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terça-feira, 14 de agosto de 2018

“Gene da linguagem" não foi o diferencial para a evolução da espécie humana




Uma verdade provisória, esse é o lema da Ciência em relação às suas descobertas e conhecimentos. Nada melhor para exemplificar esse lema do que o estudo publicado em agosto de 2018 pela pesquisadora Elizabeth Atkinson, de Massachusetts (EUA). Nele, a pesquisadora e seus colaboradores trouxeram evidências de que o gene FOXP2, conhecido como “gene da linguagem”, não foi o principal responsável pelas distintas características de linguagem na espécie humana. Dessa forma, os resultados de Elizabeth revogam os a publicação de 2002 e trazem uma nova perspectiva evolutiva para a linguagem.

Até então, o que se sabia sobre os fatores genéticos que influenciam a linguagem era que diversos outros genes, atuantes no desenvolvimento cerebral, eram regulados pelo gene FOXP2 que, por sua vez, é um fator de transcrição. Esse gene está presente no DNA de muitos grupos animais, incluindo pássaros, camundongos e macacos, e apresenta algumas diferenças entre as suas sequências de DNA em cada grupo. Nessas espécies, ele também atua na aprendizagem de sons e vocalização. Alterações na expressão desse gene em humanos pode levar a sérios problemas, como a apraxia da fala.

Entretanto, o estudo de 2002 havia mostrado que a sequência de DNA do FOXP2 continha mutações específicas à espécie Homo sapiens, presentes no éxon 7 do gene e compartilhadas por todos os indivíduos analisados (total de 20 indivíduos). As mutações não apareciam em nenhum outro grupo e datavam de 200.000 anos atrás, época na qual existiam espécies de hominídeos ancestrais que, por sua vez, compartiham ancestralidade com o Homo sapiens. Assim, autores sugeriram que essas pequenas modificações foram positivamente selecionadas por mecanismos de seleção natural direcional. e se tornaram o principal fator genético responsável pelo alto desenvolvimento da linguagem humana. No entanto, apenas algumas regiões do gene foram analisadas e o conjunto de indivíduos utilizado para esta pesquisa era muito pequeno.

O gráfico ilustra como se comportam as características de uma população antes e depois do fenômeno de seleção direcional. O eixo Y representa o número de indivíduos da população e o eixo X representa as variações de uma característica qualquer como, por exemplo, a habilidade de vocalizar.

Com o intuito de confirmar ou revogar os estudos de 2002, Elizabeth e colaboradores aumentaram, consideravelmente, o número de indivíduos analisados e, também, passaram a analisar a sequência completa do gene FOXP2, bem como todo o contexto do DNA dos indivíduos. E isso é o que de mais brilhante a Ciência tem, o estudo de 2018 derrubou as teorias do estudo de 2002 e provou (em sua nova verdade provisória, agora com mais evidências para suporte do que a anterior) que o gene FOXP2, apesar de sua sequência ter evoluído recentemente na espécie humana, não está mais sobre o efeito de seleção natural direcional nas populações atuais. Além de revogar os achados anteriores, o atual estudo demonstrou a importância de uma grande amostragem de indivíduos das diferentes populações para que se possam caracterizar tais variações populacionais, bem como a observação de todo o contexto de um gene e não regiões específicas. Abaixo uma figura que resume os achados do novo estudo:

Imagem do artigo original que resume os resultados do novo estudo. No primeiro quadro (acima) os autores questionam se a variação no exon 7 do gene FOXP2 (encontrada em 2002) é realmente específica de humanos. No quadro do meio, os autores mostram que o gráfico das formas do gene FOXP2 na população não se parece com um gráfico de seleção natural direcional na atualidade. No útimo quadro (abaixo) os autores mostram que, ao contrário do estudo de 2002, uma região do gene FOXP2 que não codifica proteínas é que possui mutações específicas da espécie humana e que varia em diferentes populações.


Quer saber mais sobre?
-Em português:
https://emsinapse.wordpress.com/2018/08/07/estudo-generico-nos-oferece-melhores-indicios-de-como-a-linguagem-evoluiu/

-Em inglês:
https://www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(18)30851-1#%20 (artigo científico original 2018)
https://www.nature.com/articles/nature01025 (artigo científico original 2002)
https://www.the-scientist.com/news-opinion/language-gene-dethroned-64608
https://www.sciencenews.org/article/language-gene-foxp2-no-humans-evolution-boost
Imagens originais obtidas de:
https://www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(18)30851-1#%20
http://entendendoovelhodarwin.blogspot.com/2010/09/selecao-direcional.html


Por: Érica Ramos
erica.ramos00@gmail.com
Sobre a autora: Bióloga e Mestre em Ciências Biológicas (Genética) pela UNESP, apaixonada pelo tema Educação e, também, editora desta página de Divulgação Científica. No momento atua como aluna de doutorado na UNESP, na área de Genética.





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