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quarta-feira, 11 de abril de 2018

Uma carta sobre educação ambiental nas escolas

Análise do ambiente com participantes de um Workshop de Produção de Alimentos em Boa Vista do Acará/PA. Foto de Diego Dalmaso Martins (Março de 2016).

Caros/as amigos/as professores/as,
(Se você é aluno/a do Ensino Básico, Técnico ou Superior e chegou até esse texto, faço o convite para continuar a leitura também. Talvez nos ajude a refletir um pouco sobre algumas atividades que fazemos na escola e no nosso dia-a-dia, mas parecem ter pouco sentido)

Escrevo essa carta a vocês após receber um convite, do pessoal do Ciência na Medida, para escrever um artigo sobre o ensino de Educação Ambiental na escola básica para a coluna Escola na Medida.
Bom, a primeira coisa que quero lhes contar é que fiquei muito feliz com o convite quando o recebi. Da felicidade, passei à empolgação. Da empolgação e consequente enxurrada de ideias, passei a um sentimento de receio e travei. Por fim, depois de algumas semanas, decidi escrever essa carta, ao invés de fazer o texto que havia pensado inicialmente.

E, aqui, explico os porquês.

O primeiro motivo para essa escolha é que percebi que, apesar de trabalhar educação ambiental desde 2007, não atuo como professor escolar há mais de 5 anos. Fora isso, minha experiência na escola é pequena: trabalhei por um ano como professor eventual na rede pública estadual de São Paulo e um mês no SESI de Avaré/SP. Depois, enveredei para a pós-graduação em Educação para a Ciência. Sim, estudo e vivo a área de educação, mas todos/as nós sabemos que a prática docente vai muito além dos nossos estudos acadêmicos.

O segundo motivo é que, na verdade, não acredito na concepção de que uma prática em educação ambiental pode ser aplicada em qualquer contexto e que ela melhora de forma mágica nossa relação com o ambiente, como vemos naqueles livrinhos de práticas sustentáveis que todos/as lemos de vez em quando. Faz mais sentido, para mim, trabalhar a partir da realidade concreta de cada lugar e, com uma base teórica clara, desenvolver a ação mais apropriada àquele contexto.

E o terceiro e último motivo é que, se já há milhares de materiais sobre práticas de educação ambiental disponíveis, por que escreveria mais um texto com uma atividade prática? Por isso, fiquei mais motivado por poder contribuir com outro tipo de reflexão. O/a professor/a da educação básica brasileira já é constantemente bombardeado/a com muitas propostas vindas do poder público, empresas e ONGs; são livros, vídeos, cartilhas, formações, campanhas, plantio de árvores e muitas outras coisas solicitadas a quem desempenha o papel mais importante na escola, sem o devido cuidado com as longas jornadas de trabalho e baixa remuneração. Fora que, muitas vezes, a qualidade é bastante duvidosa e o viés direcionado aos interesses do grupo que leva essas atividades à escola.

Expostos esses motivos, posso, enfim, continuar a carta, agora compartilhando com vocês o que entendo por educação ambiental.

Entendo que a educação ambiental surgiu e se fortaleceu em resposta a um modo de vida predatório da nossa espécie no planeta, que vem causando uma série de desequilíbrios que não aconteceriam se não estivéssemos aqui. Foi nesse contexto, a partir das décadas de 1960/70, que as primeiras iniciativas de caráter ambientalista e conservacionista começaram a fazer parte das nossas vidas.

Mas, percebo, também, que a contribuição de cada pessoa para esse quadro de degradação não é igual: já sabemos que o impacto que grandes empresas e pessoas poderosas e ricas causam é muito maior que o que nós, reles trabalhadores e trabalhadoras, causamos. Por isso, fujo aqui da perspectiva de práticas em educação ambiental que veem toda a espécie humana como um câncer no planeta e que, se cada pessoa fizer sua parte, todos os problemas serão resolvidos. Sim, fazer a sua parte é muito importante, mas nunca vai resolver os problemas mais profundos da nossa sociedade.

Também, preciso compartilhar com vocês que vejo os problemas ambientais como intrinsecamente vinculados a questões de ordem social, econômica, política e cultural. Não é coerente, para mim, pensar numa educação ambiental que proteja as espécies endêmicas da Mata Atlântica, mas que não se preocupe com a vida das comunidades quilombolas e tradicionais expulsas por grandes empreendimentos imobiliários; ou comunidades de famílias pescadoras que perdem suas terras para a construção de casas de apresentadores de TV; ou que peça à pessoa que trabalha 8, 10 horas por dia para tomar um banho rápido de 5 minutos quando chegar em sua casa na periferia, enquanto a empresa de papel e celulose paga muito mais barato para usar milhões e milhões de litros de água e devolvê-la com algum poluente ao rio. Isso faz algum sentido pra você?

