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quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Cerrado: é preciso conhecer para conservar e restaurar!


Imagine uma paisagem com arbustos, árvores com troncos tortuosos distribuídos de forma espalhada em um solo arenoso de onde brotam espécies herbáceas. Nessa mesma paisagem, você poderá perceber o quanto os caules podem ter cascas grossas e ser resistentes ao fogo ocasional da estação seca...mas anime-se porque há água disponível e provavelmente uma cachoeira nas proximidades! Essa poderia ser a descrição de uma das fisionomias de Cerrado, bioma que ocupa mais de 20% do território brasileiro.

Durante o ensino de conceitos relacionados aos domínios fitogeográficos e biomas brasileiros, muitas vezes os professores não podem realizar práticas em Unidades de Conservação ou parques zoobotânicos, que frequentemente ficam distantes dos grandes centros urbanos. Dentre as formas utilizadas para minimizar essa distância e despertar o interesse dos alunos pela conservação da biodiversidade, temos o estímulo a experiências sensoriais. Imagine se o aluno descobrir na escola que a sobremesa favorita é feita de um fruto que ocorre no Cerrado? Ou se ele é informado que uma planta do Cerrado é fonte de princípio ativo para um medicamento muito utilizado? Sim, domínios fitogeográficos e biomas brasileiros são importantes fontes de serviços ecossistêmicos (que podem ser de suporte vital, provisão, regulação e cultural). Essa descoberta pode ocorrer de forma simples, como durante a apresentação de documentários, exposições fotográficas ou mesmo durante a degustação de alimentos regionais em exposições culinárias. Os educadores devem saber que o desejo de conservar é precedido pelo conhecimento e valorização da biodiversidade.

Paisagem do cerrado no Parque Nacional da Chapada das Mesas, Carolina, Maranhão. Fonte: Raysa V.C. Saraiva

Ao tratarmos do Cerrado torna-se ainda mais importante destacarmos a heterogeneidade, beleza cênica e importância para comunidades tradicionais, pois durante muito tempo (e por falta de conhecimento) este bioma foi considerado visualmente pouco atrativo e biodiverso, a ponto do Cerrado ter sido apontado como nova fronteira agrícola e direcionado para o desenvolvimento da agropecuária. Como resultados dessa negligência histórica temos que o Cerrado não tem nem 3% de todo o percentual protegido em Unidades de Conservação de Proteção Integral e o desmatamento do bioma é três vezes maior que na Amazônia.

Quando o aluno toma conhecimento das ameaças à biodiversidade do Cerrado (o avanço do agronegócio; estabelecimento de pastagens e implantação de florestas para produção de carvão e celulose) e das consequências dessas ameaças (fragmentação dos habitats, perda da biodiversidade, erosão dos solos, poluição dos rios e mudanças climáticas em escala regional) é provável que a importância dos conceitos de Conservação e Restauração Ecológica fiquem evidentes, assim como a relevância de profissionais que atuam na pesquisa e na prática desses temas.

Adicionalmente, a temática sobre Conservação e Restauração Ecológica permite o debate sobre conceitos referentes a legislação ambiental e o papel do Código Florestal Brasileiro, atualmente regulado pela Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012. Segundo as diretrizes do Código Florestal, há obrigação de proteção por reservas legais para apenas 20% das áreas de Cerrado fora da Amazônia Legal e 35% para áreas inseridas na Amazônia Legal. Esforços para restauração ambiental são indispensáveis sob o ponto de vista legal, que aponta a necessidade de restauração de 5 milhões de hectares de Cerrado, que equivale a 2,5% do bioma. Debates e práticas sobre métodos de restauração podem ser promovidos em classe. Listamos abaixo os principais métodos de restauração:

a) Restauração com produtividade Sistema Agroflorestal (SAF): Nas agroflorestas temos consórcios de espécies arbóreas com culturas agrícolas. Na prática, os alunos podem observar e examinar exemplares de sementes e estruturas vegetais que permitem o reconhecimento de árvores nativas.
b) Regeneração Natural: estratégia que deve ser adotada quando a área foi submetida a baixo impacto e há árvores e arbustos em regeneração com densidade e diversidade suficientes. Na prática, os alunos podem tomar conhecimento sobre adaptações de espécies vegetais típicas do Cerrado, tais como presença de raízes, xilopódios e caules subterrâneos com possibilidade de rebrota.
c) Enriquecimento e Plantio convencional: Os métodos silviculturais tradicionais são recomendadas para áreas de Cerrado onde o solo tenha sido revolvido muitas vezes e alterado quimicamente por corretivos e fertilizantes. Na prática, os alunos podem aprender sobre o plantio de mudas de espécies nativas (preparo do solo, espaçamento, coveamento e fertilização).

Por fim, incentivamos que a temática seja abordada com mais frequência nas salas de aula e que os alunos tomem conhecimento que conservar mais é barato que restaurar!


Raysa Valéria Carvalho Saraiva
raysaval1@gmail.com
Raysa é Bióloga pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Mestra em Biodiversidade e Conservação (UFMA), Doutoranda em Agroecologia pela Universidade Estadual do Maranhão e Professora do curso de Licenciatura em Ciências Naturais de UFMA, Campus Pinheiro.


Referências:
CAVALCANTI, R.B.; JOLY, C.A. Biodiversity and conservation priorities in the Cerrado region. In: OLIVEIRA, P.S.; MARQUIS, R.J. The cerrados of Brazil: ecology and natural history of a neotropical Savanna, New York: Columbia University Press, 2002. 398 p.
DURIGAN, G.; MELO, A.C.G.; MAX, J.C.M.; BÔAS, O.V.; CONTIERI, W.A. 2003. Manual para recuperação da vegetação do Cerrado. São Paulo: Instituto Florestal, Japan International Cooperation Agency.19 p.
EMBRAPA. 2004. Produtos, processos e serviçoes: sistemas agroflorestais (SAFs). Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-produtos-processos-e-servicos/-/produto-servico/112/sistemas-agroflorestais-safs . Acesso em: 22/10/2016.
KLINK, C.A.; MACHADO, R. B. Conservation of the brazilian Cerrado. Conservation Biology, n. 10, p.707-713, 2005.
MEIRELLES, E. M. Os impactos do novo Código Florestal no bioma Cerrado. Ecodata Informa. 2012. Disponível em: https://ecodatainforma.wordpress.com/2012/04/11/os-impactos-do-novo-codigo-florestal-no-bioma-cerrado/ Acesso em: 22/10/2016.

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