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segunda-feira, 30 de abril de 2018

Mutantes do fundo do mar? Povo Bajau apresenta perfil genético adaptado ao mergulho livre



A história lembra grandes personagens do cinema e dos quadrinhos e pode até parecer mentira, mas não é. Os Bajaus são um povo que vive próximo às águas das Filipinas, Malásia e Indonésia e são conhecidos como “nômades do mar”. Atualmente, sua cultura e seu estilo de vida estão ameaçados pela pesca industrial e pela ausência do reconhecimento de cidadania (grupo marginalizado). A principal atividade econômica dessa população é a pesca por mergulho livre. Sem nenhum tipo de equipamento ou aparato de mergulho sofisticado, eles passam cerca de 60% do seu dia de trabalho mergulhando a profundidades de 70 metros, ficando em apneia por até 13 minutos.

Imagem de famílias e moradias do povo Bajau (créditos da foto: Melissa Ilardo).
Por muito tempo, os cientistas tentam entender o fenômeno da hipóxia estudando populações que moram em grandes altitudes. No entanto, nenhum estudo anterior havia apresentado resultados tão consistentes como o recente estudo da pesquisadora Melissa Ilardo, da Universidade de Copenhagen (Dinamarca), publicado em 19 de abril de 2018. Melissa e seus colaboradores estudaram o povo Bajau, coletando o material genético (DNA) e mensurando o tamanho do baço dos indivíduos. Por que? Sabe-se que, durante a hipóxia, humanos e outros mamíferos, respondem com bradicardia (para diminuir o consumo de oxigênio), vasoconstrição (para que o sangue seja direcionado seletivamente a órgãos mais sensíveis à falta de oxigênio) e contração do baço (para que haja liberação de um aporte extra de células sanguíneas no sistema circulatório). Dessa forma, Melissa buscou por alterações do baço que pudessem estar associadas a alterações genéticas e, assim, explicar a “supercapacidade” desses seres humanos tão singulares.

Imagem de um típico mergulho de pesca praticado pelos Bajaus (créditos da foto: Melissa Ilardo)
Os resultados do estudo mostraram que a população dos Bajau apresenta baços até 50% maiores que as populações próximas (que vivem em regiões próximas, mas não fazem parte do povoado e não praticam o mergulho livre). Além disso, após uma análise de comparação genômica dos indivíduos, verificaram a presença de variantes de diversos genes (com mutações específicas), que estão sob pressão de seleção positiva. Isso significa que esses genes são muito importantes para a população e, portanto, a seleção natural favorece seu estabelecimento. Dentre a lista de genes encontrados, destacam-se os genes PDE10A e BDKRB2.

O gene PDE10A está relacionado à função da glândula tireoide e ao tamanho do baço.  A tireoide produz hormônios que regulam a produção de células sanguíneas durante o desenvolvimento embrionário e, nesse caso, pode estar aumentando a produção de glóbulos vermelhos e, por consequência, requisitando um aumento do baço para armazenamento de um estoque.

Já o gene BDKRB2 está associado com o aumento de vasoconstrição de vasos periféricos, o que ajuda o direcionamento do sangue a órgãos vitais como coração, pulmões e cérebro. Em combinação, esses genes devem atuar na resistência desses indivíduos durante o mergulho e essa característica genética é herdada na população dos Bajau. Essa é uma adaptação evolutiva recente na história humana e, por isso, tão interessante!

Quer saber mais?
-Em português:
https://www.nationalgeographicbrasil.com/cultura/2018/04/bajaus-primeiros-humanos-genetica-dna-mergulho-pesca
https://super.abril.com.br/ciencia/cientistas-descobrem-genes-que-ajudam-humanos-a-mergulhar/
-Em inglês:
Artigo original: https://www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(18)30386-6
http://www.bbc.co.uk/news/science-environment-43823885
https://www.youtube.com/watch?v=6-oDEndXU0U



Por: Érica Ramos
erica.ramos00@gmail.com
Sobre a autora: Bióloga e Mestre em Ciências Biológicas (Genética) pela UNESP, apaixonada pelo tema Educação e, também, editora desta página de Divulgação Científica. No momento atua como aluna de doutorado na UNESP, na área de Genética.

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sexta-feira, 27 de abril de 2018

Biologia Celular, em altíssima resolução

Imagem: Diferentes tipos celulares observados com a tecnologia AO-LLSM. Cima: crescimento  de axônios da medula espinal de zebrafish (esquerda) e metástase de células de câncer de mama humanas (direita); Centro: migração de células imunes (esquerda), marcação de organelas (central) e motilidade celular coletiva (direita) em embrião de zebrafish. Embaixo: rearranjo de microtúbulos (esquerda) e endocitose (direita) em embrião de zebrafish. Retirado de Liu, T.L. et al. Observing the cell in its native state: Imaging subcellular dynamics in multicellular organisms. Science (80-. ). 360, (2018).

Na última sexta-feira (20/04/2018), foi publicado na renomada revista Science um artigo científico que pode revolucionar a Biologia Celular. Na publicação, os pesquisadores Liu, Upadhyayula e colaboradores apresentaram uma nova tecnologia que permite a obtenção de imagens e vídeos em 3D e altíssima resolução de organelas, células e tecidos in vivo. A técnica de microscopia, chamada de AO-LLSM, foi testada com diferentes tipos celulares em embriões de zebrafish, organóides de células humanas, no verme C. elegans e até na planta Arabidopsis thaliana.

Leia o artigo de pesquisa original em: http://science.sciencemag.org/content/360/6386/eaaq1392.full
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quinta-feira, 26 de abril de 2018

O traçado da origem genética da anemia falciforme


Muitas doenças aparecem das mais diversas formas, e, recentemente, um estudo conseguiu fazer um traçado da origem genética da anemia falciforme, uma aberração genética que acabou tendo uma ‘utilidade’ para os humanos de algumas regiões. Quer saber mais? Veja o excelente vídeo abaixo do Slow do Canal do Slow:

 
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quarta-feira, 25 de abril de 2018

Desvendando os ensaios in vitro com cultura de células


Com certeza você já ouviu que as frutas e as verduras fazem bem para saúde. Mas como essa informação foi descoberta? Existem várias formas de descobrir por quais meios as substâncias podem agir em nosso organismo e, atualmente, um método muito utilizado é o ensaio in vitro utilizando cultura de células.
Muitas das descobertas feitas até hoje foram realizadas utilizando animais de laboratório, entretanto, cada vez mais o uso desses animais está se restringindo, aumentando o interesse no uso de cultura de células.
Então como seriam esses testes?
Primeiramente devemos nos perguntar qual o objetivo de nossa pesquisa. Como um exemplo, imagine que queremos testar se um extrato obtido de casca de laranja pode ser usado para prevenir ou tratar a obesidade. Sabendo que no nosso corpo temos células especiais que armazenam gordura (adipócitos) e que, quando engordamos, essas células aumentam em tamanho, para o nosso experimento, precisamos escolher uma célula que também faça isso, imitando o que acontece no nosso organismo. E existe um tipo de célula que é muito utilizado para ver esse tipo de efeito. Ela se chama 3T3-L1 e pode ser cultivada em laboratório, dentro de garrafas ou placas ou, em outras palavras, in vitro. In vitro é uma expressão do latim utilizada para os testes feitos em laboratório, com ambientes controlados e fechados, sendo normalmente feitos em recipientes de vidro.

