Aba


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Minha querida pesquisa – Talita R. Aleixo de Almeida



Bióloga e mestre em Genética pela
Universidade Estadual Paulista “Júlio
de Mesquita Filho”. Câmpus de
Botucatu/SP, aluna de doutorado
pela em Ciências Biológicas
(Genética) pela mesma instituição.


Lembro-me que trabalhar na área biológica foi algo que me despertou interesse desde criança e isso se confirmou nos anos finais do Ensino Fundamental, quando a professora de ciências ministrou aulas com conteúdo básico de Genética. A frase mencionada pela professora em aula “o gafanhoto é verde porque vive na grama ou vive na grama porque é verde?”, utilizada para explicar a teoria da seleção natural, me instigou a estudar mais sobre o assunto e também sobre as outras áreas da Biologia. Assim, decidi que estudaria Ciências Biológicas.
Ingressei na UNESP (Universidade Estadual Paulista) em 2007. Durante a graduação, realizei estágios de iniciação científica e de extensão universitária em diferentes áreas, como anatomia, química, zoologia e educação. Já nos anos finais do curso iniciei estágio no departamento de genética. Onde decidi que faria mestrado na área de Genética da Conservação.
Mas o que é genética da conservação e por quê estuda-la?
Embora o termo seja bastante popular hoje em dia, a genética da conservação é uma área de estudo que emergiu na década de 80. Ela se utiliza de marcadores moleculares para elucidar alguns aspectos relevantes da biologia da espécie com a finalidade de realizar o manejo e conservação, principalmente de espécies ameaçadas. Durante as últimas décadas, algumas espécies tiveram seu número populacional reduzido de forma drástica como consequência direta ou indireta das ações humanas. Dessa forma, uma grande parte da variabilidade genética das espécies pode ser perdida. Essa perda de variabilidade pode resultar em limitação no potencial de adaptação frente às mudanças ambientais. Além disso, a depressão por endogamia (reprodução entre parentes próximos), devido ao reduzido tamanho populacional, pode se tornar uma consequência inevitável para muitas espécies.
Durante o mestrado, minha pesquisa foi baseada no estudo de três populações naturais de arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus), espécie de psitacídeo brasileiro categorizado como vulnerável de extinção (Figura 1a). Trabalhar com espécies ameaçadas requer alguns cuidados quanto ao processo da coleta de amostra biológica, visto que não é interessante que esses animais entrem em óbito. Para isso, utiliza-se a metodologia invasiva não-destrutiva de amostragem biológica, que nada mais é que a coleta de uma pequena quantidade de sangue da asa do animal (Figura 1b). Após a coleta, o sangue é armazenado em álcool e levado ao laboratório, onde nós extraímos o DNA do material e realizamos diferentes procedimentos para obtenção de resultados.

Figura 1a e Figura 1b
Foto: João Marcos Rosa

Ao final do projeto, pudemos identificar baixos níveis de variabilidade genética para espécie quando comparadas com de outros psitacídeos não ameaçados, além disso, as populações apresentaram diferenças genéticas significativas (estrutura genética populacional), a qual pode ser causada pela ausência de fluxo gênico entre elas. Para fins de conservação da espécie, com base nos dados gerados, nós sugerimos que as diferentes populações de arara-azul-grande do Brasil sejam manejadas independentemente uma das outras, visto que elas apresentam diferenças adaptativas como diferentes épocas de reprodução e de fontes de alimento. Além disso, esses animais devem ser continuamente monitorados, a fim de comparar os atuais dados de diversidade e diferença genética com dados futuros.
Atualmente, sou aluna de doutorado e continuo trabalhando na área da Genética da Conservação. Entretanto, o foco agora é na espécie Amazona vinacea, conhecido popularmente por papagaio-de-peito-roxo e que também é considerado ameaçado de extinção. Para esse projeto tenho utilizado marcadores nucleares e mitocôndrias, mas os relatos dos dados gerados serão descritos futuramente.

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terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Pura cultura: arte em placas de Petri

Após visitar um laboratório de Biomedicina, a artista Klari Reis mudou completamente seu modo de fazer Arte: os temas centrais de suas pinturas passaram a ser células, microscopia, fármacos, e outros componentes do incrível universo da Biologia.

Em 2013, Klari criou o blog A Daily Dish, onde ela posta diariamente obras de arte feitas não sobre telas, mas sobre placas de Petri. O material das pinturas não é ágar nem microorganismos, porém a inspiração da artista é aquilo que os pesquisadores vêm sob seus microscópios e culturas.

Confira abaixo a seleção de algumas de nossas placas de Petri favoritas!


Imagem: Sprout, Klari Reis, 6 de Junho de 2017. Retirado de www.adailydish.com.




 Imagem: NYX, Klari Reis, 2 de Agosto de 2017. Retirado de www.adailydish.com.





Imagem: Intermingle, Klari Reis, 29 de Setembro de 2017. Retirado de www.adailydish.com.




Imagem: The Color Purple, Klari Reis, 29 de Março de 2013. Retirado de www.adailydish.com.


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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Bife ou salada? Conheça o primeiro tubarão a se alimentar de plantas






Por: Érica Ramos
erica.ramos00@gmail.com


Predadores cruéis, essa é a descrição mais associada à imagem dos tubarões, inclusive nos filmes de terror. No entanto, além de serem espécies chave na Ecologia dos mares, em janeiro de 2018, pesquisadores da Universidade da Califórnia (EUA) comprovaram que não só de carne vivem os tubarões. Sim, é isso mesmo, a pesquisadora  Samantha Leigh comprovou que a espécie de tubarão, cujo nome popular é tubarão-de-pala (nome científico Sphyrna tiburo, Figura 1), é onívora, portanto se alimenta tanto de carne quanto de plantas, com uma dieta mais diversificada. Essa espécie habita diversas regiões de lama e grama de estuários e baías nos EUA, México, Brasil e Equador (em profundidades de 10 a 80 m). Os indivíduos dessa espécie podem chegar a 1,5m de comprimento.

Figura 1: Tubarão-de-pala (fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Bonnethead)

Em 2007, outro grupo de pesquisadores havia notado, no conteúdo estomacal de um animal dessa espécie, a presença de grama do mar. No entanto, isso não era o suficiente para provar que esses animais eram realmente onívoros, afinal ele poderia ter ingerido as plantas ao acaso e não se nutrido delas.
Para resolver essa questão, Leigh e colaboradores alimentaram animais dessa espécie com uma dieta de 90% de grama do mar e 10% de polvo por várias semanas. Como resultados, eles verificaram que os animais não só se mantiveram nutridos, como ganharam peso, sem apresentar nenhum tipo de efeito negativo advindo de sua alimentação.
Além disso, o grupo resolveu ir mais a fundo na questão e comprovou que, apesar de o intestino desses animais ser curto,  há nele uma enzima responsável pela digestão da celulose, o que é essencial à digestão desse tipo de alimento e consequente absorção de nutrientes. Para complementar, por meio do estudo de Carbono-13, os pesquisadores comprovaram que 50% do total de nutrientes ingeridos na dieta de plantas era absorvido no sangue dos animais. 
Esse estudo comprova que os tubarões-de-pala são a primeira espécie encontrada que apresenta uma dieta generalista e onívora. Depois dessa descoberta a pergunta que fica é: existem outras espécies que preferem a salada e nós não sabemos ainda? Deixe sua opinião!


