Aba

quarta-feira, 14 de março de 2018

Minha querida pesquisa - Rômulo Pedro


Biólogo. Mestre em Ciências Biológicas
(Genética). Estudante de Doutorado
UNESP. Instituto de Biociências de Botucatu
Desde a época do ensino médio sempre tive afinidade pelas chamadas Ciências Naturais (Física, Química e Biologia). No 2º ano do Ensino Médio quando um professor abordou o conteúdo de genética, com a premissa de que nós seres vivos temos um material em nossas células passado de “Pai para Filho” (o DNA), achei show de bola! Ainda mais quando ele comentou que esse material é permeado de blocos (os genes), responsáveis pela transmissão das características únicas de cada indivíduo no planeta Terra. E mesmo com uma série de dúvidas sobre qual curso prestar no vestibular (entre áreas afins como medicina, física e biologia), decidi me inscrever no bacharelado em Ciências Biológicas (porque queria ter uma formação com foco em pesquisa) na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), em Vitória da Conquista, localizada próximo à minha cidade natal (Poções). Logo quando ingressei, fiquei com dúvidas quanto a que área dentro da Biologia seguir, pois o curso (quem fez ou está fazendo sabe) é bem amplo. Então, quando eu cursei as primeiras disciplinas disponíveis na grade, vi que tinha aptidão para a genética, mas em qual linha de pesquisa me encaixaria?

Iniciação Científica:
Durante a minha Iniciação Científica (IC), conheci e decidi me matricular numa disciplina chamada “Genética Quantitativa e de Populações”, com o professor Dr. Antonio Carlos de Oliveira. Apesar das dificuldades enfrentadas com a disciplina, me apaixonei por esse ramo e ingressei no grupo de pesquisa dele (chamado GenPlanta), que tinha como base o pré-melhoramento genético de espécies nativas de Passiflora spp. Isso mesmo, trabalhei com maracujás, mais precisamente o chamado maracujá-do- sono (P. setacea DC), de flor branca e um outro de flor vermelha (muito lindo!) chamado P. trintae (sem nome comum). Em resumo, eu fazia síntese e seleção de genótipos superiores desses maracujazeiros a partir de características morfoagronômicos (tipo tamanho e número de folhas, altura da planta, número de botões florais, entre outros). Essa síntese direcionava a uma possível indicação de variedades melhoradas à região de Vitória da Conquista e que poderiam servir em programas de melhoramento genético futuros. Acredito que isso foi o ponta-pé inicial para me interessar na carreira de pesquisa da genética vegetal e continuar como IC até o último semestre de graduação, fazendo o trabalho de conclusão de curso (TCC) com esse mesmo professor. Ao final da graduação, esse mesmo professor me indicou outro professor, Dr. Marcos Machado, que foi seu orientador durante o doutorado, para que eu pudesse trabalhar durante o curso de Mestrado no Programa de Ciências Biológicas (Genética) do Instituto de Biociências de Botucatu – UNESP. Tive então que mudar de estado para fazer a pós-graduação. Logo quando a decisão foi tomada eu senti inicialmente insegurança, por conta de ser um local longe dos meus amigos e familiares de costume, e depois um certo receio do pessoal com quem iria trabalhar no laboratório, por ficar pensando que lá poderia ser um ambiente em que reina o ditado “quem tem a unha maior sobe na parede”. Mas depois vi que não tinha nada disso e eu fui me afeiçoando ao ambiente e aos colegas de laboratório conforme desenvolvia a pesquisa.

Mestrado:
Então, em 2014, ingressei no Mestrado em Genética. No início foi bem complicado conciliar as disciplinas com a pesquisa, pois o laboratório em que desenvolvi meu projeto de pesquisa se localizava em outro local, o Centro de Citricultura Sylvio Moreira (CCSM). Isso mesmo, mudei de espécie vegetal, de uma planta nativa para exótica, trabalhando com híbridos de laranjas chamados citrandarins. Mas o que é um híbrido? São frutos de cruzamentos interespecíficos, ou seja, de espécies diferentes, possuindo grande variabilidade genética. Esses citrandarins vieram do amplo Programa de Melhoramento Genético dos Citros que o CCSM faz há muitos anos, e basicamente, minha tarefa foi avaliar a resposta de 110 desses híbridos a um oomiceto (“parente” dos fungos) chamado Phytophthora parasitica, agente causador da gomose dos citros. Gomose é uma doença que assola os citros e tem como característica principal o aparecimento de uma lesão (parecendo um tecido necrosado) no tronco, podendo também se manifestar nas raízes e chegando a desencadear a morte de todo o pé de uma laranjeira. Resumindo, fiz avaliações fenotípicas (medindo o comprimento da lesão) e também de expressão gênica de 19 genes após inoculação de P. parasitica na haste das plantas. Tanto os dados fenotípicos quanto de expressão gênica permitiram encontrar regiões genômicas relacionadas a genes cuja herança genética é quantitativa, ou seja, locais no genoma que estão associados ao comprimento da lesão (que serve para avaliar a gomose), em mapas genéticos previamente construídos para essa população de híbridos altamente segregante. Isso permitiu encontrar uma série de QTLs e eQTLs que podem explicar a imensa variação de resistência desses híbridos frente à infecção de P. parasitica. E qual a aplicabilidade disso tudo? Esses estudos podem trazer grandes benefícios para a citricultura, selecionando plantas resistentes à gomose e contribuindo para que frutas cítricas cheguem sem sintomas dessa doença para o mercado consumidor. Enfim, foi uma época da minha vida decisiva e que fez com que eu continuasse na vida acadêmica.