Figura 1 - Cultivo de células in vitro. Normalmente usamos as garrafas para deixar as células crescendo e se multiplicando e as placas para realizar o nosso teste. O líquido vermelho é chamado de meio de cultura, e nele estão todos os nutrientes que as células precisam para se manterem vivas, crescerem e se multiplicarem. Fonte: https://www.experimentalis.com.br/material-pl%C3%A1stico-para-laborat%C3%B3rio.php; https://online-shop.eppendorf.com.br/BR-pt/Consumiveis-para-Cultura-Celular-e-Imagiologia-110320/Consumiveis-de-cultura-celular-110321/Eppendorf-Cell-Culture-Flasks-PF-68138.html

Essas células podem ser compradas em bancos de células, e aqui no Brasil o centro de referência está no Rio de Janeiro. As célula 3T3-L1 quando chegam ao laboratório são chamadas de pré-adipócitos “pré” porque ainda não têm capacidade de armazenar gordura. Depois de deixá-las crescendo, colocamos algumas substâncias que fazem as 3T3-L1 mudarem de características. Elas passam a ser um adipócitos maduros, capazes de armazenar gordura. A cada dois dias vamos trocando o meio, para sempre fornecer os nutrientes que elas precisam, e no final de cerca de 14 dias, temos as células “gordinhas”.

Figura 2 - Cultivo in vitro de pré-adipócitos (a) e de adipócitos (b) As esferas amarelas são as gotículas de gordura. 

Agora, para saber se o extrato da casca de laranja conseguiria causar o emagrecimento, podemos aplicar o extrato nas células. Ou seja, misturamos o extrato com o meio, aquele líquido vermelho, e colocamos na placa cheia de células com as gotículas de gordura. Deixamos em repouso por um dia e depois retiramos o meio (líquido vermelho) das placas. Se o extrato for capaz de “quebrar” essa gordura que estava dentro das células, fazendo ela “emagrecer”, o meio que retiramos da placa vai estar cheio de uma substância chamada glicerol. Quanto mais glicerol no meio, maior o efeito do extrato na quebra da gordura.

Figura 3 - Representação do efeito do extrato da casca da laranja na degradação de gordura em adipócitos.

Não podemos afirmar que, se o extrato quebrou a gordura na célula ele vai realmente fazer as pessoas emagrecerem, pois o corpo humano é bem mais complexo. Mas um resultado positivo, já é um indício promissor, mostrando que os estudos devem prosseguir para comprovar os benefícios.
Os ensaios in vitro são muito utilizados para descobrirmos por quais caminhos os efeitos podem ocorrer. Ou seja, podemos pesquisar quais proteínas são produzidas dentro das células, e o efeito que elas causam. Se isso fosse feito com um ser humano, precisaríamos submetê-lo a uma cirurgia, para retirar um pedacinho de gordura (tecido adiposo). Pensem se isso seria viável ou aceitável. Quem se candidataria? Poucos... Por isso, as células são utilizadas.
Esse foi só um exemplo de ensaio in vitro que pode ser realizado. Existem milhares de outros, com diversos objetivos diferentes. Podemos saber se um extrato ou composto tem efeito antiinflamatório, antioxidante, e até o seu efeito contra o câncer; sendo assim muito versátil e de aplicação muito ampla.


Por: Vânia Mayumi Nakajima
vmnakajima@gmail.com
Sobre a autora: Vânia é nutricionista, mestre em Ciência da Nutrição pela Universidade Federal de Viçosa - UFV e doutora em Alimentos e Nutrição pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP. Atualmente realiza pós-doutorado no Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da UFV.

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segunda-feira, 23 de abril de 2018

Zooplâncton pode ajudar na mistura de nutrientes no oceano

As águas dos oceanos sofrem processos de mistura causados por fatores físicos, como ondas e ventos. Porém, um recente estudo desenvolvido em laboratório demonstra o potencial das forças biológicas em causar estes efeitos.
Pesquisadores demonstraram que aglomerados de organismos conhecidos como zooplâncton (animais de poucos centímetros com pouca capacidade de locomoção) movimentando suas pequenas pernas são capazes de, em conjunto, criar correntes poderosas com força suficiente para misturar a água em centenas de metros de profundidade. Proposta na década de 1960, essa ideia vinha sendo debatida, mas nunca testada.


Para realizar os experimentos, foram criados tanques com água mais salgada no fundo e menos salgada no topo, criando um gradiente, semelhante ao que é observado nos oceanos. Neles, foram colocados milhares de pequenos camarões e luzes de LED ou laser foram usadas para atraí-los para cima ou para baixo do tanque. Os pesquisadores registraram, com o uso de câmeras, os movimentos dos animais e conseguiram medir os redemoinhos de água formados por cada camarão, além das correntes maiores resultantes do conjunto de redemoinhos. Eles verificaram também, que estes movimentos de água alteravam o gradiente de concentração de sal nos tanques.

Representação dos tanques construídos pelos pesquisadores para realizarem os experimentos.

Os cientistas acreditam que estes resultados devam ser observados nos oceanos e que outros tipos de animais como águas-vivas, lulas, peixes e mamíferos aquáticos também possam causar este efeito. Os achados desse trabalho podem afetar a maneira como os cientistas pensam sobre a influência dos animais no ambiente aquáticos, além de seus efeitos nos ciclos globais de nutrientes e correntes oceânicas.


Para saber mais:


Por: Adauto Cardoso
adautolimacardoso@gmail.com
Adauto Lima Cardoso é biólogo, mestre e doutor em Genética pela Universidade Federal do Pará e pela Universidade Estadual Paulista, respectivamente. Atualmente realiza pós-doutorado no Departamento de Morfologia do Instituto de Biociências da UNESP.
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quinta-feira, 19 de abril de 2018

Borboletas: a beautiful thing

Não há dúvidas de que um dos insetos mais belos da natureza são as borboletas, que além de serem esteticamente lindas em sua forma adulta, apresentam características fisiológicas, ecológicas e comportamentais fascinantes.

