Aba


quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Conscientização ambiental de forma lúdica


A conscientização ambiental é um tema amplamente discutido em nosso ambiente educacional e é notório que quanto antes as crianças se enxergarem como cidadãs pertencentes à um meio ambiente que exige cuidados e demandas e que sua participação é essencial para o seu sucesso, mais frutos poderão ser colhidos. Para isto, é necessário enxergar que estes pequenos cidadãos precisam, além de informações e conceitos, de ações práticas, dinâmicas e lúdicas que os façam amar, respeitar e praticar as ações voltadas à conservação ambiental.

Pensando nisto é que a Professora Luciana Valério Baptista do 3º ano A do Ensino Fundamental I da Rede Rede Escolar SESI-SP apresentou um material de apoio relacionado ao tema - que se encontra disponível na Biblioteca Escolar do SESI Botucatu - onde foram trabalhados primeiramente a leitura dos livros “Reduza, Recicle e Reutilize” e “Não afunde no lixo!”, leituras essas que compõe o Kit Educacional “Consciência”.

Este Kit traz consigo o jogo “Acerte o lixo”! que convida os alunos à praticarem de forma lúdica os 3 R’s com o objetivo de incentivar a separação do lixo e despertar o interesse pela reciclagem sabendo diferenciar o lixo reciclável do não reciclável e os tipos de lixeira (Imagem 1).

Imagem 1. Kit Educacional “Consciência” 

Dispondo de cartões com dicas ambientais e imagens de lixos recicláveis e não recicláveis, cada grupo, na sua vez, faz o descarte correto nas lixeiras que se encontram à sua frente, tendo que usar estratégias pois o objetivo do jogo é, além do conhecimento adquirido, terminar com as cartas.
Esta proposta de trabalho foi baseada nas expectativas de ensino e aprendizagem expressas nos Referencias Curriculares da Rede SESI-SP.

O feedback dado pelos alunos em sala sobre esta atividade foi extremamente positivo, pois extrapolou os muros da escola levando à conscientização também dos adultos que os cercam. Ouviu-se falas como “Professora, agora eu falei pra minha mãe que a latinha deve estar em uma sacola separada do vidro e do papel e do lixo orgânico.” (Aluno 1), “O jogo foi muito divertido parecia o jogo do Uno porque também tinha que usar estratégias para ganhar” (Aluno 2).

Os registros desta atividade podem ser encontrados na Página do Facebook do SESI Botucatu: https://www.facebook.com/sesibotucatu/.

Sobre a autora:
Luciana Valério Baptista
proflvs@gmail.com
Formada em Pedagogia e Matemática, leciona há 18 anos como professora do Ensino Fundamental I, iniciando no Governo do Estado de SP, Prefeitura Municipal de Botucatu e há 11 anos em período integral na Escola SESI CE 228 - Botucatu.
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terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Seriam os cloroplastos organelas de defesa?



Sempre que pensamos em organelas de plantas é inevitável não lembrar dos cloroplastos. Isso porque eles são organelas especiais, responsáveis pela fotossíntese, um importante mecanismo na obtenção de energia das plantas através da luz solar. Além do seu papel crucial na conversão energética, os cloroplastos também participam ativamente da proteção das plantas contra organismos invasores. Quando há uma infecção na célula, os cloroplastos interrompem, imediatamente, a fotossíntese, começam a produzir compostos antimicrobianos e se mobilizam até o local da infecção para auxiliar na contenção do invasor. Um estudo publicado recentemente trouxe maiores esclarecimentos a respeito do papel do cloroplasto na defesa da célula vegetal contra organismos invasores, e, ainda, sobre qual proteína teria um papel importante neste processo.

