Aba

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Minha querida pesquisa - Matheus Mantuanelli Roberto


Matheus Mantuanelli Roberto
mmr@uniararas.br
Professor Doutor do Centro
Universitário Hermínio Ometto
(Fundação Hermínio Ometto
- FHO|UNIARARAS)
Desde pequeno demonstrei interesse pelos seres vivos. Para desespero de minha mãe, fui aquela criança que surgia segurando um besouro, uma aranha ou um organismo qualquer em minhas mãos, pelo simples prazer de conhecer suas formas ou seu comportamento (sim, tiveram mordidas e picadas!). Por volta dos meus 12 anos, pedi aos meus pais um presente meio inusitado: um microscópio. Ganhei um microscópio daqueles que vinham em uma maleta, repleto de instrumentos e materiais, até com ovos de microcrustáceos (Artemia salina) para eclodir e acompanhar o desenvolvimento. Fiquei fascinado! Mesmo sem ter muito conhecimento sobre a profissão, sempre dizia que seria Biólogo. Durante o ensino médio, devido à influência de diversos professores, apenas confirmei este meu interesse, prestando o vestibular para o curso de Ciências Biológicas Integral (Licenciatura e Bacharelado) da UNESP de Rio Claro/SP. Em 2003, este sonho se tornou minha realidade.
Ao me tornar um estudante das Ciências Biológicas, fiquei meio perdido com a quantidade de áreas abrangidas pelo curso. No final de meu segundo ano de graduação, em 2004, conheci os estudos coordenados pela Profa. Dra. Maria Aparecida Marin-Morales, na área da mutagênese ambiental. Quando iniciei meu estágio, participei de um projeto de avaliação dos possíveis efeitos tóxicos em peixes (tilápia do Nilo – Oreochromis niloticus), causados por agentes químicos utilizados no tratamento de água. Finalizado este projeto, foi esta área que escolhi para seguir: a toxicologia! Em seguida, pelas mesmas técnicas de avaliação de toxicidade a partir de alterações em células sanguíneas dos peixes, participei de outro projeto relacionado ao biomonitoramento dos recursos hídricos sob a influência de uma refinaria de petróleo do estado de São Paulo. Enfim, me tornei um membro do Laboratório de Mutagênese Ambiental – uma grande família.
Foi neste momento em que tive contato mais específico com o teste de anormalidades nucleares e com o teste do micronúcleo em eritrócitos de peixes, além do teste do cometa. Eritrócitos? Sim, são as hemácias (células vermelhas do sangue). Diferentemente das encontradas nos mamíferos, as hemácias dos peixes são nucleadas, o que permite tal avaliação (Figura 1).

Figura 1: eritrócitos de tilápia. A. célula normal; B. célula com alteração no envoltório nuclear (invaginação); C. célula com alteração no envoltório nuclear (evaginação); D. célula com broto nuclear; E. célula com micronúcleo; F. célula em processo de morte.

Entretanto, o organismo-teste que era o “carro-chefe” na avaliação ambiental era a cebola (Allium cepa). Pela germinação das sementes de cebola junto às amostras ambientais, pode-se realizar a avaliação tóxica (relacionada à alteração no índice de germinação das sementes), citotóxica (relacionada à alteração no índice de divisão celular – mitose – ou à taxa de mortalidade celular), genotóxica e mutagênica (relacionadas à frequência de células portadoras de alterações cromossômicas e nucleares ou portadoras de micronúcleos) de amostras ambientais, compostos ou substâncias isoladas. Ou seja, a avaliação engloba efeitos macro e microscópicos (Figura 2).

Figura 2: células de cebola. A. célula em intérfase; B. célula em prófase; C. célula em metáfase; D. célula em anáfase; E. célula em telófase; F. célula com broto nuclear; G. metáfase com aderência cromossômica; H. metáfase poliploide; I. telófase com ponte cromossômica; J. telófase com perda cromossômica; K-M. intérfases com micronúcleos; N. intérfase poliploide; O. célula normal da geração F1; P. célula da geração F1 micronucleada – Adaptado de Roberto et al. (2016a).

