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segunda-feira, 23 de julho de 2018

Pílula anticoncepcional masculina: uma realidade próxima


Desde a década de 80 os cientistas tentam desenvolver uma pílula contraceptiva para os homens mas existem poucos medicamentos desse tipo disponíveis e apresentam alguns efeitos colaterais indesejados. Em geral, os contraceptivos masculinos agem sobre a interação dos hormônios sexuais, assim como no caso das pílulas para mulheres.

Por que desenvolver uma pílula masculina?
A grande maioria dos casais que utiliza métodos contraceptivos faz uso de métodos femininos. Em primeiro lugar, figura a laqueadura (método de esterilização feminina definitiva), em segundo lugar o DIU (método reversível) e em terceiro a pílula anticoncepcional feminina (reversível também). Só depois aparece o preservativo masculino (camisinha masculina). Em geral, a responsabilidade recai sobre as mulheres e se considerarmos o uso das pílulas contraceptivas, por exemplo, sabemos que há um ônus maior ainda. Isso porque nesse método é bastante comum as mulheres apresentarem efeitos colaterais fortes e alguns estudos demonstram a associação do uso contínuo de pílulas e o desenvolvimento de câncer de mama.

Habemus pílulas masculinas seguras e eficazes?
Até este ano, o avanço no desenvolvimento das pílulas contraceptivas masculinas estava focado no uso do hormônio sexual masculino denominado testosterona. Nesses estudos foram administradas doses de testosterona que permitiram a manutenção dos níveis desse hormônio sempre estáveis na corrente sanguínea. Na presença de testosterona no sangue, o cérebro entende que a produção de espermatozóides está adequada e cessa a produção de GnRH. Isso resulta na interrupção da produção hormonal de LH e FSH, e gera efeito de infertilidade, que é totalmente reversível com a interrupção do uso de testosterona. A figura abaixo mostra os hormônios masculinos e suas interações de regulação naturais, nas quais as pílulas tentam agir:

Esquema hormonal masculino para a produção de espermatozóides.

Porém, existem problemas nessa abordagem, que são:
1) para manter os níveis de testosterona no sangue suficientes para interromper a produção de GnRH no cérebro, são necessárias pelo menos duas doses diárias da pílula, o que torna o método trabalhoso e aumenta o risco de que não funcione em função da não administração correta das doses (esquecimento de tomar a pílula, por exemplo); 
2) as doses de testosterona administradas podem ocasionar problemas no fígado.

A grande novidade:
O estudo clínico divulgado em março de 2018 utilizou pílulas que continham DMAU (Dimetandrolona undecanoato), uma substância química que se liga a receptores de hormônios masculinos e age “imitando” esses hormônios e ativando seus receptores (agindo como substância agonista externa). Dessa forma, ao adicionar DMAU à corrente sanguínea, o mesmo ativa os receptores de testosterona e permite que a ação desencadeada por esses ocorra normalmente, sem que seja necessária a presença do hormônio. Mas então não é o mesmo que injetar testosterona?

O resultado da pesquisa (ainda a curto prazo - 28 dias de uso da pílula) mostrou que não. Foram testadas 3 diferentes doses de DMAU em 3 diferentes grupos, totalizando 83 homens de 18 a 50  anos (incluindo os pacientes que receberam placebo) num estudo duplo-cego. Os homens que receberam as maiores doses mostraram ausência de espermatogênese e diminuição na produção dos hormônios envolvidos em todo o processo, o que garantiu a esterilização reversível. Nenhum dano ao fígado ou às funções vitais do indivíduo foram observados e somente uma pílula diária foi necessária para a obtenção dos resultados  (diferentemente dos estudos anteriores com testosterona). 

Porém, alguns efeitos colaterais foram observados: aumento no peso (ganho de 1,5 a 3,9 kg) e diminuição do colesterol considerado “bom”, o HDL (diminuição de -7 a -17 mg/dL). Alguns homens também relataram diminuição da libido, no entanto parte deles recebeu placebo. Portanto não se pode afirmar que esse efeito esteja relacionado à pílula.

Esse é um grande avanço para o desenvolvimento de um método contraceptivo masculino oral seguro! Em breve, novos estudos com maior número de pessoas e por um período maior de administração da pílula devem estar disponíveis.
E você, o que achou da novidade? Deixe sua opinião nos comentários, venha debater o tema!




Por: Érica Ramos
erica.ramos00@gmail.com
Sobre a autora: Bióloga e Mestre em Ciências Biológicas (Genética) pela UNESP, apaixonada pelo tema Educação e, também, editora desta página de Divulgação Científica. No momento atua como aluna de doutorado na UNESP, na área de Genética.

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