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segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A doença que teria originado o mito dos vampiros

Por:
João Zamae 
 joaozamae@gmail.com
concepção do vampiro como um monstro sugador de energia vital foi uma das primeiras manifestações culturais diante do desconhecimento das doenças. Assim, quando alguém se sentia mal, logo atribuíam o fato ao sobrenatural. E sendo o sangue o símbolo da vida, muitos acreditavam que esses seres se alimentavam dele.

Os vampiros têm registro em várias culturas antigas como a mesopotâmica, a grega, a suméria, a babilônica, a asteca, a africana e a hebraica, mas o termo "vampiro" apareceu no século XVIII na França num documento que registra casos vampirísticos. E foi nos vilarejos da Europa central que eles começaram a se parecer mais com os vampiros de hoje. Mas o ponto decisivo para a concepção do vampiro atual foi o livro Drácula, de BramStoker, lançado em 1897, inspirado no crudelíssimo príncipe Vlad Tepes Dracul, que governou a Valáquia (atual Romênia) na metade do século XV. As diversas manifestações que se seguiram foram creditando outras características ao monstro até ele virar o que é hoje: o personagem popular em livros, filmes, seriados e jogos. Sedutor, infantil, selvagem, cruel e até mesmo brilhante à luz do sol

De esquerda a direita: Retrato de Vad II (Vlad Tepes Dracul) datado do ano 1560 d.; O vampiro Edward Cullen, da série Crepúsculo, interpretado pelo ator Robert Pattinson; A vampira Iris, do filme 30 Dias de Noite, interpretada pela atriz Megan Franich
Acontece que algumas das doenças que atacaram a Europa no séc XVIII, hoje conhecidas e desmistificadas, têm sintomas próximos aos relatos de vampirismo. Dentre elas, damos destaque aqui à porfiria. Porfiria é uma doença que resulta de problemas nas enzimas envolvidas na síntese do composto heme, o componente das hemáceas que confere ao sangue sua cor vermelha. Existem diferentes tipos de porfirias, atualmente sendo classificadas de acordo com suas deficiências enzimáticas específicas no processo de síntese do grupo heme. Dentre estas, a porfiria eritropoiética (PEP) caracteriza-se pela falta do composto heme e acúmulo de protoporfirina IX (PPIX), um intermediário na síntese do heme nas hemácias.

Esquerda: Esquema da composição da proteína hemoglobina contida nas hemácias; Direita: Esquema e numero dos tipo de porfiria e em quais fases ocorrem seus respectivos comprometimentos. 
Os pacientes com PEP apresentam hipersensibilidade à luz e, por isso, quando expostos ao sol ocorre a formação de bolhas na pele, coceira e inchaço e mesmo em dias nublados há radiação UV suficiente para causar esses desconfortos. Nos casos mais severos a sensibilidade da pele limita os pacientes a saírem de casa apenas durante a tardinha e à noite. Esses pacientes apresentam também uma anemia crônica que lhes gera cansaço extremo e pele pálida, e , mais raramente, alterações no funcionamento do fígado e outros comprometimentos de causa desconhecida. Isso ressalta a necessidade de estudo dessa doença.

Pacientes acometidos pela fotossensibilidade cutânea nas mãos e na face.
Como causas genéticas da PEP conheciam-se duas possíveis alterações em dois genes diferentes responsáveis pela produção de enzimas envolvidas na síntese do composto heme, entretanto, os pesquisadores Yvette Y. Yen e o Dr. Barry H Paw da Escola de Medicina de Harvard, juntamente com colaboradores, reportaram recentemente a identificação de uma terceira alteração genética capaz de induzir a doença e manifestação dos sintomas previamente descritos. A descoberta veio do estudo do caso de uma mulher francesa de 18 anos, membro de uma família do norte da França acometida pela porfiria e atendida no Centro Francês de Porfiria.

Embora a descoberta seja bastante relevante, os tratamentos para tal doença, como a ingestão de altas doses de vitamina B e também de ferro são pouco eficientes. Em verdade, muitas das recomendações antigas continuam sendo feitas e devem ser observadas com rigor, como evitar expor-se à luz solar limitando o tempo que passam fora de casa, uso de roupas que cubram os braços, pernas, além da aplicação de uma generosa camada de bloqueador solar e dar preferência aos tecidos capazes de bloquear a radiação UV. A transfusão sanguínea também pode ser recomendada pelos médicos no sentido de aumentar a disponibilidade do composto heme no corpo dos pacientes para aliviar os sintomas da anemia crônica que frequentemente os acomete.

Sendo assim, podemos compreender que antigamente não havia acesso a roupas especiais e nem disponibilidade de transfusões sanguíneas e, por isso, sair apenas à noite e ingerir sangue de animais eram as únicas medidas possíveis de serem tomadas. Isso reforçou a ideia de que vampiros de fato existiam, deixando longe da mente do coletivo a possibilidade de que essas pessoas fossem na verdade afetadas por uma rara doença.

Sobre o autor: Médico veterinário, especialista em oncologia animal, cursou residência e mestrado em patologia animal pela FMVZ-UNESP de Botucatu e atualmente é doutorando em oncologia pelo Programa de Patologia da FMB-UNESP de Botucatu, e membro do grupo ViriCan, onde investiga o uso de produtos naturais no tratamento dos cânceres.

Imagens Retiradas de:
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/a/af/Vlad_Tepes_002.jpg/1200px-Vlad_Tepes_002.jpg
http://www.dicademusculacao.com.br/porfiria-cutanea-o-que-e-causas-e-tratamentos/ http://noitesinistra.blogspot.com.br/2013/05/porfiria-sindrome-do-vampiro.html#.WgH_PFtSx9M
https://i1.wp.com/bluemoonrising.com/content/2007/11/30-days-of-night-megan-franich.jpg?fit=400%2C600&ssl=1
http://twilightsaga.wikia.com/wiki/Edward_Cullen?file=Edward-376194_429619737081258_1836140990_n.jpg
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