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terça-feira, 26 de novembro de 2019

Como é a preparação de uma lâmina histológica?


A histologia é a mistura de duas grandes áreas dentro da biologia, sendo a anatomia e a biologia celular, e consiste em estudar os tecidos animais e vegetais, entendendo qual a composição e como se organizam para formação dos órgãos. O estudo de histologia é feito através de lâminas onde o tecido é fixado, e então pode ser observado por meio de microscópios de luz.

Figura 1. Análise sendo realizada em Microscopia de Luz. (Fonte: https://br.freepik.com/fotos-gratis/examinando-a-amostra-com-microscopio_5634023.htm#page=1&query=Microsc%C3%B3pio&position=9).

Para que a análise seja feita no microscópio, é necessário que o tecido passe por várias procedimentos para que o tecido possa ser enxergado de forma microscópica e detalha.


Figura 2. Imagem microscópica de uma planta, mostrando os vasos condutores xilema e floema. (Fonte: https://br.freepik.com/fotos-premium/fotografia-microscopica-nucleo-de-uma-haste-de-xilofita-dicotiledonea-secao-transversal_2736292.htm#page=1&query=histologia&position=29).

O primeiro passo após o tecido ser selecionado, é chamado de fixação. Nesse processo o tecido é preservado, impedindo que as estruturas que o compõem sejam degradadas. A fixação pode ser feita de diversas formas, seja através de utilização de produtos químicos (álcool, formol, soluções combinadas, etc.) ou por meios físicos (resfriamento). Após o material ser fixado, segue para a desidratação, por meio de álcool ou acetona, fazendo com que o tecido perca toda a água, assim não há chances de proliferação de fungos ao longo do tempo. Logo em seguida, o tecido é clareado por meio de uma substância química, fazendo com que o tecido fique com mais detalhes. Depois de clareado, o tecido precisa passar por um emblocamento chamado de inclusão. A inclusão é a imersão de um tecido em uma substância parecida a parafina de vela, que deixa o material mais rígido podendo seguir para o próximo passo, a microtomia. A microtomia é o corte fino do tecido que foi emblocado. Só assim o tecido ficará fino e visível ao microscópio. Quando o tecido é cortado, ele precisa seguir para um banho maria, onde em seguida será “pescado” por lâminas de vidro.


Figura 3. Micrótomo seccionando material emblocado em polímero plástico denominado Paraplast. Após seccionado, os cortes serão levados a banho maria, colocado em lâminas histológicas de vidro e devidamente corados em suas respectivas colorações. (Fonte: https://www.leicabiosystems.com/pt/equipamento-de-histologia/microtomos/histocore-biocut/).

E por fim, o último passo é a coloração. A coloração é feita de acordo com o o interesse da análise. Existem diversos tipos de colorações para ver detalhes diferentes em diferentes tecidos. Uma das colorações mais comuns de serem feitas é a Hematoxilina-Eosina, onde a cor roxa (hematoxilina) marca o núcleo das células e a cor rosa (eosina) marca o citoplasma das células.

Figura 4. Imagem histológica de um apêndice vermiforme humano, evidenciando o tecido epitelial, conjuntivo e muscular. Em roxo, está corado o núcleo das células, e em rosa está corado os componentes citoplasmáticos restantes das células. (Fonte: https://br.freepik.com/fotos-premium/fotografia-de-microscopia-intestinal-grosso-secao-transversal_2731358.htm#page=1&query=histology&position=47).

O estudo histológico é de grande importância para a ciência permitindo observações de estruturas microscópicas dos tecidos, ou seja, as células. É utilizada dentro da Biologia, Biomedicina, Medicina, e demais áreas, permitindo identificar células cancerosas, componentes celulares e teciduais, e outros tipos de patologias, seja animal quanto vegetal.

Sobre o Autor: Diego Dias dos Santos é graduando de licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual Paulista, Campus de Bauru. Atualmente realiza atividade de Iniciação Científica no Laboratório de Morfologia de Organismos Aquáticos do Departamento de Ciências Biológicas. Também é professor de Biologia do Cursinho Gratuito Primeiro de Maio da Unesp, Campus de Bauru.

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segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Biodiversidade marinha e o extrativismo mineral




Os oceanos apresentam uma vasta extensão territorial, ocupando 70% da superfície terrestre. Além disso, nos oceanos encontram se a maior biodiversidade do planeta. Entretanto, pouco se sabe sobre a vida nos oceanos, principalmente em suas profundezas. Segundo o Sistema de Informações Biogeográficas dos Oceanos (Ocean Biogeographic Information System -OBIS), banco de dados globais de acesso aberto e de serviços de informação sobre biodiversidade marinha para a ciência, conservação e desenvolvimento sustentável, já foram identificadas, em seus registros, cerca de 126 mil espécies diferentes de acordo com publicações científicas e análises de casos, no qual estudam ecossistemas marinhos.

Além dessa grande variedade de espécies, nas profundezas dos oceanos se encontram as fissuras hidrotermais, que são regiões em que há saída de águas mais quentes e ricas em minérios devido a composição do solo. Devido a isso, a mineração no fundo do oceano vem sendo o futuro para a fonte de minérios. As regiões onde se encontram as fissuras hidrotermais são ricas em minério de cobre, ouro, zinco, entre outros, e elas apresentam um potencial de extração maior que a mineração terrestre.

O primeiro projeto de mineração oceânica, Expedição Solaris I, foi idealizado em colaboração entre uma mineradora canadense (a Nautilus Minerals) e o governo de Papua Nova Guiné. Uma outra mineração de sucesso foi desenvolvido por japoneses nos arredores de Okinawa que descobriram uma quantidade suficiente de zinco para abastecer o Japão por um ano inteiro. Entretanto, apesar de ter um grande potencial econômico, a mineração pode causar sérios problemas às regiões onde se encontram as fissuras hidrotermais, as quais apresentam uma grande diversidade e concentração de organismos marinhos como cobras marinhas, lesmas marinhas, camarões, entre outras espécies.

Recentemente a publicação de um artigo na revista Nature reportou a entrada de uma espécie de caramujo marinho (Chrysomallon squamiferum), oriundo das regiões das fissuras hidrotermais no leste de Madagascar, na lista vermelha de espécies ameaçadas de extinção, categorizando-o como “em perigo de extinção” segundo a União Internacional da Conservação da Natureza (IUCN). A principal causa da ameaça é  ocasionada pela contaminação devido a mineração no local.