Um grupo de pesquisa liderado por Tolga Bozkurt, do Imperial College London, suspeitou da participação da proteína de posicionamento incomum do cloroplasto 1 (CHUP1) no papel de defesa do cloroplasto. A CHUP1 participa ativamente da movimentação dos cloroplastos para o local de maior luminosidade da célula, e, para entender o seu envolvimento no mecanismo de defesa dos cloroplastos, os pesquisadores silenciaram o gene que produz esta proteína na espécie Nicotiana benthamiana (uma planta próxima ao tabaco). As plantas silenciadas foram, então, infectadas com o microrganismo Phytophthora infestans e, durante a infecção, não houve nenhuma alteração no funcionamento dos cloroplastos, nem na produção de energia através da fotossíntese. Porém, quando foi feita a infecção do mesmo microrganismo em plantas onde o gene da proteína CHUP1 estava ativo, os cloroplastos cessaram a fotossíntese no momento da infecção e modificaram suas posições dentro da célula.

Cloroplastos (amarelo) agindo na defesa contra microrganismos (roxo).

O experimento desenvolvido por Bozkurt e seus colaboradores mostrou, ainda, que nas plantas que continham a proteína CHUP1 ativa, a infecção além de mobilizar os cloroplastos, fez com que eles desenvolvessem projeções semelhantes a tentáculos em sua superfície. Isso poderia auxiliar na ligação de um cloroplasto com outro e na movimentação do grupo de cloroplastos da célula para o local da infecção. Segundo Bozkurt, esse comportamento dos cloroplastos poderia estar relacionado com a sua origem. Afinal, cloroplastos eram microrganismos de vida livre e esse processo de defesa poderia ser um vestígio de um sistema de defesa dos cloroplastos livres, que foi incorporado ao sistema de defesa das plantas.

Quer saber mais?
https://www.biorxiv.org/content/10.1101/516443v1

Ana Carolina Santos
carolina.santos@unesp.br
Ana Carolina é biomédica, doutoranda na área de Genética de Microrganismos pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (Genéticas) do IBB/UNESP Botucatu.
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terça-feira, 22 de janeiro de 2019

As plantas podem ouvir?




O som é tão importante para a vida e sobrevivência que fizeram o pesquisador da Universidade de Tel Aviv, Lilach Hadany, e sua equipe a se perguntarem: “E se os animais não fossem os únicos a sentir o som – e se as plantas também pudessem?”
Os pesquisadores estudaram a planta noturna chamada prímula (Oenothera drummondii). Em ambiente natural, essa planta cresce em praias e parques ao redor de Tel Aviv e ela surgiu como boa candidata para o estudo, uma vez que possui longo período de floração e produz quantidades mensuráveis de néctar. Eles notaram que, após poucos minutos em contato com vibrações das asas dos polinizadores, essas plantas aumentaram, durante um período, a concentração de açúcar em seu néctar. E assim, as próprias flores das plantas poderiam servir como ouvidos, captando as frequências
específicas das asas das abelhas enquanto poderiam ignorar outros sons, como do vento.

Abelha em contato com a planta prímula. Fonte: https://pixabay.com

Para testar essa hipótese em laboratório, os pesquisadores expuseram as plantas em diferentes tratamentos:

- Silêncio.
- Gravações de abelhas a, aproximadamente, 10 cm de distância.
- Sons gerados através de computador em frequências baixas, intermediárias e altas.