Dadas sua beleza e efemeridade, as borboletas são frequentemente usadas como elementos estéticos e simbólicos em obras de arte. Um exemplo é a série "Caleidoscópio", do artista plástico Damien Hirst,  que aborda os temas da Morte e do Belo. Hirst, um dos maiores artistas britânicos vivos, é conhecido por suas obras extremamente valiosas e muitas vezes inspiradas na Ciência (uma de suas obras mais conhecidas, que consiste em um tubarão fixado em formaldeído, chegou a custar 8 milhões de dólares!).

Confira na galeria abaixo algumas obras da série "Caleidoscópio", que foram retiradas do site do artista, www.damienhirst.com:

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CSI011: Sherlock (BBC)



Uma das adaptações mais recentes dos clássicos de Conan Doyle, “Sherlock” da britânica BBC tem agradado fãs e deixado muitas questões no campo da psicologia. Entre psicopatias, rápidas deduções e mistérios fascinantes, podemos acompanhar o famoso detetive percorrer ruas da Londres atual junto a seu fiel amigo, Dr. Watson.

No decorrer das 4 temporadas, vimos Sherlock se utilizar de uma técnica de memória chamada “Palácio da Mente”. Uma vez dentro de seu “palácio”, o detetive é capaz de percorrer mentalmente diversos cômodos e corredores  que abrigam suas memórias e, assim, solucionar problemas com grande facilidade.

Embora pareça absurdo, o palácio da mente é uma técnica real baseada em outra técnica mnemônica (do grego mnemonikós: relativo a memória; para ajudar a memória): o método loci. A técnica de origem grega, tem sido recomendada por diversos psicólogos ao redor do mundo e é muito conhecida por milhares de “atletas da memória”. Isso mesmo! Existem até competições para ver quem decora mais sequências: sejam cartas de baralho ou palavras aleatórias.

O jogo começou!

A ideia principal desse método é pensar em um lugar – imaginário ou real – com o máximo de detalhes possíveis e ir “armazenando” nesse lugar tudo o que você precisa lembrar e, se você precisar decorar uma sequência, basta pensar uma rota para “passear” por seu palácio mental e ir encontrando esses itens no caminho. Ajuda bastante desenhar essa rota ou lugar e ir treinando.

Para ficar ainda melhor, diversos estudos têm mostrado que nossa memória é plástica, ou seja, podemos melhorar nossa capacidade de memória, uma vez que ela se dá através de ligações sinápticas entre neurônios. Praticar exercícios de memória como o “Palácio mental”, jogos da memória e tocar instrumentos são como uma academia para sua memória, e podem ajudar a prevenir lapsos e doenças como Alzheimer!

Então, se você precisa decorar uma apresentação de trabalho, lembrar o nome das pessoas que estarão em uma festa, a solução é elementar, meu caro Watson.




Por: Beatriz Jacinto Alves Pereira
bia_jap@hotmail.com
Sobre a autora: Bacharel em Biologia pelo Instituto de Biociências de Botucatu - Unesp, mestranda em Ciências Biológicas (genética) no LGEM: Laboratório de genômica e evolução molecular 
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segunda-feira, 16 de abril de 2018

Inteligência artificial capaz de criar modelo 3D de uma pessoa a partir de apenas alguns segundos de vídeo

 Agora vai ficar mais fácil e mais barato fazer figuras digitais mais próximas da aparência humana


Se colocar dentro de um videogame, com corpo e tudo, acabou de ficar mais fácil. A inteligência artificial (IA) já vem sendo usada faz bastante tempo para criar modelos em três dimensões do corpo de pessoas para avatares em realidade virtual, vigilância, escolher roupas virtuais e até filmes. Mas, normalmente, ela requer câmeras especiais e equipamentos para detectar profundidade ou, ainda, ver o mesmo objeto sob vários ângulos. Um novo algoritmo (algoritmo é simplesmente uma "receita" para executarmos uma tarefa ou resolver algum problema) recém desenvolvido cria modelos em 3D usando apenas vídeos comuns sob um único ângulo.

O sistema possui três etapas:

1) O sistema analisa um vídeo de alguns segundos de alguém se movimentando (de preferência alguém se virando em 360º para mostrar todos os lados) e, para cada quadro, cria uma silhueta separando a pessoa do ambiente. Baseado em técnicas de aprendizado de máquinas (onde computadores aprendem algo depois de extraírem padrões de vários exemplos), o computador estima o formato do corpo em 3D e a localização das articulações.

2) Na segunda etapa, ele analisa as poses que o humano virtual estava fazendo em cada quadro, fazendo com que cada quadro mostre a imagem com a pessoa de braços abertos, formando um T. Depois disso, combina a informação da pessoa fazendo um T em apenas um modelo com maior acurácia.

3) Finalmente, na terceira e última etapa, são aplicadas cor e textura ao modelo baseado no cabelo, na roupa e na pele de quem foi gravado.

No vídeo abaixo (em inglês), é mostrado em detalhes todo o processo:



Os pesquisadores testaram o método com uma grande variedade de formatos de corpo, de roupa e de ambientes e concluíram que seu algoritmo possui uma precisão de 5 milímetros. Esse sistema também pode reproduzir amassados e dobras em tecidos, mas ele ainda sofre um pouco com saias e cabelos compridos. Basicamente, apenas com um modelo seu, é possível mudar seu peso, suas roupas e até colocar seu modelo para fazer poses virtuais!

Quer saber mais?

- Em inglês:
http://www.sciencemag.org/news/2018/04/watch-artificial-intelligence-create-3d-model-person-just-few-seconds-video
https://arxiv.org/abs/1803.04758
- Em português:
https://dicasdeprogramacao.com.br/o-que-e-algoritmo/



Por: Lucas Farinazzo Marques
kim_farinazzo@hotmail.com
Sobre o autor: Biólogo pela Universidade Federal de Juiz de Fora, e atualmente trabalha com Bioinformática.
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sexta-feira, 13 de abril de 2018

Orangotangos: uma espécie em risco


Esta imagem, que rendeu ao fotógrafo Tim Laman o prêmio de melhor fotógrafo da vida selvagem de 2016, mostra um orangotango no parque Gunang Palung, em Bornéu, Indonésia. O número de orangotangos de Bornéu (Pongo pygmaeus) diminuiu em mais de 60% entre 1950 e 2010, sendo esta espécie criticamente ameaçada de extinção. Atualmente, muita biodiversidade já foi perdida e continua sendo reduzida, por isso programas de proteção à natureza e pesquisas sobre Conservação e Biologia são importantíssimos!

+ Veja mais fotos do fotógrafo Tim Laman no seu site oficial.

+ Encontre mais fotografias impressionantes no site do prêmio Wildlife Photographer of the Year.

