Aba


segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

O presente é o futuro do passado?


Neste final de ano, pensei em escrever sobre as perspectivas da Ciência e Tecnologia para 2019. Especular sobre os acontecimentos futuros me pareceu um desafio e um tanto ousado. Por isso, comecei a ler artigos de especialistas especulando sobre nosso glorioso (ou não tanto) 2019.
Porém, vários dos textos sobre nosso futuro próximo não datavam de um passado tão próximo assim: alguns tinham mais de uma década. Após lê-los, vi que várias das hipóteses sobre a década de 2010 parecem absurdas atualmente.

Por isso, abandonei minha pretensão de fazer previsões sobre o próximo ano. Pareceu-me mais interessante investigar sobre o que se esperava (num passado mais distante) que os cientistas dos anos 2010 fizessem. E mais interessante ainda: se essas expectativas foram realizadas ou não. Confira abaixo 4 expectativas x realidades analisadas:

1) O boom da Ciência brasileira

O que se esperava?
O artigo mais surpreendente que encontrei sobre o “futuro do passado” foi “Brazil’s Option for Science Education”, publicado na Scientific American há uma década atrás. O texto foi escrito por Lula e Haddad, então Presidente da República e Ministro da Educação, respectivamente. Eles descrevem alguns programas de seu governo, especialmente o PDE, e terminam o artigo afirmando que “para os Brasileiros, um futuro brilhante começa agora”.

Como estamos?
Na época em que o artigo foi escrito, as perspectivas realmente eram excelentes para a Ciência e Tecnologia brasileiras. Afinal, o texto foi publicado em uma época favorável da economia brasileira, mais ou menos no mesmo período que a The Economist exibiu sua famosa capa com o Cristo Redentor decolando.
De fato, muitas das ações do PDE, o programa para a educação descrito no artigo, foram implantadas. Também, o instituto de pesquisa citado no texto, continua com atividades de ensino e pesquisa ativas.
Infelizmente, uma década depois, vemos que nosso futuro não foi tão brilhante assim. Nos últimos anos, o cenário econômico brasileiro não têm mais sido tão favorável. Hoje em dia, os cientistas brasileiros estão sendo afetados pela crise e passam por um momento de corte de recursos e incerteza sobre o futuro.

2) Design de bebês

O que se esperava?
Desde os anos 1990 e 2000, “bebês de design” causam polêmica.
Em 2000, o nascimento de Adam Nash, cujo embrião foi selecionado por diagnóstico genético antes da implantação no útero, gerou um acalorado debate sobre a seleção de características genéticas em bebês.
Zigotos com mitocôndrias provenientes de uma “segunda mãe” também causaram polêmica. Nesse caso, o zigoto não recebe apenas genes do espermatozoide do pai e óvulo da mãe, mas também das mitocôndrias de uma terceira pessoa, solucionando casos de doenças mitocondriais. Diante dos primeiros casos, comentava-se que “há um risco, não apenas para o bebê, mas para as gerações futuras que não pode ser medido no momento”.

Como estamos?
Achei muito interessante pensar nessas notícias à luz dos acontecimentos atuais.
No caso das mitocôndrias, o tratamento foi aprovado no Reino Unido em 2016. Em 2018, deu-se início aos primeiros tratamentos de transplante de mitocôndrias em zigotos com aprovação do governo britânico.
O diagnóstico genético antes da implantação no útero também é uma estratégia mais frequente e mais aceita hoje em dia.
Isso é interessante porque, no último mês, o mundo inteiro ficou chocado com os primeiros bebês nascidos a partir de embriões editados com CRISPR. Assim como nos outros casos, a grande preocupação é que ninguém ainda tem certeza das consequências que o CRISPR pode ter em bebês humanos e seus descendentes.
Independentemente dos assuntos bioéticos, a tendência é que mais avanços sejam feitos na área do CRISPR, tornando a técnica mais segura. Assim, é possível que o tratamento seja futuramente aprovado e amplamente utilizado, como no caso do diagnóstico pré-implantação e transplante de mitocôndrias.

3) Vacinas: a salvação

O que se esperava?
Há quase 8 anos, o jornal britânico The Guardian publicou a matéria “20 previsões para os próximos 25 anos”. Ainda não chegamos em 2036, mas acho que já podemos começar a refletir sobre algumas delas!
Em uma dessas previsões, um especialista discute o papel das vacinas na erradicação de doenças como poliomielite e malária, e escreve que vacinas “atualmente disponíveis em países ricos vão se tornar acessíveis e disponíveis em países em desenvolvimento”. Também, é citado o surgimento de vacinas contra doenças como a AIDS.

