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sexta-feira, 23 de novembro de 2018

As bactérias vão dominar nosso cérebro?


Nós carregamos em nosso corpo milhares de microrganismos, que compõem a nossa microbiota normal e nos auxiliam de diversas maneiras, desde a nossa nutrição, manutenção do nosso sistema imunológico, até mesmo na proteção contra microrganismos patogênicos. A maioria destes microrganismos se encontra no nosso intestino e na pele, enquanto que, em alguns órgãos (como nos do sistema nervoso), acredita-se que microrganismos não ocorram. Porém, um trabalho apresentado no encontro anual da Society for Neuroscience mostrou que é possível encontrar bactérias habitando o cérebro de pessoas saudáveis.

Nosso sistema nervoso é um ambiente extremamente protegido por barreiras que impedem que microrganismos, como bactérias e vírus, se alojem neste sistema. Assim, nos protegem contra possíveis infecções. Apesar disso, as bactérias presentes em nosso intestino podem interferir diretamente no funcionamento do cérebro, atuando sobre nosso comportamento e até mesmo modulando a nossa pré-disposição a doenças neurológicas, através de proteínas produzidas por esses microrganismos que atuam em nervos que se ligam ao cérebro.

Imagem de um corte de cérebro com bactérias. Fonte: https://www.sciencemag.org/news/2018/11/do-gut-bacteria-make-second-home-our-brains

O trabalho liderado pela pesquisadora Rosalinda Roberts analisa diferenças no cérebro de pessoas com esquizofrenia e pessoas saudáveis. Durante sua pesquisa, o grupo encontrou em algumas imagens de cérebros analisados, objetos não identificados, com a forma de bastão. Recentemente, Rosalinda e seus colaboradores descobriram que estes objetos se tratavam de bactérias que estavam alojadas nos cérebros analisados. No total, foram encontradas bactérias em 34 cérebros diferentes, sendo metade deles pertencentes a pessoas saudáveis e metade pertencentes a portadores de esquizofrenia. Com esta descoberta, Rosalinda se perguntou se haveria, também, bactérias no cérebro de outros animais. Ao analisar cérebros de camundongos, seu grupo também encontrou bactérias presentes ali. Porém em cérebros de camundongos germ-free, criados em ambientes livres de microrganismos, não foi encontrada nenhuma bactéria

A grande questão que permanece é: Como essas bactérias podem ter chegado até o sistema nervoso dessas pessoas? Uma análise mostrou que as bactérias encontradas por Rosalinda eram pertencentes aos três filos predominantes de bactérias pertencentes à microbiota intestinal normal: Firmicutes, Proteobacteria e Bacteroidetes. Uma das possibilidades sugeridas pelo grupo seria de que essas bactérias intestinais, eventualmente, possam ter caído na corrente sanguínea e chegado até o cérebro. Porém, Rosalinda ressaltou que ainda é necessário considerar a possibilidade de contaminação das amostras durante os procedimentos. Essa nova descoberta é apenas uma porta de entrada para outras várias pesquisas sobre a  existência de uma microbiota cerebral, o mecanismo pelo qual essas bactérias podem ter chegado lá e qual a função delas nesse órgão.

Para saber mais: 

Ana Carolina Santos
carolina.santos@unesp.br
Ana Carolina é biomédica, doutoranda na área de Genética de Microrganismos pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (Genéticas) do IBB/UNESP Botucatu.
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