Aba

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

A visão da ciência sobre o dogma cristão do nascimento virginal de Jesus






Por: Adauto L. Cardoso
adautolimacardoso@gmail.com


Dentre os vários dogmas cristãos relacionados à história de vida de Jesus Cristo, existe o de que Maria (sua mãe) o concebeu milagrosamente, por obra do Espírito Santo. Em outras palavras, isso significa que ela engravidou sem relação sexual com um homem. Além das questões religiosas e sociais que este dogma traz à tona, ele é bastante intrigante para quem conhece os fenômenos biológicos relacionados à reprodução humana.

A formação de um novo ser humano começa quando um espermatozóide fecunda um óvulo, formando o zigoto, que é a célula que se divide inúmeras vezes, até formar o embrião, o qual se desenvolve no útero até o momento do nascimento. Um óvulo não fecundado não pode se dividir e formar um novo indivíduo humano, então ele é eliminado durante a menstruação (Figura 1). É importante mencionar que apesar de raros, casos de formação de indivíduos sem fertilização (partenogênese) já foram registrados em alguns animais como lagartos e alguns invertebrados, mas nunca na espécie humana.

Figura 1. (A) Quando, no período fértil da mulher, ela libera um óvulo e este é fecundado por um espermatozóide, é formado o zigoto, a célula que tem as condições necessárias para se dividir e formar o embrião, o qual vai se desenvolver em um novo ser humano. (B) Por outro lado, se a mulher liberar um óvulo e este não for fecundado por um espermatozóide, ele é eliminado durante a menstruação.

Um outro detalhe sobre a fecundação dos gametas humanos é que ela é interna, o que significa que o homem precisa depositar os espermatozóides no aparelho reprodutor da mulher e isso acontece durante a relação sexual. Mas, hoje em dia, esse contato entre os gametas pode acontecer de forma artificial. Em uma clínica de reprodução assistida, o especialista na área pode utilizar espermatozóides de doadores para fertilizar óvulos e isso pode ser feito por colocação direta dos epermatozóides na altura da tuba uterina ou por fecundação in vitro, seguida de transferência do embrião para o útero. Portanto, mesmo considerando que a reprodução assistida seja uma alternativa para fecundação sem relação sexual, há cerca dois mil anos, quando Maria gerou Jesus, essa possibilidade não existia, já que o primeiro registro de nascimento de um indivíduo humano com uso da reprodução assistida aconteceu em 1978, com o primeiro bebê de proveta.

Uma questão que também coloca o dogma do nascimento virginal de Jesus em choque com a ciência tem a ver com os cromossomos. Na espécie humana, a o sexo é determinado por um par de cromossomos, que, por terem essa função, são chamados de cromossomos sexuais. As mulheres possuem um par de cromossomos X, enquanto que os homens possuem um cromossomo X e um Y. Uma vez que tanto homem como mulheres possuem cromossomos X, é a presença do cromossomo Y que determina o sexo do indivíduo. Jesus Cristo foi um homem, portanto possuía uma cópia do cromossomo X e outra do cromossomo Y em suas células. Maria, uma mulher, possuia duas cópias do cromossomo X em suas células. Assim, Maria, ou qualquer outra mulher, produziria apenas óvulos contendo cromossomos X e os homens produzem uma porção de espermatozóides com X e outra parte com Y (Figura 2). Portanto, considerando verdadeira a hipótese de que uma mulher poderia gerar indivíduos sem ocorrer fecundação do óvulo, todos os indivíduos gerados seriam mulheres. Neste caso, Jesus Cristo seria uma mulher. Assim, só é possível conceber Jesus como homem considerando que o óvulo que deu origem à ele tenha sido fecundado por um espermatozóide contendo um cromossomo Y.

Figura 2. Mulheres possuem um par de cromossomos X e, por isso, produzem apenas óvulos com cromossomo X. Por sua vez, possuindo um cromossomo X e um cromossomo Y, os homens produzem metade de seus espermatozóides contendo o X a outra metade contendo Y. Assim, durante a reprodução, o zigoto que for formado pela fecundação do óvulo por um espertozóide com cromossomo X dará origem a uma mulher, enquanto que o zigoto formado pela fusão de um óvulo com um espermatozóide com Y formará um homem.

Diante de todos estas explicações biológicas, a ciência não encontra suporte para o dogma do nascimento virginal de Jesus. Isso, no entanto, não deve ser utilizado como argumento para menosprezar ou ridicularizar as crenças religiosas, mas chama a atenção para a necessidade de questionarmos os fatos, buscando na ciência o suporte para reconstruir a história.


Sobre o Autor: Adauto Lima Cardoso é biólogo, mestre e doutor em Genética pela Universidade Federal do Pará e pela Universidade Estadual Paulista, respectivamente. Atualmente realiza pós-doutorado no Departamento de Morfologia do Instituto de Biociências da UNESP.

Compartilhar:
←  Anterior Proxima  → Inicio

Um comentário:

  1. Bom dia amigo.
    Muito legal a sua matéria, mas me veio uma pergunta:
    E como foi que veio a existir o primeiro homem na terra?

    Abraços,

    ResponderExcluir

Seja um colaborador!

Postagens populares

Total de visualizações

Seguidores

Tecnologia do Blogger.