Aba

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Ciência e ensino. E eu com isso?









Por Cesar Martins
cmartins@ibb.unesp.br




Deter o conhecimento tem sido a premissa básica que sustenta o desenvolvimento das comunidades humanas. Quem conhece, sabe fazer; quem não conhece, corre grande risco de fazer errado. E o mais importante, quem não conhece, precisa correr atrás de quem sabe, e certamente terá que comprar o conhecimento alheio. Buscar o conhecimento não é simples, pois envolve o estabelecimento de uma cultura em um povo, o que pode levar de décadas a gerações. Ainda mais, para que o conhecimento seja mantido e perpetuado, ele precisa ser ensinado e consequentemente popularizado na sociedade, permitindo sua difusão e reinvenção. Estas duas linhas, buscar o conhecimento e difundi-lo, precisam estar muito bem conectadas em ações efetivas.
Ensinar e difundir o saber é importante mas, se nos esquecermos da sua busca, podemos incorrer no risco de difundir apenas o saber já sedimentado, que é do conhecimento de muitos. Nada de errado com isso, mas a inovação e o diferencial vêm do conhecimento de vanguarda, aquele que acabou de ser produzido. Deter o conhecimento de vanguarda representa cartas na manga para o desenvolvimento de um povo.
A palavra conhecimento deriva do latim scientia, que traduzido para o Português significa ciência. Fazer ciência significa buscar respostas às questões fundamentais da natureza, através da prática e estudo. Este conhecimento permite, em longo prazo, benefícios ilimitados à qualidade de vida pessoal. A ciência permite que conhecimentos fundamentais, como por exemplo o “efeito Joule” ou efeito térmico, que expressa a relação entre o calor gerado e a corrente elétrica, possam ter sido explorados há mais de 200 anos para o desenvolvimento da lâmpada elétrica. O que seria de nós hoje sem os antibióticos, que surgiram a partir da ciência básica de Alexander Fleming que levou à descoberta da penicilina ainda no início do século XX, revolucionando a medicina. Parece simples compreender que fazer ciência representa algo básico e essencial para nós. A ciência permite o conhecimento, com desdobramentos bastante extensos à nossa qualidade de vida. Sem ciência, ficamos estagnados e a mercê do conhecimento obtido por outros.
A ciência básica alimenta a ciência aplicada, que por sua vez traz benefícios às necessidades humanas como destacado anteriormente nos exemplos da lâmpada elétrica e da penicilina. As populações humanas precisam cada vez mais de recursos diversos advindos dos avanços científicos, pois temos aumentado em número de indivíduos, e queremos cada vez mais melhorias na nossa qualidade de vida. Fazer ciência se trata de um princípio básico para o desenvolvimento dos povos e deve estar na prioridade política dos Estados. Outro ponto de destaque é que fazer ciência envolve um princípio denominado de “método científico” centrado na observação do mundo natural e na consequente formulação, teste e modificação de uma hipótese, que levam a uma resposta acerca da questão observada. A premissa básica do método científico é fazer com que as pessoas pensem, questionem, duvidem, argumentem, e tudo isso leva ao surgimento de novas ideias e concepções. Pensar sob a ótica do “método científico” significa reunir um conjunto de habilidades que são essenciais no encaminhamento de questões que nos rodeiam no dia-a-dia.
E, finalmente, o conhecimento produzido precisa se tornar público. A difusão do conhecimento científico via ensino é essencial, pois somente através dela o saber chega ao público beneficiando as pessoas, permitindo que diferentes mentes possam assimilar o conhecimento e repensá-lo sob novas perspectivas, criando e inovando. O ensino contemporâneo precisa inovar. Inovar em ensino não necessariamente nos remete ao uso de tecnologias modernas como mídias eletrônicas, aparelhos de última geração e etc. Boa parte das práticas de ensino atual centralizam as linhas de ação no professor, e o aluno se torna passivo no processo. O professor precisa deixar de ser um especialista e se tornar um facilitador; a aula tem que mudar do padrão formal para o experimental; e os alunos precisam se tornar agentes ativos. Além disso, a escola contemporânea precisa conhecer melhor seus estudantes, pois cada um deles aprende de forma diferente. A escola que mais disponibilizar meios alternativos de aprendizagem, que se adequem à diversidade cognitiva dos educandos, seguramente terá sucesso na sua missão. Para aprender, o aluno precisa ter envolvimento no processo de ensino-aprendizagem, precisa se envolver a tal ponto de se apaixonar. Sem paixão, não existe sucesso. Estudos recentes em neurociência mostram que, ao se emocionar, o aluno (e qualquer outra pessoa) tem maior capacidade de gravar as informações.
Dessa forma, a melhor estratégia em ensino com eficiência é focar no estímulo da emoção nos alunos, associada à experimentação e prática na linha do pensamento científico. Temos, dessa forma, a associação perfeita para passar o conhecimento integrado ao exercício da obtenção do conhecimento.
Assim, ciência e ensino se complementam de forma essencial. Pensar em ensino sem ciência é o mesmo que padre aconselhando matrimônio. Sucesso na aprendizagem não pode ser medido pelo nível de informação ou conteúdos que ficam gravados na mente dos educandos, mas sim, copiando palavras de Einstein, por “aquilo que fica depois que você esquece o que a escola ensinou”. Significa estar preparado para atuar de forma responsável e humanitária como profissional, levando contribuições efetivas ao mundo que nos cerca.

Sobre o autor: Biólogo e Doutor em Genética e Evolução pela Universidade Federal de São Carlos. Atualmente exerce a função de Diretor do Instituto de Biociências da UNESP, Campus de Botucatu/SP.
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