Aba

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Minha querida pesquisa - Tiago Brentam Perencini

Doutorando em Filosofia da
Educação pelo Programa de
Pós-Graduação em Educação
da Unesp de Marília

Uma pesquisa é sempre entrelaçada por fios existenciais que colocam em cheque a vida íntima do pesquisador. Estou doutorando no Programa de Pós-Graduação em Educação da Unesp de Marília, onde investigo um tipo de prática filosófica que procure resgatar a dimensão afetiva em educação. Faço parte do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação e Filosofia (GEPEF), que tem conferido visibilidade à problemática ética das diferenças na contemporaneidade. Tais “diferenças” podem ser grosso modo entendidas por tudo aquilo que não foi enquadrado pela curva da normalidade dentro do contexto escolar brasileiro, como é o caso das deficiências ou das questões de gênero. Contarei um pouco do percurso desviante que me trouxe até aqui para, quem sabe, possibilitar novas aberturas para os pesquisadores em formação.
É na infância que habita o nosso dom. Desde pequenino eu mostrava certa curiosidade pelas relações humanas em geral, pelos laços de amizade e de afeto que se desenhavam entre as pessoas. A minha mãe foi professora da pequena Escola em que eu estudava em minha terra natal, Santa Fé do Sul-SP, e, como quase todo o filho de professora, era o meu dever ser o “exemplo” perante as demais crianças. Esta experiência primeira mostrou-me que toda a instituição poderia ter as suas “linhas de fuga”, isto é, aqueles locais e relações onde podíamos experimentar o gosto da liberdade sem qualquer tutela, ali não precisávamos ser o “exemplo”. A tentativa de criar “linhas de fuga” dentro dos ambientes institucionais aos quais me encontro tem sido justamente a minha maior motivação como docente, estudante e pesquisador até o momento.
Permaneci até os 18 anos em minha cidade natal, rompendo o cordão ao ingressar no curso de Filosofia na Faculdade de Filosofia e Ciências, Unesp de Marília-SP. A sala de aula me convidou de pronto. Logo no primeiro ano de graduação eu lecionei voluntariamente no Cursinho Alternativo da Unesp (CAUM) e permaneci nesta função durante  quase toda a minha graduação, posteriormente como bolsista. Esta trajetória de “mestria” já me acompanhava por anos. Foram as relações entre professor e estudante que me levaram a pesquisar o ensino de filosofia no Mestrado (o produto desta aventura tornou-se um livro e pode ser acessado aqui:  http://www.culturaacademica.com.br/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=614), mas os meus maiores encontros existenciais estariam reservados para o período após o término deste ciclo, quando entrei em uma crise profunda com a Universidade e novos acontecimentos abriram as portas existenciais que me guiam desde então.
A primeira porta a ser escancarada foi justamente a Educação Popular. Iniciei o meu contato com educadores que não se enquadram dentro das instituições escolares e universitárias, justamente por estas prezarem pelos modelos tradicionais de ciência e de ensino. Estes educadores – verdadeiros mestres e mestras da sabedoria popular - começaram a me convidar para a construção de um novo modelo de partilha, de política e de vida. Aprendi que a verdadeira pesquisa se faz quando transformamos o meio em que vivemos, como participantes reais e singulares da comunidade a que estamos inseridos. Iniciei assim o meu conhecimento na sabedoria popular e nas práticas educacionais de cuidado em ambientes não formais.
Uma dessas arenas foi a minha experimentação com o teatro e com a palhaçaria. O meu maior desejo à época era sentir as possibilidades e os limites de um ensino pelo e com o corpo. Em nossa educação formal fomos ensinados que uma investigação só se dá pelas orientações da lógica, da matemática e da razão, mas a vida transcende a todas estas escalas milimétricas, não é mesmo? “O que é vivo não comporta cálculo”, disse uma vez o escritor Franz Kafka em um livro brilhante chamado Carta ao pai. Pois bem, estava inaugurado em mim o desejo de educar pelo sentir, pensar com o coração, no e através do corpo.