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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Você viu o DNA do morango?




Por: Talita R. A. de Almeida
aleixo.talita@yahoo.com.br


A partir da metade do século XX, a grande área das ciências biológicas passou por uma verdadeira revolução devido à elucidação da estrutura da molécula de DNA proposta por Watson e Crick, em 1953.

Mas o que é DNA?  

O DNA é uma molécula orgânica constituída por dois filamentos de polinucleotídeos, formando uma dupla hélice que é responsável pelo armazenamento e transmissão da informação genética. Ele está presente na maioria das células dos organismos e pode ser encontrado dentro do núcleo de organismos eucariontes ou solto no citoplasma das bactérias. Ah! Alguns vírus também podem ter DNA em sua composição.
Recentemente, foram desenvolvidas diferentes técnicas para a manipulação da molécula de DNA em laboratório, as quais vem oferecem possibilidades sem precedentes na área da genética. Dentre essas possibilidades podemos destacar, por exemplo, a identificação de mutações na molécula de DNA que podem estar associadas a doenças, a evolução das espécies, a testes de paternidade e a relações de parentescos entre indivíduos.
Entretanto, para utilizarmos essa técnicas é necessário, primeiramente, obter o DNA através da sua retirada de dentro da célula. Você já pensou em como retirar o DNA de dentro da célula? Será que é possível fazer isso na escola?
Com a utilização de alguns ingredientes simples e realizando os procedimentos corretamente é possível extrair e visualizar o DNA de um morango, por exemplo.
O experimento descrito abaixo tem como objetivo demonstrar através de um método “caseiro” como obter o DNA. É claro que, em pesquisas de ponta, o método passa a ser mais "rebuscado" para obter um material de melhor qualidade. No entanto, os princípios da extração caseira e da extração em um laboratório de alta tecnologia são os mesmos. Dessa forma, pensar e realizar essa prática  aproxima o experimentador de uma realidade tecnológica que, muitas vezes, parece distante. Um ótimo local para trabalhar esse experimento é a escola, afinal muitos estudantes sentem dificuldade de compreender (especialmente no Ensino Médio) conceitos abstratos tais como estruturas moleculares, como o DNA e outras moléculas químicas.

Materiais para isolamento do DNA do morango:

- Morangos;
- Cadinho e pistilo ou saco plástico;
- Colher de chá;
- Detergente de cozinha, preferencialmente, sem cor;
- Sal de cozinha;
- Álcool comercial, preferencialmente, gelado;
- Peneira;
- Água;
- Copo plástico;
- Tubo tipo falcon (15 ml) ou recipiente semelhante;
- Palito de sorvete.

Procedimento:

1. Colocar o morango dentro do saco plástico e macerá-los pressionando os morangos com os dedos ou macerar o morango dentro do cadinho com o auxílio de um pistilo até obter uma pasta homogênea. Em seguida, o morango macerado deve ser transferido para um copo plástico;
2. Em outro copo, dissolver 2 colheres (chá) de sal e uma colher (chá) de detergente em 150 ml de água. Mexer bem como uma colher até a mistura dissolver completamente;
3. Adicionar 50 ml da mistura de água, sal e detergente sobre a pasta de morango obtida da maceração. Misturar como auxílio de uma colher;
4. Esperar, aproximadamente, 5 minutos;
5. Coar, cerca de 5ml, da solução obtida com um auxílio de uma peneira em outro copo plástico;
6. Colocar metade do líquido peneirado no tubo falcon;
7. Adicionar dois volumes de álcool no tubo falcon sobre a solução filtrada;
8. Esperar de 2 a 3 minutos sem misturar;
9. Enrolar e coletar a molécula de DNA com o auxílio do palito de sorvete (passo opcional).
Durante a aula prática o professor pode questionar e discutir com os alunos os seguintes pontos:

1. Por que é necessário macerar o morango?
2. Quais são as funções do sal e do detergente na solução de extração?
3. O que acontece quando se coloca álcool gelado na solução?
4. É possível visualizar a dupla hélice que constitui a molécula de DNA após a extração? Por que?

Quer saber mais sobre o assunto, acesse:
http://www.ibb.unesp.br/Home/Departamentos/Morfologia/Laboratorios/LaboratoriodeGenomicaIntegrativa/pra769ticas-laboratoriais-experimentando-gene769tica-2007.pdf
http://www.genoma.ib.usp.br/sites/default/files/protocolos-de-aulas-praticas/extracao_dna_morango_web1.pdf

Sobre a autora: Bióloga e mestre em Genética pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” Câmpus de Botucatu/SP, estudante de doutorado em Ciências Biológicas (Genética) pela mesma instituição.

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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

CSI 003: Perdido em Marte





Por: Carolina S. Santos

anacarol1712@gmail.com


No filme Perdido em Marte, o astronauta Mark Watney se perde de sua equipe em uma missão no solo marciano e acaba ficando preso no planeta, completamente sozinho. Procurando sobreviver naquele ambiente, ele acaba improvisando uma estufa no interior de seu alojamento com fezes, solo marciano e água, produzida a partir de hidrazina, que utiliza para cultivar batatas e, assim, obter alimento. Mas será que uma plantação deste tipo seria viável em Marte?


(Cena do filme Perdido em Marte)

A NASA, em parceria com cientistas do Centro Internacional de Batatas (sim, isso existe!), localizado em Lima, no Peru, está fazendo uma pesquisa para descobrir se realmente é possível cultivar batata em terrenos extraterrestres, e qual tipo de batata seria melhor para ser utilizada neste cultivo. Pode não parecer, mas o solo em Marte contêm nutrientes necessários para as plantas sobreviverem. Talvez não encontremos nesse solo a quantidade exata de nutrientes para o crescimento das mesmas, e por isso adubos específicos seriam necessários para que a plantação tivesse sucesso. Para avaliar qual variedade se adapta melhor a este tipo de solo, 100 tipos de batatas estão sendo cultivadas no deserto do Atacama e avaliadas quanto à viabilidade de utilizá-las em plantações em solos extraterrestres.

