmica e ondulatória). É muito interessante rever os assuntos do ensino médio na faculdade, pois tudo que você não entendia antes, agora com o aprofundamento e novas técnicas, passa a ser esclarecido. Além disso, há aulas de laboratórios de física, onde você aplica a teoria na prática, observando o funcionamento do sistema com os próprios olhos. A partir disso, aprendi a fazer relatórios, nos quais tinha que discutir e comparar os resultados do experimento.

Figura 1: Foto tirada no laboratório de física, analisando o comportamento da onda eletromagnética.

Já o segundo ano foi o mais difícil, até agora, principalmente o 3º semestre.  Nele, cursei matérias envolvendo circuitos elétricos e digitais, eletromagnetismo, matemática aplicada à engenharia e física mecânica. Aprendi o básico de um circuito digital, como a tabela verdade e números binários e a montagem de um circuito, utilizando fontes, circuitos integrados e inúmeros componentes (Leds, diodos, resistores, capacitores, etc). Essa parte do curso, junto às aulas de programação, foram as melhores experiências que obtive na faculdade, evidenciando o meu gosto por computadores até hoje.

Figura 2: Foto de uma protoboard onde foi montado um circuito digital para mostrar os 9 dígitos decimais.

No 5º semestre, conheci o básico da eletrônica com circuitos compostos por diodos e transistores. Também foi o semestre em que me aprofundei na programação de microprocessadores, principalmente o Arduino. Com ele, realizei um projeto sobre inteligência artificial (Machine Learning), através do algoritmo Q-Learning. Esse algoritmo é capaz de resolver problemas do zero, sem nenhum dado e da maneira mais otimizada. No caso do projeto, o objetivo era que o agente encontrasse o melhor caminho de um ponto ao outro, atravessando salas. Com o ambiente pré programado e um sistema de recompensa, o agente testava vários caminhos e, então, pelos cálculos encontrava o caminho mais curto. Esse foi o meu primeiro contato com a inteligência artificial na faculdade e espero me aprofundar nessa parte do curso.

Figura 3: Foto do protótipo do projeto Q-Learning.

Sobre o autor:
Thiago Itiro Ibuki Kai 
Nascido em Botucatu-SP, tem 20 anos e atualmente faz o curso de Engenharia de Controle e Automação na Unesp-Sorocaba.

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terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Impressora 3D instantânea: estamos em Star Trek?


Que a impressão 3 D é fato e está difundida, todos já sabem. Mas será que essa tecnologia pode ser substituída por uma mais eficiente e rápida?

O processo tradicional replica objetos usando a fabricação aditiva. Essa, por sua vez, nada mais é que a construção camada a camada de um objeto em três dimensões, usando como material base um polímero. Apesar de seguirem esse mesmo princípio, existem diferenças entre a forma como as impressoras 3D o fazem e isso depende da utilização do material a ser impresso. Dependendo de sua utilização, o material impresso exige maior precisão na impressão de superfícies ou, então, precisa que a impressora consiga reproduzir objetos em escala de tamanhos variada . Os objetos impressos são extremamente diversos, vão desde pequenos chaveiros até próteses (medicina). Mesmo com toda essa inovação, as impressoras 3D ainda tem alguns desafios a conquistar e um deles é o tempo. A impressão 3D de um pequeno objeto (10 cm) pode demorar até 3 horas. Dependendo de sua complexidade geométrica e densidade, até mais.

Todavia, a novidade na impressão 3D, trazida por um estudo publicado em janeiro de 2019, promete revolucionar o processo. Os pesquisadores conseguiram realizar impressões 3D de objetos na escala de centímetros em até 120 segundos! Quase instantâneo! É nessa hora que a gente se lembra do replicador de Star Trek

Pois é, meus amigos, a nova tecnologia é baseada em tecnologias já conhecidas por nós, como a Tomografia Computadorizada e a Radioterapia de Intensidade Modulada. O novo método é chamado Litografia Axial Computadorizada (CAL, sigla em inglês) e seu princípio é a fotopolimerização. Nesta tecnologia, imagens 2 D são projetadas por um computador que emite a luz sobre um frasco em rotação. O frasco contém um hidrogel fotosensitivo e, conforme os fótons se encontram em pontos comum (enquanto o frasco está em rotação), a estrutura se solidifica. Nos pontos onde nenhum fóton se encontrou com outro, os mesmos atravessam o material e o meio permanece gelatinoso. Ao final, o objeto sólido final estará contido no frasco em meio ao gel. Para melhor entender, veja o vídeo e a ilustração abaixo (Figura 1):




Figura 1: Imagem do trabalho original ilustrando o processo de projeção da imagem no frasco em rotação (A), os componentes da impressora 3D utilizada (B), a formação do objeto imerso no hidrogel ao longo da escala de tempo (C) e as diferentes características que podem ser modificadas no objeto a ser impresso (D).