Deste meu desejo de pensar com o corpo, durante o início do ano de 2015, ocorreu a minha abertura para um tipo de espiritualidade que não é propriamente religiosa. Comecei a lecionar em uma Faculdade Católica que se vincula a um Seminário religioso. Por ser professor de Filosofia Contemporânea, os meus cursos eram dedicados justamente aos chamados “filósofos ateus” e esta foi uma grande aventura afetiva entre mim e os estudantes religiosos. O que eu não previa era que esta relação de partilha iniciava em mim um processo filosófico de conversão, que na essência pode ser entendido como a mudança do modo de vida que se tinha até então. O contato com estudantes que abdicaram de muitas propostas de vida para seguirem um caminho religioso suscitou em mim a admiração, o respeito e a atenção pelo gesto da espiritualidade. Como nunca consegui me enquadrar muito bem nas instituições, falo de uma espiritualidade que se aproxima do campo dos afetos, intimiza-se como uma prática filosófica no ato de repensar e transformar ética e politicamente a própria vida.
Tomando nota de minha abertura espiritual, um acontecimento no final do ano de 2015 marcaria a minha vida por completo. Iniciei o meu contato com a sabedoria da floresta através da experiência com o chá de Oaska. A palavra ayahuasca, de raiz linguística indígena, significa “vinho das almas” ou “vinho dos mortos”. Como o próprio nome sugere, a beberagem do chá em um contexto espiritual nos traz a compreensão plena de que a vida não é linear, mas sim cíclica, obedecendo a uma misteriosa sincronicidade. Com isso quero dizer que necessitamos morrer para renascer e de que existem muitas mortes e renascimentos no percurso desviante de uma vida. Esta experiência “cósmica” iniciou em mim uma expansão de consciência pela atenção à minha própria sensibilidade e subjetividade, mostrando-me os limites oculares da razão institucional pela qual tinha me guiado em boa parte de meu percurso existencial e de pesquisa.
Em minha prática investigativa, iniciei-me na expansão de formas de acesso às informações “invisíveis” as quais a Universidade ainda não confere a devida visibilidade. Hoje a minha maneira de leitura e de escrita encontra-se para além dos livros e autores, ou de um método e referenciais teóricos a serem rigidamente seguidos. A ayahuasca escancarou-me os campos inauditos da magia e a minha atividade de pesquisa me possibilita um profundo e diário exercício de intuição, clarividência, telepatia, etc. Recebo uma orientação de leitura a partir de minha atenção pelos sinais das letras que me chamam, como se estivesse em um jogo de tarot; recorro a um autor como se fosse estabelecer o contato com um espírito estelar, que me orienta na escrita. Em essência, aquilo a que a minha intuição me convida também me encontra! Todo este despertar aproximou-me também da medicina espiritual, flertando-me ao campo de práticas integrativas e complementares em saúde, e hoje faço parte da Associação Brasileira de Terapeutas Integrativos (ABRATIN).
Este interstício entre filosofia, educação e saúde tem possibilitado a minha pesquisa de doutoramento. É fundamental percebermos que uma investigação acadêmica nasce da trajetória existencial do pesquisador e não de uma concepção cientificamente rígida que separa pesquisa e vida. A minha tese aborda a prática filosófica como uma possibilidade de subjetivação, que grosso modo pode ser compreendida como a atitude de repensarmos por completo a vida em que habitamos no presente. Isso requer a compreensão da crítica (acadêmica, educacional e/ou filosófica) não enquanto um exercício de esclarecimento e julgamento sobre o outro, mas sim como uma experiência de cultivo e trabalho sobre si mesmo. O si não privilegia o sujeito do conhecimento, mas sim as relações de transformação e de exposição que estabelecemos como seres viventes no mundo.
Esta proposta vai ao encontro de transmutarmos a maneira como nos relacionamos afetiva e eroticamente com o outro e conosco mesmo. A erótica foi um modo de vida filosófico amplamente pesquisado pelo pensador contemporâneo Michel Foucault e nos remete ao mito ancestral de Eros, conhecido por nós hoje como o cupido. Eros é concebido justamente na festança ocorrida no dia do nascimento de Afrodite, oportunidade em que há o enamoramento entre Recurso, o filho embriagado da deusa Prudência, e a mortal Pobreza. Com isso o mito quer nos ensinar que o amor é a relação entre a abastança e a falta. É por isso que quando amamos alguém entramos em certo estado ébrio, uma zona periférica, de não conhecimento, ausente de nós mesmos.
Sei que esta tese oportunizará mostrar que estar vivo sugere lidar com o desconhecido, com aquilo que não podemos ou conseguiremos explicar racional ou logicamente. É preciso lembrar que as previsões da ciência valem muito pouco quando nos deparamos tanto com o desconhecido sobre nós mesmos, quanto com o inexplicável do amor, não é verdade? Estar vivo não suporta cálculo! É urgente que reconectemos a nossa existência ao que resta da Universidade em nosso tempo presente, período em que ainda podemos pensar, sentir e viver de outro modo.

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