Figura 1. Caramujo marinho (Chrysomallon squamiferu). Curiosamente, o pé do caramujo é blindado com escamas, chamadas escleritas, também formadas por dois minerais de sulfeto de ferro: pirita (FeS2) e greigita (Fe3S4). As escleritas estão indicadas pela seta branca.

Segundo os autores, a entrada do caramujo marinho na lista vermelha de animais ameaçados de extinção, e também a possível entrada de mais 14 espécies diferentes, pode ser o início de uma reflexão sobre a liberação de licenças para empresas mineradoras oceânicas. Esse fato demonstra o quanto a mineração pode afetar a biodiversidade marinha e, consequentemente, a alimentação dos humanos com peixes, moluscos e crustáceos contaminados, inclusive sendo contraditório ao exposto pela empresa canadense que afirmou não prejudicar a biodiversidade nas minerações no início da expedição Solaris I, na qual ganhou uma licença de 20 anos para realizar mineração em Papua Nova Guiné.

Assim, as consequências que a mineração oceânica traz para o meio ambiente nos faz refletir em sua viabilidade, e deve nos estimular a buscar métodos para diminuir seus impactos ambientais.


Quer saber mais:

https://obis.org/about/governance/

https://www.nature.com/articles/d41586-019-02231-1

https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2015/04/origem-da-vida-pode-ser-uma-fonte-hidrotermal.html

http://www.usp.br/aun/antigo/exibir?id=1872&ed=210&f=18

Sigwart, J. et al., Red Listing can protect deep-sea biodiversity. Nature Ecol. Evol. http://doi.org/10.1038/s41559-019-0930-2 (2019).

https://www.iucnredlist.org/search?query=Chrysomallon%20squamiferu&searchType=species


Imagem retirada de:
https://blacksmoker.wordpress.com/tag/fontes-hidrotermais/
http://ambipetro.com.br/as-riquezas-do-fundo-do-mar-a-nova-fronteira-da-mineracao/
http://cienciaes.com/neutrino/2016/04/23/el-caracol-de-hierro/?fbclid=IwAR2AZbohpyiwIuSVdO0mmN_94wwD3II5fLK4PV6MZQZbKSEZ1JnB2MjLa90


Sobre o autor:
nakajimatakahiro.r@gmail.com
Rafael Takahiro Nakajima é  biólogo e Doutor em Ciência Biológicas (Genética)


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quinta-feira, 25 de julho de 2019

O que aconteceria se você morasse em Chernobyl hoje?


Quando o reator no 4 da usina nuclear de Chernobyl explodiu, cerca de 116 mil pessoas foram evacuadas de uma área de aproximadamente 30 quilômetros ao redor do local, que foi  estabelecido pelas autoridades com uma zona proibida. No momento da explosão, em abril de 1986, uma grande quantidade de radioatividade foi liberada na atmosfera, atingindo até mesmo países distantes. O reator continuou a vazar por 10 dias após o acidente inicial, liberando cada vez mais radiação no ambiente, até que o governo soviético, em conjunto com diversos cientistas, consegui conter o vazamento. O saldo final de mortes causadas pelo acidente é incerto, mas a Organização Mundial de Saúde (OMS) relata que o acidente teria sido responsável por 4 mil mortes a longo prazo.

Soldado durante serviço de descontaminação da área. Copyright: IAEA Imagebank 
A quantidade de radioatividade liberada durante o desastre de Chernobyl foi 400 vezes maior do que a da bomba atômica lançada sobre as cidades japonesas no final da Segunda Guerra Mundial. Os efeitos instantâneos da exposição a radiação podem variar entre vermelhidão na pele a queimaduras, sendo que pessoas que trabalharam no local durante o acidente relataram que seus corpos pareciam bronzeados. Mas como está Chernobyl hoje, 33 anos após o acidente?

Atualmente a cidade abandonada se tornou um destino turístico. Milhares de viajantes vão até a cidade em busca de ver com seus próprios olhos sua história, suas curiosidades e fazer boas fotos. O governo ucraniano inclusive já demonstrou interesse em tornar a cidade um ponto turístico oficial. Mas e quanto a radiação que ainda está no local? 
         
Pelo que se sabe, viver hoje em Chernobyl não trará problemas para a saúde. Embora ainda existam certas áreas de zona de exclusão onde não é permitido a presença de pessoas, a grande maioria da zona proibida inicialmente não contém mais radioatividade de que lugares com radiação natural. É sabido, por exemplo, que locais com grande altitude tem maior presença de radiação cósmica. Se você vive em locais desse tipo, você recebe a mesma quantidade de radiação que a maior parte da zona de exclusão. Além disso existe uma grande variabilidade de doses de radiação em todo o nosso planeta. 
           
Para comparação, socorristas e bombeiros que trabalharam no dia do acidente receberam doses de cerca de 160 a 800 mil microsieverts (que é a unidade de medida de radiação), e isso é extremamente alto. Já a dosagem anual média atual é de 1000 microsieverts (menos do que em uma tomografia computadorizada de corpo inteiro que equivale a 10 mil microsieverts). 


Parque abandonado em Chernobyl

Porém ainda existem alguns locais em que a entrada é proibida devido a radiação. A Floresta Vermelha por exemplo emite uma dose de radiação de 350 mil microsieverts anuais. Morar lá não seria letal, mas as chances de ter algum tipo de câncer no futuro seriam muito altas. Estima-se que os níveis normais de radiação só voltarão a Floresta Vermelha em cerca de 300 anos.

A Floresta Vermelha em Chernobyl. Créditos: Clay Gilliland CC BY-SA 2.0

Além da radiação emitida é importante estudar também o tipo de elementos radioativos emitidos. Durante a explosão mais de 100 elementos foram jogados na atmosfera, sendo alguns deles mais preocupantes do que outros. O iodo-131, por exemplo, é um dos mais nocivos e é associado ao câncer de tireóide, porém tem uma meia-vida de apenas oito dias. Já o plutônio-239 tem uma meia-vida de 24 mil anos, porém ele não é absorvido por plantas e pelo solo. 

Atualmente animais selvagens estão cada vez mais ocupando o espaço da região, aproveitando a ausência da presença massiva de humanos. Cerca de 500 pessoas viviam em Chernobyl em 2010. 

Para saber mais:

Diego Henrique Mirandola Dias Vieira é biólogo, mestre e doutorando em zoologia pelo Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu. Queria ser jogador de futebol mas se escolheu a profissão que tem maior salário. Faz pesquisa na área de parasitologia de peixes.
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segunda-feira, 22 de julho de 2019

50 anos da viagem do ser humano à Lua


Em 16 de julho de 1969, a Agência Espacial Estadunidense (National Aeronautics and Space Administration – NASA) lançou no espaço uma nave sendo tripulada pelos astronautas Neil Armstrong, Michael Collins e Buzz Aldrin.