Nesse ponto, é importante mostrar a vocês que toda ação educativa é um ato político e, portanto, carrega consigo a visão de mundo de quem a propõe - seja essa pessoa docente da escola pública, a coordenadora da ONG ambientalista ou a gerente de ações educativas da empresa produtora de cana-de-açúcar que vai levar um projetinho na escola. Assim, aproveito para deixar claro que, para mim, não estamos numa crise ambiental: vivemos num sistema, num modo de produção, que exige a crise; ou melhor, ele é a própria crise que temos que superar. Por isso, amigos e amigas, é importante pensarmos nossas ações educativas tendo em vista, como objetivo final, transformar a sociedade em que vivemos e promover o desenvolvimento integral de cada pessoa. E como transformar, quero dizer transformar aquela que é sua base: a exploração do trabalho de uma classe social pela outra.

Ufa! Bom, depois dessa introdução teórica, vamos, enfim, falar mais de educação ambiental!

 Análise do ambiente com crianças e adolescentes participantes de um projeto social em Botucatu/SP. Foto de André Santachiara Fossaluza (Abril de 2014).


Mas, antes ainda, queria lembrar só de mais uma coisinha que fez bastante sentido quando me ensinaram. Entender que somos parte da natureza, e não uma espécie totalmente desvinculada dos outros seres vivos e não-vivos. Somos parte do mesmo processo de evolução que criou todas as espécies que vivem e viveram por aqui, e é essencial superar essa dualidade entre humanidade e natureza para construirmos uma realidade diferente da que temos hoje. Isso não significa, entretanto, que somos iguais às outras espécies; desenvolvemos capacidades fantásticas, que nos permitem planejar antecipadamente nossas ações, nos comunicar com uma linguagem elaborada, a transmitir avanços científicos e culturais criados durante uma geração à seguinte e, também, modificar conscientemente o ambiente que vivemos para satisfazer nossas necessidades - a isso, damos o nome de trabalho.

Ah! E também lembrar de uma coisa essencial: educação ambiental não é a mesma coisa que ensino de Ciências, Biologia ou Ecologia! Essas disciplinas têm seu conteúdo específico que devem ser trabalhados, enquanto a educação ambiental trabalha com conteúdos e valores ligados à sustentabilidade, ou seja, como construímos sociedades que sejam ecologicamente equilibradas e socialmente justas, como é a nossa relação com o ambiente . Por isso, não precisamos limitar as ações em educação ambiental aos/às professores/as das Ciências da Natureza. A educação ambiental tem uma bela característica inter e transdisciplinar que pode ser aproveitada.

Finalmente, então, vamos pensar em como trabalhar com educação ambiental!

Bom, acho que um bom começo, quando forem planejar suas próprias atividades de educação ambiental, é que os objetivos dessas propostas estejam bem claros quais são. Esses objetivos podem ser de diferente abrangência, buscando ensinar conteúdos ou valores; mas é essencial ter em mente o objetivo mais amplo de se trabalhar com educação ambiental: queremos criar sociedades humanas ecologicamente balanceadas e socialmente justas.

E como fazer isso? Oras, (in)felizmente não há uma receita para isso, amigos e amigas.

A melhor forma que vejo de começar é conhecendo o ambiente onde estamos. Um bom diagnóstico ambiental (e, lembrem-se, não estamos falando somente de questões “naturais”, mas também sociais, econômicas, culturais, políticas, etc.) da localidade onde estamos, torna muito mais palpável e verdadeira qualquer ação posterior. Na permacultura, aprendi que analisar o contexto é parte fundamental para qualquer tipo de planejamento - isso não muda para quando planejamos nossas ações educativas.

Visita ao Aterro Sanitário Municipal de Botucatu/SP. Foto de Clarissa Oliveira (Outubro de 2014).

