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sexta-feira, 1 de junho de 2018

Minha querida pesquisa - Lucas Denadai de Campos


Lucas Denadai de Campos – Biólogo
Mestre em Ciência Biológicas (Zoologia)
Estudante de Doutorado
Do Instituto de Biociências da
Universidade de São Paulo

O contato com as Ciências naturais tem sido constante desde o começo da minha vida. Desde que me lembro, meus pais possuem uma pequena chácara na periferia de Botucatu, SP. Foi nesse local aonde tive os primeiros contatos com diversos animais, plantas e fungos. A cada final de semana que íamos para aquele lugar, o mundo natural ficava mais atrativo e novas descobertas eram feitas.
Na escola, Ciências (1º grau), Biologia e Química (2º grau), eram as únicas disciplinas que de fato me chamavam a atenção. Tive excelentes professores de Ciências, Biologia e Química durante toda a minha formação básica. Ao final do ensino médio, decidi que Biologia seria o tema da minha vida a partir daquele momento.
Comecei os meus estudos em Ciências Biológicas na UNESP campus de Botucatu no ano de 2008. Tive o grande privilégio de fazer a minha graduação na cidade onde nasci, com amigos de infância e com outros grandes amigos que acabei conhecendo. Logo no primeiro ano, recebi uma bolsa de extensão em um projeto de parasitoses intestinais em humanos e cachorros, sob a orientação da professora Semíramis. Foi uma experiência nova e complemente diferente para mim. Afinal, processar fezes de humanos e animais, não era uma coisa que esperava fazer durante a minha formação como biólogo amante da natureza. Porém, aprendi muito sobre como identificar parasitas intestinais.
Durante o segundo semestre, ainda no meu primeiro ano, tive uma disciplina chamada Sistemática Biológica. Foi aí que tudo mudou. Tudo bem que eu já me interessava pelos animais desde aquela época, principalmente os insetos. Mas, foi naquela disciplina que descobri uma coisa que poderia sanar a minha curiosidade sobre os insetos e os animais. A sistemática contemplava (e ainda contempla) tudo o que eu queria entender e fazer dentro da Biologia. Comparar os seres vivos entre si, encontrar suas diferenças e semelhanças, agrupa-los ou separá-los, identificar espécies, descrever espécies, gêneros... O melhor de tudo, é que o professor daquela disciplina era (e ainda é) especialista em insetos, mais especificamente, especialista em grilos. Assim, após finalizar meu estágio no departamento de Parasitologia, fui ao departamento de Zoologia falar com o professor Francisco de Mello, também conhecido como Chico, a respeito de um novo estágio.
Foi nesse momento que comecei meus estudos taxonômicos e sistemáticos com grilos. No laboratório do professor Chico, com ajuda de seus alunos de pós-Graduação, Márcio e João Paulo (hoje doutores), tive a oportunidade de aprender um pouco sobre como identificar os grilos, como descrevê-los (parte do que se faz na taxonomia) e claro, como coletar esses insetos. Foi assim que desenvolvi o meu projeto de iniciação científica. Onde descrevi quatro novas espécies e dois novos gêneros de grilos.
Ao finalizar a graduação, e minha iniciação científica, eu gostaria de continuar estudando os grilos. Porém, naquele momento, o professor Francisco já não orientava mais alunos de pós-graduação. Foi, então, que tive que deixar o aconchego da minha cidade para seguir com a minha curiosidade. Entrei em contato com o professor Silvio Nihei no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo para saber se ele aceitaria me orientar num projeto de estudo diferente do qual ele é especialista, as moscas. Ele me convidou para uma conversa em seu laboratório, onde ele já orientava um aluno com grilos, o qual também havia sido aluno do professor Chico em Botucatu. Assim, esse aluno, Pedro Souza-Dias, atuou como coorientador (não formal) durante o meu mestrado.
No meu projeto de mestrado (início em 2014), estudei um gênero de grilos chamado Eidmanacris. Esses grilos são muito interessantes do ponto de vista evolutivo por não produzirem som para cortejar as fêmeas e por possuírem um hábito cavícola, ou seja, são sempre encontrados em buracos e até em cavernas! Em minha dissertação eu redescrevi algumas espécies (que foram descritas há muito tempo e por isso, suas descrições estavam incompletas) e descrevi outras novas. Totalizando 29 espécies para o gênero Eidmanacris. Também fiz uma filogenia dessas espécies através das características de suas diferentes formas (morfologia). Apenas para explicar, uma filogenia nada mais é que uma hipótese de relacionamento de parentesco entre os táxons (nesse caso as espécies) através de suas características, sejam elas morfológicas, comportamentais ou até mesmo genéticas. Basicamente as que possuírem mais características em comum, são mais aparentadas do que as outras. Durante esse projeto, tive a oportunidade de visitar o Muséum national d’Histoire naturelle em Paris, França. Essa visita tive como objetivo analisar alguns espécimes para o meu projeto, para discutir o meu projeto e futuros projetos com uma das maiores especialistas em grilos do mundo, a professora Laure Desutter-Grandcolas.

Figura 1. A-Eidmanacris septentrionalis, macho. B-Eidmanacris neomarmorata, fêmea.

Ao finalizar o meu projeto de Mestrado, estava muito animado com tudo que ainda estava por vir. Novos projetos, pesquisas, cada dia conhecendo novos pesquisadores que pudessem me ajudar. E foi assim que, em 2017, comecei o meu Doutorado. O professor Silvio continua me orientando e sou coorientado pela professora Laure. Nesse novo projeto, estudo um grupo completamente diferente de grilos da região Neotropical (que compreende a América do Sul, América Central e o sul do México). São grilos de hábito arborícola (vivem na copa de árvore e em arbustos). Esses grilos possuem uma grande diversidade de asas e de formas. Isso foi o que mais me chamou a atenção neles e o objetivo do meu doutorado é desenvolver uma nova relação de parentesco entre esses grilos usando características morfológicas e genéticas para tentar entender como é que evoluíram as diferentes formas de asas que podem ser encontradas dentro desse grupo. Para isso tenho que estudar diversos exemplares que foram depositados em vários museus de História Natural, principalmente Europa e Estados Unidos.

Figura 2. A-Diatrypa tuberculata, macho. B-Asa em maior aumento com estruturas em destaque: a, fileira estridulatória; b, harpa; c, espelho; d, campo apical; e, campo lateral.

Ainda estou no começo do meu Doutorado e tenho muitas visitas a museus e muito trabalho a fazer. Espero que logo tenha muito mais a acrescentar a esse texto, com o desenvolvimento da minha pesquisa. Tudo isso para tentar sanar a curiosidade que começou lá na chácara dos meus pais quando eu ainda nem sabia direito quem eram os grilos.

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