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sexta-feira, 23 de março de 2018

Descaso e corrupção, vilões na pós-graduação




Por: Adauto L Cardoso
adautolimacardoso@gmail.com

A ciência, sem dúvida, é uma das mais fascinantes invenções do ser humano, pois nos oferece uma bela e eficiente maneira de compreender e modificar o mundo. Porém, o processo de produção do conhecimento científico está longe de ser totalmente neutro, pois ele reflete muito das relações humanas e sabemos que várias delas podem ser complexas e desvantajosas para algumas das partes.
Pergunte como vai a vida profissional para um pós-graduando ou um doutor recém-formado no Brasil e as chances são altas de você ouvir um desabafo cansado de desgosto, frustração e indignação.
A atual crise econômica do país tem afetado negativamente diversas pastas do governo, com exceção do fundo partidário. Os recentes cortes nos investimentos nas áreas de educação, ciência e tecnologia afetam os orçamentos das universidades e centros de pesquisas, ameaçando o funcionamento de tais instituições. Estes problemas têm tirado o sono de bolsistas de agências de fomento à pesquisa, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que tem passado pouca confiança em manter os pagamentos das bolsas até o final do ano devido à falta de recursos. Vale lembrar que essas bolsas são indispensáveis para os estudantes e pesquisadores, que contam com esses recursos para o pagamento de gastos básicos como moradia, alimentação e transporte. Apesar do ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab, ter dado garantia de que recursos contigenciados serão liberados ao CNPq, a certeza de que os bolsistas serão pagos, conforme contrato firmado com o CNPq, só se confirma quando o pagamento “cai” nas contas dos bolsistas.
E se isso é motivo de preocupação para os bolsistas, pense naquele estudante que está concluindo seu mestrado e planeja começar um doutorado, ou em outro que está terminando seu doutorado e tem planos de continuar sua carreira acadêmica realizando um pós-doutorado, que só é possível com bolsa, já que não existe um cargo ou salário para esta etapa da vida acadêmica. Se não há certeza de pagamento das bolsas em vigência, que garantias existem de concessão de novas bolsas? Quem encara uma pós-graduação ou pós-doutorado sem bolsa quando muitos destes estudantes e profissionais têm apenas esta fonte de renda para sua manutenção?
Os pós-graduandos têm ainda que conviver com o assédio moral. Isso começa desde o processo seletivo, quando muitas vezes os candidatos à uma vaga nos cursos de pós-graduação são questionados se fariam seu curso sem receber bolsa. E é de bom-tom concordar com isso, pois estes serão os estudantes vistos como os que realmente têm interesse na sua formação, e isso pode ser vantajoso no ranking do concurso. Na cabeça de muitos, os pós-graduandos são meros estudantes e bolsa é um privilégio. Esquecem que os pós-graduandos são a mão-de-obra da ciência. Alguns chegam a justificar que em tempos passados, onde os investimentos em ciência eram menores e o número de bolsas limitados, muitos faziam pós-graduação sem bolsa e sem reclamar. Mas se continuarmos a justificar injustiças do passado, podemos chegar ao ponto absurdo de dizer que a escravidão no Brasil foi justa. De maneira análoga, seria indecente propor para um docente de uma universidade que trabalhasse sem salário. Os bolsistas possuem sim a obrigação moral de se dedicar ao trabalho pela oportunidade que possuem, a qual, infelizmente, não é disponibilizada para todo brasileiro. Porém, eles não devem se sentir constrangidos por receberam pelo seu trabalho, assim como qualquer outro profissional.
O assédio moral pode ser ainda pior quando os estudantes se deparam com egos inflados, muito comuns no meio acadêmico: “Onde já se viu um aluno questionar um professor? E as normas da instituição? Ele vai ser colocado no lugar dele!”; pois existem docentes que se autoincumbiram o “direito de humilhar”.
Após obterem seus títulos, muitos pesquisadores buscam a contratação em instituições públicas de ensino e pesquisa, mas que estão com orçamentos comprometidos e que até ameaçam fechar as portas. Nesse cenário, o país conta com um exército de mestres e doutores desempregados, que se veem obrigados a atuar profissionalmente em outras áreas que não as de sua formação, o que pode ser muito frustrante para quem dedicou pelo menos dez anos à formação superior. Pior do que a frustração, é a indignação de muitos ao tentarem concorrer às poucas vagas destas instituições e se verem injustiçados por fraudes nos concursos. Infelizmente, é comum que após os certames ocorra a contratação de candidatos que tiveram alguma facilitação no processo, como profissionais formados na própria instituição e familiares de funcionários, mesmo que eles não sejam os mais qualificados para ocupar aquela posição. Para isso, basta que o chamado “QI” (Quem te Indica), geralmente alguém influente na instituição, deixe tudo acordado com a banca. Assim, a banca se encarrega de atribuir as melhores notas e estabelecer critérios de avaliação que favoreçam o “carta marcada”. Isso mostra que a cultura da corrupção está entremeada nos meios acadêmicos, assim como na nossa sociedade e refletida diretamente nos Poderes da Repúplica.
Os recém-contratados, que se submetem a essa manobra asquerosa, ficam muitas vezes presos à um sistema semelhante ao coronelismo. O coronel seria um docente/pesquisador, geralmente o “QI”, que recebe este novo profissional em seu laboratório e oferece a estrutura para realização do trabalho. Em contrapartida, seu nome será incluído nas publicações científicas do recém-contratado, mesmo que o “coronel” não se envolva, de fato, com o desenvolvimento da pesquisa. Parece um acordo razoável, uma vez que um oferece a oportunidade de emprego e os meios de produção e o outro a mão-de-obra. Mas a coisa complica ainda mais quando alguns desses coronéis acham que novos docentes/pesquisadores, admitidos em processos lícitos, devam, quase que por obrigação, se vincular aos grupos de pesquisa já existentes na instituição, não lhes oferecendo ao menos o espaço físico para que eles procurem desenvolver sua linha de pesquisa de forma independente.
Em resumo, o mal-estar de muitos pós-graduandos é reflexo da desvalorização da ciência pela classe política e de um sistema corrupto presente nas instituições de ensino e pesquisa e que convive com o trabalho sério de muitos profissionais (é importante lembrar que profissionais competentes e concursos lícitos também existem). Essa situação é um dos fatores que colaboram para os constantes casos de transtornos de ansiedade e depressão, frequentemente observados entre estes estudantes. Obviamente que essa situação não vai ser solucionada facilmente. Entretanto, espera-se que essa opressão se reverta em força para que os hoje pós-graduandos e futuros docentes/pesquisadores façam da ciência algo que, de fato, melhore a sociedade.

Sobre o Autor: Adauto Lima Cardoso é biólogo, mestre e doutor em Genética pela Universidade Federal do Pará e pela Universidade Estadual Paulista, respectivamente. Atualmente realiza pós-doutorado no Departamento de Morfologia do Instituto de Biociências da UNESP.
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