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sexta-feira, 26 de outubro de 2018

FAKE não tão NEWS assim


Embora o termo estrangeiro traga o sentido de novidade, de coisa “moderna”, diversos de seus aspectos, aplicações e conflitos são velhos conhecidos do nosso passado recente. As Fake News trazem uma roupagem atualizada para situações de manipulação, ocultamento e polarização além de todo o alcance e velocidade proporcionados pelos atuais meios de comunicação, resultando num véu que da mesma forma que esconde, define sua visão, seu lado e seu inimigo.

Em décadas chave do século anterior (como nos anos 20/30 e 60/70) é nítido esse mecanismo de delimitação do inimigo, principalmente quando analisado o cenário político. Muitas das manchetes rotineiras do século XXI, como aquelas que nos alertam para a ameaça iminente das garras malignas do comunismo, tem paralelos de muita semelhança com momentos decisivos da política da época passada, como na Intentona (a que ameaçava Getúlio) ou como motivação para as marchas da Família, de Deus e do coturno engraxado. Se a manchete unifica e sintetiza o inimigo, suas brechas deixam expostos “esquecimentos” graves e vitais que, sozinhos, já serviriam para criticar ou invalidar o discurso, como a defesa da propriedade privada – garantida em constituição – ou a manutenção do poder feita por Getúlio e o Estado Novo. O direcionamento dessa intenção, desse medo, percorre uma lista grande de interesses – nacionais e internacionais – sendo muito mais complexo que o slogan que o precede.


Se é possível perceber um histórico de manipulações e, inclusive, uma semelhança no tema, o mesmo não se pode dizer dos meios de propagação. O poder de um discurso na rádio ou o pulmão de um jornaleiro animado foram, em seu tempo, tão alarmantes quanto se possa imaginar, não obstante, as Fake News tem um destaque muito maior nesse quesito. O atual fluxo informativo é estonteante e incansável, não respeitando mais “regras” como a proximidade física entre emissor/ouvinte e fuso-horário. O acesso é instantâneo, visual e compartilhado, tornando as redes sociais e os grupos de família verdadeiros alicerces da opinião pública e do funcionamento dessas notícias.

Tamanho fluxo não coincide com qualidade como é possível ver em recentes casos do cenário brasileiro de eleições. Matérias em vídeo e em debates dos maiores jornais televisivos do país trouxeram à tona o famigerado “kit gay”: distribuído para jovens e crianças de todo o país tornando-os aptos a práticas sexuais, homossexuais e fãs da Pablo Vittar. Além de ajudar a aflorar preconceitos enraizados em diversos setores da sociedade, tal notícia – de conteúdo manipulado e com uma fonte enganosa (o candidato em questão segurava um exemplar “original”) – desrespeita o trabalho diário de milhões de brasileiros ligados a educação, bem como da saúde e da educação sexual preventiva. Tamanho foi o alarde que o Tribunal Superior Eleitoral, demoradamente, tomou um posicionamento contra o ocorrido e perseguiu publicações favoráveis ao “fato”. São situações como essa, de polarização fomentada, que definem tudo aquilo que é avesso ao eu (a minha ideologia, meu caráter) sem ao menos levantar o simples raciocínio ou interpretação, transformando um debate em um simples binarismo ofensivo.


Como então escapar dessa onda que envolve e obstrui a realidade ?? O método científico pode ser a chave. O método, que não é exclusividade dos grandes pensadores acadêmicos e suas universidades públicas sucateadas, é comum a crianças e interessados. Um simples exercício de validação da mensagem recebida – o ciclo experimentação, análise e crítica – pode significar uma mudança completa no significado de todo o material. O questionamento sobre a autenticidade de uma News, por si só, já ocasiona um salto imenso em relação aos filtros apaixonados e seletivos do seu “candidato de estimação”, bem como pode revelar suas intenções em usar e abusar de tal estratégia. A ciência, investigativa por excelência, diariamente pratica tais costumes através de referências e debates históricos e, como nas palavras de March Bloch, evita o caminho trilhado pelas notícias falsas: “Uma afirmação não tem o menor direito de ser reproduzida se não puder ser verificada.”.

Assim, fica claro que grande parte das forças das Fake News residem no próprio leitor e em sua experiência de leitura e reflexão. Enfrentar inimigos imaginários ou recontar a seu modo histórias do passado deveriam ser motivo de chacota em frente aos anos de debates e estudos realizados mas, o que se percebe, é um aumento cada vez maior do número de noivos e noivas de informações ocas. Se a atitude manipuladora não é recente, seus meios vem demonstrando cada vez mais alcance e tato com o público alvo, tornando-se ameaças cada vez mais perigosas para a saúde social e construção de um país mais justo, laico e digno. Não se deixa cobrir. Certifique-se. Cientifique-se.

Nota dos editores: recebeu uma notícia de política e quer conferir se é Fake ou News? Uma das maneiras mais fáceis é mandar para o whatsapp do Comprova (iniciativa de diversos órgãos jornalísticos para combater as informações falsas nessa eleição): (11) 97795-0022. Saiba mais sobre o projeto em: https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/08/06/projeto-comprova-comeca-a-combater-desinformacao-na-campanha-eleitoral.htm

Sobre o autor: Pedro Felipe Minhori. Professor e intencionado nas práticas históricas, me formei em 2014 na faculdade de ciências humanas de Franca em História. Desde então busco aprimorar cada vez mais meu método científico, minha leitura e escrita, além de diversificar a playlist e estabelecer conexões pessoais propícias ao bar.

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