As plantas que foram submetidas ao tratamento sem som não apresentaram aumento na concentração de açúcar no néctar. O mesmo aconteceu para plantas expostas a frequências altas (158 a 160 kilohertz) e intermediárias (34 a 35 kilohertz) de som.
Entretanto, as plantas expostas a reproduções de sons de abelha (0,2 a 0,5 kilohertz) e sons em baixa frequência (0,05 a 1 kilohertz) tiveram a concentração de açúcar aumentada entre 12% e 17% para 20%.
Segundo os autores do trabalho, o néctar mais concentrado para os polinizadores pode atrair mais insetos, aumentando as chances de uma polinização cruzada bem-sucedida. De fato, em observações de campo, os pesquisadores descobriram que os polinizadores eram mais de nove vezes mais comuns em torno das plantas que outro polinizador havia visitado nos seis minutos anteriores.
Enquanto a equipe pensava em como o som funciona, através da transmissão e interpretação das vibrações, o papel das flores tornou-se ainda mais intrigante. Embora as flores variem muito em forma e tamanho, muitas delas são côncavas ou em forma de tigela. Isso os torna perfeitos para receber e amplificar as ondas sonoras, muito parecido com uma antena parabólica.
Para testar os efeitos vibracionais de cada grupo de testes de frequência sonora, os pesquisadores
colocaram as flores de prímula sob uma máquina que mede movimentos minúsculos. A equipe então
comparou as vibrações das flores com as de cada um dos tratamentos sonoros, onde foi possível observar as vibrações da flor combinando com os comprimentos de onda da gravação das abelhas.
Para confirmar que a flor era a estrutura responsável, a equipe também realizou testes em flores que tiveram uma ou mais pétalas removidas. Essas flores não ressoaram com nenhum dos sons de baixa frequência
Este único estudo abriu um campo totalmente novo de pesquisa científica, que Hadany chama de fitoacústica. Além disso, esse trabalho norteia muitas perguntas para estudos futuros, como por exemplo, essa capacidade poderia conferir outras vantagens além da produção de néctar e polinização? Ou  que processos moleculares ou mecânicos estão impulsionando a resposta de vibração e néctar?

Quer saber mais sobre assunto?

Veits, M., Khait, I., Obolski, U., Zinger, E., Boonman, A., Goldshtein, A., Saban, K., Ben-Dor, U., Estlein, P., Kabat, A., and Peretz, D., Ratzerdorfer, I., Krylov, S., Chamovitz, D., Sapir, Y., Yovel, Y., Hadany, L. 2018. Flowers respond to pollinator sound within minutes by increasing nectar sugar concentration. bioRxiv, p.507319

https://www.nationalgeographic.com/science/2019/01/flowers-can-hear-bees-and-make-their-nectar-sweeter/?cmpid=org=ngp::mc=social::src=facebook::cmp=editorial::add=fb20190115science-flowershearing::rid=&sf206008555=1

https://www.bbc.com/portuguese/vert-earth-38655422

Sobre a autora:

Talita Roberto Aleixo de Almeida é bióloga e mestre em Ciências Biológicas (Genética) pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Unesp, atualmente é aluna de Doutorada pela mesma instituição

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quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Minha querida pesquisa - Luis Fernando Carvalho Costa


Desde pequeno, sempre fui muito curioso em saber como as coisas funcionavam. Por causa disso, sempre estudava muito e tirava boas notas, o que acabou me rendendo o famoso apelido de “CDF”. Eu não ligava muito para isso.
Até o 3° série do Ensino Médio, eu não tinha a mínima pretensão de estar na carreira científica. Para mim, a carreira de cientista significava o que a mídia e o público pensam sobre os cientistas: pessoas solitárias que descobrem coisas maravilhosas em um clique de genialidade. Hoje eu sei que não é bem assim. A ciência exige muito mais suor do que inspiração.
Eu queria mesmo era ser médico para ajudar as pessoas. Até cheguei a fazer vestibular para o curso de medicina, mas, graças aos deuses da ciência, eu não passei. Ainda no 3° série do Ensino Médio, eu comecei a descobrir como era apaixonante a Biologia e tomei a decisão de que seria Biólogo. Minha família tomou um susto e nem eu sabia bem o que fazia um biólogo. Pensava que era legal a engenharia genética, salvar baleias e outras coisas mirabolantes que a gente vê por aí.
Mas hoje, eu sei que o que me aproximou da Biologia foi a Ciência. Eu queria responder perguntas. E dentro da Biologia, a biodiversidade me fascinava. Acabei, meio que por acidente, indo fazer iniciação científica com um professor que trabalhava com peixes. Nunca tinha imaginado que ia trabalhar com peixes. Eu adoro comer peixe, mas estudar esses organismos cientificamente nunca foi algo que almejei. Defendi meu Trabalho de Conclusão de Curso sobre as variações morfométricas (medições de distâncias entre partes do corpo) em uma espécie de bagre de rios do Maranhão, onde fiz minha graduação em Biologia. O interesse pela carreira científica aumentou e, após minha colação de grau, eu fui fazer a prova do mestrado em Ecologia na Universidade Federal de São Carlos, ainda para trabalhar com peixes, mas usando genética. Eu sempre gostei de Genética e Ecologia, mas não havia uma pós-graduação nas duas coisas. Então decidi que faria mestrado em ecologia, mas usando técnicas de genética. Nesse momento, um mundo novo se abriu para mim, porque eu nunca tinha trabalhado com Genética Molecular. Não sabia como fazer extração de DNA, isolar genes, sequenciamento de DNA e todas as outras técnicas que a mim pareciam muito difíceis de entender. Gostei tanto da experiência, que também continuei o doutorado na mesma área.
A molécula do DNA é fonte de dados que eu uso para responder às perguntas científicas
Foto de peixes da espécie Pseudoplatystoma punctifer que trabalhei no meu doutorado