Doutorado:
Em meados do final do Mestrado, recebi a notícia de que seria pai (fiquei em choque e feliz ao mesmo tempo rsrsrs) e junto à minha “namorida” (Jakeline Santos), que está terminando seu Mestrado pelo mesmo Programa, tivemos uma linda filha chamada Maria Liz. Na minha banca de defesa estava o professor Dr. Ivan de Godoy Maia e eu sabia que ele desenvolvia trabalhos relacionados à genética vegetal com a famosa planta modelo em estudos de genética Arabidopsis thaliana. Tive interesse em trabalhar com ele e já estou há 1 ano de doutorado sob sua orientação. Em suma, meu novo projeto de pesquisa está associado à avaliação de três genes que codificam as chamadas proteínas desacopladoras mitocondriais (AtUCP1-3) em duplos mutantes de Arabidopsis. Por que duplos mutantes? O que são? Tais duplos mutantes são oriundos de fecundação cruzada entre os mutantes simples para cada uma dessas proteínas, e devido ao processo de segregação, é necessário se fazer a genotipagem (caracterização gênica) de uma porrada de plantas de Arabidopsis após germinação das sementes em substrato de terra. O incrível é que essa planta completa seu ciclo de vida em menos de 2 meses, e isso sendo observado em laboratório é surreal rsrsrs!

Planta modelo Arabidopsis thaliana, seu ciclo de vida curto (em menos de dois meses consegue atingir a fase adulta) e as diversas arquiteturas da roseta (corpo da planta) de acordo vários processos de mutagênese (indução de mutação em algum gene com a inserção de um T-DNA bacteriano).Fonte: Ossowski et al., 2010

Em seguida, obtenho linhagens mutantes homozigotas de ambos os genes e de acordo os três tipos de combinações (AtUCP1/AtUCP2; AtUCP1/AtUCP3 e AtUCP2/AtUCP3). Dessa forma, uma das maneiras mais eficientes para se estudar a função de um gene é anular sua função por intermédio de técnicas moleculares, como o nocaute (ou inativação gênica), e ver o que a sua falta traz para a planta. O que geralmente se faz em seguida é avaliar o desenvolvimento da planta sem a atuação do(s) gene(s). No meu caso, seriam dois genes de cada combinação para as UCPs. Mas porque é interessante avaliar e caracterizar as UCPs? As UCPs foram inicialmente descritas apenas em animais, relacionadas a processos de produção de calor em tecidos adiposos (depósitos de gordura) e hibernação. Entretanto, logo também foram encontradas em plantas, com o gene AtUCP1 sendo bastante descrito na literatura e relacionado a conferir certa resistência a diversos tipos de estresses abióticos (aqueles relacionados aos elementos da natureza, como água, sal, gases, entre outros). Sendo assim, o legal é que o conhecimento gerado desse trabalho poderá ser aplicado em abordagens que buscam manipular os genes das UCPs para a aquisição de resistência aos estresses abióticos em plantas. Será que a falta desses três genes devido ao nocaute acarreta algo? É o que irei descobrir nos próximos anos!

Muita informação, não é? Mas não poderia ficar sem falar tudo isso. Se hoje cheguei aqui foi devido a todas essas experiências e trajetória no meio científico, acadêmico e pessoal, que a gente sabe, é rodeado de dúvidas e incertezas. Só botando a mão na prática, tocando seu projeto e saindo de sua zona de conforto, é que se consegue algo que possa fazer a diferença para a sociedade e a universidade. Abraços e saudações genéticas!
Compartilhar:
←  Anterior Proxima  → Inicio

0 comentários:

Postar um comentário

Seja um colaborador!

Postagens populares

Total de visualizações

Seguidores

Tecnologia do Blogger.