Astronautas. Fonte: Nasa

Quatro dias depois, em 20 de julho, Neil e Buzz pisaram no solo lunar, sendo Neil o primeiro, enquanto Michael permaneceu no módulo de comando da nave. Após cerca de vinte e duas horas de operações, eles retornaram à espaçonave e no dia 24 de julho pousaram no Oceano Pacífico, de onde foram resgatados.
Astronautas na Lua. Fonte: Nasa

Sem dúvida, a ida à Lua foi um dos maiores feitos da humanidade até hoje e, embora seja uma informação amplamente difundida na sociedade, muitas dúvidas sobre esse fato ainda existem. Há inclusive quem questione a sua veracidade.
O que levou o ser humano à realizar uma viagem tão desafiadora? A busca por conhecimento e avanços científicos pode ser uma das respostas para isso, mas, certamente não foi a única motivação. O contexto político do momento melhor justifica tamanha proeza. Na época, os Estados Unidos da América (EUA) e a União Soviética (URRS) travavam disputas políticas, o que ficou conhecido como Guerra Fria, e entre os campos da disputa estava a exploração espacial. A conquista do espaço era uma demonstração de avanço tecnológico e de poder de armas para o mundo. A URRS liderou o início da corrida espacial conseguindo enviar em 1957 o primeiro satélite à orbita da Terra e o primeiro ser vivo ao espaço (uma cadela). Já em 1961, a URSS enviou o primeiro homem ao espaço. A liderança soviética estimulou mais investimento estadunidense na pesquisa aeroespacial, culminando com a criação da NASA. Ainda em 1961 os EUA enviaram um homem ao espaço, mas ainda estavam atrás na corrida. Em vista de passar à frente, os EUA lançaram o programa Apollo, que durou vários anos e incluiu várias etapas e expedições, com diferentes objetivos, sendo que o principal era realizar um pouso tripulado na Lua e voltar à Terra, o que foi cumprido na missão chamada de Apollo 11. Após isso, os EUA enviaram humanos à Lua mais algumas vezes até o ano de 1973.
Quanto custou aos EUA a ida do ser humano à Lua? Segundo dados atualizados ao valor do dólar em 2018, entre os anos 1959 e 1973 foram gastos cerca de 131,8 bilhões de dólares, o equivalente a 428 bilhões de reais. Estes valores representam mais de 5% dos gastos públicos dos EUA na época.
Porquê o ser humano não voltou mais à Lua se a tecnologia de hoje é mais avançada que a da época? O orçamento atual da NASA é bem inferior ao da época, representando cerca de 0,4% dos gastos do governo, o que inviabiliza expedições desse porte.
Não seria mais útil investir todos esses recursos financeiros na Terra em vez de explorar o universo? Embora algumas pessoas acreditem que a exploração espacial seja um gasto de recurso, que poderia estar sendo utilizado para resolver problemas da Terra, o conhecimento científico e tecnológico gerado durante as pesquisas permitiu o desenvolvimento de várias áreas como a medicina, a informática e as ciências climáticas, que tem repercusão no nosso dia-a-dia na Terra. Esse é um exemplo de como a pesquisa científica apenas com o intuito de buscar conhecimento pode trazer benefícios.
Porquê existem pessoas que não acreditam que o ser humano foi até a Lua? Existem várias teorias da conspiração que defendem que o ser humano nunca foi à Lua e vários argumentos se baseiam na análise das fotos e vídeos da viagem divulgados pela NASA. Segundo alguns conspiracionistas, tudo não passa de uma farsa cinematográfica montada pelo próprio governo estadunidense para se consolidar como potência política mundial. Porém, existem fortes argumentos que sustentam o feito de 1969 como o fato de cerca de 400.000 pessoas terem trabalhado direta ou indiretamente no projeto, o que torna impossível que uma farsa seja sustentada há 50 anos por tanta gente. Além disso, os próprios soviéticos nunca questionaram a veracidade da ida do ser humano à Lua. Teorias da conspiração devem sempre existir, pois algumas pessoas preferem negar fatos do que compreender os argumentos que os confirmam.
A exploração espacial ainda é bastante desafiadora para a humanidade, mas à medida que ela avança, o nosso conhecimento sobre o universo se expande e nossa ciência se desenvolve.

Para saber mais:
https://brasilescola.uol.com.br/historiag/apollo-11.htm
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/15/ciencia/1518660959_356601.html
https://brasil.elpais.com/brasil/2019/06/21/actualidad/1561128132_157440.html
https://www.megacurioso.com.br/ciencia/106021-voce-tem-ideia-de-quanto-a-viagem-do-homem-a-lua-custou-aos-eua.htm

Sobre o Autor: Adauto Lima Cardoso é biólogo, mestre e doutor em Genética pela Universidade Federal do Pará e pela Universidade Estadual Paulista, respectivamente. Atualmente realiza pós-doutorado no Departamento de Morfologia do Instituto dse Biociências da UNESP.

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quinta-feira, 11 de julho de 2019

Do frio para o quente: revertendo o fluxo do calor com física quântica


De acordo com a física clássica, o calor sempre flui espontaneamente dos objetos mais quentes para os mais frios, até ser atingido o equilíbrio (Fig. 1). Por exemplo, um prato de comida quente deixado em cima da mesa perderá calor para o ambiente, esfriando até atingir a temperatura ambiente. Tal fenômeno pode ser explicado pela segunda lei da termodinâmica

Figura 1 – Do quente para o frio. Obtido em: Micadei K, Peterson JPS, Souza AM, Sarthour RS, Oliveira IS, Landi GT, et al. Reversing the direction of heat flow using quantum correlations. Nat Commun. 2019;10: 2456. doi:10.1038/s41467-019-10333-7

Mas seria possível o calor fluir do mais frio para o mais quente? Em alguns casos excepcionais, sim. Um exemplo são máquinas como o ar condicionado e a geladeira, o que só é possível porque há gasto de energia externa, ou seja, o fluxo do calor não é espontâneo. E agora, observou-se um caso em que o calor flui do mais frio para o mais quente sem gasto de energia externa, o que só foi constatado graças a experimentos de física quântica feitos por pesquisadores brasileiros.