É possível, inclusive, imprimir objetos ao redor de um objeto pronto, como no caso do cabo de uma chave de fenda ao redor do metal já pronto. Até agora, esses foram os materiais impressos por essa tecnologia (Figura 2) e que mostram sua versatilidade:


Figura 2: Acima uma montagem com as fotos de objetos impressos utilizando a tecnologia CAL. Um modelo dental (A e B) com diferentes características; geometria de rede complexa (C); bola dentro de uma grade (um material suspenso em dentro de outro, letras D e E); Pontes com vãos sem suporte (F); Aviões de diferentes características nas asas (G e H); Donut macio (I e J); esfera macia (K); e componente macio com regiões convexas e curvas (L).
Sobre a autora:
Érica Ramos
erica.ramos00@gmail.com
Érica Ramos é bióloga e mestre em Ciências Biológicas (Genética) pela UNESP, apaixonada pelo tema Educação e, também, editora desta página de Divulgação Científica. No momento atua como aluna de doutorado na UNESP, na área de Genética.
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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Química, tartaruga, cebolas e lágrima


Enquanto eu assistia um programa no National Geographic, eu me surpreendi ao ver pela primeira vez uma tartaruga “chorando”.  Eu me perguntei imediatamente: “Como isso era possível e porque ocorria? Será que é verdade?”.

Figura 1 - Programa “Indomável com Felipe Andrade: Tartaruga Marinha”. Assista em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/video/tv/indomavel-com-filipe-deandrade-tartaruga-marinha

As tartarugas marinhas são répteis como o jacaré, a cobra e o lagarto. Elas têm corpo coberto de escamas duras, sangue frio, moram em locais quentes, respiram pelos pulmões e põem ovos. Mas elas “choram” como os humanos?

Após pesquisar sobre o assunto, vi que, de fato, as tartarugas marinhas liberam fluidos pelos olhos, parecidos com lágrimas. Entendi que, na verdade, a lágrima tem muito mais funções do que apenas manifestar emoções. A lágrima tem propriedades antibacterianas e representa a primeira linha de defesa contra os microrganismos. Além disso, elimina detritos e corpos estranhos com a ajuda das pálpebras. Existem testes que permitem avaliar tanto sua a quantidade, como a sua qualidade e até a sua constituição bioquímica (geralmente composta por água, sal, proteínas e gorduras).

Além da função de defesa, as tartarugas “choram” para eliminar a grande quantidade de sal do seu organismo. As lágrimas são produto de um mecanismo ativo de excreção de sal, por glândulas localizadas próximas aos olhos da tartaruga (é uma solução salina muito concentrada). Isso ocorre para facilitar a excreção do excesso de cloreto de sódio ingerido com a água e o alimento no habitat marinho, de modo a manter a homeostase (ou equilíbrio hidrossalino) do animal em relação ao meio hipertônico (a água do mar).

Já quando cortamos cebolas, produzimos rupturas no tecido vegetal que permitem que os produtos químicos normalmente mantidos separados no interior das células  se misturem uns com os outros e com o ar. Isso resulta em reações que produzem certas substâncias. Por exemplo, uma substância contendo enxofre, representada na figura 1, sofre decomposição por ação de enzimas dando origem a outra substância representada na figura 2. Este novo composto é um gás que chega rapidamente ao olho.

Figura 2 - LOPES, Patrícia. "Por que cortar cebola nos faz chorar?"; Brasil Escola. Disponível em https://brasilescola.uol.com.br/curiosidades/por-que-cortar-cebola-nos-faz-chorar.htm

Esta substância, em contato com os olhos, produz a irritação ocular. Os olhos protegem-se então, estimulando as glândulas lacrimais e derramando lágrimas que lavam o olho, como se fosse um colírio natural.

Diferentemente das tartarugas, os seres humanos podem expelir várias substâncias nos fluidos corporais que emitem mensagens sutis para os outros membros da espécie. Segundo alguns estudos recentes, alguns destes sinais são quimicamente codificados até nas próprias lágrimas.

Um estudo desenvolvido no Instituto de Weizmann, em Israel, conclui-o que as lágrimas femininas podem conter um sinal químico que reduz os níveis de testosterona, hormônio sexual próprio dos homens também relacionado com a um comportamento agressivo.

