Aba

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Minha querida pesquisa - Barbara G. Müller Coan



Barbara G. Müller Coan
Doutoranda em Patologia pela 
Faculdade de Medicina de Botucatu (UNESP)
MSc. em Biologia Geral e Aplicada 

pelo Instituto de Biociências (UNESP)
Especialização em Oncologia de Pequenos

 animais pelo Instituto Bioethicus (Botucatu, 
São Paulo) Bacharelado em Medicina Veterinária. 
Realizado no Centro  de Ciências 
Agroveterinárias da Universidade do 
Estado de Santa Catarina (CAV – UDESC). 
(Lages, Santa Catarina)


Sou doutoranda pela Patologia da Faculdade de Medicina da UNESP de Botucatu e orientada do Prof. Deilson Elgui de Oliveira. Faço parte do Virican, que é um grupo de carcinogênese viral e biologia dos cânceres, ou seja, um grupo que estuda como o câncer surge e progride, além de estudar os vírus que causam e/ou estão envolvidos no câncer.
Minha história com a pesquisa é recente apesar de estar graduada há quase dez anos. Desde pequena era fascinada pelo funcionamento das células e assuntos relacionados a ciência. Como também gostava muito de animais, decidi prestar vestibular na veterinária. Me graduei em Medicina Veterinária pela UDESC em 2008 e entrei no mercado de trabalho. Eu clinicava e fazia cirurgia em pequenos animais (cães e gatos). Durante os anos de trabalho, apesar de estar crescendo na carreira, não me sentia realizada.
Sempre gostei muito de estudar e sentia falta disso. Então, resolvi fazer uma especialização em Oncologia Veterinária, no Instituto Bioethicus em Botucatu (2012). Foi aí que tudo começou a mudar. Já nas primeiras aulas, que eram sobre biologia da célula cancerígena e técnicas moleculares (já, já, explico o que são essas palavras difíceis), me encantei! Decidi me mudar para Botucatu e fazer Mestrado e Doutorado.
No mestrado comecei a me dedicar à biologia do câncer e biologia molecular relacionado a microRNAs (miRNAs) envolvidos na progressão dos cânceres humanos (carcinoma de nasofaringe) relacionados à expressão de uma proteína (Proteína Latente de Membrana 1 - LMP1) do vírus de Epstein-Barr (EBV).
Mas o que são todas estas coisas? Bom, vou explicar para vocês.
Na biologia celular nós estudamos comportamento, função e compartimentos das células. Uma célula normal possui uma determinada função e age de maneira controlada. Por exemplo, um organismo complexo, como nós, se origina de apenas uma célula (junção do óvulo com o espermatozóide) e esta célula irá se multiplicar e chegará um ponto em que cada uma destas “células-filha” irão se diferenciar em um tecido, ou órgão. Ou seja, no início, aquela célula conseguia ter acesso a todo “manual” que a “ensina” como formar um corpo novo. Conforme ela se especializa, é como se colocássemos um grampo, um “clips”, em determinadas partes deste manual e a célula conseguisse ler apenas algumas páginas de um capítulo. Então esta célula se torna mais controlável e sabe exatamente o que fazer e quando.
No câncer, a história é diferente. A célula que se torna cancerígena consegue retirar “os grampos do manual” e consegue acessar partes deste “manual” que antes ela não conseguia. Com isso ela escapa da morte celular, se tornando imortal. Além disso, não precisa mais de sinais dizendo para ela: “você deveria se multiplicar”; ela faz isso sozinha, se multiplicando indefinidamente. Com isso, ela se torna um carro com o acelerador no máximo e o freio quebrado.
E o que faz uma célula normal virar cancerígena? Uma célula se torna cancerígena devido a alterações no seu DNA, que se trata de um código que a célula lê e interpreta; um “manual”. O DNA pode ser alterado por vários motivos, principalmente por agentes nocivos, como cigarro e bebidas alcoólicas, mas também por fatores comportamentais e hábitos (como consumo de carne vermelha e exposição solar). Além disso, existem alguns vírus que causam câncer, como o EBV (Vírus de Epstein-Barr).


O EBV, é um tipo de herpesvírus que infecta mais de 90% da população mundial. Ele passa pela saliva, por isso geralmente pegamos dos nossos pais na infância, ou na adolescência, por meio do beijo. Juntamente com a presença de agentes nocivos, ele pode levar ao câncer, principalmente linfomas (câncer de células brancas do sangue), de nasofaringe e gástrico (estômago).
Além de tudo isso, existem outros mecanismos que regulam a célula cancerígena. As proteínas virais (como a proteína LMP1 do EBV) e as vias intracelulares se comunicam entre si e uma das maneiras que isso ocorre é por meio dos miRNAs.
Os miRNAs são pequenos RNAs não codificantes. Mas o que isso quer dizer? Bem, para que o “código” da célula (DNA),  leve a formação de proteínas, é necessário um intermediário, chamado RNA mensageiro (RNAm). Porém nem todos RNAs formam proteínas, por isso são chamados de não-codificantes (pequenos ou longos). E você sabe o que os miRNAs fazem? Eles inibem os RNAm, impedindo que formem uma proteína, ou seja, tem papel regulatório negativo. A análise do DNA, RNA e miRNAs é feita usando o que chamamos de biologia molecular.


No meu mestrado, verifiquei que se analisarmos células com a LMP1 de diferentes variantes virais (com diferenças em seu código), há alteração em alguns miRNAs, provavelmente influenciando a quantidade de algumas proteínas e no comportamento da célula.
Agora, no doutorado, estou analisando estes miRNAs e sua influência no comportamento das células da nasofaringe. Para isso, analiso as células sob diferentes circunstâncias e verifico sua proliferação, movimentação, invasão em matriz (um tipo de gel), capacidade de formar novas colônias, além da capacidade de formar novos tumores e vasos sanguíneos, usando como modelo um peixinho chamado zebrafish ou paulistinha.
Hoje sei que todos os locais que trabalhei me ajudam nos dias de hoje. Todas as experiências já vividas me fazem perceber o quão realizada me sinto na pesquisa, e tenho convicção de que estou na carreira certa. É uma escolha que exige estudo e dedicação, coisas que são facilmente atingidas quando você realmente gosta do que faz!

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