Figura 2 – Fluxo do frio para o quente em spins relacionados. Obtido em: Micadei K, Peterson JPS, Souza AM, Sarthour RS, Oliveira IS, Landi GT, et al. Reversing the direction of heat flow using quantum correlations. Nat Commun. 2019;10: 2456. doi:10.1038/s41467-019-10333-7

A pesquisa foi realizada por pesquisadores da Universidade Federal do ABC, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e da USP, com a colaboração de coautores da Alemanha e de Singapura. O estudo foi publicado no começo deste mês (05/06/2019) na revista científica Nature Communications.

No estudo, foram analisados spins de átomos de hidrogênio e carbono que apresentavam ligação moléculas de clorofórmio. A tecnologia utilizada foi a de ressonância magnética nuclear, parecida com a utilizada em hospitais. Os cientistas observaram o calor fluir de um spin mais frio para um spin mais quente (Fig. 2). A descoberta dos pesquisadores brasileiros terá implicações importantes na área de física quântica, inclusive no campo de computação quântica.

Saiba mais assistindo ao vídeo abaixo, produzido pela agência FAPESP:


Referências

Artigo original (em inglês): Micadei K, Peterson JPS, Souza AM, Sarthour RS, Oliveira IS, Landi GT, et al. Reversing the direction of heat flow using quantum correlations. Nat Commun. 2019;10: 2456. doi:10.1038/s41467-019-10333-7. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41467-019-10333-7#Fig1

Texto jornalístico (em português): Arantes JT. Experimento inverte o sentido do fluxo de calor. Agência FAPESP. 2019. Disponível em: http://agencia.fapesp.br/experimento-inverte-o-sentido-do-fluxo-de-calor/30700/
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terça-feira, 11 de junho de 2019

Procura-se doadores voluntários de fezes para pesquisa científica!


Por Aline Missio

Meu nome é Aline Missio, e atualmente sou estudante de Doutorado em Genética pela UNESP de Botucatu. Minha linha de pesquisa é análise do microbioma intestinal, cujo foco são bactérias das fezes de doadores saudáveis e de pacientes com retocolite ulcerativa, uma doença inflamatória intestinal sem causa definida. 

Estou procurando doadores voluntários para fornecer fezes com a finalidade de avaliar a eficácia da transplantação fecal na melhora clínica de indivíduos portadores de retocolite ulcerativa. A transplantação fecal nada mais é que a transferência de fezes de um doador saudável para o trato gastrointestinal do paciente com a finalidade de restaurar a sua microbiota, pois estudos demonstram que indivíduos com retocolite ulcerativa apresentam alterações na sua microbiota intestinal.

O tratamento da retocolite ulcerativa geralmente envolve terapias medicamentosas ou cirurgia. Porém, alguns pacientes não respondem satisfatoriamente ao tratamento convencional, o que compromete muito a sua qualidade de vida. Portanto, uma vez que o tratamento convencional muitas vezes não é o suficiente, a transplantação fecal é uma alternativa que está sendo pesquisada.

E quem pode doar? 

Se você tem interesse em colaborar com nosso projeto de pesquisa com a doação efetiva de fezes, você deverá ter idade entre 18 e 40 anos e se submeter a uma triagem que compreende em: preenchimento de um formulário de saúde on-line para obter algumas informações sobre seus hábitos, histórico e condição de saúde, exames clínico-laboratoriais e análise do microbioma do material fecal. 

O primeiro passo é o preenchimento do formulário [clique aqui para acessar o formulário]. Após responder a todas as questões, as respostas serão automaticamente enviadas para um e-mail do grupo de pesquisa do projeto. Caso você preencha os requisitos necessários, você será comunicado e orientado sobre os próximos passos!

Para mais informações envie uma mensagem para 14 981045511 (Aline).
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sexta-feira, 7 de junho de 2019

O que está acontecendo na Venezuela?



No dia 23 de Janeiro, o então presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, declara, em meio a uma multidão, ser o novo presidente interino da Venezuela até que o atual ocupante do cargo, Nicolás Maduro, o deixe sob alegações de fraude e corrupção. Incitando a população local, a mídia, a comunidade internacional e a opinião pública a tomarem partido sobre a situação, a atitude surge como marco de um novo estágio da crise no país vizinho no qual a polarização interna, a desolação econômica, a pressão internacional e uma crise humanitária sem precedentes não dão espaço para uma solução simples e rápida.

            Mas, que diabos aconteceu com a Venezuela para a situação chegar a um ponto desses? Quem é o responsável por isso? Por que ONU, Estados Unidos, Brasil, China, Rússia e tantos outros países estão se envolvendo? O governo não faz nada? E a população? Como “resolver” tudo isso? O que é, de fato, essa crise?

O chavismo

Associar o que vem ocorrendo no país exclusivamente ao governo é um caminho fácil do raciocínio para chegar ao “culpado” (que muitas vezes está certo!) mas que, dificilmente, explicaria a complexidade ou as origens da situação. Culpar a gestão chavista pelo que ocorre é parte da resposta. Parte. O regime leva esse nome por conta de sua principal figura e líder, Hugo Chávez, – ex-paraquedista que esteve envolvido em revoltas populares (como o CARACAZO – 1989) e tentativas de golpe durante o começo dos anos 90 – presidente eleito pelo voto popular em 1998 e governante até o ano de 2013, ano de seu falecimento. Propondo uma reconfiguração no poder político do país, na qual o povo teria maior representação e participação, o governo trabalhou diretamente em reformas de base ao longo dos anos (reforma agrária, de saúde, de educação) conseguindo reduzir muito, como exemplo, os números de pobreza e pobreza extrema do país. O chamado chavismofoi marcado, também, por um aumento da interferência estatal na economia, principalmente no câmbio internacional (compra e venda), bem como na estatização de empresas e ampliação de outras já públicas como a PDVSA (principal petrolífera do país). Tomou medidas de fortalecimento do poder executivo (como a criação de uma Assembleia Nacional) e tentou outras sem muito sucesso (como a extensão do mandato presidencial). Além disso, pautou decisões e posturas com grande apoio popular e militar (Chávez era um líder carismático) e governou lutando contra as garras imperialistas, pela liberdade da América Latina e a construção da nação bolivariana. O chavismo, essa combinação de regimentos e atitudes percebidas e estudada ao longo dos anos, foi denominado pelo próprio Hugo Chávez como “socialismo do século XXI”.