O fato é que essas experiências na pós-graduação moldaram muito do que eu faço hoje na minha vida profissional. Hoje, sou professor na Universidade Federal do Maranhão, no mesmo lugar onde fiz graduação, sendo colega dos meus antigos professores. Dou aulas na área de Ecologia, Evolução e Ensino de Ecologia. Minhas pesquisas são voltadas para responder perguntas relacionadas à saúde genética de populações de peixes nativos de rios do Maranhão, resolver questões taxonômicas (sobre a classificação das espécies e seus nomes), impactos de poluentes na fauna de peixes etc. Também, expandi minha linha de pesquisa para estudar questões envolvendo outros organismos como ostras, insetos vetores de leishmaniose, tubarões, raias, cágados (tartarugas de água doce), tartarugas marinhas, morcegos, aves, anfíbios e répteis. Até bactérias que vivem em simbiose (relação harmônica) em células de insetos vetores de leishmaniose começaram a virar alvo de meus estudos.
Para o futuro, eu pretendo usar dados genômicos (DNA completo) para continuar respondendo novas perguntas de cunho ecológico. Apesar da crise financeira que tem afetado o país e o financiamento de ciência, sigo confiante que vamos continuar avançando no estudo das ciências da vida, descobrindo coisas que vão ajudar as pessoas, mas também as outras espécies que dividem o planeta conosco. Acho que eu realmente não seria um bom médico, pois na medicina eu não poderia fazer o que eu mais gosto: resolver problemas científicos.

Sobre o autor:
Luis Fernando Carvalho Costa
Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Maranhão (2003), mestrado em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal de São Carlos-UFSCar (2006) e doutorado em Ciências (Área de concentração: Ecologia e Recursos Naturais) pela UFSCar. Ocupa o cargo de professor adjunto na Universidade Federal do Maranhão desde 2008. Também é professor-colaborador do Programa de Pós-Graduação em Recursos Aquáticos e Pesca da Universidade Estadual do Maranhão.

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terça-feira, 15 de janeiro de 2019

A união faz a força! Cromossomos unidos em blocos atuam na especificidade do olfato




Os cheiros/odores são extremamente importantes para os mamíferos (inclusive para nós, humanos) e, em muitos casos, são essenciais à sobrevivência. É por isso que, diferir odores específicos é uma questão crucial e, em um estudo de janeiro de 2019, os pesquisadores Kevin Monahan, Adan Horta e Stavros Lomvardas (Universidade de Columbia - Nova Yorque - EUA) estudaram os neurônios responsáveis pelo olfato em camundongos e puderam desvendar como eles funcionam para o reconhecimento dos odores.
Dentro das narinas existem muitas células, dentre elas os neurônios olfatórios. Estes, por sua vez, possuem proteínas na sua superfície, mais conhecidas como receptores de odores e que são responsáveis por se ligar às partículas de odores e enviar sinais ao cérebro, reconhecendo qual o tipo de odor. No entanto, para que a gente consiga diferenciar cheiros, é preciso ter neurônios contendo receptores diferentes entre si e capazes de detectar os mais diversificados tipos de odores.
A grande novidade do estudo, recém publicado, é que os pesquisadores puderam entender como um neurônio olfatório consegue ativar receptores específicos e se diferenciar dos demais. Monahan e colaboradores verificaram que os cromossomos dessas células (que carregam as informações referentes à produção dos receptores) se comportam de maneira diferente. Nos neurônios olfatórios, são formados blocos de cromossomos unidos.
Mas como esses blocos cromossômicos atuam na diferenciação do cheiro?
Em cada neurônio olfatório recém diferenciado ou maduro, haverá a formação desses blocos de cromossomos, unidos pelas chamada “Ilhas gregas”, que são sequências reguladoras. Elas permitem a expressão dos genes relacionados ao olfato e atraem proteínas que, por sua vez, permitem o acoplamento dos cromossomos. Nesse acoplamento, boa parte dos genes de receptores ficará isolada (esses serão os genes inativados) e a outra será exposta junto às “Ilhas Gregas” (esses serão ativados). Dessa forma, somente o gene de um receptor específico ficará perto das Ilhas e será, por sua vez, ativado. A figura ilustra o processo:

