Aba

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Desvendando os ensaios in vitro com cultura de células


Com certeza você já ouviu que as frutas e as verduras fazem bem para saúde. Mas como essa informação foi descoberta? Existem várias formas de descobrir por quais meios as substâncias podem agir em nosso organismo e, atualmente, um método muito utilizado é o ensaio in vitro utilizando cultura de células.
Muitas das descobertas feitas até hoje foram realizadas utilizando animais de laboratório, entretanto, cada vez mais o uso desses animais está se restringindo, aumentando o interesse no uso de cultura de células.
Então como seriam esses testes?
Primeiramente devemos nos perguntar qual o objetivo de nossa pesquisa. Como um exemplo, imagine que queremos testar se um extrato obtido de casca de laranja pode ser usado para prevenir ou tratar a obesidade. Sabendo que no nosso corpo temos células especiais que armazenam gordura (adipócitos) e que, quando engordamos, essas células aumentam em tamanho, para o nosso experimento, precisamos escolher uma célula que também faça isso, imitando o que acontece no nosso organismo. E existe um tipo de célula que é muito utilizado para ver esse tipo de efeito. Ela se chama 3T3-L1 e pode ser cultivada em laboratório, dentro de garrafas ou placas ou, em outras palavras, in vitro. In vitro é uma expressão do latim utilizada para os testes feitos em laboratório, com ambientes controlados e fechados, sendo normalmente feitos em recipientes de vidro.

Figura 1 - Cultivo de células in vitro. Normalmente usamos as garrafas para deixar as células crescendo e se multiplicando e as placas para realizar o nosso teste. O líquido vermelho é chamado de meio de cultura, e nele estão todos os nutrientes que as células precisam para se manterem vivas, crescerem e se multiplicarem. Fonte: https://www.experimentalis.com.br/material-pl%C3%A1stico-para-laborat%C3%B3rio.php; https://online-shop.eppendorf.com.br/BR-pt/Consumiveis-para-Cultura-Celular-e-Imagiologia-110320/Consumiveis-de-cultura-celular-110321/Eppendorf-Cell-Culture-Flasks-PF-68138.html

Essas células podem ser compradas em bancos de células, e aqui no Brasil o centro de referência está no Rio de Janeiro. As célula 3T3-L1 quando chegam ao laboratório são chamadas de pré-adipócitos “pré” porque ainda não têm capacidade de armazenar gordura. Depois de deixá-las crescendo, colocamos algumas substâncias que fazem as 3T3-L1 mudarem de características. Elas passam a ser um adipócitos maduros, capazes de armazenar gordura. A cada dois dias vamos trocando o meio, para sempre fornecer os nutrientes que elas precisam, e no final de cerca de 14 dias, temos as células “gordinhas”.

Figura 2 - Cultivo in vitro de pré-adipócitos (a) e de adipócitos (b) As esferas amarelas são as gotículas de gordura. 

Agora, para saber se o extrato da casca de laranja conseguiria causar o emagrecimento, podemos aplicar o extrato nas células. Ou seja, misturamos o extrato com o meio, aquele líquido vermelho, e colocamos na placa cheia de células com as gotículas de gordura. Deixamos em repouso por um dia e depois retiramos o meio (líquido vermelho) das placas. Se o extrato for capaz de “quebrar” essa gordura que estava dentro das células, fazendo ela “emagrecer”, o meio que retiramos da placa vai estar cheio de uma substância chamada glicerol. Quanto mais glicerol no meio, maior o efeito do extrato na quebra da gordura.

Figura 3 - Representação do efeito do extrato da casca da laranja na degradação de gordura em adipócitos.

Não podemos afirmar que, se o extrato quebrou a gordura na célula ele vai realmente fazer as pessoas emagrecerem, pois o corpo humano é bem mais complexo. Mas um resultado positivo, já é um indício promissor, mostrando que os estudos devem prosseguir para comprovar os benefícios.
Os ensaios in vitro são muito utilizados para descobrirmos por quais caminhos os efeitos podem ocorrer. Ou seja, podemos pesquisar quais proteínas são produzidas dentro das células, e o efeito que elas causam. Se isso fosse feito com um ser humano, precisaríamos submetê-lo a uma cirurgia, para retirar um pedacinho de gordura (tecido adiposo). Pensem se isso seria viável ou aceitável. Quem se candidataria? Poucos... Por isso, as células são utilizadas.
Esse foi só um exemplo de ensaio in vitro que pode ser realizado. Existem milhares de outros, com diversos objetivos diferentes. Podemos saber se um extrato ou composto tem efeito antiinflamatório, antioxidante, e até o seu efeito contra o câncer; sendo assim muito versátil e de aplicação muito ampla.


Por: Vânia Mayumi Nakajima
vmnakajima@gmail.com
Sobre a autora: Vânia é nutricionista, mestre em Ciência da Nutrição pela Universidade Federal de Viçosa - UFV e doutora em Alimentos e Nutrição pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP. Atualmente realiza pós-doutorado no Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da UFV.

Compartilhar:
←  Anterior Proxima  → Inicio

0 comentários:

Postar um comentário

Seja um colaborador!

Postagens populares

Total de visualizações

Seguidores

Tecnologia do Blogger.