Quer saber mais sobre assunto?
http://www.sindioptica-sp.com.br/documentos/Curso_avaliacao_do_filme_lacrimal.pdf
https://www.ufmg.br/cienciaparatodos/wp-content/uploads/2011/08/57-ascebolasnosfazemchorar.pdf
https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,lagrimas-das-mulheres-dizem-hoje-nao-tem-sexo-aos-homens-aponta-estudo,663363

Sobre a autora:
Leticia Gomes de Pontes  
Atualmente desenvolve seu Pós Doutorado na USP de São Carlos no Departamento de Química no laboratório BioMicS. Tem experiência em análise proteômica (shotgun e TMT) e microfluídico para detecção e captura de exossomos. Realizou seu Doutorado e Mestrado na Faculdade de Medicina de Botucatu (UNESP - Botucatu) é Bacharel em Ciências Biológicas com ênfase em Bioquímica pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho.
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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Funcionária do Ano



Todos, em algum momento da vida, se questionam sobre a composição dos objetos ao seu redor: do que é feita a tela dos aparelhos celulares? O algodão das roupas? E o concreto das paredes? A resposta (ou parte dela, ao menos) é aprendida na escola: resumidamente, esses objetos são formados por uma combinação de átomos de um ou mais elementos dispostos na famosa Tabela Periódica.
Para falar a verdade esta tabela é uma ferramenta tão importante e influente para a ciência moderna (Química, Biologia, Física e outras áreas das ciências puras) que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) decidiu torná-la a “bola da vez” em 2019, proclamando este ano como o Ano Internacional da Tabela Periódica dos Elementos Químicos (cuja sigla em inglês é IYPT 2019).

Então, antes de navegar para outra página e tentar esquecer daquele(a) professor(a) de química insuportável que exigia a “decoreba” de todos elementos, famílias e propriedades para sua prova, que tal aprender mais sobre a história e os motivos que tornam esta tabela uma grande aliada de muitos cientistas por aí?   
A investigação de padrões nas propriedades dos elementos químicos não é algo novo e a primeira tentativa de tentar organizá-los partiu de Antoine Lavoisier em 1789, conhecido como o “pai da química moderna” por essa e muitas outras contribuições. Em seu livro “Tratado Elementar de Química”, Lavoisier classificou os 33 elementos até então conhecidos (incluindo a “luz” e o “calórico”, considerados na época substâncias materiais) de acordo com suas propriedades em gases, não metais, metais e terras.
Nas décadas seguintes, outros pesquisadores foram incentivados a estudar várias maneiras mais eficientes de organizar os elementos, muitas delas adotando como base a massa atômica. Por exemplo, na primeira metade do séc. XIX, o químico alemão Johann Döbereiner propôs o agrupamento dos elementos em grupos de três (denominados tríades de Döbereiner), nos quais os integrantes possuíam características químicas muito parecidas. O cientista mostrou, ainda, que, como na tríade do Lítio, Sódio e Potássio, as propriedades do elemento do meio poderiam ser previstas pelas propriedades dos outros dois.

Tríades de Döbereiner e previsão da massa atômica do sódio. Adaptado de: https://www.meta-synthesis.com/webbook/35_pt/pt_database.php?PT_id=6 (Acesso em 02 fev. 2019).

O problema desta proposta era o fato de muitos dos elementos conhecidos não estarem contidos em alguma tríade e, portanto, sua utilização não trazia grandes vantagens.
Por volta de 1860, o desenvolvimento científico-tecnológico permitiu, através de uma conferência realizada em Karlshure (Alemanha), a formulação de uma lista de massas atômicas muito mais precisa para os elementos, possibilitando o surgimento de novas maneiras de organização.
Como exemplo, tem-se o Parafuso Telúrico de Chancourtois, produzido pelo geólogo francês Alexandre Beguyer Chacourtois em 1862. Nesta representação, os elementos são colocados em ordem de massa atômica crescente em uma espiral desenhada ao redor de um cilindro de tal forma que uma volta completa representa um aumento de aproximadamente 16 unidades na massa atômica. Além disso, elementos com propriedades semelhantes estão dispostos em uma mesma vertical, por exemplo o Lítio (Li) e o Sódio (Na).
Perspectiva cilíndrica e plana do Parafuso Telúrico de Chacourtois simplificado. Disponível em: http://www.iejusa.com.br/cienciaetecnologia/quimica_outratabelas.php (Acesso em 02 fev. 2019).
Apesar de ter recebido pouca atenção devido à complexidade da representação cilíndrica e de não apresentar corretamente todas as semelhanças existentes entre os elementos, Chacourtois foi o primeiro a organizar um arranjo periódico no qual elementos parecidos quimicamente possuem uma diferença de massa atômica bem definida. 
Pouco tempo depois, o químico britânico John Newlands aplicou as ideias de Chacourtois para todos os 62 elementos conhecidos no momento, organizando-os por massa atômica e criando uma das primeiras tentativas de tabela com elementos.Newlands também notou que a química dos elementos tendia a ser semelhante quando a massa atômica se diferenciava em aproximadamente sete unidades e, assim, quebrou sua lista de elementos em grupos de sete, começando outra coluna a partir do oitavo elemento, o que comparou com oitavas da música (Oitavas de Newlands). Deste jeito, cada horizontal era composta por integrantes com características químicas semelhantes.
Oitavas de Newlands representadas em sua tabela. Adaptado de: http://chemistryzues.blogspot.com/p/periodic.html (acesso em 02 fev. 2019). 