Acima é ilustrado um neurônio olfatório maduro de camundongo, o quadro maior apresenta  as fitas de DNA dos cromossomos que se situam dentro do núcleo do neurônio olfatório. Destacado em vermelho está uma região do bloco de cromossomos unidos, cujo conteúdo carrega genes que codificam para os receptores olfatórios, essa região não é expressa, portanto é inativa. Logo ao lado, a outra região do bloco (em azul) que será expressa, portanto ativa. Nela estão contidas as “Ilhas Gregas” e, ao lado delas e em amarelo, o gene que codifica para um tipo específico de receptor olfatório. Esta imagem foi modificada e sua fonte está descrita ao final do texto.
Muito doido não é mesmo? Em uma analogia, é como se cada cromossomo fosse uma carta de um baralho amontoado, no entanto, somente uma estará virada para o lado do observador, sendo exposta para expressar sua informação. Em cada célula só haveria um baralho e cada baralho apresentaria uma carta diferente. Ao final, teríamos muitos baralhos, cada um com uma carta específica.

Quer saber mais?
-Em inglês:
Artigo original: https://www.nature.com/articles/s41586-018-0845-0
https://www.nature.com/articles/d41586-019-00010-6

-Em português:
http://revistapesquisa.fapesp.br/2014/06/16/dimensoes-olfato/

-Imagens originais retiradas de:
https://paineira.usp.br/aun/index.php/2017/04/07/experiencias-com-camundongos-buscam-desvendar-mecanismos-do-olfato/
https://www.nature.com/articles/d41586-019-00010-6

Sobre a autora:

erica.ramos00@gmail.com
Érica Ramos é bióloga e mestre em Ciências Biológicas (Genética) pela UNESP, apaixonada pelo tema Educação e, também, editora desta página de Divulgação Científica. No momento atua como aluna de doutorado na UNESP, na área de Genética.
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quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Churrasco de mamute: Fake ou News?


Conta a lenda que alguns pesquisadores (militares soviéticos ou exploradores americanos, já ouvi as duas versões) encontraram um exemplar de mamute congelado. Ao invés de estudar o espécime, os cientistas cozinharam o animal e o comeram!
De acordo com a versão mais conhecida, carne de mamute-lanoso preservado por congelamento foi servida no jantar de 1951 do Clube dos Exploradores, uma famosa sociedade de cientistas sediada em Nova Iorque. A história se tornou conhecida depois que foi publicada no journal Christian Science Monitor.
Mas isso é fake ou é news? Vamos por partes!

Mamutes podem ter sido preservados por congelamento?
Sim, isso é VERDADE! E se chama criopreservação.
Em locais bastante frios, como na Sibéria, alguns organismos podem ser preservados por congelamento. O mecanismo é o mesmo por trás dos alimentos guardados no freezer: pequenas temperaturas matam ou dificultam o crescimento de microorganismos decompositores. Assim, impede-se a decomposição e o fóssil é preservado por milhares de anos.
O exemplo mais famoso é Lyuba, um filhote de mamute encontrado na Sibéria em 2007.

