Aba

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Minha querida pesquisa - Juliana Verónica Izquierdo




Juliana Verónica Izquierdo – Bióloga 
Mestre em Ciência Biológicas (Botânica) 
Desde criança eu via como minha mãe cuidava das plantas do jardim e eu acho que aí começou meu amor pelas plantas.Fiz graduação na “Universidad Nacional de Córdoba” na Argentina, e durante a carreira fiz estágio de docência em disciplinas relacionadas com o mundo vegetal: Sistemática, Fisiologia, Palinologia, Etnobotânica. Eu gostava de tudo o que aprendia nas disciplinas, mas ainda não tinha certeza sobre o que eu gostaria de estudar em relação às plantas. Em 2012, fiz uma disciplina optativa, Biologia Floral, que oferece aos alunos ferramentas para estudar os diferentes aspectos das flores e compreender o papel ecológico, evolutivo e adaptativo delas e foi nesse momento que caiu a ficha sobre o que eu queria estudar... Eu queria estudar as flores! E foi assim que depois de fazer a disciplina fui ao “Laboratorio de Ecología Evolutiva y Biología Floral” para conhecer as linhas de pesquisa e escolher uma para fazer meu trabalho final. No meu Trabalho de Conclusão de Curso estudei a seleção mediada por polinizadores de uma espécie nativa, Salviacuspidata ssp. gilliesii (Lamiaceae); particularmente, se a associação entre os sinais e as recompensas (neste caso, néctar) que a planta oferecia influenciava na visita dos polinizadores às flores.

Em 2014, me formei como Bióloga e mesmo sabendo que eu queria fazer pesquisa, não sentia que estava preparada para começar um doutorado (na Argentina não existem muitos cursos de mestrado e é comum fazer doutorado direto). Sabendo disso, meu orientador de TCC me aconselhou a fazer a pós-graduação fora do país, para eu ter mais experiência em pesquisa e para ter a experiência de fazer pesquisa em outro país. Foi assim que ele me apresentou (por e-mail), quem poderia ser meu orientador de mestrado, o Prof. Dr. Felipe Amorim, do Laboratório de Ecologia da Polinização e Interações, Departamento de Botânica, Unesp campus Botucatu. Depois da troca de vários e-mails, estabelecemos meu sistema de estudo e escrevi o pré-projeto para fazer a inscrição do processo seletivo no Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (Botânica). Em novembro desse ano viajei para Botucatu para fazer as provas correspondentes ao processo seletivo e felizmente passei! Desde esse momento, começava uma nova aventura.

Em 2015, mudei para Botucatu para começar com o mestrado, fazer as disciplinas e começar os experimentos em campo. No início ajudei uma colega do laboratório em seus experimentos, aproveitando também para conhecer o Cerrado,lugar onde eu iria passar muitas horas durante os dois anos de mestrado.No meu mestrado estudei a interação mutualística entre Tocoyena formosa (uma espécie comum do Cerrado que perde as folhas todos os anos depois da maduração dos frutos) com diferentes espécies de formigas, numa área no Município de Pratânia, perto de Botucatu. Esta interação ocorre através de nectários que oferecem néctar (uma solução de água com açúcar) como alimento às formigas, e em troca as formigas oferecem proteção contra os herbívoros foliares durante o tempo que permanecem na planta. Os nectários que oferecem alimento são os mesmos nectários que estão nas flores, e que após a queda das pétalas continuam ativos secretando néctar, assim o nectário fica ativo aproximadamente por 90 dias no total.

Para compreender melhor como é essa interação planta-formiga fizemos em campo experimentos de exclusão de formigas, impedindo assim que as formigas chegassem aos nectários. Como Tocoyena formosa é uma espécie que perde as folhas, antes da planta sofrer a perda, coletamos as folhas de todas as plantas marcadas da população (plantas com e sem exclusão) e logo depois medimos o nível de herbivoria (quanto da área das folhas foram comidas pelos herbívoros), e assim conseguimos comparar quais plantas sofreram maior ataque dos herbívoros. Ao mesmo tempo, coletamos as espécies de formigas que visitavam os nectários para poder identificá-las posteriormente. Também coletamos néctar de alguns nectários para fazer análises químicas do néctar e conhecer o tipo de açúcar (sacarose, glucose e frutose) estava presente no néctar e fazia o que fosse tão atrativo para as formigas.

Enquanto realizava os experimentos no campo e compreendia melhor o sistema de estudo, eu e meu orientador ficamos curiosos sobre a anatomia dos nectários e sobre o mecanismo que possibilitava a secreção de néctar por tanto tempo e que mantinha as formigas na planta. Foi aí que procuramos ajuda com as professoras Silvia Rodrigues Machado e Yve Canaveze do Laboratório de Pesquisa em Anatomia Vegetal no Departamento de Botânica. O mundo da anatomia vegetal era totalmente novo para mim e até achava muito difícil para falar verdade, porém depois de trabalhar no laboratório e aprender a usar as ferramentas e as técnicas para o estudo da anatomia vegetal, conheci as plantas de uma perspectiva totalmente nova e também como eram os nectários de T. formosa “por dentro” o que me ajudou entender melhor ainda a interação planta-formiga que estudei no meu mestrado. No final, meu trabalho que começou com a ideia de ser totalmente ecológico, foi interdisciplinar... E isso foi muito bom! Uma mistura de ecologia e anatomia vegetal, que permitiu entender melhor o sistema e sua complexidade;conhecer dois novos mundos para mim: o mundo das formigas e o mundo da anatomia vegetal.

Hoje eu estou muito feliz de ter tomado essa decisão e de ter tido experiência fora do país, porque não foi só fazer um mestrado, foi conhecer outra cultura, outro idioma, muitas pessoas e crescer tanto pessoal como profissionalmente. Vale a pena sair do conforto (e super recomendo!).

Compartilhar:
←  Anterior Proxima  → Inicio

0 comentários:

Postar um comentário

Seja um colaborador!

Postagens populares

Total de visualizações

Seguidores

Tecnologia do Blogger.