+ Leia mais sobre Educação Ambiental na nossa matéria do Escola na Medida dessa semana!
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quinta-feira, 12 de abril de 2018

Como viver melhor: um algoritmo para arrependimentos


Você já parou para pensar como podemos contornar melhor os arrependimentos da vida que acontecem por escolhas que pensamos: "Poxa vida, será que não seria melhor aquilo?". Pois bem, nesse excelente vídeo do Nerdologia o Átila explica como funciona um algoritmo para tentarmos viver melhor.

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quarta-feira, 11 de abril de 2018

Uma carta sobre educação ambiental nas escolas

Análise do ambiente com participantes de um Workshop de Produção de Alimentos em Boa Vista do Acará/PA. Foto de Diego Dalmaso Martins (Março de 2016).

Caros/as amigos/as professores/as,
(Se você é aluno/a do Ensino Básico, Técnico ou Superior e chegou até esse texto, faço o convite para continuar a leitura também. Talvez nos ajude a refletir um pouco sobre algumas atividades que fazemos na escola e no nosso dia-a-dia, mas parecem ter pouco sentido)

Escrevo essa carta a vocês após receber um convite, do pessoal do Ciência na Medida, para escrever um artigo sobre o ensino de Educação Ambiental na escola básica para a coluna Escola na Medida.
Bom, a primeira coisa que quero lhes contar é que fiquei muito feliz com o convite quando o recebi. Da felicidade, passei à empolgação. Da empolgação e consequente enxurrada de ideias, passei a um sentimento de receio e travei. Por fim, depois de algumas semanas, decidi escrever essa carta, ao invés de fazer o texto que havia pensado inicialmente.

E, aqui, explico os porquês.

O primeiro motivo para essa escolha é que percebi que, apesar de trabalhar educação ambiental desde 2007, não atuo como professor escolar há mais de 5 anos. Fora isso, minha experiência na escola é pequena: trabalhei por um ano como professor eventual na rede pública estadual de São Paulo e um mês no SESI de Avaré/SP. Depois, enveredei para a pós-graduação em Educação para a Ciência. Sim, estudo e vivo a área de educação, mas todos/as nós sabemos que a prática docente vai muito além dos nossos estudos acadêmicos.

O segundo motivo é que, na verdade, não acredito na concepção de que uma prática em educação ambiental pode ser aplicada em qualquer contexto e que ela melhora de forma mágica nossa relação com o ambiente, como vemos naqueles livrinhos de práticas sustentáveis que todos/as lemos de vez em quando. Faz mais sentido, para mim, trabalhar a partir da realidade concreta de cada lugar e, com uma base teórica clara, desenvolver a ação mais apropriada àquele contexto.

E o terceiro e último motivo é que, se já há milhares de materiais sobre práticas de educação ambiental disponíveis, por que escreveria mais um texto com uma atividade prática? Por isso, fiquei mais motivado por poder contribuir com outro tipo de reflexão. O/a professor/a da educação básica brasileira já é constantemente bombardeado/a com muitas propostas vindas do poder público, empresas e ONGs; são livros, vídeos, cartilhas, formações, campanhas, plantio de árvores e muitas outras coisas solicitadas a quem desempenha o papel mais importante na escola, sem o devido cuidado com as longas jornadas de trabalho e baixa remuneração. Fora que, muitas vezes, a qualidade é bastante duvidosa e o viés direcionado aos interesses do grupo que leva essas atividades à escola.

Expostos esses motivos, posso, enfim, continuar a carta, agora compartilhando com vocês o que entendo por educação ambiental.

Entendo que a educação ambiental surgiu e se fortaleceu em resposta a um modo de vida predatório da nossa espécie no planeta, que vem causando uma série de desequilíbrios que não aconteceriam se não estivéssemos aqui. Foi nesse contexto, a partir das décadas de 1960/70, que as primeiras iniciativas de caráter ambientalista e conservacionista começaram a fazer parte das nossas vidas.

Mas, percebo, também, que a contribuição de cada pessoa para esse quadro de degradação não é igual: já sabemos que o impacto que grandes empresas e pessoas poderosas e ricas causam é muito maior que o que nós, reles trabalhadores e trabalhadoras, causamos. Por isso, fujo aqui da perspectiva de práticas em educação ambiental que veem toda a espécie humana como um câncer no planeta e que, se cada pessoa fizer sua parte, todos os problemas serão resolvidos. Sim, fazer a sua parte é muito importante, mas nunca vai resolver os problemas mais profundos da nossa sociedade.

Também, preciso compartilhar com vocês que vejo os problemas ambientais como intrinsecamente vinculados a questões de ordem social, econômica, política e cultural. Não é coerente, para mim, pensar numa educação ambiental que proteja as espécies endêmicas da Mata Atlântica, mas que não se preocupe com a vida das comunidades quilombolas e tradicionais expulsas por grandes empreendimentos imobiliários; ou comunidades de famílias pescadoras que perdem suas terras para a construção de casas de apresentadores de TV; ou que peça à pessoa que trabalha 8, 10 horas por dia para tomar um banho rápido de 5 minutos quando chegar em sua casa na periferia, enquanto a empresa de papel e celulose paga muito mais barato para usar milhões e milhões de litros de água e devolvê-la com algum poluente ao rio. Isso faz algum sentido pra você?

Nesse ponto, é importante mostrar a vocês que toda ação educativa é um ato político e, portanto, carrega consigo a visão de mundo de quem a propõe - seja essa pessoa docente da escola pública, a coordenadora da ONG ambientalista ou a gerente de ações educativas da empresa produtora de cana-de-açúcar que vai levar um projetinho na escola. Assim, aproveito para deixar claro que, para mim, não estamos numa crise ambiental: vivemos num sistema, num modo de produção, que exige a crise; ou melhor, ele é a própria crise que temos que superar. Por isso, amigos e amigas, é importante pensarmos nossas ações educativas tendo em vista, como objetivo final, transformar a sociedade em que vivemos e promover o desenvolvimento integral de cada pessoa. E como transformar, quero dizer transformar aquela que é sua base: a exploração do trabalho de uma classe social pela outra.

Ufa! Bom, depois dessa introdução teórica, vamos, enfim, falar mais de educação ambiental!

 Análise do ambiente com crianças e adolescentes participantes de um projeto social em Botucatu/SP. Foto de André Santachiara Fossaluza (Abril de 2014).


Mas, antes ainda, queria lembrar só de mais uma coisinha que fez bastante sentido quando me ensinaram. Entender que somos parte da natureza, e não uma espécie totalmente desvinculada dos outros seres vivos e não-vivos. Somos parte do mesmo processo de evolução que criou todas as espécies que vivem e viveram por aqui, e é essencial superar essa dualidade entre humanidade e natureza para construirmos uma realidade diferente da que temos hoje. Isso não significa, entretanto, que somos iguais às outras espécies; desenvolvemos capacidades fantásticas, que nos permitem planejar antecipadamente nossas ações, nos comunicar com uma linguagem elaborada, a transmitir avanços científicos e culturais criados durante uma geração à seguinte e, também, modificar conscientemente o ambiente que vivemos para satisfazer nossas necessidades - a isso, damos o nome de trabalho.