Imagem 1: Lyuba. Por Tyrone siu. Disponível em: Lyuba, a mamute de 40 mil anos (Revista Veja, 2012). 

O Clube dos Exploradores existe e serve comidas exóticas?
Sim, isso é REAL!
O Clube dos Exploradores foi fundado em 1904, na cidade de Nova Iorque, e existe até hoje. O principal objetivo da sociedade é incentivar e encorajar o desenvolvimento científico baseado em pesquisas de campo. O clube fornece financiamento, apoio, premiações, e muitas outras formas de incentivo ao progresso da Ciência. E grandes resultados foram obtidos desse esforço: membros da sociedade foram os primeiros a conquistar o Polo Norte, o Polo Sul, o topo do Everest, o fundo do oceano e até a superfície lunar. Vários membros do Clube são famosos: você já deve ter ouvido falar de Theodore Roosvelt, Neil Armstrong, Buzz Aldrin, Elon Musk e James Cameron, não?

Imagem 2: Bandeira do Clube dos Exploradores levada à lua em 1969. Foto à esquerda por Buzz Aldrin e Neil Armstrong. Disponível em: "Carrying the Flag", no site do Clube dos Exploradores. 

E sim, o Clube dos Exploradores organiza um impressionante jantar anual. No evento, aberto apenas para membros, são entregues premiações para os exploradores que mais se destacaram. E é claro, são servidas comidas exóticas, como os espetinhos de insetos da foto.

Imagem 3: Jantar do Clube dos Exploradores de 2017. Por Craig Chesek. Disponível em galeria no site do Clube dos Exploradores. 

Carne de mamute foi servida no jantar do Clube dos Exploradores de 1951?
Existem mamutes congelados, o Clube dos Exploradores serve comidas exóticas... Será que o cardápio da festa de 1951 foi tão excêntrico? Fico triste em estragar a história no seu ponto mais emocionante, mas esse fato é FAKE! E as evidências disso estão em sobras do banquete que foram preservadas até os dias atuais.
Após o jantar do Clube dos Exploradores, o presidente do Clube, comte. Wendell Dodge, guardou algumas sobras do “mamute” e as enviou para seu amigo, Paul Howes, que não pode comparecer à festa. Howes adicionou as sobras ao museu Bruce, em Connecticut (EUA), de onde era curador.
Posteriormente, o “espécime” foi transferido para o Museu Peabody de História Natural da Universidade de Yale. Em 2016, pesquisadores dessa instituição resolveram analisar o DNA da amostra para ver se realmente era mamute. Os resultados mostraram que aquela carne pertencia a tartaruga marinha não pré-histórica.

Imagem 4: Sobras do jantar de 1951. Retirado de: Glass JR, Davis M, Walsh TJ, Sargis EJ, Caccone A (2016) Was Frozen Mammoth or Giant Ground Sloth Served for Dinner at The Explorers Club?. PLOS ONE 11(2): e0146825. https://doi.org/10.1371/journal.pone.014682

Além disso, há certa inconsistência nas notícias da época. Alguns repórteres, como o que escreveu para o Christian Science Monitor, descreveram a refeição como mamute. Já no discurso proferido pelo presidente do Clube no jantar de 1951, foi dito que a carne era de megatério (preguiça gigante) do Alasca. Porém, preguiças-gigantes existiram apenas na América do Sul.
Em conclusão, tudo provavelmente não passou de uma “pegadinha”, que por um mal-entendido acabou se tornando uma lenda.