Laboratórios no Centro Internacional da Batata com amostras de mais de 4 mil tipos de batata

O deserto Pampas de La Joya, no Peru, foi escolhido por "imitar" as condições de solo encontradas em solos como o de Marte. Por serem solos vulcânicos, com baixas quantidades de microorganismos e matéria orgânica, e altas quantidades de elementos químicos oxidantes, esta região foi considerada a mais próxima do solo marciano. A atmosfera semelhante à de marte, com 95% de dióxido de carbono, será simulada em laboratório.

Batatas cultivadas no Centro Internacional da Batata, localizado em Lima, no Peru.

As batatas foram escolhidas para a realização dos experimentos por serem alimentos resistentes e nutritivos, além de serem importantes fontes de vitamina C, ferro, zinco carboidratos e proteínas, e se todas essas características já não fossem o suficiente, ela ainda serve para outros fins que não o alimentício. As batatas roxas, vermelhas e amarelas podem ser usadas como tintura, além de servirem como bateria. Se os resultados forem positivos, uma plantação de batatas poderá ser incluída nos planos da NASA de enviar seres humanos para morar em Marte, visto que para se estabelecer moradia no planeta, seria necessária uma fonte de alimentos.


(Cena do filme Perdido em Marte)

Além de auxiliar na instalação de uma população em solos extraterrestres, a capacidade de cultivar batatas em condições extremas, como as encontradas em Marte, também pode salvar vidas no planeta Terra. Os pesquisadores do Centro Internacional de Batatas acreditam que compreendendo em quais condições climáticas e biológicas as batatas podem crescer, podemos aprender a lidar com as mudanças climáticas no nosso planeta, sem perder a capacidade de produção alimentícia.
Será que com essa pesquisa o McDonald’s entraria na corrida espacial para se tornar o primeiro fast-food de Marte? Vamos aguardar!

E assim terminamos a nossa investigação CSI003. Querem investigar alguma série ou filme? Mandem suas sugestões nos comentários! Até a próxima!

Sobre a autora: 
Carolina: Biomédica, doutoranda na área de Genética de Microrganismos pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (Genéticas) do IBB/UNESP Botucatu.

Quer saber mais? Veja os links abaixo:
https://www.nasa.gov/feature/can-plants-grow-with-mars-soil
https://cipotato.org/press-room/blog/potatoes-on-mars/
https://www.youtube.com/watch?v=AE3b7Oe_kys

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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Impacto do Ser Humano no Espaço

Imagem: Presença de objetos feitos pelo ser humano no espaço. Os pontos vermelhos correspondem a satélites, os azuis a restos de foguetes, enquanto os cinzas indicam "entulho". O mapa, cuja versão completa e interativa está no site http://stuffin.space/, foi criado pelo estudante da Universidade do Texas James Yoder. O mapa é atualizado diariamente, e o código utilizado pode ser acessado no GitHub.
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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Qual a importância do lançamento do foguete Falcon Heavy?


Por:

Alejandra Viviescas 
 mariale88@gmail.com

Em 6 de fevereiro desse ano, a companhia privada Space X fez o primeiro teste do seu foguete Falcon Heavy. O Falcon heavy é um foguete composto de três núcleos independentes, cada um impulsado por 9 motores e com uma capacidade máxima de carga de 64 toneladas. Essas características fazem dele o foguete com maior capacidade de carga operando hoje em dia e o segundo foguete mais potente em ter sido enviado ao espaço na história! O único foguete que o supera é o   Saturn V, usado nas missões Apollo nas décadas de 60 e 70.



Durante o lançamento-teste, o Falcon Heavy saiu do planeta e deixou no espaço um carro tesla esportivo e um boneco com traje de astronauta chamado Starman. Em seguida, cada núcleo tentou, separadamente, voltar à Terra, com o intuito de ser recuperado e reutilizado em missões posteriores. Minutos depois do lançamento, os dois núcleos laterais pousaram na mesma base de onde tinham saído. O núcleo central foi perdido já que não teve suficiente combustível para reduzir sua velocidade e foi destruído ao entrar em contato com o oceano. A possibilidade de recuperar e reutilizar as peças reduz significativamente os custos de lançamento do Falcon Heavy, sendo menos da metade do que a NASA geralmente paga por voos de potência similares.




O sucesso no lançamento do Falcon Heavy traz novas alternativas interessantes para a indústria espacial, como por exemplo a possibilidade de enviar ao espaço satélites maiores. Isso é  interesse para a indústria militar e de telecomunicações. Também seria possível enviar ao espaço maiores telescópios por menor custo, o é do interesse de astrônomos. A NASA também está considerando usar o Falcon Heavy para fazer novas expedições tripuladas no espaço. O dono da SpaceX, Elon Musk, também planeja adaptar alguns dos seus foguetes para possibilitar viagens humanas e pretende, num futuro próximo, fazer turismo espacial. Uma das suas grandes ambições é levar humanos para conhecer Marte.

Para ver o lançamento completo do foguete Falcon Heavy confira:
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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Uma nova Ciência para um velho Brasil