Ah! E também lembrar de uma coisa essencial: educação ambiental não é a mesma coisa que ensino de Ciências, Biologia ou Ecologia! Essas disciplinas têm seu conteúdo específico que devem ser trabalhados, enquanto a educação ambiental trabalha com conteúdos e valores ligados à sustentabilidade, ou seja, como construímos sociedades que sejam ecologicamente equilibradas e socialmente justas, como é a nossa relação com o ambiente . Por isso, não precisamos limitar as ações em educação ambiental aos/às professores/as das Ciências da Natureza. A educação ambiental tem uma bela característica inter e transdisciplinar que pode ser aproveitada.

Finalmente, então, vamos pensar em como trabalhar com educação ambiental!

Bom, acho que um bom começo, quando forem planejar suas próprias atividades de educação ambiental, é que os objetivos dessas propostas estejam bem claros quais são. Esses objetivos podem ser de diferente abrangência, buscando ensinar conteúdos ou valores; mas é essencial ter em mente o objetivo mais amplo de se trabalhar com educação ambiental: queremos criar sociedades humanas ecologicamente balanceadas e socialmente justas.

E como fazer isso? Oras, (in)felizmente não há uma receita para isso, amigos e amigas.

A melhor forma que vejo de começar é conhecendo o ambiente onde estamos. Um bom diagnóstico ambiental (e, lembrem-se, não estamos falando somente de questões “naturais”, mas também sociais, econômicas, culturais, políticas, etc.) da localidade onde estamos, torna muito mais palpável e verdadeira qualquer ação posterior. Na permacultura, aprendi que analisar o contexto é parte fundamental para qualquer tipo de planejamento - isso não muda para quando planejamos nossas ações educativas.

Visita ao Aterro Sanitário Municipal de Botucatu/SP. Foto de Clarissa Oliveira (Outubro de 2014).

De maneira prática, isso quer dizer que propor a construção de uma horta, por exemplo (uma ação concreta), é o último passo e nunca deve anteceder um diagnóstico prévio do contexto. Por quê? Porque fazer uma horta pode ser uma atividade com pouco sentido educativo naquele contexto. Se, por outro lado, depois de uma boa análise da nossa realidade concreta, notarmos que os alimentos consumidos pelas nossas famílias estão cheio de agrotóxicos que fazem mal à saúde e ao ambiente, que os alimentos orgânicos são muito caros e só vendidos no mercado que fica no bairro de gente rica, que todas as hortinhas familiares do bairro foram aos poucos sendo trocadas por prédios ou terrenos baldios, que os sítios dos parentes mais antigos estão todos ocupados por eucalipto, soja e cana-de-açúcar, e, além disso, ela (a horta) permite trabalhar valores e conteúdos de diversas disciplinas, aí sim, planejar, construir, manter e colher os frutos de uma horta agroecológica escolar, trabalhada de forma cooperativa e com dedicação, com o envolvimento de toda a comunidade escolar, faz sentido (não vale o/a professor/a propor tal atividade e a direção da escola utilizar glifosato, o famoso “mata-mato”, para “limpar” o terreno).

Entendem a ideia? Quando temos claro em nossas mentes aonde queremos chegar, as ações concretas fazem mais sentido! Se não, elas são subaproveitadas ou feitas porque temos que fazer.

Bom, depois de conhecer bem nossa realidade concreta, nas mais diferentes esferas, desde o nível individual até o nível macroeconômico, podemos trabalhar com alguns valores muito importantes. Dentre eles, destaco a participação, a coletividade e a cooperação. Como assim?

Oficina prática de bioconstrução em Boa Vista do Acará/PA. Foto de André Santachiara Fossaluza (Novembro de 2011).

Para esse tipo de educação ambiental, é importante que todas as pessoas envolvidas no trabalho participem e se sintam integradas do processo. Precisam entender, também, que, para que as ações sejam realmente efetivas, é necessário que elas envolvam mais pessoas, e que essas pessoas trabalhem em prol de um objetivo comum. Por isso, é essencial que elas cooperem entre si. Uma boa maneira de fazer isso acontecer é tentar identificar uma questão problemática do contexto que tenha sido notado por um grande número de alunos/as; a partir dela, podemos nos aprofundar no estudo (nas mais diversas disciplinas), até chegar numa ação prática que busque resolver esse problema.

A ideia é basicamente essa: observar a realidade concreta, buscar informações, trabalhar valores e, finalmente, propor e realizar ações coletivas para mudar a nossa própria realidade material. Lembrando que esse processo não é linear: assim como nossa própria vida, a realidade é complexa, com uma etapa em constante relação com outra, o tempo todo.

Agora, já caminhando pro final do texto, você pode estar pensando “Hm, parece até interessante, mas esse tipo de proposta leva um tempo danado”. E, sim, você está corretíssimo/a!

Por isso, queridos/as professores/as, é que me dirijo a vocês: mesmo com todas as dificílimas condições de trabalho que temos, vocês têm uma possibilidade incrível, uma autonomia que (pelo menos por enquanto) ninguém conseguiu tirar.
E, um fator essencial que, muitas vezes, não está presente nas ações de educação ambiental: TEMPO! Vocês acompanham o desenvolvimento de uma criança e adolescente até que tenham 17 anos. Têm bons anos para desenvolver um trabalho de qualidade (não estou dizendo que é fácil, sei que a realidade escolar tem outras nuances que um simples texto não consegue abarcar)!

Por isso, também, desconfiem sempre de quem chegar na escola com soluções mágicas. Ações propostas sem consultas aos/às professores/as e comunidade, ou de uma grande empresa que não respeita o ambiente e os/as trabalhadores/as, ou propor uma campanha mágica para ver quem arrecada mais garrafas PET na escola, têm grande probabilidade de não funcionarem bem. Acreditem no trabalho de vocês, organizem o coletivo de professores/as, coordenadores/as, diretores/as, inspetores/as, equipe de limpeza e cozinha, alunos/as e famílias, fortaleçam a comunidade escolar e acreditem num trabalho contínuo, passo-a-passo.

 Construção de um banheiro seco, utilizando técnicas e materiais renováveis disponíveis na localidade, em Boa Vista do Acará/PA. Foto de André Santachiara Fossaluza (Junho de 2016).

No fim, percebemos que qualquer ação em educação ambiental pode ser muito importante ou não - a questão principal é a coerência dessa ação com a visão de mundo que a gerou. Depois de tudo isso, vocês ainda podem perceber que uma ótima ação é fazer uma oficina de reciclagem de papel ou de compostagem . Mas, eu garanto a vocês, ela terá outro significado, outro sentido.