A derrocada

Olhando para a trajetória do governo, a morte de Hugo Chávez foi um golpe duro para a continuidade do chavismo como modelo. O buraco deixado por sua ausência e ocupado por seu vice e sucessor Nicolas Maduro (que já vinha assumindo as responsabilidades desde 2012 devido ao estado de saúde de Chávez) passou longe de ser “preenchido”. Pelo contrário, foi a partir de sua posse e das eleições de 2016 que inúmeros escândalos de fraude nas eleições, denúncias da prisão de opositores e casos de corrupção nas estatais estouraram. O resultado das eleições legislativas de 2017 ,no qual a oposição consegue a maioria da Assembleia Nacional Constituinte  pela primeira vez desde sua criação, e escolhe Juan Guaidó como seu representante máximo, acentua a pressão e dificulta medidas do partido do presidente.

            Considerada por muitos o principal vetor de toda a situação, a crise econômica teve início com a queda do preço do barril de petróleo a partir do ano de 2015, alcançando seu menor valor em 2016 (aproximadamente 37 dólares o barril, como comparação, em 2013, ano da morte de Chávez, o valor era de 98 dólares cada um). É uma situação “grande” por si só mas que deve ser analisada em ao menos 3 aspectos característicos do país sobre o assunto. O primeiro deles é a grande importância do óleo na economia venezuelana. Sendo o território com a maior quantidade de petróleo do mundo e aonde a sua venda – dos commodities – representa 95% de tudo que sai do país ou, cerca de 25% do PIB, uma queda de preço dessas, sozinha, já seria um golpe doloroso. Em segundo lugar é a maneira como a Venezuela trabalha essa dependência. Ele sempre foi o produto principal do país – desde o século XX – e já passou por outras crises (como a financeira de 2008) mas, foi durante o governo chavista, que seu uso serviu como um alicerce de todas as reformas sociais e políticas feitas. Sua venda garantia o que a Venezuela não conseguia produzir sozinha através da compra de produtos importados pelo próprio governo. Governo esse que negligenciou outros setores produtivos e industriais do país tornado ainda mais axial a venda de petróleo para a normalidade da vida cotidiana. Por último, as medidas governamentais e a administração da PDVSA – estatal responsável pela extração e refino de petróleo – passaram longe de oferecer algum tipo de esperança. Congelamento de preços, empréstimos internacionais (China e Rússia) e denúncias de roubos milionários (ao menos 500 milhões) não contribuem em nada para a solução da situação.

No meio de todo esse turbilhão econômico e político, a população sente na pele e na rotina os efeitos desse caos. Falta de alimentos (arroz, feijão, óleo), mal funcionamento de serviços básicos (transporte, hospitais), apagões e o sumiço de itens essenciais ao dia a dia das prateleiras dos mercados (papel higiênico, xampu) resultam em situações de miséria e sofrimento, como a diáspora Venezuelana – consequência direta da situação e a maior da nossa região, com números que chegam as 3 milhões de pessoas que já não conseguem mais viver com o descaso, os números exorbitantes da inflação (o número variou 1.000.000% em 12 meses!) – e a busca por condições mínimas de vida.

A maldição do petróleo

A frase tema não é nova, ou invenção criativa desse que vos fala. O petróleo molda relações nacionais e internacionais não é de hoje. E a Venezuela não será primeira nem a última a sofrer seus efeitos políticos. Até agora, ao longo do texto, o tema é abordado como uma questão interna, sensível a crises internacionais mas que tem seu eixo principal girando em torno do governo, da manutenção e dependência do petróleo, da corrupção, etc. O que vem ocorrendo no país é, além de tudo que foi tratado, uma aula ao vivo sobre política externa e pressões econômicas internacionais. O interesse e a disputa por recursos – sejam eles minerais, energéticos, comerciais – não é uma novidade na história da humanidade. ONU, União Europeia, Rússia, Brasil e tantos outros países não se manifestam sobre o assunto por simples bondade. O maior reservatório conhecido de um mineral tão importante não é pouca coisa.

Países como os Estados Unidos já vem, desde o fim da gestão Obama, classificando a Venezuela como um lugar perigoso para investimentos e ou financiamentos internacionais além de exercer bloqueios alfandegários contra seu maior parceiro petrolífero latino (parceria que vem desde o governo Chávez e todo aquele discurso anti-imperialista). São atitudes que dificultam e limitam as possibilidades de ajuda financeira do exterior ou retomada econômica interna.

Na mesma moeda, a maioria dos países receberam e reconhecem Guaidó como o verdadeiro presidente venezuelano, desprestigiando ainda mais as instituições do país. Salvo alguns poucos vizinhos – México e Uruguai entre eles – dificilmente a Venezuela irá conseguir apoio internacional para uma saída democrática interna, estando com o espectro da intervenção ao seu encalço.

O interesse político é tanto que até a Cruz vermelha – instituição internacional e que não responde por nenhum Estado em específico – emitiu uma nota de repúdio contra diversas redes de comunicação mundial perante o uso político e intencionado de seu trabalho e ajuda humanitária. O sofrimento como política, a crise como negócio.

E agora, José?

O cenário que se forma nas ruas venezuelanas é rotina de jornais e noticiários do mundo inteiro, cada dia com um ultimato novo, uma manifestação, um pronunciamento, uma prisão diferente. As peças que vão se agrupando formam um alinhamento binário: Guaidó X Maduro. O primeiro vem ganhando cada vez mais apoio de estadistas e da população; Maduro, luta com o que tem e busca aliados para a manutenção da autarquia política que se tornou o chavismo. O petróleo, interesse mundial, alimenta a opinião e bondade de líderes e multinacionais enquanto a democracia e a população lutam e padecem com o pouco que lhe restam. A situação é complexa, o perigo de uma intervenção é alto. E é no vizinho ao lado.
Para saber mais:
Livro: ROSS, Michael L. A MALDIÇÃO DO PETRÓLEO - Como a riqueza petrolífera molda o crescimento das nações. 1º edição.
Sobre o autor:
Pedro Felipe Minhoni. Professor e intencionado nas práticas históricas, me formei em 2014 na faculdade de ciências humanas de Franca em História. Desde então busco aprimorar cada vez mais meu método científico, minha leitura e escrita, além de diversificar a playlist e estabelecer conexões pessoais propícias ao bar.