De maneira prática, isso quer dizer que propor a construção de uma horta, por exemplo (uma ação concreta), é o último passo e nunca deve anteceder um diagnóstico prévio do contexto. Por quê? Porque fazer uma horta pode ser uma atividade com pouco sentido educativo naquele contexto. Se, por outro lado, depois de uma boa análise da nossa realidade concreta, notarmos que os alimentos consumidos pelas nossas famílias estão cheio de agrotóxicos que fazem mal à saúde e ao ambiente, que os alimentos orgânicos são muito caros e só vendidos no mercado que fica no bairro de gente rica, que todas as hortinhas familiares do bairro foram aos poucos sendo trocadas por prédios ou terrenos baldios, que os sítios dos parentes mais antigos estão todos ocupados por eucalipto, soja e cana-de-açúcar, e, além disso, ela (a horta) permite trabalhar valores e conteúdos de diversas disciplinas, aí sim, planejar, construir, manter e colher os frutos de uma horta agroecológica escolar, trabalhada de forma cooperativa e com dedicação, com o envolvimento de toda a comunidade escolar, faz sentido (não vale o/a professor/a propor tal atividade e a direção da escola utilizar glifosato, o famoso “mata-mato”, para “limpar” o terreno).

Entendem a ideia? Quando temos claro em nossas mentes aonde queremos chegar, as ações concretas fazem mais sentido! Se não, elas são subaproveitadas ou feitas porque temos que fazer.

Bom, depois de conhecer bem nossa realidade concreta, nas mais diferentes esferas, desde o nível individual até o nível macroeconômico, podemos trabalhar com alguns valores muito importantes. Dentre eles, destaco a participação, a coletividade e a cooperação. Como assim?

Oficina prática de bioconstrução em Boa Vista do Acará/PA. Foto de André Santachiara Fossaluza (Novembro de 2011).

Para esse tipo de educação ambiental, é importante que todas as pessoas envolvidas no trabalho participem e se sintam integradas do processo. Precisam entender, também, que, para que as ações sejam realmente efetivas, é necessário que elas envolvam mais pessoas, e que essas pessoas trabalhem em prol de um objetivo comum. Por isso, é essencial que elas cooperem entre si. Uma boa maneira de fazer isso acontecer é tentar identificar uma questão problemática do contexto que tenha sido notado por um grande número de alunos/as; a partir dela, podemos nos aprofundar no estudo (nas mais diversas disciplinas), até chegar numa ação prática que busque resolver esse problema.

A ideia é basicamente essa: observar a realidade concreta, buscar informações, trabalhar valores e, finalmente, propor e realizar ações coletivas para mudar a nossa própria realidade material. Lembrando que esse processo não é linear: assim como nossa própria vida, a realidade é complexa, com uma etapa em constante relação com outra, o tempo todo.

Agora, já caminhando pro final do texto, você pode estar pensando “Hm, parece até interessante, mas esse tipo de proposta leva um tempo danado”. E, sim, você está corretíssimo/a!

Por isso, queridos/as professores/as, é que me dirijo a vocês: mesmo com todas as dificílimas condições de trabalho que temos, vocês têm uma possibilidade incrível, uma autonomia que (pelo menos por enquanto) ninguém conseguiu tirar.
E, um fator essencial que, muitas vezes, não está presente nas ações de educação ambiental: TEMPO! Vocês acompanham o desenvolvimento de uma criança e adolescente até que tenham 17 anos. Têm bons anos para desenvolver um trabalho de qualidade (não estou dizendo que é fácil, sei que a realidade escolar tem outras nuances que um simples texto não consegue abarcar)!

Por isso, também, desconfiem sempre de quem chegar na escola com soluções mágicas. Ações propostas sem consultas aos/às professores/as e comunidade, ou de uma grande empresa que não respeita o ambiente e os/as trabalhadores/as, ou propor uma campanha mágica para ver quem arrecada mais garrafas PET na escola, têm grande probabilidade de não funcionarem bem. Acreditem no trabalho de vocês, organizem o coletivo de professores/as, coordenadores/as, diretores/as, inspetores/as, equipe de limpeza e cozinha, alunos/as e famílias, fortaleçam a comunidade escolar e acreditem num trabalho contínuo, passo-a-passo.

 Construção de um banheiro seco, utilizando técnicas e materiais renováveis disponíveis na localidade, em Boa Vista do Acará/PA. Foto de André Santachiara Fossaluza (Junho de 2016).

No fim, percebemos que qualquer ação em educação ambiental pode ser muito importante ou não - a questão principal é a coerência dessa ação com a visão de mundo que a gerou. Depois de tudo isso, vocês ainda podem perceber que uma ótima ação é fazer uma oficina de reciclagem de papel ou de compostagem . Mas, eu garanto a vocês, ela terá outro significado, outro sentido.

Um forte abraço, aqui de Botucatu, interior de São Paulo, a terra dos bons ares, a todos/as vocês que trabalham, dia após dia, para levar educação de qualidade e plantar as sementes necessárias para uma verdadeira transformação social. Que o texto ajude a gerar algumas reflexões!