Por: Ney Lemke
lemke@ibb.unesp.br


O significado das manifestações de 2013 segue desafiando o nosso entendimento, seja pelo volume, seja pelo impacto que causaram, ou ainda pelo mistério que é entender o que afinal de contas motivou as pessoas. Mas um elemento era universal, a percepção clara de que o nosso modelo de Estado era incompatível com o "Brasil" que queríamos. Naquele momento havia uma grande convergência e percepção de que era necessário mudar.
Mas a necessidade de mudança implica uma nova questão, mudar para o quê? Nesse momento começou uma profunda divisão da sociedade brasileira sob que rumo tomar. Ainda que obviamente existam matizes, a divisão essencial se deu entre aqueles que preferem um Estado menor e aqueles que preferem um Estado mais forte.
O capitalismo brasileiro, desde Vargas, sempre incluiu a forte participação do Estado, que para o bem ou para o mal, foi elemento chave para o crescimento econômico brasileiro. Essa situação oscilou, obviamente, ao longo do tempo, com privatizações que foram seguidas de novos avanços da máquina pública. Como resultado, temos que uma boa parte do PIB depende intrinsecamente de empresas estatais ou de empresas que já foram estatais, e mesmo no caso de empresas privadas, existe um forte componente de intervenção estatal.
As eleições de 2016 responderam as manifestações de 2013 de forma enigmática.Mudaram substancialmente o congresso nacional, tornado-o mais conservador nos costumes e mais liberal na economia, e mantiveram por pequena margem, uma presidente de esquerda. Essa contingência histórica fez surgir poderosas forças de cisalhamento que nos arrastaram para uma perigosa imobilidade e que culminaram com dois momentos de tentativa de deposição presidencial, uma bem sucedida e outra que fracassou. Em minha opinião, a luta contra a corrupção que afetava os dois lados na disputa não foi causa, mas essencialmente um elemento tático na disputa política.
Ainda que Temer e o PMDB tenham sido aliados constantes do PT ao longo de quase todo o período petista, esses souberam capturar as insatisfações das camadas médias e dos setores empresariais e se apresentar como uma saída liberalizante para o país. Infelizmente, o poder do PMDB decorre exatamente de sua capacidade de alugar a máquina pública para que essa se preste a interesses privados e, assim, seu modelo de capitalismo liberal é longe do ideal da economia de mercado idealizada por Adam Smith. E após um ano de governo Temer, ficou evidente que o ajuste fiscal se localizou exatamente nos serviços que a sociedade brasileira queria melhorar e manteve intacto os maiores privilégios do setor público e os generosos incentivos fiscais característicos da política econômica da era petista.
A Ciência no Brasil foi ao longo de sua história um empreendimento essencialmente governamental. CNPq, Capes, as agências de fomento estaduais (FAPESP...) e as empresas estatais, como a Embrapa, sempre foram responsáveis pela maior parte do investimento em pesquisa nacional. As universidades públicas e os laboratórios dessas empresas abrigaram a imensa maioria dos cientistas brasileiros e do desenvolvimento tecnológico.
O governo Temer e a aprovação da PEC 275, que limita o crescimento dos gastos públicos, parecem implicar (é sempre importante lembrar que no Brasil, leis raramente "pegam") que o Estado não será responsável pelo próximo ciclo de crescimento brasileiro. Se voltarmos a crescer, não importa sobre que base econômica, o papel do Estado estará circunscrito: ao pagamento do aparato repressor-judicial, a classe política, dívida pública e previdência. Mesmo as áreas de Saúde e Educação devem ser severamente atingidas.
O rebaixamento do CNPq à um órgão de 4o. escalão no Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações mostra a importância da pesquisa científica no Brasil de hoje. Sociedade que é muito parecida ao velho Brasil colônia: com uma base econômica centrada na exportação de bens agropecuários e comodities, com uma forte concentração de renda e com uma massa trabalhadora mal remunerada, mal educada e com baixa produção. Nessa simultaneamente nova e velha sociedade é importante nos perguntarmos que Ciência é possível.
Mas antes cabe ressaltar que hoje, mais do que nunca, uma Ciência brasileira é essencial, ainda que seu papel esteja sob fogo cerrado no mundo inteiro e em especial, aqui. Os setores que venceram a disputa política, a tradicional Bancada BBB: Boi, Bala e Bíblia encaram a Ciência como uma força política adversária. A parte Boi, porque se opõe ao veredito de que vivemos uma crise climática, a parte Bala porque prefere ver cada cidadão com uma arma da mão do que construir alternativas civilizadas às nossas mazelas sociais e a da Bíblia, por preferir uma população sem acesso ao conhecimento científico, que é considerado por eles como antagônico aos preceitos bíblicos. Sem uma ciência atuante corremos o risco de construir uma sociedade sob essas bases. Mas o mais preocupante é que os argumentos científicos perderam sua capacidade de balizar a discussão e se tornaram apenas mais um elemento nas disputas ideológicas nas arenas políticas mundiais.
Apesar dos pesares, o Brasil ainda possui uma das melhores infraestruturas universitárias do mundo. Ao longo da era petista, ela se capilarizou Brasil afora e hoje está espalhada não apenas em grandes centros, mas em cidades de médio e pequeno porte. Esse sistema depende, para funcionar, de recursos e pode prover capital humano capaz de gerar desenvolvimento e empregos.
Entretanto, a academia brasileira sofre de suas mazelas. A adoção de um modelo de avaliação que premia exclusivamente a produção de papers e a formação de novos doutores, gerou, por um lado, uma maior inserção brasileira no cenário internacional. Não apenas representado pelo aumento do número de artigos, mas também pela sua qualidade (ainda que a quantidade seja muito mais evidente). Por outro lado, esse avanço veio com um crescente distanciamento da sociedade brasileira e em especial, do setor privado.
Esse distanciamento é grave para ambos os lados, pois por um lado implica que a nossa indústria e agricultura sigam dependentes de inovações externas que, além de serem caras, muitas vezes não são adequadas à nossa realidade. A classe empresarial brasileira sabe que é muito mais lucrativo investir em corromper políticos, e assim ter acesso às benesses do Estado, do que investir em complexos e longos ciclos de desenvolvimento tecnológico.
A falência do modelo estatal de desenvolvimento científico e tecnológico e a falta de apetite das forças de mercado estão gerando um fenômeno novo no Brasil, temos um grande contingente de jovens titulados sem perspectivas de emprego. Essencialmente inviabilizando a forma como a pesquisa é realizada no Brasil, a saber, composta essencialmente por pós-graduandos trabalhando com bolsas de agências de fomento.
Assim, a severa crise do CNPq, que não possui hoje recursos para pagar as bolsas até o final do ano é mais grave que possa parecer. Sem perspectivas, os nossos melhores cérebros estão saindo do Brasil e novos recursos humanos não estão entrando no sistema. Durante a votação pela autorização da abertura de processo contra Temer, o governo cedeu para basicamente todos os setores da sociedade brasileira. A Ciência foi a mais clara exceção. Mostra que não formos nem mesmo capazes de exercer pressão sobre um governo claudicante, evidência mais dramática do descolamento entre a comunidade científica e a sociedade civil.
Sem acesso a recursos públicos e com a clara perspectiva de que não haverá mais crescimento substancial nas verbas futuras, cabe à Ciência brasileira se reinventar ou morrer. A reinvenção passa pela capacidade de captar recursos de fontes diversas e de tornar a pesquisa um vetor explícito de geração de empregos e de crescimento. A ABC e a SBPC estão plenamente conscientes dos desafios que temos pela frente e, durante anos, lutaram bravamente por aprovar o Marco Regulatório da Ciência Brasileira. Essa legislação tinha por objetivo normatizar e esclarecer como o setor público e os interesses privados deveriam agir em prol do desenvolvimento tecnológico. Após um longo e complexo processo de negociação os Congresso aprovou o Marco mas, infelizmente, ele acabou sendo desfigurado pela presidente Dilma, em grande parte por pressões de setores do Estado, como a Receita Federal. Como resultado, temos uma legislação que segue sendo inadequada e pouco impacto trouxe ao nosso desenvolvimento.
A situação hoje segue sendo a de grande complexidade jurídica na regulação da interação entre comunidade científica e setor produtivo. A legislação que existe é interpretada de formas variadas pelos diferentes órgãos dos governos, gerando discrepâncias, processos judiciais, em suma: insegurança jurídica e perda de eficiência. Essa situação deve se tornar ainda mais incerta com a aprovação da Reforma trabalhista que é mais uma peça legislativa confusa e que, de acordo com vários especialistas, é inconstitucional. Sem nos esquecermos da Lei da Terceirização, que estimula a precarização das relações de trabalho em prol de uma incerta redução de custos. A única certeza é que as grandes empresas que atuam na área saíram vencedoras nessa disputa, especialmente aquelas que atuam junto ao poder público.
Como em qualquer momento de crise, existe uma janela de oportunidades. O Instituto Serrapilheira é o exemplo mais marcante de uma iniciativa privada para promover o desenvolvimento científico, mas, obviamente, existem várias outras. Grandes complexos hospitalares estão mantendo equipes de pesquisa cada vez mais competitivas, visando o mercado de saúde de maior complexidade. O SEBRAE e a FAPESP têm várias iniciativas estimulando a criação de startups de base tecnológica, já a EMPRAPII, Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial, surgiu para fomentar a inovação em nossa indústria em todo Brasil.
Ainda que nobres e meritórias, essas iniciativas precisam de um horizonte político de médio prazo para poderem se estabelecer. É essencial que haja um nível mínimo de coordenação para que investimentos de longo prazo possam ser feitos, para que os cientistas adaptem suas carreiras para atuarem mais diretamente em prol do desenvolvimento econômico do Brasil, para que a academia implemente políticas que premiem quem atua nessa interface e, finalmente, para que de fato exista uma clareza institucional de como a interação entre a academia e o setor produtivo possa se estabelecer.

