Aba

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Os Simpsons estavam certos sobre a vacinação. Fake ou news?


Em 03 de dezembro de 2000, foi ao ar o episódio de “Os Simpsons” brincando sobre a teoria de que a vacinação contra a gripe hipnotizava as pessoas, influenciando-as a aumentar seu consumismo. Embora a série venha acertando em algumas previsões sobre a situação histórico-política americana, não existem provas científicas sobre tal efeito da vacinação. Sendo, portanto, uma notícia falsa (Fake!). No entanto, muitas notícias polêmicas a respeito de vacinas têm sido lançadas em mídias sociais e grupos anti-vacinas se fortalecem a todo momento.

Para as pessoas do meio acadêmico, parece loucura debater sobre possíveis efeitos da vacinação. Porém,  o número de pessoas que apresentam dúvidas sobre a eficácia da vacinação tem crescido muito nos países desenvolvidos. E isso tudo se deve à facilidade de acesso à informação, o que pode ser favorável para a comunicação de êxitos científicos (como o “Ciência na Medida”, por exemplo), mas que também favorece a disseminação de informações e pesquisas mentirosas ou, no mínimo, duvidosas.

O movimento anti-vacina prega que as imunizações precisam ser observadas com desconfiança, pois pouco se sabe sobre as doses seguras que podem ser aplicadas, os efeitos colaterais que podem se manifestar e sobre os lucros que as empresas farmacêuticas podem captar com a produção das vacinas. E é muito positivo que tais preocupações se manifestem na sociedade, demonstrando que alguns setores se preocupam com a segurança dos medicamentos utilizados ao redor do mundo. Por outro lado, muitas dessas preocupações se baseiam no desconhecimento sobre os processos necessários para a descoberta, produção e distribuição das imunizações.

Mas como funciona o efeito colateral das vacinas, então? Todo mundo conhece alguém que já reclamou de algum efeito colateral de uma vacina: mal-estar ou dor no local da aplicação. E, realmente, esses pequenos efeitos podem existir, como resultado de alguma pequena reação do organismo contra o diluente da vacina ou por sensibilidade à “agulhada”. Mas mantenham a calma! O braço não cairá! Esses mal-estares passageiros tendem a passar em períodos menores que 48 horas, enquanto que a proteção conferida pela vacinação tende a se manter por muito tempo.
Muito tempo também é necessário quando pensamos nos caminhos que levam   para a pesquisa e produção de vacinas,. Entre o desenvolvimento e a comercialização de uma nova vacina, são necessários mais ou menos 10 a 15 anos de pesquisas, utilizando vários modelos de estudo. Testes em células, em roedores, primatas e, finalmente, em humanos acontecem para garantir cada vez mais a segurança do novo produto e para testar sua eficácia. E conciliar segurança e eficácia não é uma tarefa fácil! Quando nos referimos às diferentes vacinas produzidas mundialmente, obtemos uma taxa de eficácia na população que pode variar de 30 a 99%.

Porém, com toda essa informação científica, por que o movimento anti-vacina aumentou tanto?

O movimento anti-vacina sempre existiu, porque sempre existiram alguns pequenos grupos de pessoas que olhavam com desconfiança para a indústria farmacêutica. Porém, em 1998, uma das revistas científicas mais conceituadas da Inglaterra, a Lancet, publicou um estudo prévio elaborado pelo médico Andrew Wakefield e alguns colaboradores, onde se descrevia a associação entre 12 crianças que desenvolveram comportamentos autistas e inflamação intestinal, a qual poderia estar associada com pequenos vestígios do vírus do sarampo no organismo. No estudo foi sugerido que esses vestígios seriam provenientes da vacina tríplice-viral (contra sarampo, rubéola e caxumba). Embora os autores reconhecessem que essa sugestão era apenas uma hipótese para explicar os dados que tinham coletado, a notícia se espalhou por todo o Reino Unido e as taxas de vacinação reduziram.

O resultado da pesquisa se mostrou assustador. Porém, por cerca de 10 anos, outros pesquisadores tentaram reproduzir os resultados coletados por Wakefield, não obtendo concordância, e, com o tempo, novas informações sobre o trabalho executado pelo médico vieram à tona. Primeiro descobriu-se que, antes da publicação do estudo, Wakefield solicitou a aprovação de patente para uma vacina produzida por ele, que concorreria com a tríplice-viral. Posteriormente, alguns colaboradores do artigo se manifestaram afirmando que não encontraram vestígios de sarampo nas crianças avaliadas pelo estudo. Com todas essas informações, o registro médico de Andrew foi cassado e a revista se retratou.

Mesmo com a verdade sobre o estudo sendo exposta, o movimento anti-vacina ainda utiliza os dados como prova de que “vacina causa autismo”. E isso tem causado redução na taxa de vacinação nos Estados Unidos da América, em países da Europa e, também, no Brasil. A meta de imunização recomendada pela Organização Mundial de Saúde é de 95% da população. Contudo, em 2016 o Brasil conseguiu vacinar apenas 84% da população – o pior registro em 12 anos. Embora o número de imunizados ainda seja alto, tal queda preocupa as autoridades de saúde porque pode abrir espaço para o reaparecimento de doenças que estavam controladas no país (como o sarampo e a poliomielite). E o problema da queda da imunização pode não ser vista num curto período de tempo. Mas o menor número de pessoas vacinadas na população favorece o aumento da susceptibilidade para a ocorrência de epidemias. Quanto mais pessoas são imunizadas, menores são as chances da doença se espalhar pela população, ficando restrita a pouquíssimas parcelas.

Ou seja: a escolha dos pais em não vacinar seus filhos não põe em risco apenas essas crianças, mas sim, toda uma população. Por isso, a divulgação dos resultados de pesquisas científicas sérias é necessária, senão urgente. E, mais importante ainda, é apresentar para a população como as pesquisas científicas são realizadas, com o intuito de possibilitar que as pessoas sejam capazes de identificar possíveis contradições nas informações a que têm acesso.

E, para vocês que têm acesso às informações contidas no Ciência na Medida, sugiro que entrem na página do Ministério da Saúde para consultar (e divulgar!) o calendário vacinal brasileiro. Ele é um dos mais completos e elogiados no mundo, e deve ser valorizado por todos nós. Fiquem por dentro!

Fontes:

Por: 
Eliza de Oliveira Cardoso
elizaolivecardoso@gmail.com
Mestre e Doutoranda em Biologia Geral e Aplicada pelo Instituto de Biociências de Botucatu - UNESP. Atua profissionalmente como professora de Biologia para o Ensino Médio e Cursinho Pré-Vestibular, e, informalmente, como conselheira amorosa e de estudos para os amigos que sofrem de amor e de vida acadêmica – incluindo ela mesma.

Compartilhar:
←  Anterior Proxima  → Inicio

0 comentários:

Postar um comentário

Seja um colaborador!

Postagens populares

Total de visualizações

Seguidores

Tecnologia do Blogger.