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segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

O presente é o futuro do passado?


Neste final de ano, pensei em escrever sobre as perspectivas da Ciência e Tecnologia para 2019. Especular sobre os acontecimentos futuros me pareceu um desafio e um tanto ousado. Por isso, comecei a ler artigos de especialistas especulando sobre nosso glorioso (ou não tanto) 2019.
Porém, vários dos textos sobre nosso futuro próximo não datavam de um passado tão próximo assim: alguns tinham mais de uma década. Após lê-los, vi que várias das hipóteses sobre a década de 2010 parecem absurdas atualmente.

Por isso, abandonei minha pretensão de fazer previsões sobre o próximo ano. Pareceu-me mais interessante investigar sobre o que se esperava (num passado mais distante) que os cientistas dos anos 2010 fizessem. E mais interessante ainda: se essas expectativas foram realizadas ou não. Confira abaixo 4 expectativas x realidades analisadas:

1) O boom da Ciência brasileira

O que se esperava?
O artigo mais surpreendente que encontrei sobre o “futuro do passado” foi “Brazil’s Option for Science Education”, publicado na Scientific American há uma década atrás. O texto foi escrito por Lula e Haddad, então Presidente da República e Ministro da Educação, respectivamente. Eles descrevem alguns programas de seu governo, especialmente o PDE, e terminam o artigo afirmando que “para os Brasileiros, um futuro brilhante começa agora”.

Como estamos?
Na época em que o artigo foi escrito, as perspectivas realmente eram excelentes para a Ciência e Tecnologia brasileiras. Afinal, o texto foi publicado em uma época favorável da economia brasileira, mais ou menos no mesmo período que a The Economist exibiu sua famosa capa com o Cristo Redentor decolando.
De fato, muitas das ações do PDE, o programa para a educação descrito no artigo, foram implantadas. Também, o instituto de pesquisa citado no texto, continua com atividades de ensino e pesquisa ativas.
Infelizmente, uma década depois, vemos que nosso futuro não foi tão brilhante assim. Nos últimos anos, o cenário econômico brasileiro não têm mais sido tão favorável. Hoje em dia, os cientistas brasileiros estão sendo afetados pela crise e passam por um momento de corte de recursos e incerteza sobre o futuro.

2) Design de bebês

O que se esperava?
Desde os anos 1990 e 2000, “bebês de design” causam polêmica.
Em 2000, o nascimento de Adam Nash, cujo embrião foi selecionado por diagnóstico genético antes da implantação no útero, gerou um acalorado debate sobre a seleção de características genéticas em bebês.
Zigotos com mitocôndrias provenientes de uma “segunda mãe” também causaram polêmica. Nesse caso, o zigoto não recebe apenas genes do espermatozoide do pai e óvulo da mãe, mas também das mitocôndrias de uma terceira pessoa, solucionando casos de doenças mitocondriais. Diante dos primeiros casos, comentava-se que “há um risco, não apenas para o bebê, mas para as gerações futuras que não pode ser medido no momento”.

Como estamos?
Achei muito interessante pensar nessas notícias à luz dos acontecimentos atuais.
No caso das mitocôndrias, o tratamento foi aprovado no Reino Unido em 2016. Em 2018, deu-se início aos primeiros tratamentos de transplante de mitocôndrias em zigotos com aprovação do governo britânico.
O diagnóstico genético antes da implantação no útero também é uma estratégia mais frequente e mais aceita hoje em dia.
Isso é interessante porque, no último mês, o mundo inteiro ficou chocado com os primeiros bebês nascidos a partir de embriões editados com CRISPR. Assim como nos outros casos, a grande preocupação é que ninguém ainda tem certeza das consequências que o CRISPR pode ter em bebês humanos e seus descendentes.
Independentemente dos assuntos bioéticos, a tendência é que mais avanços sejam feitos na área do CRISPR, tornando a técnica mais segura. Assim, é possível que o tratamento seja futuramente aprovado e amplamente utilizado, como no caso do diagnóstico pré-implantação e transplante de mitocôndrias.

3) Vacinas: a salvação

O que se esperava?
Há quase 8 anos, o jornal britânico The Guardian publicou a matéria “20 previsões para os próximos 25 anos”. Ainda não chegamos em 2036, mas acho que já podemos começar a refletir sobre algumas delas!
Em uma dessas previsões, um especialista discute o papel das vacinas na erradicação de doenças como poliomielite e malária, e escreve que vacinas “atualmente disponíveis em países ricos vão se tornar acessíveis e disponíveis em países em desenvolvimento”. Também, é citado o surgimento de vacinas contra doenças como a AIDS.

Como estamos?
Nos últimos anos, vimos o surgimento da vacina comercial contra a dengue, apesar de os protocolos para seu uso ainda estarem sendo aprimorados. Também, estamos cada vez mais perto de uma vacina contra a AIDS, mesmo que muitos desafios ainda tenham que ser superados. De qualquer forma, grandes avanços na área têm sido feitos, e espero que encontremos novas soluções até 2036!
Porém, acredito que não se esperava que os movimentos anti-vacinação ganhariam tanta força. Neste ano, houve um aumento no número de casos de sarampo na Europa, e uma das causas podem ter sido os “anti-vaxxers”. Para entender melhor, confira nosso texto “Os Simpsons estava certos sobre vacinação: Fake ou News?

4) Videogames são o futuro da psicoterapia

O que se esperava?
Nesta mesma matéria do The Guardian, um dos tópicos que mais me chamou a atenção era o desenvolvimento da tecnologia dos games.
No artigo, comenta-se sobre a emergência de jogos de realidade aumentada, sensores de movimento e jogos cooperativos. No final, a autora comenta que “Há estudos sobre como os jogos atuam sobre as nossas mentes e capacidades cognitivas, e muitas evidências sugerem que podemos usar jogos para tratar depressão, ansiedade e déficit de atenção”.

Como estamos?
Oito anos após a publicação desse comentário, não há dúvidas de que se acertou sobre o sucesso de jogos de realidade aumentada, como por exemplo o Pokémon Go. Sobre o suposto sucesso de jogos cooperativos e declínio de jogos competitivos, acho que os dois ainda são muito populares.
Porém, o que mais me chamou a atenção foi o uso de videogames para psicoterapia. Hoje em dia, há pesquisadores que investigam o uso de videogames no tratamento de autismo. Inclusive, estudos publicados este ano em revistas do Nature Publishing Group sugerem o uso de robôs e jogos eletrônicos para a melhora das habilidades sociais em crianças. Sem dúvida, essas parecem alternativas bem mais divertidas que terapia convencional.

5) Conclusão
Muitas especulações que foram feitas alguns anos atrás se concretizaram: hoje em dia, existem tecnologias que não passavam de sonhos há uma década atrás.
Mesmo assim, existem muitas outras previsões do passado que não se tornaram reais, sejam profecias baseadas em teorias da conspiração ou palpites plausíveis baseados em fatos científicos. De qualquer modo, prever o futuro é difícil.

Sobre a autora: 
Maria Laura
marialgk@gmail.com
Estudante de Graduação em Ciências Biológicas no Instituto de Biociências de Botucatu - UNESP, com período de Intercâmbio na Universidade de Glasgow. Realiza pesquisa sobre Biologia Molecular do músculo no Departamento de Morfologia do IBB-UNESP.
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