Aba

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

CSI 006: Procurando Dory



Por: Maria Laura
marialgk@gmail.com


Sem dúvidas, uma das melhores personagens da franquia "Procurando Nemo" é a Dory, um peixe cirurgião-patela com problemas de memória. Apesar de amarmos os filmes, sabemos que peixes não conseguem ler, falar ou formar amizade com seus predadores. Mesmo assim, muitos de vocês já devem ter se perguntado: peixes têm algum tipo de memória? Se sim, eles podem ter "amnésia"?

Para iniciar nossa investigação, vamos analisar o trabalho dos pesquisadores Gemma White e Culum Brown, da Universidade de Macaquarie, em Sidney. Nas praias estudadas por esses cientistas existem várias formações rochosas ao longo da costa. Quando a maré está alta, estas rochas ficam completamente cobertas por água, havendo ligação entre os vários locais do ecossistema. Entretanto, quando a maré está baixa, formam-se poças de maré, como mostrado na imagem abaixo.

Praia durante maré alta (acima), e formação de poças de maré durante maré baixa (abaixo). Fonte: figura produzida pela autora.

Os pesquisadores australianos observaram peixes (os quais não incluem cirurgiões-patela, infelizmente) encontrados nessas praias e descobriram que vários deles escolhiam uma poça de maré como "lar", ou seja, como um local para onde o animal sempre volta e passa a maior parte de seu tempo. Quando colocados até 30 metros longe de sua poça "lar" (o que é uma distância considerável para animais de 5 centímetros), alguns desses peixes, como o Cocos Frillgoby (Bathygobius cocosensis) e o Ringscale Triplefin (Enneapterygius atrogulare), conseguiam encontrar o caminho de volta para a casa. Acredita-se que esses peixes façam isso por conhecerem as características ou até mesmo o "cheiro" de sua vizinhança. Isso mostra que os peixes podem ter memória espacial.

Cocos Frillgoby (Bathygobius cocosensis)
Fonte: Dave Harasti / http://www.daveharasti.com/. Licença: Todos os direitos reservados.

 
Ringscale Triplefin (Enneapterygius atrogulare)
Fonte: David and Leanne Atkinson / https://australianmuseum.net.au/ringscale-triplefin-enneapterygius-atrogulare. Licença: Todos os direitos reservados.

 Poças de maré na praia Dee Why, perto de Sidney.
Fonte: I Plater / https://www.flickr.com/photos/8773698@N03/844452171/in/photostream/. Licença: Todos os direitos reservados.

Dory retorna ao lar
Fonte: Disney Pixar Studios. Todos os direitos reservados.

Vários outros pesquisadores estudam a memória em peixes. Um exemplo interessante é o trabalho dos pesquisadores Bhat e Magurran, da Universidade de Saint Andrews. Eles estudaram os peixes guppies (Poecilia reticulata), que frequentemente formam grupos com outros peixes da mesma espécie com os quais já conviveram anteriormente, ou seja, que são seus "conhecidos". O estudo mostra que guppies reconhecem seus "amigos" mesmo após um período de separação de várias semanas. Esse mesmo trabalho nos explica que esta espécie tende a buscar a companhia de seus "conhecidos" porque isso confere vantagens adaptativas, como maior facilidade em explorar seu ambiente. 

Guppy (Poecilia reticulata)
Fonte: Roman Slaboch / http://www.fishbase.org/summary/3228. Licença: Todos os direitos reservados.

Dory procura seus pais.
Fonte: Disney Pixar Studios. Todos os direitos reservados.

Mas afinal, se peixes conseguem lembrar de algumas coisas, eles também podem esquecer? Os pesquisadores acreditam que uma área do cérebro dos peixes chamada pálio lateral possui as mesmas origens que o hipocampo dos humanos. Nos humanos e outros mamíferos, o hipocampo é uma região do cérebro relacionada à memória. Várias pesquisas mostram que, quando o pálio lateral de peixes (como o peixe-dourado, por exemplo) é danificado, os animais apresentam dificuldade de aprendizado e perda de memória espacial.

Fonte: Disney Pixar Studios. Todos os direitos reservados.

Assim, terminamos a nossa investigação CSI005: Procurando Dory! Apesar de os peixes estarem longe da realidade mostrada no filme, agora sabemos que eles possuem certa capacidade de se lembrar de lugares e "amigos". Além de descobrirmos muitas coisas legais sobre neurociência, pudemos reparar que os peixes podem ter muita mais "consciência" do que imaginamos, de modo que devemos nos preocupar com o bem-estar desses animais, tanto quanto nos preocupamos com o bem-estar de mamíferos. Assim, nunca devemos nos esquecer de adotar medidas sensatas na pesca, pesquisa científica e com os nossos pets. O que você acha sobre isso? Deixe seu comentário!

Ficou interessado? Confira os artigos originais das pesquisas citadas aqui (em inglês):
Memória espacial em peixes:
WHITE, G.E.; BROWN, C. Site fidelity and homing behaviour in intertidal fishes. Marine Biology, v. 160, pp. 1365–1372, 2013.
Reconhecimento de peixes “conhecidos”:
BHAT, H; MAGURRAN, A. E. Benefits of familiarity persist after prolonged isolationin guppies. Journal of Fish Biology, v. 68, pp. 759–766, 2006.
Pálio lateral de peixes vs. hipocampo de humanos:
BROGLIO, C.; GÓMEZ, A. G.; DURÁN, E.; OCAÑA, F.M.; JIMÉNEZ-MOYA, F.; ROFRÍGUEZ, F.; SALAS, C. Hallmarks of a common forebrain vertebrate plan:Specialized pallial areas for spatial, temporal andemotional memory in actinopterygian fish. Brain Research Bulletin, v. 66, pp. 277–281, 2005.
Inteligência, consciência e bem-estar de peixes:
BROWN, C. Fish intelligence, sentience and ethics. Animal Cognition, v. 18, pp. 1-17, 2015.

Compartilhar:
←  Anterior Proxima  → Inicio

0 comentários:

Postar um comentário

Seja um colaborador!

Postagens populares

Total de visualizações

Seguidores

Tecnologia do Blogger.