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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Novos tratamentos para depressão com foco no processo inflamatório




Por:
João Paulo Marcondes 
jpcastromarcondes@gmail.com
Há um bom tempo, mais precisamente em 1883, o psiquiatra Julius Wagner-Jauregg deparou-se com uma paciente acometida por uma infecção de pele e que apresentava sintomas de delírio devido à febre alta. Quando a febre baixou, a paciente não apresentava mais tais sintomas.

A partir desse momento, Wagner-Jauregg dedicou-se a entender a possível relação existente entre a febre alta e as alterações mentais e, para induzir a febre alta nos pacientes, ele utilizou diversos patógenos. Ele obteve resultados importantes infectando pacientes com sífilis (em fase terminal, quando a doença já esta afetando o cérebro, levando a alterações neurológicas) com o sangue de soldados com Malária e observou que seis dos nove pacientes com sífilis melhoraram consideravelmente. Wagner-Jauregg ganhou o Nobel de Medicina em 1927 e a malarioterapia foi utilizada para se tratar sífilis até 1930.

Recentemente, diversos pesquisadores reconheceram que o processo inflamatório tem papel importante nas doenças mentais e que pode explicar os resultados obtidos por Jauregg no começo do século passado. Um estudo que avaliou mais de 73.000 pessoas mostrou que os níveis de uma proteína inflamatória (proteína C-reativa ou PCR) estavam elevados em pacientes com depressão. Outro estudo, publicado este ano, mostrou que diversos genes relacionados ao processo inflamatório estavam alterados no sangue de pacientes com depressão. Além disso, os pesquisadores acreditam que analisar o perfil de “funcionamento” de tais genes, ou seja, se estão mais ou menos ativos ou não ativos, pode ajudar na escolha do melhor tratamento. Um dado interessante é que a maioria das pessoas resistentes aos tratamentos convencionais podem apresentar altos níveis de inflamação.

Diversos estudos clínicos estão testando drogas anti-inflamatórias para tratar pacientes com depressão, transtorno bipolar e esquizofrenia e sugerem que a inflamação pode ser a causa de tais doenças. Realmente sabe-se que algumas proteínas inflamatórias podem chegar ao cérebro e alterar a ação de neurotransmissores que estão relacionados à depressão (ver figura abaixo).

Representação de como a inflamação pode alterar os neurotransmissores e outros processos no cérebro, levando à depressão.
Em estudo clínico recente, metade das pessoas com níveis elevados de inflamação (altos níveis de PCR) apresentaram melhora em 50% do quadro de depressão quando tratadas com infliximab (medicamento que inibe uma proteína inflamatória chamada fator de necrose tumoral ou TNF). Ano passado, outro estudo confirmou também que, de um modo geral, pessoas com depressão e com altos níveis de inflamação podem responder de maneira inadequada aos tratamentos convencionais com antidepressivos e sugere que, para esses casos, a associação com outros antidepressivos ou drogas anti-inflamatórias seja necessária. Espera-se que futuramente testes que detectem moléculas específicas no sangue auxiliem o psiquiatra na escolha do melhor tratamento para cada paciente. Embora os tratamentos com anti-inflamatórios tenham apresentado bons resultados, sua comercialização ainda poderá demorar mais alguns anos.

Sobre o autor: Biólogo, pesquisador e apaixonado por animais abandonados.

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Imagens originais retiradas e adaptadas de:
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