Um forte abraço, aqui de Botucatu, interior de São Paulo, a terra dos bons ares, a todos/as vocês que trabalham, dia após dia, para levar educação de qualidade e plantar as sementes necessárias para uma verdadeira transformação social. Que o texto ajude a gerar algumas reflexões!

André



Por: André Santachiara Fossaluza
fossaluza.andre@gmail.com
Sobre o autor: Biólogo, mestre e doutorando em Educação para a Ciência (Faculdade de Ciências, UNESP, campus de Bauru/SP), membro do Grupo Curare de Permacultura (Botucatu/SP) e Grupo de Pesquisa em Educação Ambiental (GPEA, UNESP, campus de Bauru/SP). Professor bolsista do Departamento de Educação (Instituto de Biociências, UNESP, campus de Botucatu/SP)


PS: Abaixo, coloco algumas referências, como falei no começo do texto. São textos que podem ajudar nos estudos e ações em educação ambiental.
PS2: A todos os amigos e amigas que me ajudaram a revisar o texto (Ananda, Enio, Fernanda, Guilherme e Rafael) fico devendo um bolo com café. Aliás, se alguém ler o texto quiser conversar sobre as ideias, pode me enviar um e-mail (fossaluza.andre@gmail.com) ou convidar para um outro cafezinho - as probabilidades de eu comparecer são altíssimas!

BRUGGER, Paula Cals Neves. Educação ou adestramento ambiental? 3. ed. Florianópolis, Brasil: Argos, 2004.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro, Brasil: Paz e Terra. Disponível em: http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/paulofreire/paulo_freire_pedagogia_do_oprimido.pdf
LAMOSA, Rodrigo & LOUREIRO, Carlos Frederico B. Agronegócio e educação ambiental: uma análise crítica. Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, Brasil, v. 22, n. 83, p. 533-554, abr./jun. 2014. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ensaio/v22n83/a11v22n83.pdf.
LAYRARGUES, Philippe Pomier & LIMA, Gustavo Ferreira da Costa. As macrotendências político-pedagógicas da Educação Ambiental brasileira. Ambient. soc. [online], São Paulo, Brasil, v. XVII, n. 1, p. 23-40, jan./mar. 2014. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/asoc/v17n1/v17n1a03.pdf.
SAUVÉ, Lucie. Uma cartografia das correntes em educação ambiental. In: SATO, Michèle & CARVALHO, Isabel Cristina Moura (orgs.). Educação ambiental. Porto Alegre, Brasil: Artmed,  p. 17-45, 2005. Disponível em: http://web.unifoa.edu.br/portal_ensino/mestrado/mecsma/arquivos/sauve-l.pdf.



1 Vocês vão perceber que algumas vezes vou usar “ambiente”, noutras “meio”. Escrevo assim por entender que elas têm o mesmo significado. Ambas significam determinado lugar onde estamos e que, trabalhar com educação ambiental não envolve, necessariamente, estar no meio de uma floresta. Ela pode ser trabalhado em qualquer local, pois esse é o ambiente, seja ele com mais ou menos intervenções antrópicas.
2 Nos dois exemplos citados, para entender um pouco melhor a ideia:
- Papel reciclado: numa atividade assim, podemos relacionar várias questões, como a quantidade de lixo gerado na nossa rotina, a possibilidade tecnológica para uma melhor gestão desse resíduo (há poucos meses atrás, foi noticiado que países europeus estavam em pânico porque a China pretende para de receber os materiais recicláveis coletados na Europa; o pânico não era porque não dispõem de tecnologia suficiente para realizar o processo, mas porque, sem exportar seu lixo, a reciclagem não seria mais um negócio viável economicamente), a organização de cooperativas de coletores/as de materiais recicláveis, a gestão urbana de resíduos (os porquês de o aterro sanitário existir do jeito que é e em determinado lugar), a relação entre êxodo rural, perca da cultura tradicional da zona rural, concentração fundiária, degradação de solos, contaminação de águas e a expansão das áreas de monocultura de eucaliptos para a produção de papel. Além deles, podemos trabalhar conteúdos das disciplinas de Artes, História, Geografia, Matemática, entre outras. Assim, uma atividade que teria como foco uma técnica, uma habilidade artesanal, pode ser ampliada e mais significativa.
- Compostagem: o processo controlado de decomposição de matéria orgânica para produção de adubo permite estabelecer conexões com diversos outros temas. Além de todos os conteúdos nas áreas de Biologia, Química, Física e Matemática, podemos abordar outras questões mais amplas: o volume e composição de lixo gerado numa cidade (e como eles diferem de acordo com sua classe social), os sistemas de coleta de lixo e a disposição desse material (quem o faz, por que é assim, para onde ele vai), a qualidade da alimentação que temos em nossas casas e que é oferecida nas escolas (lembrem-se das mudanças na merenda escolar no estado de São Paulo), aproveitamento integral dos alimentos, entre outros.

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segunda-feira, 9 de abril de 2018

Uma separação em andamento: África se divide em duas partes

Imagem da fenda formada em Mai Mahiu (créditos da foto: Tony Karumba)









No início de abril de 2018, diversos meios de comunicação noticiaram uma grande fenda (Imagem acima) que se formou em Mai Mahiu (sudoeste do Quênia) após a região passar por fortes chuvas, inundações e tremores. A fenda apresenta 10 km de extensão, máximo de 15 m de profundidade e, aproximadamente, 20m de largura.

Mas o que está acontecendo?

Na realidade, essa é só a ponta do iceberg... Digo, é só a superfície da fenda. A fenda se localiza na região próxima ao que é conhecido como Vale do Rifte. Os geólogos já esperam por fenômenos como esse na região, visto que o continente africano está se separando fisicamente em duas partes nessa região. O processo de separação ocorre por divergência de duas placas tectônicas, ou seja, uma se afasta da outra e, no futuro irão se separar completamente permitindo a formação de um oceano entre ambas, confira o vídeo abaixo:




A separação das placas tectônicas não é rápida, no caso da placa africana, esta iniciou sua separação da placa denominada Somali há cerca de 30 milhões de anos, se iniciando no Golfo do Áden e se prolongando até o Zimbábue (Figura 1). A estimativa do tempo para a separação completa das placas é de mais 30 milhões de anos e a taxa de separação varia de 2,5 a 5 cm por ano. É interessante lembrar que esse fenômeno é o mesmo que ocorreu há cerca de 138 milhões de anos e levou à separação entre a América do Sul e a África.


Figura 1: Ilustração do separação das placas Africana (à esquerda) e Somali (direita) indicada pela linha pontilhada.


Consequências:
Infelizmente, no momento da abertura dessa fenda, casas foram destruídas e a população não havia recebido qualquer previsão desse acontecimento. Dessa forma, é importante o monitoramento e predição de áreas de risco e um recente artigo apresentou um novo modelo de taxa de tensão geodésica para a região. Essa novidade deve contribuir para melhor prever regiões de maior risco de abalos sísmicos.



