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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Depressão na pós graduação: os reflexos de um artigo publicado


Por Ana Liz Uchida Melo
lizuchida@gmail.com



Estudantes esgotados, insônia, falta de motivação, depressão. Essas são palavras comuns em consultórios de psicologia. Os transtornos mentais têm se tornado frequentes e há quem diga que a depressão é a doença do século e, talvez, seja mesmo. O fato é que esses problemas estão cada vez mais incidentes também no meio acadêmico.
O ambiente acadêmico é um ótimo espaço para o crescimento pessoal e profissional, porém ele pode ser nada amigável em alguns aspectos. Egos inflados, assédio moral e a falta de perspectivas quando o estudante conclui o seu trabalho são muito comuns na academia. Fatores como esses podem ter alguma influência no atual cenário de saúde mental do pós graduando.
Uma pesquisa realizada aqui no Brasil aponta cerca de 50 % de incidência de doenças mentais da pós graduação. É difícil saber com precisão, uma vez que muitos dos acometidos pelos transtornos não procuram ajuda. A massa que hoje é responsável pelo andamento da ciência no Brasil pode estar doente. Os transtornos mais frequentes são problemas no sono (Insônia, sono não restaurativo), dificuldades de concentração, inabilidade de assistir aulas e fazer pesquisas, aumento da irritabilidade, mudanças no apetite e dificuldades de interação social. E pior, as instituições de ensino e seus órgãos superiores, que deveriam prestar atenção nisso, não estão dando a mínima.
Esses transtornos estão ocorrendo de forma generalizada no mundo. Um estudo publicado pela Revista Nature sugere que as taxas de depressão entre os estudantes de pós graduação dobraram nos últimos 15 anos. No entanto, algumas universidades de outros países estão propondo serviços de ajuda, diferentemente do Brasil.
Outra questão que favorece a manutenção do ambiente acadêmico estressante é o atual sistema da pós graduação. Atualmente, esse sistema consiste na produção máxima de artigos científicos, sistema esse impulsionado pelo mecanismo de avaliação da CAPES que funciona de acordo com uma escala móvel, ou seja, quando um programa aumenta seu quociente, produzindo um determinado número de artigos, outro programa deve produzir ainda mais para poder alcançar tal nota.
Tal modelo incentiva a competição entre pessoas que poderiam se unir, no qual a ideia de meritocracia (de quem só alcança seu objetivo, quem se sacrifica) está muito ligada a esse atual cenário em que se encontra o meio acadêmico. O problema é que a pesquisa científica não é compatível com esse modelo. Aparentemente, a ciência se tornou mais uma máquina resultado do nosso atual modelo econômico, no qual os alunos e as alunas são as engrenagens e o produto final seria o artigo científico.
É necessário olhar o problema e tomar uma atitude. A ciência e a educação não tem sido as prioridades do nosso atual governo e isso pode implicar (já está implicando) em um maior “sucateamento” do ensino e isso reflete em todos, mas principalmente nos estudantes. Em um sistema que já é desgastante com os recursos, pode se tornar um inferno com a falta destes, portanto, perceber as demandas não só físicas, mas as mentais da nossa pós graduação é importantíssimo para que ela continue a progredir.

Sobre a autora: Bióloga, mestranda em Zoologia pelo Instituto de Biociências de Botucatu - UNESP

Referências
http://www.anpg.org.br/estresse-e-depressao-na-pos-graduacao-uma-realidade-que-a-academia-insiste-em-nao-ver/

https://www.nature.com/naturejobs/science/articles/10.1038/nj7419-299a



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