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quarta-feira, 5 de junho de 2019

Fósseis de bilhões de anos podem reescrever a história da vida na Terra

Os fungos desempenham um papel incrivelmente crucial na história da vida no planeta Terra. É por isso que os cientistas estão tão animados em anunciar a descoberta dos fósseis de fungos mais antigos do mundo. Os fósseis minúsculos datam de algo entre 900 milhões e 1 bilhão de anos atrás, antecedendo em quase meio bilhão de anos o recordista anterior.
          Com 1 bilhão de anos, esse fungo também pode ser candidato a uma das primeiras vidas multicelulares na Terra. "Os fungos são um dos grupos mais diversificados de eucariotos conhecidos hoje e, apesar disso, seu antigo registro fóssil é muito escasso", disse o autor do estudo Corentin Loron, da Universidade de Liège, na Bélgica.
          Relatados na revista Nature, os microfósseis de Ourasphaira giraldae foram encontrados no xisto da costa do Ártico, no noroeste do Canadá. Usando um microscópio eletrônico, Loron e sua equipe foram capazes de denotar minúsculas estruturas – paredes com duas camadas nas células, filamentos ramificados e esferas semelhantes a esporos - que sugeriam fortemente que estes eram realmente fungos. As paredes celulares também continham quitina, assim como fungos modernos. 

Figura 1 - Um fungo multicelular microscópico chamado Ourasphaira giraldae, que viveu em um ambiente de estuário há cerca de 1 bilhão de anos. Fonte: Corentin Loron/Universidade de Liege
          Não está claro como o fungo apareceu no xisto. "Não podemos saber com certeza se O. giraldae estava vivendo no solo, mas as rochas em que foi depositado são estuarinas. Talvez esses organismos, que precisam de fontes externas de alimentos, estivessem vivendo no ambiente estuarino, o que teria proporcionado tudo que um fungo pode precisar", acrescentou Loron.
          Supunha-se anteriormente que as primeiras plantas e fungos surgiram quase que no mesmo período, formando uma parceria íntima que ajudou a dar origem à ecosfera terrestre como a conhecemos, há cerca de 420 milhões de anos. Com essa nova descoberta, no entanto, parece que os fungos poderiam ter realizado mais de 450 milhões de anos de trabalho de base antes que as plantas viessem colonizar a terra. A nova descoberta também sugere que a vida animal pode ter começado muito antes do que nossa estimativa atual sugere.
          “Esse achado é interessante porque os fungos são, na ‘árvore da vida’, o parente mais próximo dos animais. Isso significa que, se os fungos já estavam presentes em torno de 900 milhões a 1 bilhão de anos atrás, os animais também deveriam estar”, continuou Loron. “Isso está remodelando nossa visão do mundo porque esses dois grupos, assim como outros grupos eucarióticos como as algas, ainda estão presentes hoje. Este passado distante, embora muito diferente de hoje, pode ter sido muito mais ‘moderno’ do que pensávamos."
Para saber mais:
Sobre o autor:

Diego Henrique Mirandola Dias Vieira é biólogo, mestre e doutorando em zoologia pelo Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu. Queria ser jogador de futebol mas se escolheu a profissão que tem maior salário. Faz pesquisa na área de parasitologia de peixes.

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quarta-feira, 22 de maio de 2019

Minha querida pesquisa - Isabela Moraes

Sou Isabela Moraes, e atualmente estudante de Doutorado em Zoologia pela universidade Estadual Paulista (UNESP) e apesar de atuar no tema de zoologia, trabalho efetivamente com organismos marinhos. A paixão e curiosidade em trabalhar na área de biologia marinha começou ainda quando era adolescente, quando, por influência do meu pai, que já era mergulhador (por hobby, educador físico de profissão), fiz o curso de mergulho básico, ainda com 13 anos. A partir do dia que terminei o “batismo”, a prova final do curso do curso de mergulho, tive a certeza que gostaria de fazer aquilo para o resto da vida, e deveria tornar aquela atividade, meu trabalho! Estudei sempre em escolas públicas de ensino fundamental e médio, e quando finalmente chegou o famoso “terceirão”, passei a conhecer e pesquisar a fundo todas as universidades de Biologia Marinha que poderia prestar o vestibular, ainda que a Educação Física, profissão do pai e do irmão me encantasse. Me decidi e dediquei que seria biologia marinha e me deparei com a primeria frustração: Não fui aprovada no vestibular para o curso de biologia marinha da UNESP-São Vicente. Inegavelmente decepcionada, decidi que não gostaria de fazer cursinho e então ingressei na UNITAU (Universidade em modelo de Autarquia Municipal de Taubaté), para realizar o curso de Biologia. Ainda gostaria de trabalhar com biologia marinha,  na ideia de trabalhar com grandes peixes, vertebrados, mamíferos...
Trabalho de campo e coleta de camarões

Aquele sonho comum de quase 100% das pessoas que pensam em Bio Marinha. Para minha surpresa, logo no primeiro ano de faculdade, na disciplina de Zoologia de Invertebrados, conheci o professor Valter José Cobo, único da Universidade que trabalhava com esta área. Já tinha certeza do caminho que queria seguir e logo na primeira aula já fui atrás do professor para realizar estágio. Sim, ele trabalhava com biologia marinha, e para minha felicidade, trabalhava com mergulho! Mas fez questão de deixar claro que o trabalho era exclusivamente com crustáceos. Decepção. O que se trabalhar com crustáceos? Qual a graça? Mas ok, era Biologia Marinha, Mergulho, tudo o que sonhei desde a adolescência. Resolvi encarar. Li MUITO (sério, foi um ano intenso aprendendo sobre os grupos, a biologia, a classificação dos grupos de crustáceos), um verdadeiro teste para ver se gostaria mesmo de trilhar aquele caminho. Até que um dia fui apresentada aos CAMARÕES CARÍDEOS.
Diversas espécies de camarões estudadas ao longo das pesquisas

Paixão à primeira vista! Acompanhei o novo orientador em algumas coletas, vi os animais e tive a certeza absoluta que havia me encontrado! Eram os carídeos!! Um grupo completamente diversificado, lindo, e com muita coisa a se descobrir sobre eles! Comecei então a Iniciação Científica, para fazer um levantamento das espécies desses camarões em uma pequena ilha em Ubatuba. Aprendi a coletar e a identificar aqueles camarões. Foi então que o governo lançou o “ciência sem fronteiras” o qual meu orientador de cara me incentivou a participar. Empolgadíssima, me inscrevi, sonhando em estudar na Austrália, afinal, o auge da vida marinha e todos os animais diferenciados estão na Austrália. Perfeito. Não passei na primeira seleção. Nova decepção. Já não sabia nem se iria querer seguir o caminho na universidade. Quando tempos depois abre novamente a oportunidade e descobrimos uma parceria de trabalho em Portugal, desta vez com um dos maiores especialistas em camarões carídeos do mundo. A empolgação ressurge. Bolsa aprovada. Incrível. Passei um ano em Portugal, desenvolvi meu tcc junto ao Laboratório de Biologia da Universidade de Aveiro, sob orientação do Prof. Ricardo Calado trabalhando com o camarão ornamental Hymenocera picta, que tem um comportamento completamente diferenciado, se alimentando apenas de estrelas do mar. Trabalhamos com essa questão em diversos tipos de experimentos!
Camarão ornamental Hymenocera picta