Como estamos?
Nos últimos anos, vimos o surgimento da vacina comercial contra a dengue, apesar de os protocolos para seu uso ainda estarem sendo aprimorados. Também, estamos cada vez mais perto de uma vacina contra a AIDS, mesmo que muitos desafios ainda tenham que ser superados. De qualquer forma, grandes avanços na área têm sido feitos, e espero que encontremos novas soluções até 2036!
Porém, acredito que não se esperava que os movimentos anti-vacinação ganhariam tanta força. Neste ano, houve um aumento no número de casos de sarampo na Europa, e uma das causas podem ter sido os “anti-vaxxers”. Para entender melhor, confira nosso texto “Os Simpsons estava certos sobre vacinação: Fake ou News?

4) Videogames são o futuro da psicoterapia

O que se esperava?
Nesta mesma matéria do The Guardian, um dos tópicos que mais me chamou a atenção era o desenvolvimento da tecnologia dos games.
No artigo, comenta-se sobre a emergência de jogos de realidade aumentada, sensores de movimento e jogos cooperativos. No final, a autora comenta que “Há estudos sobre como os jogos atuam sobre as nossas mentes e capacidades cognitivas, e muitas evidências sugerem que podemos usar jogos para tratar depressão, ansiedade e déficit de atenção”.

Como estamos?
Oito anos após a publicação desse comentário, não há dúvidas de que se acertou sobre o sucesso de jogos de realidade aumentada, como por exemplo o Pokémon Go. Sobre o suposto sucesso de jogos cooperativos e declínio de jogos competitivos, acho que os dois ainda são muito populares.
Porém, o que mais me chamou a atenção foi o uso de videogames para psicoterapia. Hoje em dia, há pesquisadores que investigam o uso de videogames no tratamento de autismo. Inclusive, estudos publicados este ano em revistas do Nature Publishing Group sugerem o uso de robôs e jogos eletrônicos para a melhora das habilidades sociais em crianças. Sem dúvida, essas parecem alternativas bem mais divertidas que terapia convencional.

5) Conclusão
Muitas especulações que foram feitas alguns anos atrás se concretizaram: hoje em dia, existem tecnologias que não passavam de sonhos há uma década atrás.
Mesmo assim, existem muitas outras previsões do passado que não se tornaram reais, sejam profecias baseadas em teorias da conspiração ou palpites plausíveis baseados em fatos científicos. De qualquer modo, prever o futuro é difícil.

Sobre a autora: 
Maria Laura
marialgk@gmail.com
Estudante de Graduação em Ciências Biológicas no Instituto de Biociências de Botucatu - UNESP, com período de Intercâmbio na Universidade de Glasgow. Realiza pesquisa sobre Biologia Molecular do músculo no Departamento de Morfologia do IBB-UNESP.
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sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Escola sem criacionismo?


A última corrida eleitoral no Brasil levou ao crescimento de ideias conservadoras na sociedade brasileira, reabrindo discussões, por exemplo, sobre o ensino obrigatório do criacionismo nas escolas.

O criacionismo é uma teoria de cunho religioso que busca explicar o surgimento da vida na Terra a partir da vontade de um deus ou qualquer força sobrenatural. Embora haja tentativa de algumas pessoas de buscarem argumentos científicos para sustentar o criacionismo, essa explicação para a origem da vida não é aceita entre os cientistas. Estes, por sua vez, afirmam tratar-se de pseudociência, visto que o método científico não é utilizado para sua comprovação.

Assim, uma vez que as escolas são instituições estruturadas no conhecimento científico, o ensino do criacionismo nestes espaços é incoerente com a função das mesmas. Portanto, a função das escolas é explicar a origem da vida na Terra com base na teoria de Oparin-Haldane e a diversidade de seres vivos no planeta segundo a evolução biológica.

Apesar de o ensino do criacionismo não ser papel da escola, não significa que ele não deva ser mencionado nas escolas. Na verdade, essa é uma atitude radical e de censura. O criacionismo deve ser abordado, porém isso deve ser feito com o intuito de estimular discussões e fortalecer o próprio conhecimento científico. Esta é uma importante oportunidade para demonstrar aos alunos a diferença entre conhecimento gerado pelo método científico do conhecimento não científico. As escolas só vão cumprir seu papel de formação de cidadãos críticos se estes tiverem condições de conhecer e debater os diversos tipos de conhecimentos gerados pela sociedade.