Por: Érica Ramos
erica.ramos00@gmail.com
Sobre a autora: Bióloga e Mestre em Ciências Biológicas (Genética) pela UNESP, apaixonada pelo tema Educação e, também, editora desta página de Divulgação Científica. No momento atua como aluna de doutorado na UNESP, na área de Genética.

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sexta-feira, 6 de abril de 2018

Microchip caleidoscópico

Imagem: Microchip observado com microscopia de contraste diferencial. Aumento de 10 vezes. Imagem por Karl Deckart, 1996. Retirado do site do concurso Nikon Small World.
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quinta-feira, 5 de abril de 2018

Minha querida pesquisa - Tiago Brentam Perencini

Doutorando em Filosofia da
Educação pelo Programa de
Pós-Graduação em Educação
da Unesp de Marília

Uma pesquisa é sempre entrelaçada por fios existenciais que colocam em cheque a vida íntima do pesquisador. Estou doutorando no Programa de Pós-Graduação em Educação da Unesp de Marília, onde investigo um tipo de prática filosófica que procure resgatar a dimensão afetiva em educação. Faço parte do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação e Filosofia (GEPEF), que tem conferido visibilidade à problemática ética das diferenças na contemporaneidade. Tais “diferenças” podem ser grosso modo entendidas por tudo aquilo que não foi enquadrado pela curva da normalidade dentro do contexto escolar brasileiro, como é o caso das deficiências ou das questões de gênero. Contarei um pouco do percurso desviante que me trouxe até aqui para, quem sabe, possibilitar novas aberturas para os pesquisadores em formação.
É na infância que habita o nosso dom. Desde pequenino eu mostrava certa curiosidade pelas relações humanas em geral, pelos laços de amizade e de afeto que se desenhavam entre as pessoas. A minha mãe foi professora da pequena Escola em que eu estudava em minha terra natal, Santa Fé do Sul-SP, e, como quase todo o filho de professora, era o meu dever ser o “exemplo” perante as demais crianças. Esta experiência primeira mostrou-me que toda a instituição poderia ter as suas “linhas de fuga”, isto é, aqueles locais e relações onde podíamos experimentar o gosto da liberdade sem qualquer tutela, ali não precisávamos ser o “exemplo”. A tentativa de criar “linhas de fuga” dentro dos ambientes institucionais aos quais me encontro tem sido justamente a minha maior motivação como docente, estudante e pesquisador até o momento.
Permaneci até os 18 anos em minha cidade natal, rompendo o cordão ao ingressar no curso de Filosofia na Faculdade de Filosofia e Ciências, Unesp de Marília-SP. A sala de aula me convidou de pronto. Logo no primeiro ano de graduação eu lecionei voluntariamente no Cursinho Alternativo da Unesp (CAUM) e permaneci nesta função durante  quase toda a minha graduação, posteriormente como bolsista. Esta trajetória de “mestria” já me acompanhava por anos. Foram as relações entre professor e estudante que me levaram a pesquisar o ensino de filosofia no Mestrado (o produto desta aventura tornou-se um livro e pode ser acessado aqui:  http://www.culturaacademica.com.br/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=614), mas os meus maiores encontros existenciais estariam reservados para o período após o término deste ciclo, quando entrei em uma crise profunda com a Universidade e novos acontecimentos abriram as portas existenciais que me guiam desde então.
A primeira porta a ser escancarada foi justamente a Educação Popular. Iniciei o meu contato com educadores que não se enquadram dentro das instituições escolares e universitárias, justamente por estas prezarem pelos modelos tradicionais de ciência e de ensino. Estes educadores – verdadeiros mestres e mestras da sabedoria popular - começaram a me convidar para a construção de um novo modelo de partilha, de política e de vida. Aprendi que a verdadeira pesquisa se faz quando transformamos o meio em que vivemos, como participantes reais e singulares da comunidade a que estamos inseridos. Iniciei assim o meu conhecimento na sabedoria popular e nas práticas educacionais de cuidado em ambientes não formais.
Uma dessas arenas foi a minha experimentação com o teatro e com a palhaçaria. O meu maior desejo à época era sentir as possibilidades e os limites de um ensino pelo e com o corpo. Em nossa educação formal fomos ensinados que uma investigação só se dá pelas orientações da lógica, da matemática e da razão, mas a vida transcende a todas estas escalas milimétricas, não é mesmo? “O que é vivo não comporta cálculo”, disse uma vez o escritor Franz Kafka em um livro brilhante chamado Carta ao pai. Pois bem, estava inaugurado em mim o desejo de educar pelo sentir, pensar com o coração, no e através do corpo.
Deste meu desejo de pensar com o corpo, durante o início do ano de 2015, ocorreu a minha abertura para um tipo de espiritualidade que não é propriamente religiosa. Comecei a lecionar em uma Faculdade Católica que se vincula a um Seminário religioso. Por ser professor de Filosofia Contemporânea, os meus cursos eram dedicados justamente aos chamados “filósofos ateus” e esta foi uma grande aventura afetiva entre mim e os estudantes religiosos. O que eu não previa era que esta relação de partilha iniciava em mim um processo filosófico de conversão, que na essência pode ser entendido como a mudança do modo de vida que se tinha até então. O contato com estudantes que abdicaram de muitas propostas de vida para seguirem um caminho religioso suscitou em mim a admiração, o respeito e a atenção pelo gesto da espiritualidade. Como nunca consegui me enquadrar muito bem nas instituições, falo de uma espiritualidade que se aproxima do campo dos afetos, intimiza-se como uma prática filosófica no ato de repensar e transformar ética e politicamente a própria vida.
Tomando nota de minha abertura espiritual, um acontecimento no final do ano de 2015 marcaria a minha vida por completo. Iniciei o meu contato com a sabedoria da floresta através da experiência com o chá de Oaska. A palavra ayahuasca, de raiz linguística indígena, significa “vinho das almas” ou “vinho dos mortos”. Como o próprio nome sugere, a beberagem do chá em um contexto espiritual nos traz a compreensão plena de que a vida não é linear, mas sim cíclica, obedecendo a uma misteriosa sincronicidade. Com isso quero dizer que necessitamos morrer para renascer e de que existem muitas mortes e renascimentos no percurso desviante de uma vida. Esta experiência “cósmica” iniciou em mim uma expansão de consciência pela atenção à minha própria sensibilidade e subjetividade, mostrando-me os limites oculares da razão institucional pela qual tinha me guiado em boa parte de meu percurso existencial e de pesquisa.
Em minha prática investigativa, iniciei-me na expansão de formas de acesso às informações “invisíveis” as quais a Universidade ainda não confere a devida visibilidade. Hoje a minha maneira de leitura e de escrita encontra-se para além dos livros e autores, ou de um método e referenciais teóricos a serem rigidamente seguidos. A ayahuasca escancarou-me os campos inauditos da magia e a minha atividade de pesquisa me possibilita um profundo e diário exercício de intuição, clarividência, telepatia, etc. Recebo uma orientação de leitura a partir de minha atenção pelos sinais das letras que me chamam, como se estivesse em um jogo de tarot; recorro a um autor como se fosse estabelecer o contato com um espírito estelar, que me orienta na escrita. Em essência, aquilo a que a minha intuição me convida também me encontra! Todo este despertar aproximou-me também da medicina espiritual, flertando-me ao campo de práticas integrativas e complementares em saúde, e hoje faço parte da Associação Brasileira de Terapeutas Integrativos (ABRATIN).
Este interstício entre filosofia, educação e saúde tem possibilitado a minha pesquisa de doutoramento. É fundamental percebermos que uma investigação acadêmica nasce da trajetória existencial do pesquisador e não de uma concepção cientificamente rígida que separa pesquisa e vida. A minha tese aborda a prática filosófica como uma possibilidade de subjetivação, que grosso modo pode ser compreendida como a atitude de repensarmos por completo a vida em que habitamos no presente. Isso requer a compreensão da crítica (acadêmica, educacional e/ou filosófica) não enquanto um exercício de esclarecimento e julgamento sobre o outro, mas sim como uma experiência de cultivo e trabalho sobre si mesmo. O si não privilegia o sujeito do conhecimento, mas sim as relações de transformação e de exposição que estabelecemos como seres viventes no mundo.
Esta proposta vai ao encontro de transmutarmos a maneira como nos relacionamos afetiva e eroticamente com o outro e conosco mesmo. A erótica foi um modo de vida filosófico amplamente pesquisado pelo pensador contemporâneo Michel Foucault e nos remete ao mito ancestral de Eros, conhecido por nós hoje como o cupido. Eros é concebido justamente na festança ocorrida no dia do nascimento de Afrodite, oportunidade em que há o enamoramento entre Recurso, o filho embriagado da deusa Prudência, e a mortal Pobreza. Com isso o mito quer nos ensinar que o amor é a relação entre a abastança e a falta. É por isso que quando amamos alguém entramos em certo estado ébrio, uma zona periférica, de não conhecimento, ausente de nós mesmos.
Sei que esta tese oportunizará mostrar que estar vivo sugere lidar com o desconhecido, com aquilo que não podemos ou conseguiremos explicar racional ou logicamente. É preciso lembrar que as previsões da ciência valem muito pouco quando nos deparamos tanto com o desconhecido sobre nós mesmos, quanto com o inexplicável do amor, não é verdade? Estar vivo não suporta cálculo! É urgente que reconectemos a nossa existência ao que resta da Universidade em nosso tempo presente, período em que ainda podemos pensar, sentir e viver de outro modo.