Tcc finalizado, hora de retornar ao Brasil e apresentar os resultados da experiência! Quando então me inscrevo no Congresso Brasileiro sobre crustáceos (um dos mais importantes na área, no Brasil), e para minha surpresa, após uma apresentação oral o trabalho foi premiado como melhor do congresso entre os trabalhos de graduação. Isso só reafirmava a certeza de ter escolhido o caminho certo. Ainda Neste congresso conheci o Prof. Antonio Castilho, docente na UNESP Botucatu, e já sabendo do caminho que queria seguir, fazendo pós graduação, fui pedir uma oportunidade de orientação! No mês seguinte, já estava aprovada como mestranda na pós-graduação em zoologia! Continuando os trabalhos com camarões carídeos, desta vez, com projeto para avaliar as espécies encontradas em áreas de proteção ambiental no estado de São Paulo! Consegui almejar uma bolsa FAPESP, fizemos um trabalho muito bonito na Laje de Santos e Ilha da Vitória! Decidi continuar o Doutorado na instituição! Ainda trabalhando com camarões carídeos, mas hoje dedicando toda pesquisa em avaliar o tamanho do genoma destes animais e os padrões evolutivos que levaram ao modelo atual e história de vida do grupo. Como mencionei, há muita coisa a se descobrir sobre estes camarões, e tive o privilégio de completar 9 anos desde àquelas tardes dedicadas a conhecer sobre a biologia de crustáceos. Aprendi muito, cresci muito na universidade e posso afirmar com toda certeza que todo este trabalho é importante para auxílio da proteção da biodiversidade marinha do território nacional que é extremamente única a maravilhosa!!

Sobre a autora: Isabela Moraes é bióloga formada pela Universidade em modelo de Altarquia Municipal de Taubaté (UNITAU), mestre em zoologia pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (UNESP) e atualmente é doutoranda em zoologia pela mesma instituição.
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quinta-feira, 2 de maio de 2019

Fake ou news: o yeti existe?


Nesta segunda-feira (29/04/2019), o Exército Indiano causou surpresa (e piadas) no mundo inteiro ao postar um tweet descrevendo evidências da existência do yeti. De acordo com o tweet, pegadas medindo 81cm X 38cm foram descobertas em Makalu, uma montanha perto do Everest. Mas isso é fato ou fake?




O estudo de animais como o yeti, o pé-grande, e o monstro do lago Ness está dentro da Criptozoologia, que é o estudo de espécies consideradas folclóricas e lendárias. A Criptozoologia frequentemente é classificada como uma pseudociência, fortemente baseada no Criacionismo e que desconsidera questões geológicas e biogeográficas.  
Porém, por incrível que pareça, trabalhos científicos sobre o yeti já foram publicados em revistas renomadas.
Em meados do século XX, pegadas descobertas pelo explorador inglês Eric Shipton causaram um rebuliço sobre a possibilidade de existência do yeti. Em 1960, a Nature publicou um estudo sobre a anatomia do pé do yeti baseada nas pegadas de Shipton. O autor deste artigo, W. Tschernezky, concluiu que “toda a evidência sugere que o chamado homem-das-neves é um primata bípede muito grande e pesado”. Porém, cientistas contemporâneos a Tschernezky e Shipton perceberam que estes dados eram presunçosos e pouco confiáveis: um comentário na Science de abril de 1958 apontava a inexistência de provas concretas, e que “evidências colaterais como pegadas estão sujeitas a interpretações diversas”.
Figura –  Pegada na neve encontrada por Shipton. (2) Reconstrução do “pé do yeti” por Tschernezky. Obtido em: Tschernezky, W., 1960. A Reconstruction of the Foot of the ‘Abominable Snowman.’ Nature 186, 496–497. https://doi.org/10.1038/186496a0. 

Trabalhos mais novos também estudaram o temido monstro, por análise do DNA de ossos e pelos atribuídos ao yeti ou ao pé-grande. Deste modo, é possível identificar se o DNA pertence a uma espécie nova (como o yeti), ou a uma espécie conhecida cujo pelo ou osso foi erroneamente atribuído ao ser mitológico. Nesses novos artigos, é praticamente unânime que os pelos e ossos atribuídos ao yeti na verdade pertencem a animais comuns, como ursos e cães.
Por exemplo, em um trabalho de 2014, o cientista de Oxford Bryan Sykes e colaboradores analisaram 30 supostas amostras de pelo de yeti, pé-grande e almasty. Grande parte dos pelos não pertencia a seres fantásticos, mas sim a animais domésticos como bois, cavalos e cães. Das três “amostras de yeti”, duas pertenciam a um urso e uma pertencia a um caprino. Em 2017, pesquisadores da Universidade de Bufallo fizeram uma análise mais completa do DNA de ursos da região do Tibete e do Himalaia. Eles corroboraram os resultados de Sykes e confirmaram que o pelo de yeti na verdade pertence a um urso.
Deste modo, é improvável que as pegadas encontradas pelo Exército Indiano sejam de um ser gigante e humanoide como o yeti. Assim como Shipton fez há mais de 50 anos atrás, a “existência” de um ser mitológico está sendo baseada em evidências fracas como pegadas na neve.

Para saber mais:
The Science behind bigfoot and other monsters (2013) - Entrevista na National Geographic com os escritores Daniel Loxton e Donald Prothero (em inglês)- https://news.nationalgeographic.com/news/2013/09/130907-cryptid-crytozoology-bigfoot-loch-yeti-monster-abominable-science/
A Reconstruction of the Foot of the ‘Abominable Snowman’ (1960) – Artigo na Nature por W. Tschernezky (em inglês) - https://www.nature.com/articles/186496a0
“Abominable snowman” (1958) – Comentário na Science por William Straus Jr. (em inglês)- https://science.sciencemag.org/content/127/3303/884
Genetic analysis of hair samples attributed to yeti, bigfoot and other anomalous primates (2014) – Artigo científico na Proceedings of the Royal Society B por Bryan Sykes e colaboradores (em inglês)- https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rspb.2014.0161
Evolutionary history of enigmatic bears in the Tibetan Plateau–Himalaya region and the identity of the yeti (2017) – Artigo científico na Proceedings of the Royal Society B por Tianying Lan e colaboradores (em inglês)- https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rspb.2017.1804

Sobre a autora:

Maria Laura Kuniyoshi é estudante de graduação de Ciências Biológicas na UNESP de Botucatu. Ela realiza pesquisa sobre Biologia Molecular do músculo e é apaixonada por divulgação científica.