Sobre o Autor: Adauto Lima Cardoso é biólogo, mestre e doutor em Genética pela Universidade Federal do Pará e pela Universidade Estadual Paulista, respectivamente. Atualmente realiza pós-doutorado no Departamento de Morfologia do Instituto de Biociências da UNESP.

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Minha querida pesquisa - Leticia Gomes de Pontes

A ciência em minha vida nunca foi profissão, mas sim minha principal diversão!

Acredito que ela me escolheu e eu escolhi ela na 6° ano, quando fiquei responsável pelo laboratório da minha escola. Nele, vivi uma rotina interessante de experimentos e atividades que sempre me deixavam com um gostinho de quero mais.

 Meus pais tinham grandes planos para mim: fisioterapeuta, farmacêutica ou advogada, mas o que eu queria mesmo era estar no laboratório, criar e conhecer mais sobre esse mundo a cada dia.

Assim, decidi que estudaria Ciências Biológicas e ingressei na UNESP (Universidade Estadual Paulista) de Bauru em 2008. Durante a graduação, realizei estágios de iniciação científica e monitoria em diferentes áreas, mas sempre fui apaixonada por Biotecnologia. Através de alguns amigos, conheci os estudos desenvolvidos no Centro de Estudos de Animais Peçonhentos (CEVAP) da Faculdade de Medicina de Botucatu. Lá, eu me apaixonei por proteômica e permaneci por 6 anos consecutivos.

Mas o que é proteômica e por quê estudá-la?

A proteômica é um conjunto de tecnologias extraordinariamente úteis no estudo do conteúdo protéico dos sistemas biológicos. Sua revolução é permitir a análise de um grande número de proteínas ao mesmo tempo.

O estudo de proteômica é realizado em larga escala (espectrometria de massas de muitas proteínas), porque observar um grande número de proteínas ao mesmo tempo nos possibilita responder a determinadas perguntas biológicas de outra perspectiva. Cada tecnologia agregada à espectrometria de massas é como se fosse uma lupa de aumento que nos possibilita ver mais e mais.

O espectrômetro de massas (Foto1) nada mais é do que uma balança altamente sofisticada, que mede a massa de íons em estado gasoso. Através da bioinformática, traduzimos essas medições em proteínas. Entender a fundo como cada proteína interfere ou trabalha dentro de uma doença nos auxilia a escolher o melhor tratamento ou desenvolver uma vacina mais eficaz, por exemplo.

No meu mestrado, desvendamos o conjunto de proteínas pertencentes ao soro e ao crioprecipitado de búfalos (uma porção do plasma refrigerado). O crioprecipitado é um dos ingredientes do selante de fibrina do CEVAP, desenvolvido pelos pesquisadores Prof. Dr. Benedito Barraviera, Prof. Dr. Rui Seabra Ferreira Junior e Profa. Dra. Lucilene Delazari dos Santos do CEVAP. O selante foi testado com grande sucesso pelos pesquisadores aqui citados em pacientes com úlceras venosas crônicas.

Após observar o conjunto de proteínas pertencentes ao soro de animais sadios, o próximo passo foi compará-lo ao conjunto de proteínas de animais doentes. No meu doutorado, realizado também no CEVAP, comparamos o soro de animais sadios com o de animais com Brucelose. A brucelose em bubalinos é uma doença infectocontagiosa. É de grande importância para a economia e saúde pública por se tratar de uma zoonose. Apesar de ter sido controlada ou erradicada em muitos países, possui considerável ocorrência em alguns países em desenvolvimento.

Através da estratégia de análise por espectrometria de massas, nós evidenciamos proteínas diferencialmente expressas entre o búfalo saído e o búfalo com brucelose. Essas proteínas diferentemente expressas são denominadas biomarcadores moleculares.

Esse é um ponto muito importante na pesquisa por espectrometria de massas, pois através dessas proteínas diferencialmente expressas é possível entender onde atua a doença, de quais vias metabólicas ela faz parte, quais os sistema do organismo do hospedeiro são prejudicados no momento da doença e se existe ou não a possibilidade de desenvolvermos um medicamento ou vacina para essa doença.

A ciência mudou minha vida e pode mudar a sua vida também. Leia, compartilhe e faça parte dessa história você também! 