Junto a este projeto, iniciei o meu próprio projeto de iniciação científica, relacionado à avaliação do potencial tóxico e antitóxico de própolis marrom e verde, resultando em meu trabalho de conclusão de curso. A partir dos interessantes resultados encontrados, dei prosseguimento à área de avaliação de produtos naturais em meu mestrado, iniciado em 2007, no Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (Biologia Celular e Molecular), da UNESP de Rio Claro/SP. Neste momento, estudei os efeitos da própolis verde e do extrato da sua planta de origem, coletada pelas abelhas – o alecrim-do-campo (Baccharis dracunculifolia). Em 2008, implantamos uma nova técnica de pesquisa no laboratório: a cultura de células. Atualmente, por esta nova ferramenta, podemos obter resultados mais correlatos aos seres humanos e/ou outros organismos de interesse. A partir de diversas linhagens de células de peixes, anfíbios e mamíferos (ratos, camundongos, hamster chinês e humanos), de diferentes tecidos, avaliamos os danos citotóxicos, genotóxicos e mutagênicos pelos testes de anormalidades nucleares, teste do micronúcleo e ensaio do cometa (Figura 3). O teste de anormalidades nucleares e do micronúcleo com células mantidas em cultura utiliza a citocalasina B, como um de seus reagentes. Essa substância faz com que as células, em divisão, sofram separação de núcleo, mas não de citoplasma, gerando células binucleadas. A partir disso, podemos assegurar que esta célula passou por um ciclo de divisão. Ainda, podemos avaliar o efeito protetor oferecido por substâncias isoladas ou compostos naturais.

Figura 3: testes com cultura de células. A-D. ensaio do cometa, com diferentes classes de danos em ordem crescente (Adaptado de Roberto et al., 2016b). E. célula binucleada normal; F. célula binucleada com micronúcleo.

No doutorado, ainda no mesmo programa de pós-graduação, meu projeto original ainda tinha ligação com a avaliação da própolis, porém com o tipo vermelho, que havia sido recém descrito. Entretanto, devido à uma série de problemas relacionados a ele, minha tese voltou a ter relação com o biomonitoramento da refinaria de petróleo. Havia retornado a este projeto antes do início do doutorado, em 2009, coordenando suas análises toxicológicas, após a renovação do convênio estabelecido entre a UNESP e a Petrobras. A partir de um compilado de mais de 5 anos de trabalho, realizado em equipe, pude correlacionar os efeitos biológicos da cebola e do peixe com as variações sazonais e os parâmetros físicos e químicos das amostras de água.
Em 2016, fui contratado pelo Centro Universitário Hermínio Ometto (Fundação Hermínio Ometto - UNIARARAS). Atualmente, sou responsável pelas disciplinas de Genética Humana, Genética Básica, Genética Geral e Humana, Genética Aplicada, Biologia Celular, Histologia Básica e Ecotoxicologia, e oriento alunos na área da Toxicologia Geral e Toxicologia Ambiental.

Referências:
ROBERTO, M.M.; JAMAL, C.M.; MALASPINA, O.; MARIN-MORALES, M.A. Antigenotoxicity and antimutagenicity of ethanolic extracts of Brazilian green propolis and its main botanical source determined by the Allium cepa test system, Genetics and Molecular Biology, v. 39, n. 2, p. 257-269, 2016a.
ROBERTO, M.M.; MATSUMOTO, S.T.; JAMAL, C.M.; MALASPINA, O.; MARIN-MORALES, M.A. Evaluation of the genotoxicity/mutagenicity and antigenotoxicity/ antimutagenicity induced by propolis and Baccharis dracunculifolia, by in vitro study with HTC cells, Toxicology In Vitro, v. 33, p. 9-15, 2016b.

Compartilhar:
←  Anterior Proxima  → Inicio

0 comentários:

Postar um comentário

Seja um colaborador!

Postagens populares

Total de visualizações

Seguidores

Tecnologia do Blogger.