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quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Minha querida pesquisa - Luis Fernando Carvalho Costa


Desde pequeno, sempre fui muito curioso em saber como as coisas funcionavam. Por causa disso, sempre estudava muito e tirava boas notas, o que acabou me rendendo o famoso apelido de “CDF”. Eu não ligava muito para isso.
Até o 3° série do Ensino Médio, eu não tinha a mínima pretensão de estar na carreira científica. Para mim, a carreira de cientista significava o que a mídia e o público pensam sobre os cientistas: pessoas solitárias que descobrem coisas maravilhosas em um clique de genialidade. Hoje eu sei que não é bem assim. A ciência exige muito mais suor do que inspiração.
Eu queria mesmo era ser médico para ajudar as pessoas. Até cheguei a fazer vestibular para o curso de medicina, mas, graças aos deuses da ciência, eu não passei. Ainda no 3° série do Ensino Médio, eu comecei a descobrir como era apaixonante a Biologia e tomei a decisão de que seria Biólogo. Minha família tomou um susto e nem eu sabia bem o que fazia um biólogo. Pensava que era legal a engenharia genética, salvar baleias e outras coisas mirabolantes que a gente vê por aí.
Mas hoje, eu sei que o que me aproximou da Biologia foi a Ciência. Eu queria responder perguntas. E dentro da Biologia, a biodiversidade me fascinava. Acabei, meio que por acidente, indo fazer iniciação científica com um professor que trabalhava com peixes. Nunca tinha imaginado que ia trabalhar com peixes. Eu adoro comer peixe, mas estudar esses organismos cientificamente nunca foi algo que almejei. Defendi meu Trabalho de Conclusão de Curso sobre as variações morfométricas (medições de distâncias entre partes do corpo) em uma espécie de bagre de rios do Maranhão, onde fiz minha graduação em Biologia. O interesse pela carreira científica aumentou e, após minha colação de grau, eu fui fazer a prova do mestrado em Ecologia na Universidade Federal de São Carlos, ainda para trabalhar com peixes, mas usando genética. Eu sempre gostei de Genética e Ecologia, mas não havia uma pós-graduação nas duas coisas. Então decidi que faria mestrado em ecologia, mas usando técnicas de genética. Nesse momento, um mundo novo se abriu para mim, porque eu nunca tinha trabalhado com Genética Molecular. Não sabia como fazer extração de DNA, isolar genes, sequenciamento de DNA e todas as outras técnicas que a mim pareciam muito difíceis de entender. Gostei tanto da experiência, que também continuei o doutorado na mesma área.
A molécula do DNA é fonte de dados que eu uso para responder às perguntas científicas
Foto de peixes da espécie Pseudoplatystoma punctifer que trabalhei no meu doutorado

O fato é que essas experiências na pós-graduação moldaram muito do que eu faço hoje na minha vida profissional. Hoje, sou professor na Universidade Federal do Maranhão, no mesmo lugar onde fiz graduação, sendo colega dos meus antigos professores. Dou aulas na área de Ecologia, Evolução e Ensino de Ecologia. Minhas pesquisas são voltadas para responder perguntas relacionadas à saúde genética de populações de peixes nativos de rios do Maranhão, resolver questões taxonômicas (sobre a classificação das espécies e seus nomes), impactos de poluentes na fauna de peixes etc. Também, expandi minha linha de pesquisa para estudar questões envolvendo outros organismos como ostras, insetos vetores de leishmaniose, tubarões, raias, cágados (tartarugas de água doce), tartarugas marinhas, morcegos, aves, anfíbios e répteis. Até bactérias que vivem em simbiose (relação harmônica) em células de insetos vetores de leishmaniose começaram a virar alvo de meus estudos.
Para o futuro, eu pretendo usar dados genômicos (DNA completo) para continuar respondendo novas perguntas de cunho ecológico. Apesar da crise financeira que tem afetado o país e o financiamento de ciência, sigo confiante que vamos continuar avançando no estudo das ciências da vida, descobrindo coisas que vão ajudar as pessoas, mas também as outras espécies que dividem o planeta conosco. Acho que eu realmente não seria um bom médico, pois na medicina eu não poderia fazer o que eu mais gosto: resolver problemas científicos.

Sobre o autor:
Luis Fernando Carvalho Costa
Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Maranhão (2003), mestrado em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal de São Carlos-UFSCar (2006) e doutorado em Ciências (Área de concentração: Ecologia e Recursos Naturais) pela UFSCar. Ocupa o cargo de professor adjunto na Universidade Federal do Maranhão desde 2008. Também é professor-colaborador do Programa de Pós-Graduação em Recursos Aquáticos e Pesca da Universidade Estadual do Maranhão.

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