Foto 1: Espectrômetro de massas

Sobre a autora:
Leticia Gomes de Pontes 
Atualmente desenvolve seu Pós Doutorado na USP de São Carlos no Departamento de Química. Tem experiência em análise proteômica baseada em espectrometria de massas (shotgun) e proteômica quantitativa (TMT). Realizou seu Doutorado e Mestrado na Faculdade de Medicina de Botucatu (UNESP - Botucatu) é Bacharel em Ciências Biológicas com ênfase em Bioquímica pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP - Bauru) (2012).
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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Por que os dragões de Komodo ainda não conquistaram o mundo?


O dragão de Komodo (Varanus komodoensis) é o maior e mais pesado lagarto vivendo atualmente no mundo. Ele pode chegar a 3 metros de comprimento e pesar 140 kilos, o que faz com que ninguém duvide da sua força. Além de intimidar pela aparência, esse animal ainda possui diversas outras “armas”, como: garras afiadas, dentes serrilhados, mordida venenosa, olfato poderoso e visão apurada.


Esse conjunto de características mostra que os dragões de Komodo são animais muito resistentes, capazes de enfrentar outros animais, percorrer grandes distâncias em terrenos acidentados, além de serem excelentes nadadores. Então por que eles vivem somente em um conjunto de ilhas próximas da Indonésia?
De acordo com um estudo publicado recentemente na revista científica Proceedings of the Royal Society B, isso acontece porque os dragões de Komodo são muito caseiros, isto é, não gostam de explorar locais diferentes dos que eles nasceram. O estudo foi feito durante 10 anos com ecologistas monitorando os movimentos dos dragões nas Pequenas Ilhas da Sonda. Eles descobriram que, apesar de sua capacidade de viajar longas distâncias, poucos dragões saíam do vale em que nasceram, sendo que durante todo o tempo do estudo somente dois deles foram observados fazendo travessias transoceânicas para outras ilhas próximas.

Mapa mostrando a distribuição geográfica dos dragões de Komodo com destaque para os locais onde foram extintos. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Komodo_dragon_distribution.gif

Para testar a teoria de que os dragões são caseiros, pesquisadores  retiraram sete dragões de seu vale
natal e os transportaram para outra área a quilômetros de distância. Em apenas quatro meses, quase todos voltaram ao local original, com apenas uma exceção. Apesar da proximidade das ilhas os dragões demonstravam dificuldades em se adaptar ao novo ambiente e rapidamente voltavam ao seu local original. Os pesquisadores acreditam que isso acontece porque mover-se é muito arriscado para os dragões que podem encontrar falta de água, comida ou companheiros.

Imagem de satélite e mapa mostrando a localização das Pequenas Ilhas da Sonda (em vermelho). Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pequenas_Ilhas_da_Sonda

A falta de mobilidade dos dragões pode trazer graves problemas para a espécie. Dados sugerem que a troca de genes e informação genética entre os indivíduos e os seus descendentes é extremamente baixa e além disso a escassez de alimentos, os desastres naturais e a atividade humana ameaçam as populações locais.

A “boa notícia” para os dragões é que eles dificilmente sofrerão com solidão, já que estudos recentes mostraram que esse tipo de comportamento caseiro se repete em outras espécies presentes nas ilhas.

Para saber mais:
http://rspb.royalsocietypublishing.org/content/285/1891/20181829
https://www.nytimes.com/2018/11/13/science/komodo-dragons.html?rref=collection%2Fsectioncollection%2Fscience&action=click&contentCollection=science&region=rank&module=package&version=highlights&contentPlacement=2&pgtype=sectionfront

Sobre o autor:

Diego Henrique Mirandola Dias Vieira é biólogo, mestre e doutorando em zoologia pelo Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu. Queria ser jogador de futebol mas se escolheu a profissão que tem maior salário. Faz pesquisa na área de parasitologia de peixes.


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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Os Simpsons estavam certos sobre a vacinação. Fake ou news?


Em 03 de dezembro de 2000, foi ao ar o episódio de “Os Simpsons” brincando sobre a teoria de que a vacinação contra a gripe hipnotizava as pessoas, influenciando-as a aumentar seu consumismo. Embora a série venha acertando em algumas previsões sobre a situação histórico-política americana, não existem provas científicas sobre tal efeito da vacinação. Sendo, portanto, uma notícia falsa (Fake!). No entanto, muitas notícias polêmicas a respeito de vacinas têm sido lançadas em mídias sociais e grupos anti-vacinas se fortalecem a todo momento.