Sobre o Autor: Ney Lemke é físico, mestre e doutor em física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente é professor adjunto da Unesp de Botucatu.
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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Desvendando a produção do mel

Por:
Juliana Costa
juh_agro87@yahoo.com.br
Samir Kadri 
samirkbr@yahoo.com.br
O mel é um produto natural e a cada dia vem atraindo mais consumidores. Já sabemos que ele é produzido por abelhas a partir do néctar das flores, mas que tal descobrirmos como é este processo desde o campo até sua mesa?

As abelhas da espécie Apis mellifera são as maiores produtoras de mel, elas são insetos sociais que vivem em colmeias e possuem alta organização dentro do enxame. A realização das diversas atividades dentro da colmeia é feita por abelhas chamadas de operárias, as funções específicas realizadas por cada abelha operária dependem da idade destas. Conforme elas envelhecem, ficam mais experientes e adquirem tarefas mais complexas dentro da colmeia.




O mel é produzido exclusivamente a partir do néctar, uma espécie de líquido produzido pelas flores que tem a função de atrair insetos polinizadores, e processado por diferentes tipos de abelhas operárias.


As abelhas campeiras coletarem o néctar de centenas de flores e o armazenam em um compartimento especial dentro de seu abdômen chamado de vesícula nectarífera, onde o mel começa a ser processado, as enzimas contidas em tais vescículas processam os açúcares do néctar em açúcares mais simples, principalmente, frutose e glicose. Já na colmeia, a abelha campeira passa todo o conteúdo de néctar coletado para outras três abelhas, chamadas de abelhas laboratoristas.

A abelha laboratorista, assistida por outras abelhas operárias, processa o néctar para reduzir seu teor de água de 55% para 17%, o que também concentra os açúcares presentes no néctar. Todo este processo de produção de mel ocorre à temperatura de 30 °C e leva de um a cinco dias. O mel processado é estocado nos favos.


Após as abelhas produzirem o mel, entram em cena os apicultores, produtores rurais que criam abelhas. Devidos às nossas amigas possuírem ferrões e serem altamente defensivas, os apicultores vestem equipamentos de proteção, como luvas, botas e macacões, para fazerem a colheita do mel nas colmeias. A colheita do mel é feita através da retirada dos favos repletos de mel da colmeia, que depois, em uma “Casa do mel”, é centrifugado para a retirada do mel dos favos. Uma vez retirado o mel dos favos, pode-se armazená-lo por 2 anos em potes devidamente higienizados.

Para a produção de 1 kg de mel são necessárias em média 30 000 viagens de abelhas coletando néctar em campo. Lembre-se disso quando for consumir o mel de nossas amigas.



Sobre os autores: Juliana: Eng. agrônoma, nutróloga genômica, ama peixes e abelhas!! Samir: Zootecnista, melhorista de abelhas Apis melliferas e geneticista, louco por abelhas.

Imagens originais Retiradas de:
http://guiadoscuriosos.uol.com.br/categorias/1982/1/abelha.html
http://keepingbee.org/royal-jelly-and-health/
Arquivo pessoal dos autores
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terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Under the Sea: imagens de um mundo submarino


“Doc estava recolhendo animais marinhos na Grande Restinga, na extremidade da Península. É um lugar fabuloso. [...] Quando a maré está baixa, aquele pequeno mundo aquático torna-se sereno e adorável. O mar é muito claro e o fundo vira um lugar fantástico, povoado por animais sempre disparando de um lado para outro, lutando, se alimentando, procriando.”

John Steinbeck, Cannery Row


Imagem: “O conto da tartaruga”. A fotografia, que mostra uma tartaruga nadando na Grande Barreira de Corais australiana, foi capturada pelo bacharel em Ciência Jordan Robins. O fotógrafo e suas imagens do animal marinho conquistaram o Grande Prêmio de Fotógrafo do Ano de 2017 da Revista de Fotografia Australiana. Confira outras imagens no site do concurso. Aprenda mais sobre a grande barreira de corais no site do governo australiano


 Imagem: Euprymna berryi durante a noite. A imagem foi capturada em Batangas, uma província das Filipinas, pelo fotógrafo Todd Bretl.  Euprymna berryi, que é bioluminescente, é do grupo Cephalopoda, o mesmo que as lulas e os polvos. Confira mais imagens de animais marinhos no Pinterest do aquário de Monterey (CA). Também, veja mais fotos de Todd bretl em seu Flickr, e aprenda mais sobre os Cephalopoda no site da Universidade da Califórnia



 Imagem: Ilustrações de animais da classe Ascidiacea, que fazem parte dos urocordados e são exclusivamente marinhos. A ilustração foi feita por Ernst Haeckel, em seu livro Kunstformen der Natur de 1904. Haeckel (1834-1919) foi um importante biólogo conhecido por desenvolver o conceito de “a ontogenia recapitula a filogenia”. Confira uma legenda mais detalhada e veja mais ilustrações de Kunstformen der Natur  no repositório Wikimedia Commons.