Embora possua certa sofisticação, algumas falhas nesta apresentação podem ser apontadas: as propriedades do ferro não são parecidas com as do enxofre e as do oxigênio.Além disso, alguns elementos foram unidos em um mesmo espaço para que se mantivessem as semelhanças mencionadas acima. Tais motivos contribuíram para a forte crítica destinada ao cientista na época.
As contribuições de todas essas propostas, somadas a uma mente brilhante e obcecada, resultou na consagração de Dmitri Mendeleev em 1869 como o criador das bases da Tabela Periódica Moderna. Mendeleev entendia de uma maneira única que a periodicidade dos elementos possuía (e possui) consequências profundas para o desenvolvimento científico.
Organizando os elementos em ordem crescente da massa atômica e valência (ou número de ligações) Mendeleev percebeu um certo padrão: um não metal reativo era sempre seguido por um metal leve muito reativo e depois por um metal menos reativo. Além disso, os elementos parecidos, que antes eram colocados em uma mesma horizontal, passaram a ocupar uma coluna.
Usando esse Sistema Periódico e a massa atômica como base, o cientista, com a grande “sacada” de deixar espaços vazios em locais onde os elementos disponíveis não possuíam as mesmas características do grupo, não só organizou os 63 elementos conhecidos, como também fez previsões das propriedades de elementos que futuramente seriam descobertos e preencheriam esses vazios.
Ao longo do fim do séc. XIX e início do séc. XX a tabela contou com algumas modificações, tomando a forma que conhecemos hoje, sendo elas a descoberta e adição dos gases nobres em uma família nova, totalizando 8 famílias, e os estudos da estrutura atômica com aplicação do raio-X conduzidos por Henry Moseley, mostrando que os elementos seriam mais precisamente arranjados pela ordem crescente do número atômico (número de prótons). 
A Tabela Periódica é um instrumento tão útil pois garante ao pesquisador o poder da previsão: a partir das tendências dos elementos em propriedades como a eletronegatividade, afinidade eletrônica densidade atômica e temperatura de fusão e ebulição é possível teorizar com grande precisão a respeito do comportamento cinético e físico-químico das substâncias. Isso auxilia a solucionar problemas de interesse geral, como a temperatura de síntese de um catalisador, a velocidade de consumo da camada de ozônio, se uma substância é um bom condutor, entre muitos outros.
Esta história se iniciou há mais de dois séculos e ainda está longe de acabar, visto que os novos elementos “descobertos” (sintetizados), principalmente aqueles com número atômico superior a 113, apresentam propriedades diferentes daquelas esperadas pela periodicidade. Assim, o desafio futuro é formular e desenvolver novas ideias de tabelas que melhor se adequem às necessidades científicas do momento.

Veja mais em:
Site oficial do IYPT 2019 (em inglês):  https://www.iypt2019.org/ 
História da tabela periódica no site da Sociedade Real de Química (em inglês): http://www.rsc.org/periodic-table/history/about
Parafuso telúrico de Chancourtois (em português): http://www.laifi.com/laifi.php?id_laifi=628&idC=6120# 
Vídeo sobre a tabela periódica (legendado em português): https://www.youtube.com/watch?v=0RRVV4Diomg
Texto sobre tabela periódica publicado na Scientific American (em inglês): https://www.scientificamerican.com/article/cracks-in-the-periodic-table/

Sobre o autor:

Matheus Salgado D.N.Saula é estudante de Graduação em Química pelo Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP). Realiza pesquisa sobre materiais com luminescência persistente no Laboratório dos Elementos do Bloco-f (Leb-f).

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