Para as pessoas do meio acadêmico, parece loucura debater sobre possíveis efeitos da vacinação. Porém,  o número de pessoas que apresentam dúvidas sobre a eficácia da vacinação tem crescido muito nos países desenvolvidos. E isso tudo se deve à facilidade de acesso à informação, o que pode ser favorável para a comunicação de êxitos científicos (como o “Ciência na Medida”, por exemplo), mas que também favorece a disseminação de informações e pesquisas mentirosas ou, no mínimo, duvidosas.

O movimento anti-vacina prega que as imunizações precisam ser observadas com desconfiança, pois pouco se sabe sobre as doses seguras que podem ser aplicadas, os efeitos colaterais que podem se manifestar e sobre os lucros que as empresas farmacêuticas podem captar com a produção das vacinas. E é muito positivo que tais preocupações se manifestem na sociedade, demonstrando que alguns setores se preocupam com a segurança dos medicamentos utilizados ao redor do mundo. Por outro lado, muitas dessas preocupações se baseiam no desconhecimento sobre os processos necessários para a descoberta, produção e distribuição das imunizações.

Mas como funciona o efeito colateral das vacinas, então? Todo mundo conhece alguém que já reclamou de algum efeito colateral de uma vacina: mal-estar ou dor no local da aplicação. E, realmente, esses pequenos efeitos podem existir, como resultado de alguma pequena reação do organismo contra o diluente da vacina ou por sensibilidade à “agulhada”. Mas mantenham a calma! O braço não cairá! Esses mal-estares passageiros tendem a passar em períodos menores que 48 horas, enquanto que a proteção conferida pela vacinação tende a se manter por muito tempo.
Muito tempo também é necessário quando pensamos nos caminhos que levam   para a pesquisa e produção de vacinas,. Entre o desenvolvimento e a comercialização de uma nova vacina, são necessários mais ou menos 10 a 15 anos de pesquisas, utilizando vários modelos de estudo. Testes em células, em roedores, primatas e, finalmente, em humanos acontecem para garantir cada vez mais a segurança do novo produto e para testar sua eficácia. E conciliar segurança e eficácia não é uma tarefa fácil! Quando nos referimos às diferentes vacinas produzidas mundialmente, obtemos uma taxa de eficácia na população que pode variar de 30 a 99%.

Porém, com toda essa informação científica, por que o movimento anti-vacina aumentou tanto?

O movimento anti-vacina sempre existiu, porque sempre existiram alguns pequenos grupos de pessoas que olhavam com desconfiança para a indústria farmacêutica. Porém, em 1998, uma das revistas científicas mais conceituadas da Inglaterra, a Lancet, publicou um estudo prévio elaborado pelo médico Andrew Wakefield e alguns colaboradores, onde se descrevia a associação entre 12 crianças que desenvolveram comportamentos autistas e inflamação intestinal, a qual poderia estar associada com pequenos vestígios do vírus do sarampo no organismo. No estudo foi sugerido que esses vestígios seriam provenientes da vacina tríplice-viral (contra sarampo, rubéola e caxumba). Embora os autores reconhecessem que essa sugestão era apenas uma hipótese para explicar os dados que tinham coletado, a notícia se espalhou por todo o Reino Unido e as taxas de vacinação reduziram.

O resultado da pesquisa se mostrou assustador. Porém, por cerca de 10 anos, outros pesquisadores tentaram reproduzir os resultados coletados por Wakefield, não obtendo concordância, e, com o tempo, novas informações sobre o trabalho executado pelo médico vieram à tona. Primeiro descobriu-se que, antes da publicação do estudo, Wakefield solicitou a aprovação de patente para uma vacina produzida por ele, que concorreria com a tríplice-viral. Posteriormente, alguns colaboradores do artigo se manifestaram afirmando que não encontraram vestígios de sarampo nas crianças avaliadas pelo estudo. Com todas essas informações, o registro médico de Andrew foi cassado e a revista se retratou.