André



Por: André Santachiara Fossaluza
fossaluza.andre@gmail.com
Sobre o autor: Biólogo, mestre e doutorando em Educação para a Ciência (Faculdade de Ciências, UNESP, campus de Bauru/SP), membro do Grupo Curare de Permacultura (Botucatu/SP) e Grupo de Pesquisa em Educação Ambiental (GPEA, UNESP, campus de Bauru/SP). Professor bolsista do Departamento de Educação (Instituto de Biociências, UNESP, campus de Botucatu/SP)


PS: Abaixo, coloco algumas referências, como falei no começo do texto. São textos que podem ajudar nos estudos e ações em educação ambiental.
PS2: A todos os amigos e amigas que me ajudaram a revisar o texto (Ananda, Enio, Fernanda, Guilherme e Rafael) fico devendo um bolo com café. Aliás, se alguém ler o texto quiser conversar sobre as ideias, pode me enviar um e-mail (fossaluza.andre@gmail.com) ou convidar para um outro cafezinho - as probabilidades de eu comparecer são altíssimas!

BRUGGER, Paula Cals Neves. Educação ou adestramento ambiental? 3. ed. Florianópolis, Brasil: Argos, 2004.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro, Brasil: Paz e Terra. Disponível em: http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/paulofreire/paulo_freire_pedagogia_do_oprimido.pdf
LAMOSA, Rodrigo & LOUREIRO, Carlos Frederico B. Agronegócio e educação ambiental: uma análise crítica. Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, Brasil, v. 22, n. 83, p. 533-554, abr./jun. 2014. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ensaio/v22n83/a11v22n83.pdf.
LAYRARGUES, Philippe Pomier & LIMA, Gustavo Ferreira da Costa. As macrotendências político-pedagógicas da Educação Ambiental brasileira. Ambient. soc. [online], São Paulo, Brasil, v. XVII, n. 1, p. 23-40, jan./mar. 2014. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/asoc/v17n1/v17n1a03.pdf.
SAUVÉ, Lucie. Uma cartografia das correntes em educação ambiental. In: SATO, Michèle & CARVALHO, Isabel Cristina Moura (orgs.). Educação ambiental. Porto Alegre, Brasil: Artmed,  p. 17-45, 2005. Disponível em: http://web.unifoa.edu.br/portal_ensino/mestrado/mecsma/arquivos/sauve-l.pdf.



1 Vocês vão perceber que algumas vezes vou usar “ambiente”, noutras “meio”. Escrevo assim por entender que elas têm o mesmo significado. Ambas significam determinado lugar onde estamos e que, trabalhar com educação ambiental não envolve, necessariamente, estar no meio de uma floresta. Ela pode ser trabalhado em qualquer local, pois esse é o ambiente, seja ele com mais ou menos intervenções antrópicas.
2 Nos dois exemplos citados, para entender um pouco melhor a ideia:
- Papel reciclado: numa atividade assim, podemos relacionar várias questões, como a quantidade de lixo gerado na nossa rotina, a possibilidade tecnológica para uma melhor gestão desse resíduo (há poucos meses atrás, foi noticiado que países europeus estavam em pânico porque a China pretende para de receber os materiais recicláveis coletados na Europa; o pânico não era porque não dispõem de tecnologia suficiente para realizar o processo, mas porque, sem exportar seu lixo, a reciclagem não seria mais um negócio viável economicamente), a organização de cooperativas de coletores/as de materiais recicláveis, a gestão urbana de resíduos (os porquês de o aterro sanitário existir do jeito que é e em determinado lugar), a relação entre êxodo rural, perca da cultura tradicional da zona rural, concentração fundiária, degradação de solos, contaminação de águas e a expansão das áreas de monocultura de eucaliptos para a produção de papel. Além deles, podemos trabalhar conteúdos das disciplinas de Artes, História, Geografia, Matemática, entre outras. Assim, uma atividade que teria como foco uma técnica, uma habilidade artesanal, pode ser ampliada e mais significativa.
- Compostagem: o processo controlado de decomposição de matéria orgânica para produção de adubo permite estabelecer conexões com diversos outros temas. Além de todos os conteúdos nas áreas de Biologia, Química, Física e Matemática, podemos abordar outras questões mais amplas: o volume e composição de lixo gerado numa cidade (e como eles diferem de acordo com sua classe social), os sistemas de coleta de lixo e a disposição desse material (quem o faz, por que é assim, para onde ele vai), a qualidade da alimentação que temos em nossas casas e que é oferecida nas escolas (lembrem-se das mudanças na merenda escolar no estado de São Paulo), aproveitamento integral dos alimentos, entre outros.

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