ATENÇÃO! Esperamos que vocês tenham gostado da nossa seleção de imagens dessa semana: a biodiversidade marinha realmente é incrível. Porém, os ecossistemas marinhos têm se desequilibrado por causa das atividades humanas, e várias espécies já foram extintas. Por isso, caso você esteja passando este Carnaval na praia, lembre-se de:

1) Não jogar lixo no mar;
2) Não pisar em recifes de corais;
3) Não andar com veículos motorizados em locais que tartarugas marinhas possam fazer ninhos;
4) Não levar conchas e outras "lembranças" similares para casa;
5) Ter respeito pela vida selvagem. 

Seguindo essas dicas simples, você estará ajudando o mundo a ser um lugar melhor, e preservando a praia para vários outros incríveis Carnavais no futuro 😉. Tenha um ótimo feriado!


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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Como contar os cromossomos?





Por: Adauto L Cardoso
adautolimacardoso@gmail.com


No núcleo das células dos organismos eucariotos o DNA está associado com proteínas formando estruturas conhecidas como cromossomos. Os cromossomos são as unidades que carregam os genes, que, por sua vez, são os trechos da fita de DNA que determinam as características dos organismos e são transmitidos durante as gerações.

Figura 1. Representação de uma célula eucariótica com dois cromossomos (esquerda). O cromossomo está em destaque (direita) e sua constituição por DNA (linha preta) e vários tipos de proteínas (círculos azuis, vermelhos, verdes e amarelos) é evidenciada.

Cada espécie possui um número de cromossomos que é padrão. O ser humano, por exemplo, possui 46 cromossomos. No entanto, esse número pode ser variável entre as espécies. Nas células de um chimpanzé são encontrados 48 cromossomos, enquanto que em uma das espécies de macacos-prego 52 é o número cromossômico padrão.

Além disso, é possível existir variação no número de cromossomos entre indivíduos de uma mesma espécie essas diferenças podem afetar negativamente seus portadores. Um exemplo bem conhecido em humanos é a síndrome de Down, que é caracterizada pela presença de um cromossomo 21 extra nos seus portadores, levando a um número total de 47 cromossomos. Por outro lado, algumas dessas variações no número de cromossomos parecem não promover efeitos negativos e são conhecidas como polimorfismos cromossômicos. Machos de uma espécie de macaco-da-noite, por exemplo, possuem 49 cromossomos, enquanto que as fêmeas possuem 50.

Determinar o número de cromossomos é relativamente fácil hoje em dia, mas nem sempre foi assim. Até a metade do século XX, os materiais examinados pelos pesquisadores possuíam cromossomos sobrepostos uns aos outros, o que dificultava bastante a contagem com precisão. Essa dificuldade fez com que a comunidade científica acreditasse por muito tempo que 48 fosse o número de cromossomos de humanos, em vez de 46. No entanto, o desenvolvimento de algumas técnicas permitiu aos cientistas obterem materiais com cromossomos não sobrepostos e assim a determinação precisa do número cromossômico pôde ser realizada.

Figura 2. (a) Metáfase de uma espécie de peixe com 36 cromossomos sem utilização da técnica de hipotonização; note que vários cromossomos estão sobrepostos e é difícil determinar com clareza o número cromossômico; (b) metáfase de uma espécie de peixe com 50 cromossomos com uso da técnica de hipotonização; os cromossomos estão individualizados e a determinação do número exato de cromossomos pode ser feita.

O primeiro método consiste em utilizar uma substância que interrompa a divisão celular na fase de metáfase. Esta fase é caracterizada pelo nível máximo de condensação dos cromossomos e isso gera melhor definição de cada unidade cromossômica durante sua visualização. Cromossomos menos condensados (encontrados na intérfase e na prófase) são longos e, dessa forma, existem maiores chances deles ficarem sobrepostos. A colchicina é a substância mais utilizada para esse fim, por ser um agente que desestrutura as fibras do fuso e impede que a divisão celular avance para fases posteriores a de metáfase.

Figura 3. Fases do ciclo celular de uma célula eucariótica (a); observe que  durante a intérfase os cromossomos estão bastante descondensados; em pŕofase eles estão um pouco mais condensados, mas ainda são longos; e em metáfase os cromossomos estão mais curtos e densos. Efeito da colchicina  desestruturando as fibras do fuso (b), o que impede que a célula avance para anáfase.

O segundo procedimento consiste em imergir as células em uma solução com concentração menor que a do meio intracelular ou mesmo em água, permitindo com que a água do meio externo entre nas células (osmose) e as deixe túrgidas (aumento de volume). Este método faz com que os cromossomos fiquem mais separados pelo fato do estado de turgência tornar as membranas da célula mais fáceis de serem rompidas (Figura 4).

Figura 4. Célula sem tratamento hipotônico e consequências no espalhamento cromossômico (a). Efeito do tratamento com solução hipotônica no espalhamento dos cromossomos (b).

Tendo em vista que conhecer do número de cromossomos possui relevância clínica, no estudo de doenças, e evolutivo, no estudo das variações naturais, o desenvolvimento de técnicas que permitiram contar os cromossomos com precisão foi de grande importância e são, inclusive, usadas até hoje.


Sobre o Autor: Adauto Lima Cardoso é biólogo, mestre e doutor em Genética pela Universidade Federal do Pará e pela Universidade Estadual Paulista, respectivamente. Atualmente realiza pós-doutorado no Departamento de Morfologia do Instituto de Biociências da UNESP.
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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

"O mar não estará para peixes!"

"O mar não estará para peixes!"

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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Minha querida pesquisa - Marcos Tadeu Geraldo

Biólogo com mestrado e
doutorado em Ciências Biológicas
(Genética) pelo Instituto de
Biociências da UNESP de Botucatu

As crianças são cientistas. A curiosidade e a vontade de questionar e de entender o mundo a sua volta fazem naturalmente parte do dia a dia da criança, de uma maneira muito semelhante à postura e ao entusiasmo de um cientista. Portanto, não quero usar essas características que mencionei como indicadores da minha propensão a me dedicar à Ciência. De fato, acabei seguindo essa trajetória talvez de uma maneira menos “poética” quando comparada ao caminho percorrido por outros colegas.
Quando decidi trabalhar com Ciência, muita dúvida estava associada a essa decisão e uma grande questão surgiu logo após concluir minha graduação: será que devo continuar na carreira acadêmica e, portanto, fazer mestrado e doutorado? Como o tempo dedicado a uma pós-graduação é alto – 6 anos em média – foi natural ter esse questionamento naquele momento. Depois de muito refletir sobre isso, decidi continuar a me envolver com pesquisa. Assim, escolhi o campus da UNESP (Universidade Estadual Paulista) de Botucatu para começar minha pós-graduação. A pesquisa que desenvolvi em meu mestrado foi bem diferente do que acabei desenvolvendo posteriormente no doutorado, entretanto, apenas um aspecto importante foi semelhante: o uso da bioinformática. Percebi que podemos aplicá-la em praticamente tudo dentro da biologia e é justamente isso que me encantou quando fui lendo e aprendendo mais sobre essa área. Para explicar melhor o uso da bioinformática, vou aproveitar e descrever o tipo de pesquisa que estou envolvido atualmente.