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sexta-feira, 26 de abril de 2019

Jogo como ferramenta de ensino. É possível aprender jogando?


É possível aprender jogando? Os jogos podem ser considerados potenciais ferramentas para auxiliar o ensino/aprendizagem nas escolas?  Essas perguntas nortearam a confecção e aplicação de um jogo de tabuleiro sobre Biologia e Conservação da espécie ameaçada arara-azul-grande. A seguir, será abordado um relato sobre como foi desenvolvida essa atividade em umas das localidades de ocorrência da espécie.
Arara-azul-grande. Foto: João Marcos Rosa.

As atividades foram realizadas com, aproximadamente, 300 alunos, vinculados a seis escolas municipais da região de Carajás – PA, dado que essa é uma das regiões onde ainda existem araras-azuis-grandes no Brasil.  Os alunos, matriculados em distintas séries do Ensino Fundamental, foram atendidos em nove turmas, separadamente. Inicialmente foi feito uma avaliação diagnóstica dos conhecimentos prévios dos alunos, por meio do preenchimento de um questionário abordando diferentes questões sobre a biologia da arara-azul-grande. Este questionário serviu, também, como incentivo à elaboração de novos questionamentos e discussão do tema abordado. Após a aplicação do questionário inicial, os monitores da atividade conversaram com os alunos sobre os aspectos mais importantes associados à biologia da arara-azul-grande e da sua categoria de ameaça. Para isso, foram utilizadas fotos demonstrativas da ave em diferentes atividades: se alimentando, reproduzindo, chocando os ovos. Além disso, essa atividade foi importante para contextualizar a importância e a aplicação do jogo evitando que este não fosse simplesmente "jogado por jogar". Esta explanação foi necessária para a compreensão do “antes” e do “depois”, para que a atividade lúdica pudesse atingir os seus objetivos didáticos.
As atividades seguiram com a aplicação do jogo de tabuleiro, de acordo com as regras elaboradas para este e envolvendo grupos de 4 ou 5 alunos. Logo após a atividade do jogo, o questionário inicialmente preenchido pelos alunos foi reaplicado. Além das mesmas nove questões de múltipla escolha, havia adicionalmente um espaço para críticas, sugestões e comentários. Essa avaliação teve como objetivo detectar falhas na atividade que poderiam ser corrigidas.
Imagem do jogo de tabuleiro sobre Biologia e Conservação da arara-azul-grande. Foto: João Marcos Rosa.

Tais atividades, em conjunto, foram prazerosas aos participantes e demonstraram bom desempenho como motivadoras do interesse do público e, também, na apropriação de conhecimentos sobre aspectos biológicos da arara-azul-grande e sobre possíveis ações/soluções para minimizar os riscos de extinção desta espécie ameaçada.  A aplicação do jogo de tabuleiro que, ao aliar sua característica de material didático lúdico com objetivos educacionais específicos desenvolvidos para a comunidade que reside na região de ocorrência da espécie, pôde trazer a valorização de uma consciência ambiental aos participantes. Muitos autores relatam o poder do jogo como método de ensino e aprendizagem, pois este diverte, motiva e exerce uma fascinação sobre as pessoas e permite uma maior socialização do grupo.
Além disso, abordagens de ensino com a utilização de jogos apresentam outra vantagem, associada ao estímulo de outras habilidades cognitivas que não somente a busca pela aprendizagem. Enquanto joga, o participante desenvolve a iniciativa, a imaginação, o raciocínio, a memória, a atenção, a curiosidade, o interesse e a contextualização de assuntos, concentrando-se por um tempo mais longo em uma determinada atividade
Modelos ou atividades de educação também podem ajudar a priorizar ações ou planos de conservação de espécies, populações ou ecossistemas. Entre as atividades educacionais direcionadas à conservação, podemos citar aquelas que se utilizam as chamadas espécies “bandeira”, pois estas podem levantar discussões multidisciplinares sobre o meio ambiente, já que representam “símbolos” associados a uma determinada causa ambiental, que pode ser desde sua própria conservação como a conservação de seu ecossistema inteiro. A arara-azul-grande vem sendo utilizada como espécie bandeira pelo Projeto Arara-Azul, visando promover não somente sua própria conservação como também da biodiversidade do Pantanal Matogrossense. A ampliação das atividades de educação voltadas para a arara-azul-grande, como realizado na região de Carajás - PA, associada à beleza, carisma e vulnerabilidade da espécie, faz com que esta tenha um enorme potencial para ser elevada ao perfil de bandeira em larga escala no país.

Quer saber mais sobre o assunto:
BRONDANI, C.& HENZEL, M.E. Análise sobre a conscientização ambiental em escolas da rede municipal de ensino. São Paulo: FEMA, 2003. Disponível em: http://www.sbecotur.org.br/revbea/index.php/revbea/article/view/1688. Acesso em 15 jul. 2014

CALADO, N.V., da COSTA, M.R.B., CARDOSO, A.M., PAES, L.S., MELLO, M.S.V.N. Jogo didático como sugestão metodológica para o ensino de briófitas no ensino médio. Revista Amazônica de Ensino de Ciências 4: 92-101, 2011. Disponível em: http://www.revistas.uea.edu.br/download/revistas/arete/vol.4/arete_v4_n06-2011-10.pdf. Acesso em 15 jul. 2014.

PRESTI, F. T. ; ALMEIDA, T. R. A. ; SILVA, G. F. ; SILVA, H. E. ; CONRADO, L. P. ; CESPEDE, L. ; Rodrigues, T. ; Barbirato, M. ; WASKO, A. P. . Conhecendo a arara-azul-grande: confecção e aplicação de um jogo didático como parte das ações de conservação ambiental visando a conservação da espécie. REVISTA BRASILEIRA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL (ONLINE), v. 12, p. 259-273, 2017.


Sobre a autora: Talita R. A. Almeida é bióloga e mestre em Genética pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho Câmpus de Botucatu/SP, estudante de Doutorado em Ciências Biológicas (Genética) pela mesma instituição.
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