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quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Imigrantes da ciência e a visão sociológica

Imigrantes tornam a América ótima!

No dia 6 de Abril de 2018, o atual presidente dos EUA, Donald Trump, liberou o memorando “Tolerância zero”. A partir desse documento, as políticas de imigração no país foram tratadas como literalmente o nome diz, tolerância zero. A principal polêmica acerca do assunto foi a separação das crianças de seus pais, uma vez que os últimos iam para cadeia ou deportados, as crianças permaneciam em abrigos.

Um fato curioso sobre a imigração e a ciência é que seis prêmios Nobel 2016 dos EUA eram imigrantes. De acordo com a Fundação Nacional Científica em 2015, 45% dos títulos de doutorado nos EUA foram obtido por imigrantes, sendo 3 a 5% provenientes da américa do sul. Outro dado interessante, de acordo com a Nações Unidas (2015), a cada cinco cientistas europeus um é imigrante.

Um levantamento feito por John Bohannon para a revista Science em 2017, utilizou dados do ORCID para analisar o padrão migratório de cientistas. O ORCID é uma rede digital que reúne dados de cientistas do mundo todo e os identifica por um código de reconhecimento,  evitando que pessoas com o mesmo nome sejam confundidas.  Apesar de possuir um viés devido a distribuição de cadastros por região do globo, o estudo revelou que, de 721,967 pessoas cadastradas no ORCID, 111,149 migraram e que de 13% dos doutores das américas – sem EUA – mudaram de país, principalmente para os Estados Unidos (5,6%).

Outro dado interessante da pesquisa de Bohannon é que o número de cientistas migrando para os EUA teve queda após 2001 devido à queda World Trade Center. Em 2008 esse número voltou a aumentar, porém não de maneira tão expressiva quanto no passado. As razões levantadas seriam o desinteresse pelo país ou a dificuldade para entrar nele. Como já relatado, políticas contra imigrantes provavelmente seriam a principal causa da diminuição desse número. No caso do Brasil, além das políticas externas, a falta de incentivo financeiro também é um forte indicativo.

Uma importante reflexão sobre o ser imigrante nos dias atuais é proposta pelo sociólogo Zygument Bauman. Famoso por empregar o termo “modernidade líquida”, o autor pós-moderno em seu último livro, Amor Líquido, faz uma crítica ao tratamento dado aos imigrantes. Por anos os europeus migraram para diversos países, numa lógica maquiavélica de dominação da cultura estrangeira e expansão territorial. Anos se passaram e o reflexo dessa interversão violenta são diversas pessoas vivendo em circunstâncias subumanas em países movidos pela guerra e corrupção governamental. A questão é: um professor nigeriano da Universidade de Lagos, se depara com a falta de água em sua cidade e diversas ameaças vindas do governo, aceitará ficar em seu país? Uma doutora brasileira, está há mais de 5 anos esperando um concurso para trabalhar em uma universidade pública, aceitará ficar no Brasil ou procurará outras oportunidades em outros países?

Bauman diz que apesar de vivermos em um mundo globalizado estamos em processo de transformação, por isso o líquido, não necessariamente para melhor ou pior. A ideia de que alguns países possuem uma “cultura superior” a outros povos, e que esses povos estão “invadindo” a sua terra, mostra um pensamento não condizente com a realidade do mundo moderno. E quem perde? O mundo. Milhões de pessoas com um grande potencial científico têm dificuldades de trabalhar em sua área, divulgar seu conhecimento para a população e o mais brutal, a falta de troca de experiência científica.

Com políticas como as de Trump e a xenofobia instalada na população nos tornamos pessoas limitadas na bolha em que vivemos, tanto socialmente quanto cientificamente. Por fim, muito se fala de brasileiros indo para o exterior e os problemas enfrentados devido ao preconceito, mas estaria o Brasil preparado para receber os cérebros de países vizinhos em crise?

Link do memorando “Tolerância Zero”:
https://www.justice.gov/opa/press-release/file/1049751/download
Dados da ciência EUA:
https://www.nsf.gov/statistics/2018/nsb20181/report/sections/science-and-engineering-labor-force/immigration-and-the-s-e-workforce
John Bohmannon:
http://www.sciencemag.org/news/2017/05/vast-set-public-cvs-reveals-world-s-most-migratory-scientists

Livros:
O príncipe – Maquiavel
Amor Liquido – Zygumunt Bauman


Por: Beatrice Jorge
beatriceadrianne@gmail.com
Sobre a autora: Formada em Ciências Biomédicas pela UNESP, acredita que uma das coisas mais importantes em ser cientista é divulgar seu conhecimento para todos. Atualmente atua como aluna de mestrado na UNESP, na área de Patologia.

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