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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Minha querida pesquisa - Érica Ramos





Érica Ramos – Bióloga 
Mestre em Ciência Biológicas (Genética) 
Estudante de Doutorado UNESP  
Instituto de Biociências de Botucatu


Fugindo um pouco à regra geral dos pós-graduandos nômades, sou nascida, criada, formada e pós-graduada na mesma cidade, Botucatu-SP. Desde muito nova eu já me encantava com a tarefa de “ensinar”. Mas é claro que, naquela época, eu não tinha idéia do que era ser professora, nem mesmo de que o conhecimento que essas pessoas “ensinam” foi, em grande parte, obtido por estudos científicos.
O problema era que, a cada nova atividade que eu aprendia, surgia o desejo de seguir uma carreira diferente: bailarina, jogadora de vôlei, enfermeira, engenheira florestal. Assim, somente no 1° ano do Ensino Médio, aconteceu de o lado “professora” e o “lado curiosa por seres vivos” se encontrarem pela primeira vez nas aulas de Biologia na escola. Feliz ou infelizmente, professores de Ciências e Biologia são muito cativantes (ponto para nós!), o que faz total diferença.
A proximidade com a UNESP (Universidade Estadual Paulista) me influenciou muito, afinal boa parte da minha família trabalha ou já trabalhou por lá nas mais variadas funções, então eu sabia que havia um curso e uma carreira de bióloga. Além disso, vale mencionar que a minha família, o Centro Paula-Souza (cursos técnicos e ensino regular) e as atividades de extensão da Universidade (cursos de férias e cursinho pré-vestibular “Desafio”) atuaram imensamente sobre a minha formação.
Sempre estudei em escolas públicas e vi a realidade dura que muitos estudantes passam, o que, muitas vezes, os impossibilita de fazer um curso em Universidade Pública. Meus pais são de origem humilde e, também, pessoas com inteligência acima do normal, sempre incentivando meu estudo e fazendo o impossível para isso acontecer. Então, resolvi tentar assim mesmo, e prestei o vestibular da UNESP. Em 2010 recebi a notícia de aprovação no vestibular e já ganhei meu “nome unespiano” (Ligase). Aí não teve jeito, sabia que pertencia à Ciência, ao Ensino e a essa comunidade doida de eternos estudantes (denominados cientistas). Mas e a minha pesquisa? Durante a graduação conheci o trabalho do Laboratório de Genômica Integrativa (LGI), chefiado pelo Prof. Cesar Martins. Gostei logo de cara: Genética, animais (peixinhos!) e liberdade para bolar meu projeto (acredite ou não, nem sempre é assim). Desenvolvi, por 3 anos, projetos de Iniciação Científica (IC), o que me deu currículo e base científica para a pós-graduação.
Os projetos de IC envolviam, em resumo, a caracterização de sequências presentes no DNA que, de alguma forma, estavam relacionadas com a presença de cromossomos B. Vale a pena explicar melhor os cromossomos B: esses são fitas de DNA em estado compactado (cromossomos) que não fazem parte do conjunto normal de cromossomos dos indivíduos. Por exemplo, na espécie humana existem 46 cromossomos (23 pares) no núcleo de cada célula dos indivíduos. No peixe que eu estudava (Astatotilapia latifasciata), existem 44. Entretanto, alguns indivíduos de A. latifasciata e de muitas outras espécies de seres vivos, não se sabe o porquê, carregam cromossomos-extra, que não se parecem com o conjunto normal de cromossomos e cuja função (se é que existe) é desconhecida.
Enfim, me formei bióloga (Licenciatura e Bacharelado) pela UNESP e comecei uma pós-graduação (mestrado) lá mesmo, pelo programa de Genética. No mestrado, trabalhei no mesmo grupo de pesquisa, mas com uma problemática diferente: a diversidade genômica (diversidade dos elementos que compõe todo o DNA das células de um indivíduo) entre espécies de peixes ciclídeos sulamericanos da Bacia Amazônica (Acará-disco, Tucunaré, Acará-bandeira e Oscar).
Após defender meu mestrado em 2016, já engrenei no doutorado, no mesmo grupo de pesquisa. Mas o foco do meu estudo atual é, novamente, o estudo dos cromossomos B em A. latifasciata. Dessa vez, estou descrevendo moléculas que são consideradas não codificantes longas (sequências de DNA de, no mínimo 200 pares de bases de comprimento, que, quando transcritas, não irão ser utilizadas para a produção de proteínas) e estão alteradas, de alguma maneira, na presença dos Bs. O “grande lance” dessas moléculas é que elas são reguladoras muito importantes em diversos processos celulares.

Por que eu estudo essas coisas? 

Em geral, no nosso laboratório, fazemos pesquisa básica. Ou seja, um tipo de pesquisa extremamente importante que desvenda processos básicos nos sistemas vivos e não vivos. De início pode-se pensar que não é útil, pois não dá pra ver uma aplicação direta desse conhecimento. Mas… a longo prazo pode ser a chave para a resolução de problemas ou trazer compreensão a diversas questões, como por exemplo a evolução das espécies.
Como eu faço? A primeira coisa para quem estuda Genética é a obtenção do material genético do seu modelo de estudo. No nosso caso, extraímos DNA, RNA e proteínas dos tecidos de indivíduos da espécie estudada. A partir dessas moléculas, fazemos diferentes testes e obtemos dados computacionais (sequências). É aí que entram as análises de Bioinformática, que se utilizam de programas de computador (que utilizam modelos e simulações) para encontrar padrões e analisar dados em larga escala. No final, precisamos provar que os resultados obtidos pelo computador são uma representação muito próxima do que ocorre na célula viva. Então, voltamos a fazer experimentos diretamente com os animais (culturas de células ou tecidos) para validar nossos achados estatisticamente.

Quando eu vou começar a trabalhar? 

Bom, essa é uma questão bastante popular para pós-graduandos. Para quem não sabe, nós não somos considerados trabalhadores perante a lei e recebemos o que equivale a um salário, a chamada bolsa. O valor da bolsa varia conforme a agência que a paga, a região do país onde você estuda e o nível do seu estudo (IC, mestrado, doutorado, etc). Ela não é um salário, pois não prevê os direitos do trabalhador (férias, 13°salário, previdência social) e só recentemente algumas agências reconheceram benefícios como a licença-maternidade. Mas a dedicação é de 40 horas semanais e o estudante não pode ter nenhum vínculo empregatício com nenhuma instituição. Dessa forma, nós trabalhamos sim! E das mais diferentes formas: participamos e ministramos aulas, fazemos experimentos, fazemos projetos de extensão, nos envolvemos em comissões organizadoras e na representatividade em conselhos.
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3 comentários:

  1. Parabéns pelo trabalho e pela excelente descrição!

    Essa coluna esta muitíssimo legal! Seria interessante também se a equipe abordasse sobre o processo seletivo dos mestrados.

    Se a Érica ou a equipe pudesse falar um pouco sobre o processo seletivo do mestrado de genética do campus de Botucatu, sobre como são as provas, como os temas do edital costumam ser cobrados, se as provas são iguais para todas as linhas de pesquisas ou podem variar e se existem provas anteriores disponíveis....

    Obrigada!

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    Respostas
    1. Olá, desculpe a demora em responder! Que bom que gostou do texto e da temática dessa coluna! Não sou expert no processo seletivo, o que posso fazer é fornecer o pouco de informação que tenho a respeito. Aqui vai meu contato: erica.ramos00@gmail.com

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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