Dengue, zika e a bioinformática

Muito ainda se fala, especialmente na mídia, sobre doenças como a dengue, a zika e, no momento em que escrevo este texto, a febre amarela. Essas três doenças são causadas por vírus, que são aqueles microrganismos que infectam as células de algum hospedeiro, como, por exemplo, o ser humano, e lá são capazes de se multiplicar. Como esse processo acaba matando a célula infectada, os danos ao hospedeiro começam a se tornar evidentes à medida que a infecção se intensifica e, se nada for feito para impedir a multiplicação do vírus, o hospedeiro pode sofrer uma série de complicações de saúde que podem ocasionar o seu óbito. Em casos específicos, torna-se necessário o uso de drogas, os chamados antivirais, que possam impedir que o vírus continue se multiplicando. Essa é justamente a linha de pesquisa que eu estou envolvido atualmente com relação a dengue e a zika. A ideia central é buscar um composto (ou conjunto de compostos) capaz de inibir a atividade de alguma proteína essencial desses vírus.
Para encontrar ou desenvolver um composto antiviral, podemos utilizar a bioinformática para nos auxiliar nesse processo. Nesse tipo de pesquisa, nós precisamos analisar se um determinado composto consegue se ligar na proteína do vírus. Assim, com a estrutura tridimensional do composto e da proteína, nós podemos utilizar técnicas de bioinformática para prever a ocorrência ou não da ligação e onde ela ocorre. Em seguida, nós podemos também verificar se a ligação se mantem e quais os seus efeitos, pois a proteína não é uma molécula estática, ao contrário, ela é normalmente dinâmica, ou seja, a estrutura da proteína pode se alterar para que ela desempenhe a sua função. Dessa maneira, se um determinado composto se liga fortemente à proteína viral e altera algum aspecto funcional importante do seu movimento, podemos dizer que este composto é um bom candidato a antiviral.
Vale ressaltar aqui que o poder de acerto dessas técnicas computacionais é limitado, pois os resultados teóricos obtidos nem sempre são observados na prática experimental. Portanto, a bioinformática não é perfeita, mas serve como um grande aliado nas pesquisas ao se combinar com os estudos experimentais tradicionais dentro da biologia. Ela provavelmente nunca substituirá a pipeta, o jaleco e a bancada do cientista, mas estará sempre ao seu lado como ferramenta de suporte inestimável na tentativa de responder às suas perguntas ou, principalmente, permitindo que novas perguntas sejam formuladas.

O que a Ciência faz por mim?

O caminho que eu percorri até chegar à Ciência, como falei, foi caracterizado por dúvidas e questionamentos, para enfim, eu tomar uma decisão e, no final, gerar minhas próprias conclusões. Mas afinal, não é exatamente isso que é fazer Ciência? Portanto, o que mais gosto da Ciência é a sua possibilidade de questionar absolutamente tudo, o que amplia a nossa visão de mundo e nos torna mais críticos e reflexivos frente aos fatos, às evidências. Acho que essa é a maior contribuição da Ciência em minha vida.
Afinal, de maneira bem objetiva, o que eu penso sobre Ciência? Para mim, representa uma prática humana essencial para a geração e o desenvolvimento do conhecimento, sendo estimulada pelos pilares básicos que são a curiosidade e a vontade de aprender. Por isso, não posso deixar de repetir: as crianças são cientistas.

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terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Estrela vs. Buraco Negro

Imagem: Representação artística da disrupção por maré ASASSN-14li. Créditos: Goddard Space Flight Center, NASA, EUA. Imagem obtida em www.nasa.gov/image-feature/star-wanders-too-close-to-a-black-hole. Evento astronômico originalmente descrito em Miller, J. M. et al. (2015) ‘Flows of X-ray gas reveal the disruption of a star by a massive black hole’, Nature. Vol. 526, p. 542-545. 

A imagem mostra o evento ASASSN-14li, que ocorreu a 290 milhões de anos luz de distância da Terra, quando um buraco negro "consumiu" uma estrela. Nesse evento de proporções épicas, chamado de disrupção por maré, os escombros da estrela (tons de marrom) ficam circulando ao redor do buraco negro até serem absorvidos por ele, o que inicialmente gera uma enorme quantidade de luz. Também, há presença de "vento" (azul) em sentido contrário ao do buraco negro, apesar de não veloz o suficiente para eventualmente escapar da grande força gravitacional do buraco.

ASASSN-14li foi inicialmente detectado em 2014 pelo programa All-Sky Automated Survey for Supernovae (ASAS-SN), e permitiu que cientistas entendessem um pouco mais os misteriosos buracos negros. Explore um pouco mais sobre ASASSN-14li no site do observatório por raios-X Chandra e veja a formação dessa disrupção de maré na animação retirada Goddard Space Flight Center da NASA:


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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

O que você precisa saber sobre a febre amarela!

Por:




Adauto L Cardoso
adautolimacardoso@gmail.com


A febre amarela é uma doença tropical, o que significa ela é mais difundida nas regiões tropicas e subtropicais do planeta, incluindo o Brasil. Apesar de ser considerada erradicada nas áreas urbanas do país, nos últimos anos, vários surtos da doença vêm sendo registrados.

Essa doença é classificada como infecciosa, o que significa que ela é causada por um agente patogênico, nesse caso o vírus da febre amarela. Esse vírus é transmitido, em áreas urbanas, pelo mosquito Aedes aegypti contaminado, e em áreas silvestres por mosquitos dos gêneros Sabethes e Haemagogus. Os casos recentes ocorridos no Brasil têm sido identificados como febre amarela silvestre, o que indica que foram contraídos em áreas de mata ou áreas rurais.

Os mosquitos são os únicos transmissores dessa doença para o ser humano. Outros animais, como os macacos, são vítimas e não seus transmissores. Assim, o combate ao mosquito é uma importante forma de prevenção da doença tanto para o ser humano como para outros animais.

(A) Bugio que foi atacado por seres humanos por acharem que os macacos podem transmitir a febre amarela. (B) Mosqutio Aedes aegypti, um dos transmissores do vírus da febre amarela.

A vacinação é outra importante medida para evitar a contaminação. Uma dose única padrão da vacina tem eficácia por toda a vida. Já a dose fracionada (um quinto do volume da dose padrão), que possui a mesma eficiência da dose padrão, tem validade por pelo menos 8 anos. Grávidas, mulheres que estão amamentando e crianças de até seis meses de idade não podem tomar nenhum tipo de dose da vacina.