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segunda-feira, 2 de abril de 2018

O paradigma da reprodução assexuada em vertebrados


A reprodução sexuada acontece devido a fusão de gametas formados após a meiose e este tipo de reprodução promove vantagens às espécies que a utilizam por ela aumentar a variabilidade genética. A recombinação cromossômica homóloga (crossing-over) e a distribuição independente do cromossomos durante a meiose são os mecanismos que promovem essa variabilidade.

Mecanismos da meiose que geram a variabilidade genética. A recombinação cromossômica homóloga promove a troca de segmentos  cromossômicos gerando variabilidade, que se intensifica com os mecanismos de segregação dos cromossomos homólogos e com a separação das cromátides irmãs. Em uma espécie com dois pares de cromossomos e a ocorrência de um crossing-over entre cada par de cromossomos é possível gerar até 4 tipos de combinações cromossômicas após a segregação de homólogos e até 16 combinações após a separação das cromátides irmãs.

Por outro lado, a reprodução assexuada é caracterizada por gerar indivíduos geneticamente idênticos ao progenitor, o que resulta em baixa variabilidade genética e acúmulo de mutações deletérias, o que, consequentemente, levará à extinção entre 10.000 ou 100.000 gerações segundo algumas predições. Essas desvantagens parecem explicar o fato desse tipo de reprodução ser tão raro entre os vertebrados.

Tipos de reprodução. (A) reprodução sexuada: envolve a formação de gametas haplóides durante a meiose e a fusão dos gametas masculinos e femininos, formando um novo indivíduo diplóide. (B) reprodução assexuada: um indivíduo duplica seu material genético e se divide formando dois novos organismos idênticos.

A espécie de peixe Poecilia formosa é um dos poucos casos de organismo vertebrado assexuado, com populações constituídas apenas por fêmeas e surgiu por hibridização entre as espécies sexuadas P. mexicana e P. latipinna entre 120.000-280.000 anos atrás, o que representa cerca de 500.000 gerações, contrariando as estimativas de tempo para sua extinção. Além disso, P. formosa ocupa diversos tipos de ambientes em uma ampla região, o que revela seu sucesso adaptativo. Assim, estas caraterísticas tornam essa espécie um paradigma biológico: como uma espécie assexuada pode durar por tantas gerações e ser tão bem adaptada?

Origem de Poecilia formosa. A hibridização entre um macho de P. latipinna e P. mexicana levou à formação de P. formosa, que produz gametas femininos diplóides  e que, por sua vez, se desenvolvem em fêmeas adultas.

Um artigo recentemente publicado na revista Nature Ecology and Evolution, onde foram exploradas as características genômicas de P. formosa, revelou que esta espécie possui níveis mais altos de variabilidade genética do que seus parentais sexuados e maiores do que se esperaria para uma espécies assexuada. E isso, portanto, é consequência da natureza híbrida de P. formosa. No entanto, é intrigante o fato de que, na maioria dos casos conhecidos entre os vertebrados, os híbridos são geneticamente incompatíveis e desfavoráreis para formar novas espécies. Porém, a formação de P. formosa resulta da rara combinação de genótipos parentais favoráveis. Assim, os autores propõem que a escassez de espécies assexuadas entre os vertebrados não é consequência de desvantagens (baixa variabilidade genética e acúmulo de mutações deletérias), mas sim da raridade de híbridos compatíveis com potencial para formá-las.


Por: Adauto Cardoso
adautolimacardoso@gmail.com
Adauto Lima Cardoso é biólogo, mestre e doutor em Genética pela Universidade Federal do Pará e pela Universidade Estadual Paulista, respectivamente. Atualmente realiza pós-doutorado no Departamento de Morfologia do Instituto de Biociências da UNESP.

Fonte: Warren et al. (2018) Clonal polymorphism and high heterozygosity in the celibate genome of the Amazon molly. Nature Ecology and Evolution 2, 669-679.

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