Aba

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Minha querida pesquisa - Marcos Tadeu Geraldo

Biólogo com mestrado e
doutorado em Ciências Biológicas
(Genética) pelo Instituto de
Biociências da UNESP de Botucatu

As crianças são cientistas. A curiosidade e a vontade de questionar e de entender o mundo a sua volta fazem naturalmente parte do dia a dia da criança, de uma maneira muito semelhante à postura e ao entusiasmo de um cientista. Portanto, não quero usar essas características que mencionei como indicadores da minha propensão a me dedicar à Ciência. De fato, acabei seguindo essa trajetória talvez de uma maneira menos “poética” quando comparada ao caminho percorrido por outros colegas.
Quando decidi trabalhar com Ciência, muita dúvida estava associada a essa decisão e uma grande questão surgiu logo após concluir minha graduação: será que devo continuar na carreira acadêmica e, portanto, fazer mestrado e doutorado? Como o tempo dedicado a uma pós-graduação é alto – 6 anos em média – foi natural ter esse questionamento naquele momento. Depois de muito refletir sobre isso, decidi continuar a me envolver com pesquisa. Assim, escolhi o campus da UNESP (Universidade Estadual Paulista) de Botucatu para começar minha pós-graduação. A pesquisa que desenvolvi em meu mestrado foi bem diferente do que acabei desenvolvendo posteriormente no doutorado, entretanto, apenas um aspecto importante foi semelhante: o uso da bioinformática. Percebi que podemos aplicá-la em praticamente tudo dentro da biologia e é justamente isso que me encantou quando fui lendo e aprendendo mais sobre essa área. Para explicar melhor o uso da bioinformática, vou aproveitar e descrever o tipo de pesquisa que estou envolvido atualmente.

Dengue, zika e a bioinformática

Muito ainda se fala, especialmente na mídia, sobre doenças como a dengue, a zika e, no momento em que escrevo este texto, a febre amarela. Essas três doenças são causadas por vírus, que são aqueles microrganismos que infectam as células de algum hospedeiro, como, por exemplo, o ser humano, e lá são capazes de se multiplicar. Como esse processo acaba matando a célula infectada, os danos ao hospedeiro começam a se tornar evidentes à medida que a infecção se intensifica e, se nada for feito para impedir a multiplicação do vírus, o hospedeiro pode sofrer uma série de complicações de saúde que podem ocasionar o seu óbito. Em casos específicos, torna-se necessário o uso de drogas, os chamados antivirais, que possam impedir que o vírus continue se multiplicando. Essa é justamente a linha de pesquisa que eu estou envolvido atualmente com relação a dengue e a zika. A ideia central é buscar um composto (ou conjunto de compostos) capaz de inibir a atividade de alguma proteína essencial desses vírus.
Para encontrar ou desenvolver um composto antiviral, podemos utilizar a bioinformática para nos auxiliar nesse processo. Nesse tipo de pesquisa, nós precisamos analisar se um determinado composto consegue se ligar na proteína do vírus. Assim, com a estrutura tridimensional do composto e da proteína, nós podemos utilizar técnicas de bioinformática para prever a ocorrência ou não da ligação e onde ela ocorre. Em seguida, nós podemos também verificar se a ligação se mantem e quais os seus efeitos, pois a proteína não é uma molécula estática, ao contrário, ela é normalmente dinâmica, ou seja, a estrutura da proteína pode se alterar para que ela desempenhe a sua função. Dessa maneira, se um determinado composto se liga fortemente à proteína viral e altera algum aspecto funcional importante do seu movimento, podemos dizer que este composto é um bom candidato a antiviral.
Vale ressaltar aqui que o poder de acerto dessas técnicas computacionais é limitado, pois os resultados teóricos obtidos nem sempre são observados na prática experimental. Portanto, a bioinformática não é perfeita, mas serve como um grande aliado nas pesquisas ao se combinar com os estudos experimentais tradicionais dentro da biologia. Ela provavelmente nunca substituirá a pipeta, o jaleco e a bancada do cientista, mas estará sempre ao seu lado como ferramenta de suporte inestimável na tentativa de responder às suas perguntas ou, principalmente, permitindo que novas perguntas sejam formuladas.

O que a Ciência faz por mim?

O caminho que eu percorri até chegar à Ciência, como falei, foi caracterizado por dúvidas e questionamentos, para enfim, eu tomar uma decisão e, no final, gerar minhas próprias conclusões. Mas afinal, não é exatamente isso que é fazer Ciência? Portanto, o que mais gosto da Ciência é a sua possibilidade de questionar absolutamente tudo, o que amplia a nossa visão de mundo e nos torna mais críticos e reflexivos frente aos fatos, às evidências. Acho que essa é a maior contribuição da Ciência em minha vida.
Afinal, de maneira bem objetiva, o que eu penso sobre Ciência? Para mim, representa uma prática humana essencial para a geração e o desenvolvimento do conhecimento, sendo estimulada pelos pilares básicos que são a curiosidade e a vontade de aprender. Por isso, não posso deixar de repetir: as crianças são cientistas.

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