Mesmo com a verdade sobre o estudo sendo exposta, o movimento anti-vacina ainda utiliza os dados como prova de que “vacina causa autismo”. E isso tem causado redução na taxa de vacinação nos Estados Unidos da América, em países da Europa e, também, no Brasil. A meta de imunização recomendada pela Organização Mundial de Saúde é de 95% da população. Contudo, em 2016 o Brasil conseguiu vacinar apenas 84% da população – o pior registro em 12 anos. Embora o número de imunizados ainda seja alto, tal queda preocupa as autoridades de saúde porque pode abrir espaço para o reaparecimento de doenças que estavam controladas no país (como o sarampo e a poliomielite). E o problema da queda da imunização pode não ser vista num curto período de tempo. Mas o menor número de pessoas vacinadas na população favorece o aumento da susceptibilidade para a ocorrência de epidemias. Quanto mais pessoas são imunizadas, menores são as chances da doença se espalhar pela população, ficando restrita a pouquíssimas parcelas.

Ou seja: a escolha dos pais em não vacinar seus filhos não põe em risco apenas essas crianças, mas sim, toda uma população. Por isso, a divulgação dos resultados de pesquisas científicas sérias é necessária, senão urgente. E, mais importante ainda, é apresentar para a população como as pesquisas científicas são realizadas, com o intuito de possibilitar que as pessoas sejam capazes de identificar possíveis contradições nas informações a que têm acesso.

E, para vocês que têm acesso às informações contidas no Ciência na Medida, sugiro que entrem na página do Ministério da Saúde para consultar (e divulgar!) o calendário vacinal brasileiro. Ele é um dos mais completos e elogiados no mundo, e deve ser valorizado por todos nós. Fiquem por dentro!

Fontes:

Por: 
Eliza de Oliveira Cardoso
elizaolivecardoso@gmail.com
Mestre e Doutoranda em Biologia Geral e Aplicada pelo Instituto de Biociências de Botucatu - UNESP. Atua profissionalmente como professora de Biologia para o Ensino Médio e Cursinho Pré-Vestibular, e, informalmente, como conselheira amorosa e de estudos para os amigos que sofrem de amor e de vida acadêmica – incluindo ela mesma.

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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Com que Ciência se faz um Prêmio Nobel?


Em tempos de corte de orçamentos, muito se discute em quais áreas investir, dentro do repleto leque da Ciência. Notadamente, as Ciências chamadas “aplicadas” são vistas como mais importantes ou, ainda, como únicas merecedoras de recursos (sejam estes públicos ou privados). Pouco se fala ou valoriza a Ciência “básica”, aquela que busca entender fenômenos naturais ou artificiais sem a intenção imediata de obtenção de um produto (tratamento médico, tecnologia agronômica, dentre outros exemplos). Assim, em vista de refletir sobre isso, buscamos informar sobre os trabalhos dos ganhadores do prêmio Nobel desse ano nas categorias Física, Química, Medicina e Economia, e discutir o quanto a Ciência produzida por esses personagens, tão admiráveis, foi considerada aplicada ou não à época de seu desenvolvimento.

Prêmio Nobel de Física:
 Esquerda para direita: Arthur Ashkin, Gérard Mourou e Donna Strickland.

Os ganhadores deste ano são pesquisadores que trouxeram inovações no campo da manipulação da luz, especificamente laser. Ambos os estudos não tinham a intenção de desenvolver produtos de maneira imediata. No entanto, após anos de suas descobertas, as técnicas criadas por eles se tornaram essenciais a tratamentos médicos ou ao estudo de moléculas. Abaixo segue a lista dos ganhadores e seus respectivos temas de pesquisa:

Arthur Ashkin, 96 anos, americano, físico.
Arthur foi laureado por inventar pinças ópticas (laser). Essas pinças podem ser utilizadas para aprisionar partículas, átomos, vírus e células vivas e permitir que estes sejam melhor estudados sem danificá-los e numa escala de tamanho muito pequena.
Link para o trabalho original: https://www.osapublishing.org/ol/abstract.cfm?uri=ol-11-5-288

Gérard Mourou, 74 anos, francês, físico & Donna Strickland, 59 anos, canadense, física (3° mulher a ganhar o Nobel de Física desde 1901).
Ambos desenvolveram, juntos, em 1985 a técnica de amplificação de pulso com varredura em frequência (sigla em inglês: CPA). Essa técnica se popularizou como ferramenta para produção de lasers de alta intensidade, hoje utilizados para cirurgias de olho ou no estudo de elétrons.
Link para o trabalho original: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/0030401885901518


Prêmio Nobel de Química:
Esquerda para direita: Frances Arnold, George Smith e Gregory Winter.