Os sintomas da da febre amarela são febre, calafrios, forte dor de cabeça, dores musculares, perda de apetite, vômitos e fraqueza. Muitas pessoas melhoram em até cinco dias, porém, algumas evoluem para a forma grave da doença, caracterizada por icterícia (coloração amarelada da pele), hemorragia e insuficiências dos órgãos.

Não existe um tratamento específico para a febre amarela e medicamentos, como analgésicos, podem ser usados para aliviar alguns dos sintomas, como a febre e dores. Porém, não é recomendado a utilização de analgésicos sem acompanhamento médico, uma vez que esses medicamentos podem aumentar as chances de hemorragia.




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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

CSI 009: GLaDOS poderia ser real?




Por: Maria Laura
marialgk@gmail.com

Alerta de Spoilers! A coluna contém revelações sobre o enredo dos jogos Portal e Portal 2.



Portal e Portal 2 frequentemente figuram no topo de listas de melhores jogos de videogame de todos os tempos. Certamente, um dos elementos mais legais da franquia é a antagonista GLaDOS. No jogo, GLaDOS originalmente era Caroline, uma secretária na empresa Aperture Sciences. Nessa empresa, eram desenvolvidas tecnologias malucas como portais que permitiam tele transporte. Uma tecnologia desenvolvida na Aperture permitia a transferência de uma mente humana para um computador. Caroline acabou sendo a “cobaia” desse experimento, e se tornou a inteligência artificial GLaDOS. Entretanto, GLaDOS se revelou seu lado cruel, matando todos os funcionários da empresa e passando a realizar cruéis experimentos comportamentais com a protagonista do jogo, Chell.
Todos os fãs já devem ter pensado se seria plausível tal acontecimento (nossa resposta é não: podem dormir tranquilos que GLaDOS não é real). Por isso, listamos e respondemos algumas perguntas relacionadas ao assunto.

Seria possível fazer o upload de um cérebro?



Provavelmente não. De fato, alguns adeptos da ideia da “Singularidade” ou “Transumanismo” acreditam que será possível total transferência da mente humana para uma plataforma artificial. Ray Kurzweil, que cunhou o termo “Singularidade”, estabeleceu que em 2045 a inteligência não-biológica iria ultrapassar a inteligência biológica. Entretanto, a maioria dos cientistas, inclusive os especialistas em Neurociência e Inteligência Artificial, argumentam que esta ideia não é plausível, e provavelmente nunca se tornará real. O cérebro é complexo demais, e muito pouco conhecido, a ponto de ser convertido em um supercomputador.

Além disso, ser um computador pode não trazer vantagens em termos de tamanho e longevidade. Não foi desenvolvido nenhum modo de armazenamento de dados tão compacto quanto o DNA: para armazenar apenas as nossas informações genéticas, seria necessário um aparelho muito grande. Além disso, quem disse que ser um computador significa imortalidade? A vida útil de um aparelho eletrônico, que raramente ultrapassa uma década, é muito menor que a expectativa de vida de um ser humano.

Assim, é muito improvável o desenvolvimento de uma tecnologia que transforme Caroline em GLaDOS, como mostrado no jogo.

Uma inteligência artificial poderia conduzir experimentos?


Sim! E isso já acontece. Vários procedimentos laboratoriais, como o sequenciamento de genomas, são automatizados; e resultados frequentemente são analisados com algoritmos sofisticados.

Porém, existem exemplos muito mais impressionantes: na empresa californiana Zymergen, robôs são utilizados para otimizar linhagens de microrganismos que sintetizam produtos químicos. Estas inteligências artificiais são responsáveis por planejar os experimentos, realizá-los e interpretar os resultados, sem a ajuda de nenhum cientista. E elas os fazem muito mais rápido do que qualquer ser humano. Entretanto, poucos laboratórios já têm tal tecnologia, e ainda teremos muito tempo até que essas inteligências artificiais se tornem comuns. E felizmente, não há nenhuma inteligência artificial de laboratório que se compare à GLaDOS.

Uma inteligência artificial pode se tornar “do mal”?


A ponto de matar a todos com neurotoxinas? Provavelmente não, a menos que esteja programada para isso. Especialistas concordam que inteligências artificiais não são capazes de mudar sua própria programação, estabelecendo novos objetivos que não tenham sido determinados pelos seus criadores. E caso algum dia isso seja possível, estamos muito longe desta realidade.

Entretanto, é possível que os resultados da programação não saiam do jeito esperado, e sejam mais maléficos do que benéficos. Por exemplo, o algoritmo do Facebook está programado para apresentar conteúdos relacionados ao interesse do usuário. Se um usuário visualizou uma fake news¸ o algoritmo tende a apresentar posts da mesma ou de fontes similares (e que provavelmente são fake news também).

Entretanto, o famoso físico Stephen Hawking se contrapõe a essa visão e declarou que "o desenvolvimento da inteligência artificial total poderia significar o fim da raça humana". Torcemos para que isso não aconteça.

Cientistas podem fazer o que quiserem com sujeitos de teste humanos?


Não, pelo menos hoje em dia. Antigamente, haviam poucas normas regulamentando pesquisas envolvendo humanos, tanto que várias atrocidades na Ciência já ocorreram. Por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial, centenas de prisioneiros de campos de concentração eram forçados a submeter-se a cruéis experimentos médicos que levavam à morte. Outro exemplo é uma pesquisa realizada pelo departamento de Saúde Pública dos EUA entre os anos 1930 e 1970, que privou 400 afro-americanos infectados com sífilis de diagnóstico, tratamento e cura.

Felizmente, em resposta a esses experimentos horríveis, foram criadas várias normas e órgãos de fiscalização que regulam o estudo de humanos na Ciência. Por exemplo, após a revelação dos cruéis experimentos nazistas, foi criado o Código de Nuremberg. Segundo ele, experimentos não devem ser feitos em humanos se não houver consentimento do sujeito de teste, e se os riscos forem maiores que os benefícios. Depois dele, vários outros documentos sobre Ética na Ciência foram criados, como a Declaração de Helsinki e o Relatório de Belmont.

Por isso, os experimentos malucos da Aperture Sciences dificilmente poderiam ser realizados no mundo real.

VEREDITO FINAL

Levando em conta todas essas informações, consideramos muito pouco provável que algo parecido com a GLaDOS pudesse existir fora da ficção. Apesar de existirem inteligências artificiais que “conduzem pesquisa científica”, uploads de cérebro e robôs assassinos são muito improváveis.

Esperamos que vocês tenham gostado da nossa matéria de hoje! Tem algum outro jogo, filme ou série sobre o qual vocês querem saber mais?! Deixe sua opinião nos comentários, e nós vamos investigar!

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