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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

CSI 005: Lucy



Por Nicole Orsi Barioni
nicole.orsiba@gmail.com



Os mitos sobre o cérebro permeiam a imaginação do público leigo e dos cineastas. Lucy, um filme lançado em 2014, é um excelente exemplo de como algumas ideias sobre o cérebro, por mais que sejam erradas, desfrutam do apelo popular, deixando muitos cientistas invejosos ao tentarem expor seu trabalho.




A premissa do filme é: Lucy (Scarlet Johansson) é usada para transportar drogas dentro de seu corpo, quando então fica exposta ao produto farmacêutico que ela carrega, o que leva ao aumento de sua capacidade cerebral. Isso lhe dá poderes de aprender idiomas rapidamente, manipular seus próprios genes, viajar no tempo, dentre outros. Lucy baseia-se na ideia de que nós normalmente usamos apenas 10% de nosso cérebro e que, de alguma forma, se pudéssemos desbloquear os outros 90%, teríamos super poderes (algo bastante apelativo!). Claro, Lucy, como muitos filmes de Hollywood, não pretende ser fundamentado em ciência e é destinado a entreter ao invés de educar.
Entretanto, existe um fato científico que talvez explique o mal-entendido:  nove em cada dez células (90%) do cérebro são células gliais. Estas células provém apoio, tanto nutricional quanto sináptico, portanto estão profundamente envolvidas em conexões neuronais superiores como memória e aprendizado, porém não se encarregam de conter estas informações, a conexão entre os neurônios é que o faz. Os outros 10% das células são representadas pelos neurônios. Desta maneira, as pessoas podem ter interpretado que tais células poderiam adquirir habilidades como as dos neurônios aumentando assim a “capacidade cerebral”. Porém, não é assim que funciona. É claro que podemos incrementar nossa inteligência através do aprendizado de coisas novas. Além disso, atualmente já existem várias evidências de que exercício físico auxilia na geração de novos neurônios na área cerebral responsável pela memória, o que antigamente acreditava-se que era impossível de acontecer. 

Imagem representativa   das interações entre os neurônios e diferentes células da glia: micróglia, astrócitos e oligodendrócitos.

Usando uma técnica chamada imagem de ressonância magnética funcional, neurocientistas podem identificar áreas do cérebro ativadas quando uma pessoa faz ou pensa em algo. Uma simples ação, como abrir e fechar a mão, necessita de muito mais de uma décima parte do cérebro. Mesmo quando se supõe que a pessoa não está fazendo nada, o cérebro está a todo vapor, controlando funções vitais como respiração e atividade cardíaca (e aí está uma desculpa para os preguiçosos de plantão!).

Vídeo com imagens 3D de ressonância magnética funcional

Portanto, não utilizamos apenas 10% do nosso cérebro, mas sim 100%. Existem bilhões células no cérebro humano, cerca de 10% são neurônios e 90% são células da glia e a interação entre eles é o que nos faz pensar. Após este esclarecimento, porém, uma outra dúvida surge: se usamos 100% do nosso cérebro, como então adquirimos novas habilidades. A resposta não está no número de neurônios, mas sim na conexão que existe entre eles (qualidade sobre a quantidade). As conexões neuronais não são fixas, elas são plásticas (podem ser modificadas). Quanto mais executamos uma certa tarefa, mais forte é a conexão entre os neurônios responsáveis por executar tal tarefa. De modo contrário, quando não utilizamos tal via, a conexão se enfraquece e, com o tempo, é descartada. Esta é a base do aprendizado (muito suor e dedicação!)

O tráfego de informação entre cientistas e a mídia necessita ser bilateral. Desta forma,  os cientistas deveriam tirar proveito do alcance que a mídia tem sobre o público leigo para difundir a ciência, assim como a mídia aproveita-se da fantasia que as descobertas científicas trazem!

Sobre a autora: Biomédica,  Mestre em Ciências Biológicas (Geral e Aplicada) pela UNESP. Admiradora do cérebro e seus mistérios. No momento atua como aluna de doutorado pela Universidade de Calgary (Canada) em Neurociências.

Referências:
1. Herculano-Houzel, S. The Neuroscientist 8, 98–110 (2002).
2. Beyerstein, B. in Mind Myths: Exploring Popular Assumptions About the Mind and Brain (ed. Della Sala, S.) 3–24 (Wiley, West Sussex, UK, 1999).
3. Neural Mechanisms of Exercise: Anti-Depression, Neurogenesis, and Serotonin Signaling.Yuan TF, Paes F, Arias-Carrión O, Ferreira Rocha NB, de Sá Filho AS, Machado S.
4. Physical exercise increases adult hippocampal neurogenesis in male rats provided it is aerobic and sustained. Nokia MS, Lensu S, Ahtiainen JP, Johansson PP, Koch LG, Britton SL, Kainulainen H.

Imagens retiradas de:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Lucy_(filme)
http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/biologia/celulas-glia.htm

Leitura indicada:
https://pt.scribd.com/document/3681983/Cerebro-Nosso-Bio-VISITE-O-SITE-Suzana-Herculano-Houzel-neurociencias-mente-cerebro#


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Um comentário:

  1. Não é preciso dizer que nada de bom vem de tal ação e logo Lucy se vê metida no tráfico de uma nova substância, adorei o trabalho de Scarlett Johansson no filme, é uma das jovens atrizes que melhor se veste e a tem a carreira em crescimento, a vi faz pouco tempo em Rough Night 2017 e é algo diferente ao que estamos acostumados com ela, se vê espetacular. Sem dúvida recomendo! É um filme bom e interessante.

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