Referências e sites interessantes
Mais sobre fósseis: CARVALHO, I.S. Paleontologia. Rio de Janeiro: Interciência, 2000.
Mais ainda sobre fósseis: HOLZ, M.; SIMÕES, M.G. Elementos Fundamentais da Tafonomia. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2002.
Notícia da Lyuba na Nature (em inglês): https://www.nature.com/articles/448237a
Notícia da Lyuba na Veja (em português): https://veja.abril.com.br/galeria-fotos/lyuba-a-mamute-de-40-mil-anos/
Site do Clube dos Exploradores (em inglês): https://explorers.org/
Artigo “Was Frozen Mammoth or Giant Ground Sloth Served for Dinner at The Explorers Club?”, de Glass e colaboradores, 2016 (em inglês): https://doi.org/10.1371/journal.pone.0146825
Notícia sobre o artigo de Glass e colaboradores, 2016 (em inglês):  https://www.nytimes.com/2016/02/04/science/explorers-club-mammoth-dinner.html

Sobre a autora:

Maria Laura Kuniyoshi é estudante de graduação de Ciências Biológicas na UNESP de Botucatu. Ela realiza pesquisa sobre Biologia Molecular do músculo e é apaixonada por divulgação científica.

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terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Saturno está lentamente perdendo seus anéis


Décadas atrás, as sondas Voyager voaram pela primeira vez e descobriram que o material que forma os anéis de Saturno estava caindo em forma de chuva no planeta. Os dados obtidos com as sondas foram usados para estimar a taxa de destruição e novos estudos confirmaram que isso está de fato acontecendo.
Um artigo recentemente publicado na revista Icarus relatou que os cristais de gelo empoeirados que compõem os anéis estão sendo puxados pela gravidade e sendo afetados pelo forte campo eletromagnético de Saturno. Linhas eletromagnéticas estão levando uma enorme quantidade de água para as regiões mais próximas aos polos do planeta.
Em comunicado emitido por James O'Donoghue, do Centro de Voo Espacial Goddard, da NASA, a “chuva” de material que forma os anéis poderia encher uma piscina olímpica em meia hora. Como essa chuva é constante, os anéis estão sendo drenados em uma velocidade muito grande. Somente por esses fatores os anéis de Saturno teriam mais 300 milhões de anos restantes, mas na região central (linha do Equador de Saturno) o material cai em maior quantidade, levando a estimativa para 100 milhões de anos. Pode parecer bastante tempo, mas é relativamente curto em comparação com a idade de Saturno de mais de 4 bilhões de anos.
Os anéis de Saturno são em sua maioria feitos de pedaços de gelo, cujo tamanho varia desde metros de comprimento até grãos microscópicos. Devido à ação da luz ultravioleta do Sol ou da energia produzida pelo choque de micro meteoroides com os anéis, esses pedaços de gelo ficam eletricamente carregados. Eles passam então a sentir a ação do campo eletromagnético e os cristais de gelo caem no planeta.
Os pesquisadores estimam que os anéis de Saturno tenham cerca de 100 milhões de anos, o que mostraria que atualmente eles estão no meio de sua vida. Isso nos faz pensar que talvez tenhamos a sorte de estarmos aqui por perto para podermos observar a beleza desses anéis, mesmo que por foto. Por outro lado, isso nos faz pensar que provavelmente tenhamos perdido os sistemas de anéis gigantes de Júpiter, Urano e Netuno, que atualmente são anéis finos.
Enquanto não temos certeza sobre o futuro dos anéis de Saturno nem sobre como eles se formaram, só nos resta desfrutar dessa maravilha da natureza enquanto estamos aqui e ela está em seu auge.


Essa imagem de Júpiter e seus anéis foi feita com a sonda Cassini em 25 de abril de 2016. Fonte: Nasa/JPL-Caltech/Space Science Institute

A lua de Saturno, Enceladus, flutua diante dos anéis e da minúscula lua Pandora nesta visão que a sonda Cassini da NASA capturou em 1º de novembro de 2009. Toda a cena é iluminada pelo Sol, proporcionando iluminação impressionante para as partículas geladas que compõem os anéis. Fonte: Nasa/JPL-Caltech/Space Science Institute

Veja mais em:
https://www.nasa.gov/press-release/goddard/2018/ring-rain
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0019103518302999?via%3Dihub

Sobre o autor:

Diego Henrique Mirandola Dias Vieira é biólogo, mestre e doutorando em zoologia pelo Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu. Queria ser jogador de futebol mas se escolheu a profissão que tem maior salário. Faz pesquisa na área de parasitologia de peixes.


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