Os trabalhos dos pesquisadores nessa categoria variam de Ciência básica (Arnold e Smith) a aplicada (Winter). Independente da finalidade do estudo, todos se utilizaram dos princípios da teoria da Evolução que é, por sua vez, um estudo que nunca teve por finalidade a produção de tecnologias e/ou aplicações a produtos. Veja em maiores detalhes os trabalhos:

Frances Arnold, 62 anos, americana, engenheira química (1° americana a ganhar o Nobel).
Conseguiu direcionar, artificialmente, a evolução de enzimas (proteínas responsáveis por catalisar reações químicas). A cientista induziu mutações no gene das enzimas e as submeteu a eventos que geraram pressões de seleção numa escala de produção acelerada em bactérias. A cada evento, somente as bactérias capazes de catalisar reações naquelas condições eram selecionadas. Ao final do processo, ela obteve enzimas centenas de vezes mais eficientes quando comparadas às iniciais.
Link para o trabalho original: https://www.cell.com/trends/biotechnology/fulltext/S0167-7799(98)01283-9?code=cell-site

George Smith, 77 anos, americano, químico.
Trabalhou num método de exibição de fago. Nesse método, ele utilizou um bacteriófago (vírus que infecta células de bactérias e as utiliza para replicação do DNA e produção de proteínas), daí o nome da técnica. Mas ao invés de usar um fago normal, ele utilizou um fago com seu DNA modificado (inserção de diversos genes, podendo até mesmo serem genes de proteínas humanas) e forçou a produção da proteína desse gene inserido ou modificado na superfície do fago. Dessa forma, foi possível expor diferentes proteínas em fagos capazes de invadir células.
Link para o trabalho original: https://pubs.acs.org/doi/abs/10.1021/cr960065d

Gregory Winter, 67, inglês, bioquímico.
Utilizou a técnica criada por Smith (acima descrita) para produzir anticorpos. Como? Inserindo genes de anticorpos específicos no combate a alguma doença (como por exemplo, anticorpos que combatem células cancerígenas) e fazendo com que os fagos produzissem essa molécula. Dessa forma, Winter tornou os fagos capazes de produzir anticorpos personalizados.
Link para o trabalho original: https://www.annualreviews.org/doi/abs/10.1146/annurev.iy.12.040194.002245?casa_token=LoDbra8sUT0AAAAA%3AXT0SflnRXj5D5-M7ni47Yp4Nn8w5BDBVVVJoXp7nIEiyvI_Z_XsQOZxxNE18BaRUjTpQXNrj2jSeYsk


Prêmio Nobel de Medicina:
Esquerda para direita: James Allison e Tasuku Honjo.

Nessa categoria, ambos os trabalhos laureados podem ser considerados de Ciência aplicada. Os cientistas os formularam com a intenção de produzir uma terapia ou medicamento. Já existem 4 medicamentos no mercado que se utilizam das descobertas realizadas por Allison e Honjo no combate ao câncer. Confira os ganhadores e seus trabalhos:

James Allison, 70 anos, americano, imunologista.
Desenvolveu um tratamento imunoterápico para diversos tipos de câncer. Seu trabalho consistiu em isolar e testar anticorpos que bloqueiam a proteína CTLA-4 em linfócitos T. Essa proteína é um receptor que fica na superfície dos linfócitos T (células de defesa do sistema imunológico responsáveis por atacar células defeituosas do nosso organismo) e é responsável por frear o ataque a células cancerígenas (estratégia usada pelos tumores para sobreviver). Ao bloquear esse receptor, os linfócitos T aumentam sua eficiência em atacar as células do câncer.
Link para o trabalho original: http://science.sciencemag.org/content/271/5256/1734

Tasuku Honjo, 76 anos, japonês, imunologista.
De maneira muito parecida ao trabalho de Allison (descrito acima), caracterizou e utilizou em imunoterapia outro receptor de linfócitos T, denominado PD-1, no combate a diversos tipos de câncer.
Link para o trabalho original: http://jem.rupress.org/content/192/7/1027

Prêmio Nobel de Economia:
Esquerda para direita: William D. Nordhaus e Paul M. Romer.

Nos estudos desta categoria, Nordhaus seguiu por uma linha de pesquisa básica, na descrição de um modelo que, posteriormente, foi adaptado e utilizado para prever/simular o impacto de políticas ambientais na economia. Já Romer, propõe uma teoria bastante aplicável para a prosperidade econômica a longo prazo pelo incentivo da geração de novas ideias. Veja:

William D. Nordhaus, 77 anos, americano, economista.
Foi o primeiro a criar um modelo quantitativo que ilustra a interação entre clima e economia (década de 70), sendo laureado por sua inovação no campo da sustentabilidade em relação à economia. Hoje, seus estudos possibilitaram simular a evolução conjunta de clima e economia na avaliação das consequências de políticas climáticas.
Link para o trabalho original: https://ideas.repec.org/p/cwl/cwldpp/1078.html

Paul M. Romer, 63 anos, americano, economista.
Desenvolveu a teoria endógena do conhecimento em 1990. Segundo essa teoria, a longo prazo, novas ideias e conhecimentos podem impulsionar o desenvolvimento econômico. O cientista afirma que, para se obter novas ideias, são necessárias condições de mercado específicas e, com isso, sua teoria incentivou o encorajamento de novas ideias para se construir crescimento.
Link para o trabalho original: https://www.aeaweb.org/articles?id=10.1257/jep.8.1.3

Mas afinal, o que é mais importante: Ciência Básica ou Ciência Aplicada?

Se um comitê tão prestigiado, responsável por um prêmio tão relevante como o Nobel reconhece a importância da produção de conhecimento básico nas conquistas tecnológicas e de produtos/medicamentos, não deveria ser diferente na sociedade em geral. Na discussão Ciência Básica X Aplicada o que está em jogo, muitas vezes, é a perda de possibilidades. O que isso significa? O principal consenso é que não existe ciência aplicada sem Ciência Básica e, por outro lado, não faz sentido existir somente Ciência Básica. Então, quando excluímos ou privilegiamos a um tipo, reduzimos as possibilidades de produzir conhecimentos originais e interessantes.
Nesse sentido, antes de criticarmos o financiamento de um estudo que talvez não tenha utilidade prática imediata ou, no mais recente caso, a injeção de verbas para a reconstrução do Museu Nacional (RJ) ou outras relíquias importantes à Ciência, é importante pensar no impacto da perda dessa informação para futuras aplicações que sequer somos capazes de conceber no momento atual. O argumento de que outras áreas precisam mais de incentivo (de diversos tipos) do que a Ciência não é válido pois ela interliga áreas extremamente essenciais, tais como Saúde, Educação e Tecnologia, se tornando essencial também. Além disso, no caso do Brasil, se faltam recursos à Saúde, à Educação, dentre outras áreas, sabemos que o problema não reside no fato de que financiamos projetos de Ciência, mas sim, na má administração/aplicação dos recursos destinados a cada área e ao desvio constante de verbas, evidenciado todos os dias pelas polícias e tribunais.

Quer saber mais?
https://super.abril.com.br/ciencia/5-frases-para-entender-o-nobel-de-quimica/
https://super.abril.com.br/ciencia/nobel-de-medicina-2018-vai-para-os-pais-da-imunoterapia-contra-o-cancer/
https://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2018/10/08/dupla-dos-eua-ganha-nobel-de-economia
https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2018/10/02/nobel-de-fisica-vai-para-arthur-ashkin-gerard-mourou-e-donna-strickland.ghtml
http://agencia.fapesp.br/ciencia-basica-e-fundamental-para-o-pais-ressalta-presidente-da-sbpc-/28288/
https://www.nobelprize.org/prizes/

Imagens retiradas de:
http://www.ivepesp.org.br/ainda-nao-entendeu-para-que-serve-a-pesquisa-basica-2/
https://www.quantamagazine.org/donna-strickland-gerard-mourou-and-arthur-ashkin-win-physics-nobel-20181002/
https://cen.acs.org/biological-chemistry/Frances-H-Arnold-George-P-Smith-and-Gregory-P-Winter-share-2018-Nobel-Prize-in-Chemistry/96/web/2018/10
https://www.quantamagazine.org/james-p-allison-and-tasuku-honjo-win-nobel-prize-for-cancer-immunotherapy-20181001/
https://www.economist.com/finance-and-economics/2018/10/08/the-nobel-prize-for-economics-is-awarded-for-work-on-the-climate-and-economic-growth

Por:
Camila Moreira
cmoreirabio@gmail.com
Doutora em Biologia (Genética) pela Universidade de São Paulo e atualmente realiza pós-doutorado no Instituto de Biociências da UNESP de Botucatu.



Érica Ramos
erica.ramos00@gmail.com
Bióloga e Mestre em Ciências Biológicas (Genética) pela UNESP, apaixonada pelo tema Educação e, também, editora desta página de Divulgação Científica. No momento atua como aluna de doutorado na UNESP, na área de Genética.
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